EU ACHO …

SEXO, O SIMPLES E O COMPLEXO

Você pode achar que estou sendo reacionário, mas não estou, inclusive porque vivi também essa época e tenho certa noção (não toda, claro) do que estou dizendo: não dá para separar Darwin e Woodstock, o grande festival de rock que durou três dias, realizado numa fazenda americana em agosto de 1969.

A imagem mais forte do rock’n’roll é a selvageria; portanto, a pura natureza. O rock, o grito primal, a simplicidade primordial. O consumo de substâncias que nos fazem sair da racionalidade, a maconha, o LSD. O comportamento livre, a nudez, o se abraçar, o se juntar, o “paz e amor”, o sexo. Isso sem falar no ar livre, na natureza, na lama – o local primordial, aquele em que rolamos nos primórdios da espécie. Em Woodstock, o astro foi Jimmy Hendrix, que morreu jovem e ajudou a cultuar a imagem da Supernova, de estrela que brilha muito e desaparece rápido, da vida bela e da vida breve.

Woodstock é uma representação fortíssima da nossa descida da árvore do paraíso direto para a lama.

Woodstock ficou no passado associado a algo que está longe de ser um modelo, mas muito disso não se deveu a Woodstock, e sim a um grande show ao ar livre dos Rolling Stones, em dezembro de 1969, na Califórnia, no qual um jovem foi morto. Esse evento associou shows de rock à violência, embora isso não mude o fato de que o rock, o bom e velho rock, seja uma expressão darwinista do homem.

Já viu Jerry Lee Lewis tocando piano? É visceral, ele transava com o piano – algo condizente com a própria ideia dele de seguir seus instintos, que inclusive o levou a casar com uma parente de 13 anos e, portanto, ser acusado de pedofilia. E James Brown? Quer coisa mais darwiniana, mais animal, mais simples do que James Brown e sua sex machine?

Cabe perguntar: O que somos nós no nosso nível mais fundo, mais reptiliano, além de máquinas de sexo?

Como disse antes, lembrando de Henry Kissinger, imaturos gostam de sexo, maduros gostam de poder. O poder é sexual e, como o sexo, é uma energia de dominação – não só de dominar mas de constranger o outro, de violá-lo, violar o corpo, a mente, às vezes no sentido de violência mesmo.

Em última instância, a palavra certa é profanação – profanar a natureza, os relacionamentos sociais, as relações pessoais, a dignidade do outro. As pulsões freudianas, seja a erótica ou a de morte, são poderosas.

A natureza humana padece da ausência de simplicidade. À primeira vista não parece, mas as palavras “evolução” e “simplicidade” têm relação. Como se viu, “evoluir” vem de vol, que significa rolar ou dobrar. A origem da palavra “simples” tem a ver com o radical indo-europeu plek, ou plex, que também significa “dobra”. E sim, em latim, quer dizer único. Assim, uma coisa simples é aquela que tem uma só dobra, da mesma forma que dúplex tem duas, tríplex tem três e uma coisa complexa tem muitas dobras. A complexidade incomoda a humanidade. O homem tem dificuldade de explicar – isto é, dobrar para fora – coisas complexas.

A vida é complexa. E, quando tentamos explicar o complexo, não conseguimos viver o simples.

Essa é uma das razões por que o mundo masculino – que, na nossa cultura é mais básico, menos sofisticado, mais primal, mais simples – se irrita com a tendência de algumas mulheres de quererem explicar, de quererem “discutir a relação”. E as mulheres se irritam com os homens que viram para o lado e dormem depois do sexo. Muitas mulheres podem encarar como desprezo, mas muitos homens não enxergam dessa maneira.

Como dizia Guimarães Rosa, “o animal satisfeito dorme”. Assim, depois que o homem pratica uma de suas simplicidades naturais – o sexo –, nada mais natural que ele proceda a uma segunda simplicidade natural, o cochilo. Mas as mulheres gostariam que, ao praticar sexo, o homem ignorasse o mundo da natureza,

mergulhasse no mundo cultural e atribuísse uma aura mística a algo que é essencialmente simples, e não complexo.

Essa característica atrapalha ainda mais a busca da felicidade, inclusive porque muita gente não compreende que felicidade não é um estado ou uma condição de permanência – algo que só poderia ser obtido no Nirvana ou em qualquer outro lugar onde a paixão inexista. A felicidade é uma ocorrência eventual, um instante, um episódio – e é exatamente pelo seu caráter passageiro que ela deve ser valorizada. Assim, a felicidade pode existir por causa de um desejo de algo ou alguém, mas também pela ausência de algo ou alguém. Desse modo, a felicidade pode estar em episódios breves como um gole numa taça de vinho, ou em um gole na cerveja ou em um suco.

Mas, se você faz essas mesmas coisas de forma continuada, logo o sabor e o prazer vão embora, pois é preciso haver a ausência, a carência para valorizar a percepção do presente. É como naquelas frases clássicas: “a abstinência prolongada é o melhor afrodisíaco” ou, para usar uma imagem mais gastronômica, “a fome é o melhor tempero”. Fazer compras quando se está com fome é pedir para gastar mais, assim como ir ao supermercado depois do almoço é medida de economia.

O cheiro de um perfume pode ser delicioso num primeiro momento e enjoativo quinze minutos depois. Da mesma forma, a valorização da luz vem do escuro, e a valorização do escuro vem do excesso de claridade – algo que fica evidente no filme Insônia, no qual Al Pacino é um detetive que vai para o Alasca naquele período do ano em que o sol nunca se põe por lá, irradiando uma luz contínua e desesperadora.

A felicidade, assim como o erótico, precisa de latência, para repousar e renascer.

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

O ESPAÇO AO SEU ALCANCE

O bilionário Richard Branson apresenta a sua aeronave Virgin que vai levar em breve pessoas comuns para um turismo estrelar

Os fãs da cultura geek, antigamente apelidados de nerds, estão experimentando o momento histórico em que a ocupação das naves espaciais deixa de ser exclusiva para astronautas e passa a ser possível para qualquer mortal. É o início da jornada às estrelas por cidadãos comuns. Na terça-feira, 28, o bilionário Richard Branson, proprietário da empresa de turismo espacial Virgin Galactic, realizou evento para apresentar a sensação de estar no espaço na nave VSS Unity. A exposição não pôde ser presencial, mas ocorreu ao vivo no Youtube, pelo canal da empresa. Também foi convidado um pequeno grupo de jornalistas que puderam acompanhar a simulação de estar dentro da nave por meio de óculos de realidade virtual decolando na pista da Virgin Galactic, no Novo México, junto com executivos da companhia.

A nave tem uma estética que remete a filmes de ficção. A disposição do espaço interno privilegiou 12 janelas circulares, espalhadas pelas laterais e teto, de onde se esperam as melhores sensações nas viagens: são duas janelas por pessoa. O objetivo é que os seis passageiros possam ter a melhor visualização possível do cenário espacial. Luzes instaladas em volta das janelas terão cores para orientar qual o estágio do voo. A cor branca indicará subida inicial, laranja será o desligamento do motor do foguete e a luz preta avisará a chegada ao espaço.

Em tempos de selfies, não há porquê se preocupar em levar o celular. A nave possui 16 câmeras, estrategicamente posicionadas para atender a vontade dos mais exibicionistas. As selfs podem sair com o horizonte da Terra ao fundo. As poltronas têm uma inclinação que atende ao maior conforto possível e foram projetadas para a pressão de uma viagem espacial, inclusive ajustável ao físico de cada passageiro, com a programação de quatro tamanhos diferentes. Na frente dos assentos, similares aos dos aviões, há um monitor com informações de navegação, como altura, velocidade, tempo de voo, além de entretenimento. Mas no espaço é bem provável que o passageiro queira sair da poltrona para dar uma flutuada e saborear a gravidade zero. Pensando nisso, há um espelho gigantesco nos fundos, que atende ao objetivo de testemunhar os efeitos da gravidade, mas também melhora a iluminação e amplia arquitetonicamente o ambiente.

FILA DE 600 PESSOAS

Claro que haverá um preço a ser pago pela aventura. O passeio custará US$ 250 mil por uma viagem de apenas 90 minutos. No entanto, já estão na fila mais de 600 pessoas inscritas, o que revela um público ávido pela sensação de estar a 97 mil metros. O próprio magnata do setor de transportes e entretenimento, Richard Branson, é um deles e sempre deixa claro que será o primeiro na viagem tripulada que deveria acontecer em 2020. Por conta da Covid-19, os voos comerciais devem ocorrer somente em 2021. Ainda precisam ser realizados testes de voo com passageiros nos assentos traseiros, além de ajustes na cabine para aumentar e garantir o conforto na viagem. Falta realmente muito pouco para a realidade acompanhar a ficção.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

22 DE OUTUBRO

O CORPO DA RESSURREIÇÃO

Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que o corpo mortal se revista da imortalidade (1Coríntios 15.53).

Os gregos não acreditavam na ressurreição do corpo. Eram dualistas e defendiam que a matéria era essencialmente má, e o espírito, essencialmente bom. Sendo o corpo matéria, e essencialmente mau, julgavam que ele não passava de uma prisão para alma. Quando Paulo pregou sobre a ressurreição na cidade de Atenas, alguns escarneceram do apóstolo. Porém, a ressurreição de Cristo é a pedra de esquina do cristianismo. Um Cristo morto não poderia ser nosso redentor. Se Cristo não ressuscitou, então foi vencido pela morte, e a morte tem a última palavra. Mas Cristo ressuscitou como as primícias daqueles que dormem. A morte foi tragada pela vitória. O túmulo vazio de Cristo é o berço da igreja. Porque Cristo ressuscitou, nós também receberemos no último dia um corpo imortal, incorruptível, poderoso, glorioso, espiritual e celestial. Receberemos um corpo semelhante ao corpo da glória de Cristo. O corpo da ressurreição não enfrentará cansaço nem fadiga; não será surrado pela doença nem tombará pela morte. Desfrutaremos para sempre das venturas eternas que Cristo preparou e reinaremos com ele pelos séculos sem fim. Não caminhamos para um entardecer cheio de sombras, mas para a manhã gloriosa da ressurreição. O melhor está por vir!

GESTÃO E CARREIRA

O MOTOR DE UM MUNDO NOVO

Referência em energias renováveis, a Raízen cresce, se internacionaliza, firma novas parcerias e prova que é possível aliar sustentabilidade e bons resultados financeiros.

No século 18, quando a revolução industrial deu a largada na primeira combustão de carvão como forma de obter energia, a história da humanidade mudou para sempre. Três séculos depois, com riscos, malefícios e finitude dos principais processos de transformação energética escancarados, a necessidade de reavaliar o uso massivo de combustível fóssil abriu espaço para nascer, em solo brasileiro, a Raízen. Com o objetivo de se tornar referência em energia limpa, a empresa, que surgiu em 2011 de uma joint venture entre Shell e Cosan, se consolida na dianteira da transição energética que teremos, invariavelmente, de encarar nas próximas décadas. Líder nessa revolução em curso, o CEO da companhia, Ricardo Mussa, garante o comprometimento da empresa, independentemente dos desafios no caminho, em busca de um mundo movido por energias que não destruam o planeta.

Com esse mantra, a empresa se internacionalizou, passou a investir em formas alternativas de energia limpa, fez novas joint ventures e, em face da Covid-19, se adaptou para atender as expectativas dos acionistas sem deixar de lado seu comprometimento com a população. “Nos reinventamos a cada dia para continuar entregando resultados consistentes”, afirmou Mussa.

A Raízen, que atua desde o cultivo da cana-de-açúcar até a produção e venda de açúcar e etanol, inaugurou ano passado a primeira planta de painéis fotovoltaicos em Piracicaba (SP), confirmando os planos de Mussa de diversificar a geração de energia limpa. “Também firmamos a compra de 81,5% da Cosan Biomassa”, disse. Além disso, a empresa firmou parceria com a Femsa Comércio e criou o Grupo Nós, joint venture focada no negócio de lojas de conveniência nos postos de serviço, com a marca Shell Select, e de proximidade, com a marca Oxxo.

Tudo isso aconteceu mesmo diante das dificuldades econômicas que o Brasil já enfrentava. Segundo o CEO da companhia, diante das conjunturas política e econômica, a condução da empresa exigiu ainda mais resiliência e foco na eficiência, mas sem abandonar os planos de expansão. “Por isso, além dos números que entregamos na safra 2019-2020, nossos indicadores revelam que o melhor desempenho foi resultado da eficiente estratégia de comercialização, capturando melhores preços dos produtos vendidos.”

E ele está correto. No segundo trimestre de 2020, a Raízen amorteceu parte do abalo trazido pela crise. Entre abril a junho de 2020 (o primeiro da safra 2020-21) a moagem de cana cresceu 5%, para 22 milhões de toneladas. O mix de produção foi de 54% para o açúcar (versus 49% no mesmo período de 2019), em linha com a meta para o ano-safra. Segundo Mussa, apesar do impacto da queda de consumo de combustíveis e forte baixa dos preços no começo da pandemia, a empresa logo se adaptou. “Soubemos extrair resultados positivos da desvalorização cambial por meio de exportações, além de aproveitarmos o crescimento do mercado de açúcar, que não enfrentou quedas acentuadas de consumo, mesmo durante a crise”, afirmou.

Com olhar no horizonte, o CEO da Raízen ultrapassa o período da pandemia e enxerga um futuro mais limpo e sustentável no que diz respeito ao uso de energia. “Realizaremos movimentos que reforçam a prática de economia circular no desenvolvimento de projetos com alcance comercial a exemplo do etanol de segunda geração (E2G), biogás, cogeração de energia por biomassa e pellets”, afirmou. Com essa diversificação já em curso, a empresa firmou outra join venture, desta vez com a WX Energy, para venda de cerca de 26,9 TWh de energia na safra 2019-20. “Isso reforça nossa atuação em trading no mercado livre de energia.”

Com 29 mil funcionários no Brasil, e cerca de 2,5 mil na Argentina, e mais de 15 mil parceiros – entre produtores de cana, transportadoras e revendedores, o empresário entende que, sozinho, ninguém chega a lugar algum e, por isso ,ano passado, a empresa criou o Pulse Hub, espaço dedicado a startups que buscam desenvolver seus projetos ou expandir sua atuação. “Por meio dele, conseguimos engajar parceiros e aplicar ações produtivas, com o objetivo de desenvolver startups com potencial para otimizar toda a nossa cadeia produtiva.” Se o mundo é de todos e todos sentirão os efeitos nocivos do uso desenfreado de combustíveis poluentes, a Raízen promete ajudar a reverter massiva emissão de carbono. “Acreditamos no potencial no biocombustível e entendemos que ele assume uma posição estratégica no contexto atual de busca por uma matriz limpa renovável.” O Planeta Terra agradece.

AS MELHORES

1. RAÍZEN 431,65 PONTOS

2. ENAUTA 424,25 PONTOS

3. LIQUIGÁS 411,83 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – V

PALAVRA DE ESPECIALISTAS

Ainda restam dúvidas sobre o diagnóstico? Eles respondem a todas as questões

Saber exatamente o número de casos de autismo no Brasil e no mundo não é algo fácil, visto que diversos pacientes não recebem o diagnóstico adequado.

Porém, o assunto tem recebido cada dia mais atenção, e a quantidade de informações disseminada auxilia pais e cuidadores a buscarem ajuda de especialistas.

Independentemente da idade do indivíduo, quanto antes o autismo for identificado, melhor para a qualidade de vida do autista. “Tendo os conceitos diagnósticos e níveis de gravidade em mente (lembrando que podem também existir outros diagnósticos ao mesmo tempo, como a deficiência intelectual), é possível entender melhor o que é o autismo e suas diferentes apresentações”, ressalta a psiquiatra Talita Braga.

HÁ UM EXAME PARA O AUTISMO?

Não há nenhum tipo de exame laboratorial, como de sangue, genético ou relacionado à estrutura cerebral, que detecte a existência do TEA. “Tal diagnóstico é clínico, ou seja, não há um exame que irá detectar o autismo; mas muitos médicos pedem uma variedade de análises a fim de avaliar se há outras condições médicas concomitantes”, explica a psicóloga Beatriz Marques de Mattos.

Por ser uma condição comportamental, o diagnóstico é realizado com base nos sinais do comportamento da criança, que se manifestam na medida em que ela se desenvolve, e de entrevistas com pais e responsáveis.

EM QUE OS MÉDICOS BASEIAM A CLASSIFICAÇÃO?

Clínicos e pesquisadores de todo o mundo consultam a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e a quinta edição do Manual de Diagnóstico e Estatísticas dos Transtornos Mentais (DSM) para determinar o diagnóstico, bem como o nível de manifestação. “Nessa nova versão, o transtorno do espectro autista engloba transtornos antes chamados de autismo infantil precoce, autismo infantil, autismo de Kanner, autismo de alto funcionamento, autismo atípico, transtorno global do desenvolvimento sem outra especificação, transtorno desintegrativo da infância e Síndrome de Asperger”, ressalta Beatriz.

É PRECISO CONSULTAR MAIS DE UM ESPECIALISTA?

Sempre será um médico especialista que dará o diagnóstico final, no entanto, são realizadas avaliações multidisciplinares para identificar o grau de gravidade do quadro. “Mesmo entre aqueles indivíduos com TEA considerado leve, em virtude de pontuação dentro da faixa normal de medidas completas de QI de escala, testes neuropsicológicos revelam disfunção cognitiva, particularmente em funções executivas e cognição social, tais como flexibilidade mental, planejamento, controle inibitório e prejuízos da teoria da mente”, explica a assessora de neuropsicologia Joana Portolese. Entre os profissionais envolvidos, estão psiquiatras, pediatras e neurologistas. No entanto, as áreas de terapia ocupacional, psicologia, fonoaudiologia, entre outras, também são essenciais.

QUAL O PAPEL DO PSICÓLOGO NO DIAGNÓSTICO?

Ele irá atuar junto a uma equipe multiprofissional e a um médico, podendo ser um psiquiatra ou um neurologista, para realizar o diagnóstico. Este profissional tem capacidade de identificar e avaliar sinais comportamentais que indicam o TEA. “O psicólogo realiza avaliações complementares para conhecer a funcionalidade e habilidades e identificar comorbidades, mas o diagnóstico é feito pelo pediatra, psiquiatra ou “neurologista”, destaca Joana.

QUAIS OS MAIS RECENTES AVANÇOS DA CIÊNCIA SOBRE O AUTISMO?

Estima-se que diariamente são divulgados cerca de 60 novos artigos científicos sobre autismo em todo o mundo. Por ainda não ter sido totalmente decifrado, o transtorno instiga muitos pesquisadores e especialistas na busca por respostas. No entanto, os cientistas afirmam que nunca se esteve tão próximo da cura.

Pesquisas avançadas, como a do neurocientista brasileiro Alysson Muotri, especialista em genética e professor na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, tem combinado o estudo das alterações genéticas implicadas no transtorno com suas consequências celulares durante o desenvolvimento dos neurônios, o que amplia as possibilidades de mapeamento do distúrbio. Além disso, a procura por novas drogas que sejam efetivas na reversão de sintomas do TEA também está bastante promissora.

Um trabalho publicado em 2015 pela Universidade de Londres, na Inglaterra, destacou que os sintomas do autismo podem aparecer desde cedo. Os pesquisadores notaram que uma capacidade visual apurada aos nove meses de vida do bebê já seria capaz de prever a probabilidade de a criança ser diagnosticada com TEA no futuro.

Já um estudo da Universidade de Missouri, também nos Estados Unidos, indicou que o contato com animais faz bem aos autistas. Após analisarem 70 famílias com filhos com TEA, notou-se que os autistas que conviviam com animais de estimação apresentavam melhores habilidades sociais.

QUAL O PRIMEIRO PROFISSIONAL QUE DEVE SER PROCURADO?

Nem sempre os pais são os primeiros a desconfiarem que o filho é autista. Parentes, professores ou outras pessoas próximas também podem levantar a suspeita. De qualquer forma, o pediatra, por ser o médico que acompanha por mais tempo a vida da criança, deve ser o primeiro profissional a ser consultado. Durante a consulta, os pais devem expor o maior número possível de detalhes sobre o comportamento do pequeno. Isso facilita a interpretação do médico e o possível encaminhamento a exames.

Uma questão importante é que, havendo suspeita do quadro de autismo, o tratamento deve ser iniciado logo, mesmo sem o diagnóstico concluído. “Temos evidências científicas de que os tratamentos mais adequados possuem efeitos maiores e melhores se forem iniciados o quanto antes possível”, afirma Celso Goyos, psicólogo especialista em educação especial

EXISTE ALGUMA FASE EM QUE O DIAGNÓSTICO É MAIS FÁCIL DE SER FEITO?

Infelizmente, não. O diagnóstico de autismo ainda é algo bastante delicado, independentemente da idade do portador. Por isso, os profissionais envolvidos devem ser capacitados para chegar o mais rápido possível ao resultado.

FONOAUDIÓLOGOS TAMBÉM FAZEM PARTE DA EQUIPE DE DIAGNOSTICO?

 A avaliação fonoaudiológica é muito importante, já que cerca de 20% a 30% dos autistas são não verbais, e a mesma porcentagem deles apresentam uma história de desenvolvimento de regressão, com perda da linguagem previamente adquirida. “Embora muitas crianças com TEA apresentem progressos significativos na linguagem, no período de 24 a 48 meses, com expansão de vocabulário e com respostas dentro da idade esperada, testes de habilidades receptivas e expressivas evidenciam que a capacidade global de comunicação continua a ser prejudicada”, ressalta Joana.

O QUE OS ESPECIALISTAS AVALIAM PARA CHEGAR A UM DIAGNÓSTICO?

A psiquiatra Talita Braga listou os principais itens que o médico deve analisar e identificar no paciente (no momento presente ou na história prévia) para que seja feito o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista.

1. Déficits persistentes na comunicação e na interação social, por exemplo: dificuldade na reciprocidade socioemocional (iniciar ou manter uma conversa e demostrar interesse, emoção e afeto), nos comportamentos comunicativos não-verbais (déficits na compreensão e uso de gestos, a ausência total de expressões faciais, etc.) e para desenvolver, manter e compreender relacionamentos (dificuldade em ajustar o comportamento para se adequar a contextos sociais; em compartilhar brincadeiras imaginativas entre amigos e a ausência de interesse por pares).

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades tendo pelo menos dois dos seguintes: movimentos motores; uso de objetos ou fala estereotipadas ou repetitivas (por exemplo repetição de movimentos com o corpo, como balançar o tronco para frente e para trás; alinhar brinquedos ou separá-los por cor/tamanho; ecolalia, isto é, repetir palavras; ter um discurso com linguagem rebuscado e formal); insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível á rotinas ou padrões de comportamento verbal e não verbal (como sofrimento extremo em relação a pequenos mudanças, dificuldades com transições, rituais de saudação, necessidade de fazer sempre o mesmo cominho ou ingerir os mesmos alimentos todos os dias); interesses fixos e altamente restritos que são anormais em intensidade ou foco (exemplo: forte apego ou preocupação com objetos incomuns e só querer saber e falar sobre o assunto) e reação aumentada ou diminuída a estímulos sensoriais ou interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente (como indiferença a dor/temperatura – a criança pode se machucar e não apresentar a reação esperada de dor –  se recusar a comer alimentos que não sejam crocantes, cheirar ou tocar objetos de forma excessiva, fascinação visual por luzes ou movimento – uma criança pode passar horas olhando para objetos que rodam, como uma máquina de lavar).

3. Os sintomas devem estar presentes precocemente no período do desenvolvimento. Porém, podem não se manifestar plenamente até que as demandas sociais excedam as capacidades limitadas; ou podem ser mascaradas por estratégias aprendidas mais tarde na vida (como aprender que, ao encontrar as pessoas pelo manhã, é educado dizer “bom dia” e dar um sorriso, e fazer isso de forma artificial).

4. Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes da vida do indivíduo no presente.

5. Essas perturbações não são melhor explicados por simplesmente deficiência intelectual ou por atraso global do desenvolvimento. Deficiência intelectual ou Transtorno do Espectro Autista podem estar presentes na mesma pessoa; assim, para fazer o diagnóstico de transtorno autista e deficiência intelectual, a comunicação social deve estar abaixo do esperado para o nível de desenvolvimento.