A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – V

PALAVRA DE ESPECIALISTAS

Ainda restam dúvidas sobre o diagnóstico? Eles respondem a todas as questões

Saber exatamente o número de casos de autismo no Brasil e no mundo não é algo fácil, visto que diversos pacientes não recebem o diagnóstico adequado.

Porém, o assunto tem recebido cada dia mais atenção, e a quantidade de informações disseminada auxilia pais e cuidadores a buscarem ajuda de especialistas.

Independentemente da idade do indivíduo, quanto antes o autismo for identificado, melhor para a qualidade de vida do autista. “Tendo os conceitos diagnósticos e níveis de gravidade em mente (lembrando que podem também existir outros diagnósticos ao mesmo tempo, como a deficiência intelectual), é possível entender melhor o que é o autismo e suas diferentes apresentações”, ressalta a psiquiatra Talita Braga.

HÁ UM EXAME PARA O AUTISMO?

Não há nenhum tipo de exame laboratorial, como de sangue, genético ou relacionado à estrutura cerebral, que detecte a existência do TEA. “Tal diagnóstico é clínico, ou seja, não há um exame que irá detectar o autismo; mas muitos médicos pedem uma variedade de análises a fim de avaliar se há outras condições médicas concomitantes”, explica a psicóloga Beatriz Marques de Mattos.

Por ser uma condição comportamental, o diagnóstico é realizado com base nos sinais do comportamento da criança, que se manifestam na medida em que ela se desenvolve, e de entrevistas com pais e responsáveis.

EM QUE OS MÉDICOS BASEIAM A CLASSIFICAÇÃO?

Clínicos e pesquisadores de todo o mundo consultam a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatísticas dos Transtornos Mentais (DSM) para determinar o diagnóstico, bem como o nível de manifestação. “Nessa nova versão, o transtorno do espectro autista engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e Síndrome de Asperger”, ressalta Beatriz.

É PRECISO CONSULTAR MAIS DE UM ESPECIALISTA?

Sempre será um médico especialista que dará o diagnóstico final, no entanto, são realizadas avaliações multidisciplinares para identificar o grau de gravidade do quadro. “Mesmo entre aqueles indivíduos com TEA considerado leve, em virtude de pontuação dentro da faixa normal de medidas completas de QI de escala, testes neuropsicológicos revelam disfunção cognitiva, particularmente em funções executivas e cognição social, tais como flexibilidade mental, planejamento, controle inibitório e prejuízos da teoria da mente”, explica a assessora de neuropsicologia Joana Portolese. Entre os profissionais envolvidos, estão psiquiatras, pediatras e neurologistas. No entanto, as áreas de terapia ocupacional, psicologia, fonoaudiologia, entre outras, também são essenciais.

QUAL O PAPEL DO PSICÓLOGO NO DIAGNÓSTICO?

Ele irá atuar junto a uma equipe multiprofissional e a um médico, podendo ser um psiquiatra ou um neurologista, para realizar o diagnóstico. Este profissional tem capacidade de identificar e avaliar sinais comportamentais que indicam o TEA. “O psicólogo realiza avaliações complementares para conhecer a funcionalidade e habilidades e identificar comorbidades, mas o diagnóstico é feito pelo pediatra, psiquiatra ou “neurologista”, destaca Joana.

QUAIS OS MAIS RECENTES AVANÇOS DA CIÊNCIA SOBRE O AUTISMO?

Estima-se que diariamente são divulgados cerca de 60 novos artigos científicos sobre autismo em todo o mundo. Por ainda não ter sido totalmente decifrado, o transtorno instiga muitos pesquisadores e especialistas na busca por respostas. No entanto, os cientistas afirmam que nunca se esteve tão próximo da cura.

Pesquisas avançadas, como a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, especialista em genética e professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, tem combinado o estudo das alterações genéticas implicadas no transtorno com suas consequências celulares durante o desenvolvimento dos neurônios, o que amplia as possibilidades de mapeamento do distúrbio. Além disso, a procura por novas drogas que sejam efetivas na reversão de sintomas do TEA também está bastante promissora.

Um trabalho publicado em 2015 pela Universidade de Londres, na Inglaterra, destacou que os sintomas do autismo podem aparecer desde cedo. Os pesquisadores notaram que uma capacidade visual apurada aos nove meses de vida do bebê já seria capaz de prever a probabilidade de a criança ser diagnosticada com TEA no futuro.

Já um estudo da Universidade de Missouri, também nos Estados Unidos, indicou que o contato com animais faz bem aos autistas. Após analisarem 70 famílias com filhos com TEA, notou-se que os autistas que conviviam com animais de estimação apresentavam melhores habilidades sociais.

QUAL O PRIMEIRO PROFISSIONAL QUE DEVE SER PROCURADO?

Nem sempre os pais são os primeiros a desconfiarem que o filho é autista. Parentes, professores ou outras pessoas próximas também podem levantar a suspeita. De qualquer forma, o pediatra, por ser o médico que acompanha por mais tempo a vida da criança, deve ser o primeiro profissional a ser consultado. Durante a consulta, os pais devem expor o maior número possível de detalhes sobre o comportamento do pequeno. Isso facilita a interpretação do médico e o possível encaminhamento a exames.

Uma questão importante é que, havendo suspeita do quadro de autismo, o tratamento deve ser iniciado logo, mesmo sem o diagnóstico concluído. “Temos evidências científicas de que os tratamentos mais adequados possuem efeitos maiores e melhores se forem iniciados o quanto antes possível”, afirma Celso Goyos, psicólogo especialista em educação especial

EXISTE ALGUMA FASE EM QUE O DIAGNÓSTICO É MAIS FÁCIL DE SER FEITO?

Infelizmente, não. O diagnóstico de autismo ainda é algo bastante delicado, independentemente da idade do portador. Por isso, os profissionais envolvidos devem ser capacitados para chegar o mais rápido possível ao resultado.

FONOAUDIÓLOGOS TAMBÉM FAZEM PARTE DA EQUIPE DE DIAGNOSTICO?

 A avaliação fonoaudiológica é muito importante, já que cerca de 20% a 30% dos autistas são não verbais, e a mesma porcentagem deles apresentam uma história de desenvolvimento de regressão, com perda da linguagem previamente adquirida. “Embora muitas crianças com TEA apresentem progressos significativos na linguagem, no período de 24 a 48 meses, com expansão de vocabulário e com respostas dentro da idade esperada, testes de habilidades receptivas e expressivas evidenciam que a capacidade global de comunicação continua a ser prejudicada”, ressalta Joana.

O QUE OS ESPECIALISTAS AVALIAM PARA CHEGAR A UM DIAGNÓSTICO?

A psiquiatra Talita Braga listou os principais itens que o médico deve analisar e identificar no paciente (no momento presente ou na história prévia) para que seja feito o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista.

1. Déficits persistentes na comunicação e na interação social, por exemplo: dificuldade na reciprocidade socioemocional (iniciar ou manter uma conversa e demostrar interesse, emoção e afeto), nos comportamentos comunicativos não-verbais (déficits na compreensão e uso de gestos, a ausência total de expressões faciais, etc.) e para desenvolver, manter e compreender relacionamentos (dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais; em compartilhar brincadeiras imaginativas entre amigos e a ausência de interesse por pares).

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades tendo pelo menos dois dos seguintes: movimentos motores; uso de objetos ou fala estereotipadas ou repetitivas (por exemplo repetição de movimentos com o corpo, como balançar o tronco para frente e para trás; alinhar brinquedos ou separá-los por cor/tamanho; ecolalia, isto é, repetir palavras; ter um discurso com linguagem rebuscado e formal); insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível á rotinas ou padrões de comportamento verbal e não verbal (como sofrimento extremo em relação a pequenos mudanças, dificuldades com transições, rituais de saudação, necessidade de fazer sempre o mesmo cominho ou ingerir os mesmos alimentos todos os dias); interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (exemplo: forte apego ou preocupação com objetos incomuns e só querer saber e falar sobre o assunto) e reação aumentada ou diminuída a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (como indiferença a dor/temperatura – a criança pode se machucar e não apresentar a reação esperada de dor –  se recusar a comer alimentos que não sejam crocantes, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento – uma criança pode passar horas olhando para objetos que rodam, como uma máquina de lavar).

3. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento. Porém, podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas; ou podem ser mascaradas por estratégias aprendidas mais tarde na vida (como aprender que, ao encontrar as pessoas pelo manhã, é educado dizer “bom dia” e dar um sorriso, e fazer isso de forma artificial).

4. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.

5. Essas perturbações não são melhor explicados por simplesmente deficiência intelectual ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual ou Transtorno do Espectro Autista podem estar presentes na mesma pessoa; assim, para fazer o diagnóstico de transtorno autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível de desenvolvimento.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.