EU ACHO …

EVOLUÇÃO NEM SEMPRE É PARA MELHOR

O autoconhecimento é um processo necessário e fundamental para a melhoria de si mesmo – um processo interminável, pois tudo o que acontece a nossa volta nos afeta e nos transforma. Mas, quando pensam em autoconhecimento, geralmente as pessoas cometem um equívoco, pois associam autoconhecimento à evolução – e encaram evolução, necessariamente, como aperfeiçoamento.

Não é assim. Nem toda evolução significa uma mudança para melhor. Na cabeça da maioria das pessoas, a palavra evolução também está associada ao Darwinismo. Mas o fato é que Darwin tinha vergonha de usar o termo evolução. Em seu diário, ele prefere usar a palavra transformação, e só usava evolução no sentido de mudança. Ele fala apenas que as espécies se transformam – algumas inclusive para pior, pois desapareceram. O câncer evolui, as encrencas, os problemas, os confrontos evoluem, e ninguém pode dizer que isso é uma coisa boa.

O século 20 no Ocidente foi marcado por essa ideia equivocada da evolução como melhoria. Esse equívoco começa a nascer no Renascimento, que introduz o antropocentrismo. Antes disso, no mundo medieval, prevalecia o teocentrismo, que colocava Deus como o centro do Universo. Na Renascença, o humano substitui o divino como figura central. Essa passagem é representada, sobretudo, por duas imagens. Uma é o Homem vitruviano, de Leonardo da Vinci, rascunhado em 1490, o célebre desenho de um homem nu no meio de um círculo. O segundo é a representação da Criação, por mim citada em outro trecho, pintada por Michelangelo no teto da Capela Sistina, a famosa cena do dedo de Deus encontrando o dedo de Adão – uma cena em que não fica claro se é Deus que está criando o Humano para não ficar sozinho no Universo ou se é o Humano que está criando Deus para não ficar sozinho no Universo.

Mais do que uma antroposofia, o que a Renascença propõe é uma antropolatria, ou uma adoração do Humano, num movimento que culminará, no século 18, no Iluminismo e, no 19, no Historicismo e no Positivismo. E é aqui que um dos maiores representantes do Positivismo, o filósofo inglês Herbert Spencer, vai criar a ideia da sobrevivência do mais forte – algo que Darwin nunca comungou, pois sua tese gira em torno da sobrevivência do mais apto, sem que isso esteja vinculado à força.

Pelo ponto de vista de Darwin, quais seres são os grandes vencedores na batalha pela vida? As bactérias, que são os seres com maior poder de adaptação. O paleontólogo americano Stephen Jay Gold provou isso em números. Ele somou a massa de todas as bactérias que estão entre nós e constatou que o resultado é muito maior do que o peso dos mais de 6 bilhões de humanos que habitam a Terra. A antropolatria nos leva a cair numa armadilha que foi decantada por Shakespeare quando escreveu “que grande maravilha é o humano!”.

O nosso romantismo, quando desvairado, nos faz olhar as estrelas e nos embevecer com a ideia de que somos os únicos capazes de admirá-las. Não haveria nada de errado se a questão se resumisse a admirá-las. Mas o ponto é que o Humano se sente proprietário das estrelas, ou mesmo a razão de ser das estrelas – e o Humano não é o centro do Universo nem o proprietário de nada além de suas posses terrenas.

O curioso é que a palavra evolução se vale de um radical usado no grego e no latim – o radical vol (formador de palavras como “envolver” e “vulva”), que mais tarde será utilizado como “rol”, de “rolar”, que dá a ideia de desenvolvimento. Por isso, desenvolvimento, em espanhol, é desarollo. O inglês não chegou até o “rol”. Ficou no “vol”, de envelope, de algo fechado em si mesmo. Assim, desenvolvimento, em inglês, é development – ou seja, algo que se tira do envelope, da redoma, e faz crescer.

Na antiguidade, havia a percepção de que o homem segue um roteiro que já estava escrito antes de ele nascer, como se apenas representasse um papel numa peça de teatro. Mas, na antropolatria, o homem se imagina dominador, proprietário da vida e da existência.

E aqui voltamos ao começo: supor que evolução sempre significa uma melhoria é um equívoco, inclusive de natureza etimológica, uma vez que o radical “vol” indica somente mudança, desenvolvimento – e não aperfeiçoamento.

O “homem moderno” fala em evolução sempre acreditando que todos nós estamos avançando e rumando para um ponto ideal, aquele que o teólogo francês Pierre de Chardin chamou de Ponto Ômega, que seria o ápice da Vida e da Criação. E, quando o homem passa a enxergar a evolução como uma caminhada rumo à perfeição, acaba mergulhando no território da obsessão evolucionista e derrapando no raciocínio equivocado de que, se nós evoluímos, estamos indo todos em direção a um futuro melhor.

A grande encrenca é que isso dificulta a compreensão de muitos problemas, inclusive a questão ecológica.

Se nós acreditamos que a humanidade sempre evoluirá para melhor, a tendência é esquecer a natureza deletéria do homem, esquecer que ele é um animal destrutivo. Assim, até a própria noção de ecologia fica prejudicada, uma vez que as pessoas cultivam uma esperança vã de que a humanidade só vai melhorar e que, portanto, todos os transtornos causados pelo homem – efeito estufa, mudanças climáticas, poluição, o desequilíbrio da vida – são ritos de passagem para um mundo melhor. É como se a humanidade acreditasse que em algum momento da existência haverá uma purificação natural e incontestável do homem.

Bem, no mínimo, isso é uma postura arrogante e, certamente, errada. É preciso ter esperança, mas não tem cabimento não fazer nada para mudar a situação e achar que, por pior que seja, vai melhorar no final.

Essa postura ameaça não só a ecologia mas toda a convivência de maneira geral, pois desliga um item imprescindível à sobrevivência e à civilização, que é o alarme.

De maneira geral, nossas medidas de prevenção existem para nos fazer prestar atenção em um perigo.

Mas há uma enorme diferença entre a pura espera e ter realmente esperança, ir atrás das coisas, fazê-las acontecer. No fundo, de certa maneira, o século 20 atormentou o mundo com a ideia de que tudo dará certo para o homem, uma ideia levada à alma popular pelo escritor Fernando Sabino quando disse que “no fim tudo dá certo; se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou no fim”.

Esse otimismo, porém, não muda o fato de que, assim como houve um começo, haverá um fim – não necessariamente da vida em si, mas talvez da nossa espécie, dizimada por catástrofe natural, meteoro, bomba, ignorância, vírus ou coisa parecida

É por tal razão que evolução não necessariamente é melhoria – e nem autoconhecimento. Muita gente acha que se conhece bem e que é a melhor companhia para si mesmo, sem perceber que pode estar sozinho e mal acompanhado.

Isso acontece quando as pessoas se alienam, quando não têm clareza daquilo que fazem, quando produzem aquilo que o escritor Eduardo Giannetti da Fonseca usou como matéria-prima em um ótimo livro, Auto Engano. Autoengano é o escondimento e a dissimulação de si mesmo.

Distraídos, perguntam alguns, alarme? Já soou?

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

OUTROS OLHARES

É ROCK N’ROLL, BABY

Com as vendas em baixa há anos, a guitarra parecia ter chegado ao fim de sua carreira musical. Até a quarentena se instalar e reabilitar os solos dentro de casa

Partiu da boca do próprio Eric Clapton, o “Deus”, a triste constatação, em 2017: “Talvez a guitarra tenha acabado”. No ano seguinte, a célebre fabricante Gibson entrou em recuperação judicial, sucumbindo a uma dívida de 500 milhões de dólares. Vítima da música eletrônica digitalizada e da multiplicação dos cantores em detrimento das bandas, o instrumento-símbolo do rock’n’roll parecia haver caído em desuso sem volta. Eis que a quarentena, sempre ela, prendeu todo mundo em casa, sacudiu os hábitos e costumes e reabilitou os acordes elétricos. No meio da contração geral das economias prevista para este ano, o mercado de instrumentos musicais saiu quase ileso graças às vendas de guitarras, violões e ukeleles – sim, aquela espécie de cavaquinho havaiano – para pessoas carentes de um hobby durante o isolamento social. “Foi uma retomada sem precedente”, diz Daniel Neves, presidente da Associação Nacional da Indústria da Música (Anafima).

Tanto a guitarra quanto o violão se encaixam no princípio do cocooning, ou “encasulamento”, que não é novidade, mas foi amplamente abraçado e consolidado no primeiro semestre deste incomparável 2020 por uma legião de consumidores interessados em instalar e aperfeiçoar dentro de casa atividades que costumavam desempenhar fora dela. Programador de 21 anos e guitarrista autodidata há oito, Hector Grecco mudou-se de Goiânia para o home office em São Paulo em julho e aproveitou o tempo no lar para, pela primeira vez, tomar aulas on-line. “Pude me reconectar com a música e tentar fazer algo diferente”, alegra-se Grecco, que desde então comprou mais duas guitarras e procura parceiros para formar uma banda. Não foi o único a pôr a mão na carteira. O site da megaloja de instrumentos e apetrechos musicais Made in Brazil acusou aumento de 300% nas vendas on-line entre abril e junho. A produção nacional cresceu 10% e o faturamento do mercado ultrapassou 1 bilhão de reais entre janeiro e agosto. “É a primeira vez que vejo um boom como esse. A demanda chegou a tal ponto que às vezes não foi possível atender”, diz Luiz Valezin, CEO da WMS, distribuidora da Taylor Guitars no Brasil, que comemora alta de 23% nas vendas de violões e guitarras na pandemia.

Nos Estados Unidos, a terra da guitarra elétrica, a Gibson, depois de fechar as fábricas e congelar as vendas em abril, informou em agosto que, retomadas as atividades, estava vendendo tudo o que produzia. A californiana Taylor decretou junho de 2020 o mês mais movimentado desde que a empresa foi fundada, em 1974. A Fender, que fabrica as icônicas Stratocasters e Telecasters, também celebrou a quarentena. “Caminhamos para o melhor ano da nossa história, o que nunca pensei que aconteceria quando a pandemia começou”, disse o comandante da empresa, Andy Mooney. Além de vender guitarras como nunca, a fabricante abriu o acesso ao Fender Play, um aplicativo de aulas on-line, que ganhou 930.000 usuários. Engana-se quem pensou em uma multidão de velhos e nostálgicos roqueiros: 18% dos novos clientes do Fender Play têm entre 18 e 24 anos e 70% estão abaixo dos 45. A WMS do Brasil confirma a tendência. “Os perfis mais comuns desses guitarristas amadores são jovens entre 16 e 18 anos e adultos na casa dos 40”, diz Valezin.

Guitarra e violão se tornaram os instrumentos por excelência da quarentena porque são práticos, fáceis de carregar e de guardar e têm uma vasta faixa de preço – de 800 reais, para os exemplares mais comuns, a 30.000 reais. Sem falar no componente emocional, muito presente neste ano difícil. “O repertório de música popular para guitarra é extenso e familiar, o que torna o aprendizado mais prazeroso”, explica a americana Leigh Van Handel, pesquisadora de psicologia da música. Segundo Leigh, durante a peste negra, no século XIV, a Igreja Católica tratava pacientes em quarentena nos lazaretos da Itália fazendo-os cantar e tocar juntos, ao soar dos sinos das capelas. ”A música em geral ameniza sentimentos de ansiedade, solidão estresse, e tocar cria uma sensação de conexão, vital durante o isolamento”, acrescenta. A indústria torce agora para que, passada a pandemia, os riffs não voltem a emudecer. Diz Valezin, ele próprio guitarrista: “Sempre pode haver um recuo, mas acredito que a guitarra nunca vai morrer”. Nem o rock’n’roll, baby, tampouco os riffs eternos de Van Halen.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

21 DE OUTUBRO

VIOLÊNCIA URBANA, UMA AMARGA REALIDADE

Até quando, SENHOR, clamarei eu, e tu não me escutarás? Gritar-te-ei: Violência! E não salvarás? (Habacuque 1.2).

A maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública. Temos medo de bala perdida, sequestro, assalto e arrombamento. Nossas cidades estão-se transformando em campos de sangue, e nossas ruas, em trincheiras de guerra. O aumento do consumo de álcool e drogas pesadas tem sido um pesadelo para as famílias. Perdemos todos os anos milhares de pessoas para o tráfico, e milhões de jovens enterram seu futuro na cova desse vício degradante. O resultado é que a violência urbana atinge níveis insuportáveis. Sentimo-nos inseguros até dentro de casa. À luz do dia, assaltos, sequestros e assassinatos ocorrem por questões fúteis. O trânsito dos grandes centros urbanos, além de congestionado, parece mais um barril de pólvora. As pessoas andam com os nervos à flor da pele. Discutem, brigam e matam por questões banais. A repressão da lei não é suficiente para frear esse impulso de violência. Não bastam restrições externas; é necessária uma mudança interna. Somente Jesus pode transformar o coração, pacificar a alma e dar ao homem domínio próprio e controle emocional. A única esperança para a família e para a sociedade é Jesus. Só ele pode dar vida e vida em abundância.

GESTÃO E CARREIRA

A REVIRAVOLTA DA TELEFONIA

Em um setor sem espaço para crescer em novas linhas, a operadora TIM turbina seus resultados, agregando serviços aos planos já existentes.

 A entrada principal da sede da operadora TIM no Brasil, em um dos mais modernos prédios da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, lembra um shopping center na hora do almoço, com um intenso vai-e-vem de funcionários da companhia. E essa movimentação está, desde o ano passado, cada vez mais agitada. Mesmo em um cenário de estabilidade no número de novos clientes – já que o Brasil, com mais de 220 milhões de linhas de celulares, tem mais números ativos do que habitantes –, a companhia está crescendo em receita, em lucro e em perspectivas. “Nosso crescimento não depende apenas das receitas convencionais em telefonia, mas da proposta de oferecer aos clientes um ‘pack’ completo de serviços”, afirmou o italiano Pietro Labriola, presidente da empresa no Brasil.

No ano passado, a TIM Brasil registrou faturamento de R$ 17,3 bilhões, alta de 2,3% sobre 2018. No mesmo período, obteve lucro líquido de R$ 2 bilhões, crescimento de 32,1% em relação ao ano anterior. Embora o número de clientes com linhas de celular tenha caído nesse período, os gastos por usuário aumentaram, graças principalmente aos planos pós-pagos, como o TIM Black Família, que puxou o crescimento. O segredo do segmento Black, segundo Labriola, é a agregação de valor com parcerias com plataformas de streaming, como Netflix e Deezer (música), e serviços de backup na nuvem já incluídos no pacote. Os planos familiares responderam por 33% das vendas de pós-pagos desde o lançamento. “O pós-pago puro tem de ser um tipo de Mastercard Black. Tem de ser uma experiência, não um pacote de telecomunicação. Quem paga mais tem de ter um serviço a mais”, disse o presidente.

A operação móvel da TIM, com 55 milhões de linhas móveis, é responsável pela maior parte da receita líquida de serviços. O ARPU (receita média mensal por usuário) teve alta de 5,8%, atingindo a cifra de R$ 25,10. Isolando o pós-pago, o valor foi de R$ 47 (+6,1%), enquanto o pré-pago manteve a média de R$ 12,90 (+7,9%). “Falar e receber ligações deixaram de ser a essência do mercado de telefonia. A nova realidade é a incorporação de serviços financeiros e soluções de conectividade e mobilidade”, afirmou o executivo.

Os resultados da TIM foram impulsionados pela consolidação da empresa na liderança em cobertura 4G. A operadora terminou 2019 com 3.477 mil cidades alcançadas, das quais 1,1 mil possuem 4.5G. A tecnologia VoLTE pode ser encontrada em 3,4 mil cidades, compreendendo 93% da rede 4G da operadora, enquanto a frequência de 700 MHz está presente em 2,3 mil municípios. Outra importante frente de negócios, que a cada dia ganha mais importância em um contexto de isolamento social e crescimento do home office é a internet via fibra óptica. Os serviços fixos, mesmo antes da pandemia, viviam uma trajetória de crescimento. O ARPU do TIM Live foi de R$ 83,80, alta de 4,4% no ano.

Desde que assumiu a presidência da TIM Brasil, em abril do ano passado, Labriola tem dedicado esforços a aprimorar a qualidade dos serviços, especialmente na relação com os clientes. O próprio executivo, sem ser identificado, visita as lojas da empresa para medir o nível de treinamento dos funcionários e perceber possíveis problemas no processo de resolução das demandas dos usuários – que não são poucas. “Muitos dizem que essa abordagem não é função de um presidente. Não acredito nisso. Quando eu consigo entender a origem de determinado problema, consigo dar prioridade para a melhoria do processo. Assim, ajudo milhões de clientes de uma só vez”, afirmou Labriola. O estilo de gestão de Labriola, que acompanha com lupa cada detalhe da operação, tem ajudado a TIM a melhorar todos os indicadores financeiros – processo que faz brilhar os olhos dos investidores. No ano passado, os papeis TIM Part. (ON) tiveram valorização de cerca de 30%.

Outro termômetro da saúde financeira da TIM é a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que passou de 40,9%, no quarto trimestre de 2018, para 42,9% no mesmo período do ano passado. Em 2019, o indicador atingiu R$ 8,3 bilhões, alta de 30,7% em relação a 2018. Com mais dinheiro em caixa, baixo endividamento e boa saúde financeira, a TIM caminha para adquirir uma fatia, junto com a Claro e Vivo, da operação de celular da Oi. Com isso, as operadoras deverão ter mais força para os investimentos na tecnologia 5G, a partir de 2021.

AS MELHORES

1. TIM 190,00 PONTOS

2. CLARO 185,00 PONTOS

3. VIVO 154,00 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – IV

COMO DESCOBRIR

Quem são os profissionais aptos para reconhecer o autismo e quais as escalas avaliativas utilizadas

Desde o nascimento, os pais se preocupam com a saúde dos bebês. Eles nascem e fazem alguns testes ainda no hospital. Assim, é possível que morbidades sejam identificadas antes de ir para casa. No entanto, no caso do autismo, a situação pode ser um pouco diferente … Alguns pais costumam relatar o diagnóstico tardio de seus filhos, o que faz com que a intervenção por meio de terapias seja adiada, afetando o desenvolvimento dos pequenos. Entretanto, os profissionais médicos estão se tornando cada vez mais capacitados para atender esses casos e direcioná-los para especialistas.

PORQUE O DIAGNÓSTICO É DEMORADO?

Em 2015, em um estudo realizado em Londres, no Reino Unido, foram entrevistados cerca de mil pais sobre suas experiências quanto ao diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista de seus filhos. Os resultados demonstraram que, geralmente, foi preciso esperar cerca de três anos e meio, desde o início do processo, para obter a confirmação de que os filhos possuem TEA. Ainda de acordo com a pesquisa, publicada pela editora on-line Sage Journals, entre os fatores que provocam a insatisfação de pais e responsáveis estão o estresse associado ao processo e a desaprovação sobre o auxílio dado após a identificação do transtorno. No entanto, de acordo com a psicóloga e especialista em neuropsicologia e aprendizagem Natália César de Brito, hoje, o diagnóstico de autismo é feito precocemente, com a identificação de traços do transtorno em crianças com menos de dois anos de idade. “A demora no diagnóstico se deve, em parte, por conta dos profissionais, que estão tendo maior contato com o autismo agora e aprendendo a identificar seus sinais e sintomas,” explica a psicóloga.

O QUE GARANTE O DIAGNÓSTICO CORRETO?

Por conta do autismo ser considerado um distúrbio inerente do desenvolvimento do sistema nervoso central, de acordo com a psicóloga Maria Aparecida Gomes, todo recurso para a identificação é válido. “Porém, o brincar torna-se o fator fundamental para a organização psíquica, sendo um instrumento de diagnóstico e de intervenção com o qual o profissional poderá agir no acolhimento”, explica.

Ainda de acordo com Gomes, o primeiro diálogo entre o bebê e seu cuidador (pai, mãe, irmãos, etc.) também indica como a organização psíquica está ocorrendo. “O indício que caracteriza um sinal de risco autístico é não acontecer esta dinâmica com o cuidador no final do quarto mês de vida”, acrescenta.

QUEM ESTÁ APTO PARA IDENTIFICAR O TRANSTORNO?

Quando há a suspeita de autismo, segundo Brito, uma equipe multidisciplinar é convocada para que o diagnóstico seja feito e, assim, favoreça o desenvolvimento da criança. Dessa forma, não existe apenas um profissional apto para fazer a avaliação. Desde que sejam especialistas em autismo, psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais, neurologistas e até pediatras podem identificar o TEA. Contudo, encontrar os profissionais habilitados, que não cometam equívocos, pode ser uma difícil barreira a ser ultrapassada, pois ainda há um número reduzido de pessoas especializadas no país.

COMO É FEITO O DIAGNÓSTICO?

Os profissionais norteiam-se pelos critérios presentes na 5ª edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e também pela Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para realizar o diagnóstico do TEA.

No âmbito da neurologia, a identificação do Transtorno do Espectro Autista também leva em conta a análise da história clínica da criança. Contudo, existem exames neurológicos que precisam ser realizados quando há a suspeita de outros distúrbios. De acordo com o neurologista Custódio Michailowsky, são: “eletroencefalograma, polissonografia, potencial evocado auditivo e P-300, ressonância magnética do encéfalo, cintilografia cerebral e PET-CT. Além disso, é importante fazer uma boa avaliação neuropsicológica”. Pode ser ainda que o especialista solicite um exame genético. Só assim, se descarta a hipótese de outros distúrbios.

Entretanto, o diagnóstico final é feito por meio da avaliação clínica: “é o que chamamos de padrão ouro e deverá ser realizada com entrevistas, aplicação de escalas e questionários e observação do comportamento da criança em ambiente natural”, explica a psicóloga Larissa Zani.

QUAIS SÃO AS ESCALAS PARA A AVALIAÇÃO?

Por meio das descrições dos pais sobre o desenvolvimento e comportamento do indivíduo autista, seja criança ou adolescente, e também pela observação clínica, algumas entrevistas são realizadas para obter informações mais precisas sobre o grau do TEA.

Segundo Natália de Brito, a escala CARS (Childhood Autism Rating Scale) é a mais empregada. Por meio de 13 itens, distingue os graus de comprometimento do autismo (leve, moderado e severo) e também separa o transtorno de outros atrasos no desenvolvimento. A CARS costuma ser aplicada logo nas primeiras consultas médicas após a identificação de comportamentos estranhos à idade, sendo adotada no diagnóstico de em crianças com mais de dois anos e meio.

“No meu local de trabalho, utilizamos o Pro­Self, que é o Protocolo Self de Avaliação do Desenvolvimento. São avaliadas diferentes áreas do desenvolvimento da criança, identificando qual exige maior necessidade de estimulação”, explica a psicóloga. Com base nos resultados, é elaborada uma programação terapêutica individual, que será trabalhada com a criança durante seis meses.

Após esse período, há uma nova aplicação, para reavaliar o desenvolvimento. “Esse protocolo pode ser encontrado no livro Espectro Autismo O que é, o que fazer, de Maria Helena Keinert e Sérgio Antoniuk”, acrescenta Natália. No entanto, ainda existem outras escalas para a identificação do transtorno. Confira algumas delas:

HÁ DIFERENÇAS ENTRE MENINOS E MENINAS COM TEA?

O autismo é um transtorno predominantemente masculino, ou seja, as chances de se desenvolver em meninos é muito maior do que em meninas. Por isso, pesquisadores têm se preocupado quanto às diferenças de comportamento observadas entre os sexos.

Um estudo publicado em setembro de 2015, no jornal científico Molecular Autism, mostrou que as crianças do sexo feminino podem apresentar comportamentos repetitivos e restritos menos severos. Ainda de acordo com a pesquisa, o que explicaria tais discrepâncias seriam as diferenças cerebrais entre os sexos, como os padrões de massa cinzenta presentes no córtex motor, na área motora suplementar, no cerebelo, no giro fusiforme e na amígdala. Tais regiões auxiliam o órgão a planejar e executar diversas funções motoras e também interferem no funcionamento da “área social”, o que explicaria o fato de meninas e meninos se comportarem de maneira diferente.

COMO A DIFERENÇA NA MANIFESTAÇÃO ENTRE OS SEXOS INTERFERE NA HORA DE DIAGNOSTICAR?

De acordo com a psicóloga Natália de Brito, a maior diferença na hora de realizar a identificação é que, em meninas, a interação social é menos prejudicada do que em meninos. “O diagnóstico ocorre na mesma faixa etária, porém é importante que mais sinais e sintomas sejam observados”, elucida.

No entanto, essa discrepância não interferiu na maneira como os testes avaliativos foram elaborados: “como chega-se aos resultados por meio de observação prévia e atenciosa da criança, o gênero não interfere em seu resultado, aplicação ou desenvolvimento”, explica a especialista.

É POSSÍVEL IDENTIFICAR O TEA AINDA NA GRAVIDEZ?

Embora a ciência tenha avançado muito, quando o assunto é autismo, ainda não existem exames para uso clínico que identifiquem o transtorno ainda no período de gestação. Contudo, o pré-natal e os demais cuidados durante a gravidez são essenciais e interferem diretamente no desenvolvimento saudável do bebê. Por isso, não devem ser deixados de lado.

COMO ENCONTRAR O PROFISSIONAL ADEQUADO

Uma grande dificuldade enfrentada por pais e responsáveis é encontrar o profissional ideal para diagnosticar e coordenar as terapias para “amenizar” as características do TEA. No entanto, há algumas saídas:

• PERGUNTE AOS CONHECIDOS

Procure seu plano de saúde, hospitais ou outros médicos que possam lhe indicar especialistas no assunto;

• NA INTERNET

A plataforma pode ser uma opção para indicar profissionais habilitados em TEA na região onde mora. No entanto, é preciso prestar atenção para não cair em armadilhas. Sempre busque sites de instituições reconhecidas;

• ASSOCIAÇÕES

Pais e familiares costumam criar grupos de ajuda aos portadores do transtorno. Muitas vezes, tais associações já contam com recomendações de uma equipe de saúde, além de desenvolverem trabalhos para encorajar os pois em momentos de dificuldade.