EU ACHO ..

FABRICAÇÃO DO PASSADO, ANSEIO DE FUTURO E DESESPERO DO CONSUMO

Desde sempre, e mais ainda nestes tempos, nossos grandes medos vêm do escuro. O homem não teme o que vê, mas o que não vê.

Uma das clássicas imagens do medo e do terror está naqueles olhos que podem ser vistos na penumbra sem que se consiga identificar de quem são, se de homem ou animal, se de vampiro ou algo mais assustador.

Há 50 ou 60 anos, nos antigos seminários, conventos e colégios religiosos, havia um quadro, nos dormitórios, nos mictórios, no refeitório. Era um quadro do olho de Deus dentro de um triângulo. Abaixo da imagem, havia esses dizeres: “Deus vê tudo”.

Nas tradições grega, romana e judaica, a visão de Deus ou dos deuses é terrível. Está aí a origem do terror diante de Deus: ser visto sem poder vê-lo. Ser visto sem saber como ele te vê. Não ser visto por você mesmo, mas ser visto só por ele. Como é uma situação sem saída, uma das maneiras que se encontrou de afastar o terror foi pintá-lo, retratá-lo de uma maneira menos agressiva. Surge então a imagem do senhor de barba branca, com jeito severo mas também paternal e amoroso.

O islamismo, por sua vez, é genial na manutenção do terror religioso (terror no seu sentido etimológico, de espanto); não há nem pode haver imagem de Alá, ou de Maomé, seu profeta. Como ele não morreu, pois foi levado aos céus, ele continua te vendo, sob a égide eventual do “ao infiel, a espada”. A propósito, uma das forças do cristianismo também está no fato de que não existe cadáver de Jesus, na crença dos adeptos, pois ele não morreu; foi para os céus. A vitória da vida sobre a morte – que é o segredo do cristianismo – é a vitória da luz sobre a sombra.

O mundo medieval é um mundo de sombras. Mas o mundo que nasce com a Renascença é o mundo da gravura, da pintura, da imprensa, da exposição.

Você quer coisa que exponha mais do que a imprensa? O escritor Guy de Maupassant tem uma frase bem-humorada e maldosa que aponta o alcance dessa invenção: “Ao alfabetizar o vulgo, a tolice se liberta”. Com a popularização de jornais, livros e revistas, as pessoas podem não só ler besteiras mas também escrevê-las e divulgá-las. A imprensa libertou a exposição e a internet a elevou à enésima potência.

Agora eu posso entrar no Google e ver quantas referências existem a meu respeito. Se não as encontro, isso é desesperador. De certa forma, o Orkut, o Facebook e o Twitter diminuem essa angústia – embora a substituam por outra. Nas comunidades virtuais, você cria suas referências e, sobretudo, vê e é visto. Por outro lado, as pessoas passam a se afligir numa competição desesperadora para ver quem consegue mais seguidores.

O anonimato, como antes falei, é o desespero. Para escapar desse subterrâneo, dessa penumbra numa sociedade que incentiva o consumo, o que resta às pessoas que não querem se identificar com o grotesco é tentar se destacar com a propriedade de bens. A capacidade de consumir, portanto, é o que vai dar valor às pessoas. E elas se sentirão mais valorizadas à medida que tiverem O carro, A tv, A roupa. Obviamente, os bens que atribuem valor variam conforme a camada social a cada qual pertence.

As camadas populares buscam coisas que brilham, indicadores de futuro, da luz no final do túnel. Por isso, compram móveis de fórmica ou de latão dourado. Móveis novos com linhas e cores futuristas, como são a maioria das cozinhas pré-moldadas.

Já a burguesia não quer futuro, pois isso já está quase garantido. A burguesia quer passado, que é algo que não tem. Como muitos de nós somos filhos de imigrantes, de gente que deixou seu país natal sem recursos, a atual burguesia das capitais não tem berço, tradição, heráldica – por isso, muitos compram em sites especializados a origem e o brasão da família.

Numa cidade como São Paulo, a classe média vai às feirinhas de antiguidades na praça Benedito Calixto ou no vão do Masp para comprar a cristaleira da vovó, a poltrona dos anos 1930, a luminária da década de 1940 ou a mesa que veio de uma fazenda do século passado – mesa que nunca é reformada, que é comprada para permanecer descascada, algo que nunca se verá nas casas populares. Nessas, móvel descascado é sinal de miséria. Na do burguês, de riqueza, pois o antigo tem valor.

É uma tendência tão forte que até se criou uma indústria de construção do antigo – Embu das Artes, em São Paulo, ou Tiradentes, em Minas Gerais, por exemplo, são polos de artesanato do passado, de fabricação das mais novas antiguidades que se podem adquirir.

Nesses lugares, no fundo, as pessoas vão atrás do conforto e da segurança de ter uma herança, um passado, uma história, uma família. Não deixa de ser outro sinal de desespero, ou infelicidade – nas feiras de antiguidade, é comum ver casais andando de mãos dadas em busca de laços que deem sentido a sua vida, não raro medíocre.

As camadas populares não precisam disso, pois já têm família. Aliás, sem família a vida não existe, pois não há como existir em meio à miséria sem laços. Família não quer dizer apenas pai, mãe, filhos, avós, primos e tios. No caso, é uma família ampliada que engloba vizinhos, a mulher da casa da esquina que empresta o açúcar, o cara da frente, aquele único que tem carro e leva quem precisa ao hospital de madrugada. A burguesia, por sua vez, se dá o direito de nem saber o nome do cara que mora na porta ao lado, pois pensa não ter nenhuma necessidade dele.

De qualquer modo, a família é um ninho de afeto e todos precisamos de afeto. Mas, no caso da burguesia, a família precisa ser construída por laços de história, ou laços de família.

A ideia de família ainda é estranha ao mundo burguês. Karl Marx estava certo ao dizer que o capital destruiu a família. Já a pobreza – que não foi atingida pelo capital a não ser como vítima – é solidária. Os vizinhos cuidam dos filhos da casa ao lado quando os pais estão no trabalho. Se o barraco desmorona, todo mundo que morava lá encontra abrigo na casa de alguém, pois, dizem, “onde comem cinco, comem dez”. A burguesia, por sua vez, não sabe o que fazer nem com os pais idosos. Em vez de abrigá-los em sua moradia, paga para alguém cuidar deles em uma casa de saúde.

A burguesia também quer solidez. Por isso compra móveis pesados, camas de ferro, estátuas de bronze.

O proletariado quer leveza, quase nada escuro – de pesada, já basta a vida –, quer cores. Isso é assim no mundo todo – na África, principalmente na porção Sul da África, por exemplo, as pessoas se vestem com roupas coloridas, vibrantes.

A burguesia cultua o escuro, o tédio. Na Europa, o movimento punk, o movimento dark nascem ligados à ideia de um mundo que não lhes serve, um mundo impregnado de riquezas – mas é a mesma riqueza que os sustenta. O movimento hippie das décadas de 1960 e 1970, do qual fiz parte, carregava a ideia da simplicidade – e a simplicidade era o brilho. Era o Flower power, o poder da flor, da cor; não o da olheira, do rímel, da Amy Winehouse.

Alguns lugares do Brasil ainda guardam o passado belo e simples, como Penedo ou Visconde de Mauá, onde moram o que eu chamo de “viúvas do John Lennon”, e onde há a maior concentração de óculos redondos do país. Assim como há os ninhos do pesado, do escuro, da balada gótica.

O gótico é o terror presente na vida – nos tempos medievais, as catedrais góticas eram propositalmente gigantescas, altíssimas, para que o homem se sentisse pequeno e diminuído diante de Deus. Como tendência, o gótico é sucedido pelo rococó do Barroco, pelo exagero do detalhe como diferencial (o punk, o gótico, o dark não deixam de ser o rococó revisitado, com seus cintos e braceletes com tachinhas, seus alfinetes, sua maquiagem              escura e exagerada).

E o Barroco e seus rococós são substituídos, na Europa, pelo Romantismo, um movimento que é iluminado, que não tem nada de escuro – na música, por exemplo, surge Mozart, que consegue fazer uma missa de réquiem absolutamente esplendorosa.

Não é casual que a última obra de Beethoven seja uma ode à alegria. Ainda bem; é a luz de novo.

MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro ” O QUE A VIDA ME ENSINOU”.

OUTROS OLHARES

LIGADOS NA TOMADA

Sucesso entre atletas de elite e celebridades, a malhação com eletroestimulação chega às academias com a promessa de tonificar músculos com menos esforço

Fazer flexões ou abdominais com roupa molhada elevando choque em diversas partes do corpo não parece ser a mais agradável das atividades, mas trata-se de uma tendência fitness cada vez mais procurada pelos brasileiros. Antes restritas a celebridades e atletas de elite, as máquinas de eletroestimulação muscular (EMS, na sigla em inglês) chegaram às academias e parecem responder perfeitamente aos anseios de uma sociedade apressada – “ligada no 220”, para usar uma expressão recorrente.

As sessões duram menos de meia hora e são, obrigatoriamente, acompanhadas por um profissional responsável por controlar a carga dos impulsos. Os choques acontecem durante quatro segundos (intercalados pelo mesmo período de descanso) e são leves. Provocam um formigamento suportável e alguns clientes relatam cócegas como efeito colateral. Sua eficácia é incontestável.

“Vinte minutos de EMS equivalem a um treino convencional de mais de uma hora”, diz Marcio Lui, personal trainer de famosas como Sabrina Sato e Yasmin Brunet. “O EMS potencializa o resultado, pois estimula mais de 300 músculos de uma vez e atinge camadas mais profundas da musculatura que nenhum outro exercício consegue atingir.”

Os choques funcionam para o ganho de força, resistência, tonificação muscular, emagrecimento, prevenção e tratamento de lesões. E o melhor: os resultados aparecem em poucas semanas. “A diferença de tônus muscular é visível”, afirma a apresentadora Adriane Galisteu, adepta da modalidade. “Antigamente, fazíamos tratamento de celulite com os choques da chamada corrente russa. Essa é uma versão muito melhorada.”

Os eletrodos foram desenvolvidos na Alemanha e funcionam ao entrar em contato com roupas específicas e umidificadas, capazes de conduzir eletricidade aos músculos. Atualmente, existem pelo menos três marcas reconhecidas que fabricam o aparelho. Qualquer pessoa pode contratar um personal trainer e usar um espaço da academia para a prática dos exercícios. Os treinos custam, em média, 120 reais, mas é possível obter descontos em planos de longo prazo, o que explica a explosão da atividade.

A alemã Miha, líder global do setor, informa que vendeu 24 equipamentos (custam cerca de 100.000 reais) e abriu dez clínicas especializadas em 2020. Agora, tem 150 parceiros nas cinco regiões do Brasil, entre academias e estúdios de bem-estar. Mas atenção: por sua intensidade, o trabalho deve ser realizado no máximo duas vezes por semana e com alguns dias de intervalo. É contraindicado para grávidas, pessoas com marca-passo cardíaco ou implantes, além de portadores de doenças como hérnia, tuberculose e hemofilia.

Nem mesmo o novo coronavírus, que fechou academias durante alguns meses, freou o sucesso da eletroestimulação. Ao contrário, tornou o procedimento ainda mais praticado. “As atividades são realizadas de forma individual, em espaços específicos e arejados e com a devida higienização”, diz a personal Cau Saad, dona de um dos principais estúdios da capital paulista que atende, inclusive, idosos. “É ótimo para eles, é bom para a postura, reduz dores e dá disposição.” Nas academias, o uso de máscara é obrigatório; nos treinos em casa, como o de Adriane Galisteu, é opcional. Os estímulos elétricos são conhecidos desde o século XVIII e se desenvolveram nas últimas décadas, primeiro pelas mãos dos antigos soviéticos e depois por outros países da Europa. Heróis do esporte consideram os choques aliados dos treinamentos. O jamaicano Usain Bolt, o homem mais veloz de todos os tempos, e o tenista espanhol Rafael Nadal tornearam os músculos graças ao EMS. No futebol, o Bayern de Munique, que conquistou a última Liga dos Campeões com sobras e que exibiu uma capacidade física superior mesmo após a parada pela pandemia, usa há mais tempo a tecnologia. No Brasil, o Corinthians trocou recentemente a tradicional máquina alemã por uma nova tecnologia espanhola, que funciona sem fios, via bluetooth. “Dá para conciliar a estimulação neuromuscular com corrida ou bicicleta”, explica Joaquim Grava, o médico que batiza o centro de treinamento do clube. Em Pernambuco, um fisioterapeuta vem utilizando o EMS com sucesso no tratamento de pacientes que relataram fadiga após se curarem da Covid-19. “A eletroestimulação acelera a recuperação neuromuscular, cardiorrespiratória e metabólica”, diz Francimar Ferrari Ramos, que trabalha no Hospital Esperança, do Recife. Ele utilizou o método em mais de vinte pacientes e, em breve, pretende publicar um estudo para comprovar a eficácia do tratamento. Nessa nova onda, os brasileiros parecem mesmo estar ligados.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

20 DE OUTUBRO

AS TORRENTES DO CÉU ESTÃO CHEGANDO

… Eis que se levanta do mar uma nuvem pequena como a palma da mão do homem… (1Reis 18.44b).

O profeta Elias foi levantado por Deus num tempo de extrema crise. A política era comandada por Acabe, o pior rei de Israel. A economia estava em colapso, pois não chovia sobre a terra. A religião estava em decadência, pois o povo se divida entre o Deus vivo e Baal, um ídolo pagão. Elias confrontou o rei por sua perversidade; o povo, por sua instabilidade espiritual; e os profetas de Baal, por sua cegueira. Fogo de Deus caiu do céu, e o povo caiu de joelhos na presença de Deus. Depois de eliminar esses arautos da heresia, Elias subiu ao cume do monte Carmelo com o propósito de buscar em Deus um tempo de restauração para a nação. Aconteceram cinco coisas: 1) Elias ouviu o ruído de abundantes chuvas; 2) Elias se prostrou diante de Deus; 3) Elias orou perseverantemente; 4) Elias buscou um sinal de Deus; 5) Elias creu que uma nuvem do tamanho da palma de uma mão era a garantia da chegada das torrentes do céu. Após três anos e meio de seca, Deus derramou as copiosas chuvas, e a terra floresceu e deu os seus frutos. Hoje vemos sinais de crise por todos os lados. A crise tornou-se endêmica e sistêmica, e enfiou suas garras mortíferas na política, na religião e na família. Precisamos de novos Elias que tenham coragem de confrontar os poderosos deste século, autoridade para exortar o povo e poder para triunfar sobre as hostes do mal. Só então as torrentes do céu virão sobre nós trazendo restauração.

GESTÃO E CARREIRA

CRESCIMENTO COM SIMPLICIDADE

A busca da excelência operacional, a redução dos custos financeiros e o foco nos resultados tornam a Marfrig Global Foods um exemplo de gestão para as empresas do Brasil e do mundo. O pioneirismo no lançamento de produtos de alto valor agregado e o compromisso com o meio ambiente fazem mais que isso: somam-se à eficiência da gestão para garantir os recordes de crescimento da companhia.

Um açougue familiar em Mogi-Guaçu, no interior paulista, foi o lugar onde o ainda garoto Marcos Molina dos Santos aprendeu as bases do ofício que nas décadas seguintes o levaria a construir um império global. Atrás do balcão, como haviam feito o avô e o pai, Molina aprendeu a cortar e servir as peças de um jeito que encantava a clientela, a cuidar do caixa para nunca faltar troco e a comprar dos fornecedores pagando o preço justo a quem oferecia a melhor qualidade. O aprendizado daqueles tempos foi fundamental que ele entendesse as oportunidades que o mercado oferecia. A primeira delas foi precoce: aos 16 anos ele quis ser emancipado para abrir sua própria distribuidora de miúdos. Logo depois, passaria a fornecer cortes para churrascarias de alto padrão na capital paulista. Com o passar do tempo, sua empresa foi crescendo até se tornar uma das líderes globais em carne bovina, além da maior produtora de hambúrgueres.

A simplicidade, contudo, permaneceu como marca registrada da Marfrig Global Foods, empresa que faturou perto de R$ 50 bilhões no ano passado, com 32 mil colaboradores e resultados que a fazem merecer o título de Empresa do Ano segundo os critérios de avaliação do anuário AS MELHORES DA DINHEIRO 2020. “A Marfrig tem humildade. Ela sempre pensa que pode melhorar”, afirmou o diretor-presidente Miguel Gularte.

Por “melhorar” entenda-se não apenas a busca de recordes ano a ano (o que de fato tem ocorrido), como também a adoção de práticas de administração eficientes, com inovação, qualidade e compromisso com o meio ambiente – algo de que a Marfrig pode se orgulhar como poucas empresas que atuam no setor de carne bovina em todo o mundo. Prova de que a sustentabilidade é uma das diretrizes estratégicas da empresa foi o anúncio, em julho, do plano de visão até 2030 desenvolvido em parceria com o IDH (The Sustainable Trade Initiative). O plano é baseado nas premissas da rastreabilidade completa da cadeia de suprimentos, na inclusão de produtores no manejo sustentável dos recursos naturais, no combate ao desmatamento e na total transparência para que a sociedade possa acompanhar os desdobramentos da iniciativa.

Para alcançar seus objetivos ambientais de longo prazo, a Marfrig tem inovado o ecossistema em que atua. Exemplo do pioneirismo nesse quesito é a marca Viva, linha de carnes “carbono neutro” desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo a Marfrig, os produtos da linha Viva são provenientes de animais inseridos em um sistema de produção pecuária-floresta que neutraliza as emissões de metano. A compensação é assegurada a partir da certificação e verificação por auditorias independentes. Antes da carne carbono zero, a Marfrig havia lançado o Revolution Burger, linha que ampliou o portfólio da empresa no quesito de produtos de base vegetal. “Logo que começaram a surgir as ‘carnes alternativas’, no Vale do Silício, eu fui lá visitar. Em 2016, começamos uma conversa com a ADM, uma das líderes daquele movimento nos Estados Unidos”, disse o fundador e presidente da Marfrig, Marcos Molina. “A ideia era oferecer uma alternativa ao consumidor que passou a comer menos carne. Apesar de a base de clientes veganos ainda ser pequena, ela vem crescendo a uma média de dois dígitos ao ano.” Este ano, a Marfrig e a ADM anunciaram o acordo para criação da PlantPlus Foods, joint venture para a comercialização de produtos de base vegetal por meio dos canais de varejo e food service nos mercados da América do Sul e América do Norte. “Nossa capacidade de produção e distribuição, combinada Para alcançar seus objetivos ambientais de longo prazo, a Marfrig tem inovado o ecossistema em que atua. Exemplo do pioneirismo nesse quesito é a marca Viva, linha de carnes “carbono neutro” desenvolvida em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Segundo a Marfrig, os produtos da linha Viva são provenientes de animais inseridos em um sistema de produção pecuária-floresta que neutraliza as emissões de metano. A compensação é assegurada a partir da certificação e verificação por auditorias independentes. Antes da carne carbono zero, a Marfrig havia lançado o Revolution Burger, linha que ampliou o portfólio da empresa no quesito de produtos de base vegetal. “Logo que começaram a surgir as ‘carnes alternativas’, no Vale do Silício, eu fui lá visitar. Em 2016, começamos uma conversa com a ADM, uma das líderes daquele movimento nos Estados Unidos”, disse o fundador e presidente da Marfrig, Marcos Molina. “A ideia era oferecer uma alternativa ao consumidor que passou a comer menos carne. Apesar de a base de clientes veganos ainda ser pequena, ela vem crescendo a uma média de dois dígitos ao ano.” Este ano, a Marfrig e a ADM anunciaram o acordo para criação da PlantPlus Foods, joint venture para a comercialização de produtos de base vegetal por meio dos canais de varejo e food service nos mercados da América do Sul e América do Norte. “Nossa capacidade de produção e distribuição, combinada à excelência técnica e de desenvolvimento da ADM, fazem da PlantPlus uma empresa que desde o início estará preparada para atender a evolução desse mercado”, afirmou Molina.

O aumento de portfólio a partir do aproveitamento da capacidade de produção e distribuição e da oferta de itens de maior valor agregado havia sido desenhado anos atrás. “Desde 2018 nosso planejamento consistia em eficiência na fábrica, investimento em capex e aumento de processados”, afirmou Molina à DINHEIRO. Capex é a sigla para “capital expenditure”, expressão inglesa que se refere ao montante despendido na aquisição de bens de capital de uma determinada empresa. Em 2018, os investimentos da Marfrig, incluindo a aquisição de 51% da National Beef Packing (NBP), nos Estados Unidos, foram de R$ 4,3 bilhões. Em 2019, a participação foi ampliada para 81%. O retorno veio de forma rápida. No primeiro trimestre de 2020, a Operação América do Norte, comandada pelo CEO Tim Klein, teve receita líquida de R$ 9,7 bilhões. “O resultado é reflexo de diversos fatores de mercado”, afirmou Klein, destacando a maior disponibilidade de gado aliada ao aumento no volume de vendas de produtos prontos no mercado americano.

Se as notícias foram boas no Hemisfério Norte, por aqui foram ainda melhores. A receita líquida da Operação América do Sul foi de R$ 3,8 bilhões, crescimento de 26,1% sobre o primeiro trimestre de 2019. Pesa nessa conta o aumento substancial das exportações, que cresceram 65% no período. “Somos a empresa com o maior número de plantas habilitadas para exportar para a China e isso fez enorme diferença”, disse Miguel Gularte. “Quando a China começou a deixar para trás a crise do novo coronavírus, fomos beneficiados.” As exportações representam 60% das receitas totais da operação da Marfrig América do Sul. E a receita vinda de fora continuou crescendo nos meses seguintes, o que contribui para que a Marfrig alcançasse um número capaz de orgulhar qualquer executivo. Ao encerrar o segundo trimestre deste ano com lucro líquido de R$ 1,59 bilhão, a empresa cravou exatos 1.743% de alta em relação ao lucro obtido no mesmo período um ano antes (que havia sido de R$ 87 milhões).

As condições externas que permitiram esse avanço, incluindo a depreciação do real e toda a turbulência decorrente da pandemia poderiam ter sido desperdiçadas caso a empresa não estivesse devidamente preparada. A Marfrig estava. Várias medidas de aumento de produtividade haviam sido executadas. Unidades pouco produtivas, como a de Tucumã (PA), foram encerradas. A produção se concentrou em plantas com maior escala, como a de Várzea Grande (MT), de onde saem inclusive os hambúrgueres vegetais.

A empresa não mirou apenas no portfólio. No aspecto financeiro, ações de liability management com a liquidação antecipada das operações de capital de giro resultaram numa redução de despesas com juros de cerca de R$ 135 milhões. Com recursos próprios, a Marfrig liquidou, em janeiro deste ano, US$ 446 milhões em Notas Sênior com vencimento para 2023 e juros anuais de 8%. Ao mesmo tempo, liquidou o equivalente a R$ 938 milhões em operações de capital de giro, atingindo um custo médio de dívida de 5,8% ao ano, o menor de sua história.

Em um mundo que se tornará mais pobre e com menos empregos devido aos impactos da pandemia de Covid-19, haverá espaço para uma empresa do porte da Marfrig continuar crescendo? Para o diretor presidente Miguel Gularte, sim. “Nós estamos em um segmento onde a demanda supera a oferta”, afirmou. “Isso não mudou, nem mesmo com toda a alteração econômica mundial decorrente da Covid-19.” Para ele, o que houve foi uma mudança de canal comercial. Enquanto os restaurantes estão demandando menos, até por terem reaberto com restrições de ocupação, por outro lado, há maior venda de carne no atacado. “Sempre que surge um advento econômico transformacional ele vem acompanhado de uma revisão nas prioridades de alocação dos recursos. E alimentação segue como uma prioridade para as famílias”, disse, citando também o aumento da preocupação com a saúde e a procedência dos alimentos. No novo normal pós-pandemia, ter confiança naquilo que se põe na boca pode ser tão vital quanto usar máscara ou álcool gel. E essa confiança passa pelos valores que uma empresa cultiva no dia a dia. E nisso, a simplicidade pode fazer toda a diferença.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – III

QUAL É A CAUSA?

As especulações para a origem do transtorno são várias

Mesmo com estudos e pesquisas avançadas, as causas do TEA ainda são incertas para a ciência. Especulações sobre as origens do autismo passam por maus hábitos durante a gestação, como uso de remédios antidepressivos, álcool e outras drogas, até riscos causados por fatores ambientais, como a poluição. Porém, o que mais desperta a atenção dos pesquisadores atualmente é a importância da genética na luta para desvendar o que realmente influencia no aparecimento do autismo.

QUAIS OS CUIDADOS DURANTE A GESTAÇÃO PARA EVITAR O APARECIMENTO DO TEA?

Segundo terapeutas da Associação Cultural Educacional Social e Assistencial Capuava (Acesa Capuava), a importância de tomar cuidados extras durante a gravidez é um conselho que não precisa vir de um médico para ser acatado, ainda mais com fatores de risco para o desenvolvimento do autismo na criança.

Elementos como a má nutrição maternal e lesões no sistema nervoso devido ao consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas, como cocaína e crack durante a gestação, podem influenciar no aparecimento do TEA. “Nós temos uma criança em nossa associação com uma síndrome alcoólica fetal, e ele apresenta os sinais clínicos do TEA, tem os movimentos repetidos, déficit de interação social e de linguagem”, conta Kátia Semeghini Caputo, pediatra e presidente da Associação dos Familiares e Amigos dos Portadores de Autismo de Bauru (Afapab).

É importante ressaltar que esses hábitos da mãe no período da gravidez não são uma causa direta para o autismo, mas um gatilho, ou seja, um agente influenciador em quem já seja predisposto ao desenvolvimento do transtorno. Além do mais, como isso acontece ainda é uma incógnita para a ciência e objeto de estudo por parte da genética.

A GENÉTICO CONSEGUE EXPLICAR?

Com anos de estudos para tentar encontrar os causadores do autismo, hoje, a maior aposta das pesquisas se encontra na genética, cuja explicação consiste em que ocorram em mutações em genes relacionados ao neurodesenvolvimento do córtex cerebral humano no período gestacional. “Os fatores genéricos têm diversos genes envolvidos, daí o termo poligênico. Não existe um gene único que seja o do autismo. Apesar de os estudos estarem avançando cada vez mais, se tivesse uma explicação genética, já se conseguiria tratar o autismo”, explica a pediatra.

HÁ FATORES AMBIENTAIS ENVOLVIDOS NAS CAUSAS DO TEA?

Outra teoria acerca da causa do autismo se encontra nos fatores ambientais, como a poluição. No entanto, mais uma vez, não se pode apontar um único culpado como motivo do transtorno, mas sim um gatilho para pessoas que apresentem uma predisposição ao TEA. Um estudo de 2014 da Escola de Saúde Pública de Harvard, nos Estados Unidos, concluiu que pessoas que moravam perto de uma fábrica tinham mais chances de gerar crianças que nasciam dentro do espectro autista. Contudo, até hoje não houve uma explicação para o fato descoberto.

EXISTEM DOENÇAS QUE PODEM INFLUENCIAR NO AUTISMO?

Além de hábitos não saudáveis das mães em período de gestação, fatores virais e infecciosos podem ser sinais de preocupação para o desenvolvimento do autismo em seus filhos. Segundo Kátia, “as infecções durante a gravidez podem não só causar o TEA, como muitos outros. Por exemplo, o citomegalovírus, que causa a microcefalia, com ou sem os sinais do TEA, a toxoplasmose e a rubéola”.

E QUANTO AOS REMÉDIOS CONSUMIDOS NA GRAVIDEZ TAMBÉM SÃO UM RISCO?

Em um trabalho publicado em 2013, conduzido por pesquisadores da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), foi encontrado mais um potencial gatilho para o autismo. Na pesquisa, era aplicado ácido valpróico, substância utilizada em remédios anticonvulsionantes, em camundongos fêmeas gestantes na décima semana de gestação. E, como consequência, os filhotes nascem com sinais de TEA. Kátia explica que “camundongos são altamente sociais; eles procuram a companhia de outros de sua espécie. E esses começaram a se isolar, comprovando que o ácido pode ser um causador do transtorno quando a mãe ingere a substância na gestação”.

AS VACINAS PODEM CAUSAR O AUTISMO INFANTIL?

Esse rumor começou em 1998, com a publicação de um artigo do pesquisador britânico Andrew Wokefield. No estudo, Wokefield concluiu que a vacina tríplice viral SCR, aplicada para imunizar contra o sarampo, a caxumba e a rubéola, seria uma causadora do autismo em crianças que a tomaram. Em abril de 2015, foi publicado um estudo realizado por pesquisadores nos Estados Unidos, comprovando cientificamente que a teoria de Wokefield estava incorreta. Os cientistas analisaram mais de 95 mil crianças que tomaram a vacina tríplice – SCR e concluíram que ela não influencia no risco de desenvolvimento do TEA.