EU ACHO …

A CRIAÇÃO DE DIFERENCIAIS

Henry Kissinger, ex-secretário de Estado dos Estados Unidos da América, disse que “sexo é para principiantes; os experientes gostam é de poder”. A questão central do poder é ser visto para não ser esquecido. Kissinger está certo. O que mais levaria certos políticos brasileiros que já tiveram tudo a continuar na vida pública até a degradação? O que leva alguém que poderia conviver mais com os netos, ter um hobby, desfrutar melhor a vida, o que leva esse alguém a se ver em situações constrangedoras? Para que continuar? Porque eles precisam continuar visíveis.

Por essa mesma razão, pessoas que têm certa exposição gostam de fazer um arquivo com tudo o que mencione seu nome. Eu, por exemplo, às vezes dou entrevistas para jornais e revistas. Eu dei a entrevista, sei o que falei, não preciso dela para me lembrar de nada mas mesmo assim quero recortá-la e guardá-la. Também por isso eu mando enquadrar a capa da revista com uma fotografia minha. Para quê? Ora, eu quero me ver vendo e sendo visto. Nem os serial killers fogem disso. Eles matam para ter exposição. Não é só o policial que recorta tudo o que saiu sobre o assassino nos jornais. O serial killer também guarda todos os recortes para se ver sendo visto. Assim, o maior castigo para um assassino desses seria não ter uma linha publicada nos jornais, seria ser ignorado.

O desejo de não ser esquecido assumiu muitas formas no mundo moderno. Até a desfiguração é uma forma de exposição – haja vista a trajetória de Michael Jackson, que se desfigurou a ponto de comprovar o filósofo Friedrich Nietzsche quando ele disse que “alguns homens nascem póstumos”. A desfiguração contínua fez com que Michael Jackson perdesse sua identidade até ganhar uma outra identidade pública.

Note que “identidade pública” é uma contradição em termos, pois a noção de identidade só faz sentido para um indivíduo. Mesmo assim, a “identidade pública” é um dos maiores desejos da modernidade. Por isso, tantas garotas pagam a agências e fotógrafos para fazer um book. Se uma mãe já não tem idade para desfilar nas passarelas, tenta a todo custo que sua filha tenha a exposição que ela não teve. Se alguém foi viajar, faz questão de postar as fotos num blog ou numa comunidade virtual.

No fundo, tudo isso é o mesmo grito: “Olha eu aqui”. Tudo é a personificação daquilo que Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro escreveram na música Pesadelo: “Você corta um verso, eu escrevo outro. Você me prende vivo, eu escapo morto. De repente olha eu de novo”.

Numa época em que todo mundo tem as mesmas condições e a mesma facilidade de se expor, seja no Facebook, no Orkut, no Twitter, o excesso de exposição devolve as pessoas ao anonimato.

No desespero para se destacar na multidão, a única chance que resta é criar um diferencial – e, nesse jogo, parece que agora vale tudo. Um exemplo disso está no livro Zonas úmidas, da jornalista inglesa Charlotte Roche. É um livro escatológico sobre uma garota de 18 anos que já experimentou de tudo sobre sexo. Essa moça não usa perfume convencional – ela passa a mão no próprio sexo e depois espalha o cheiro pelo corpo, numa forma extremada de demarcar o diferencial do seu desejo de exposição.

Pergunto: depois disso, que outro tipo de registro, de diário, faltaria ser escrito por uma garota? Temos o diário de Anne Frank, que narra todo o desespero por ter ficado trancada num gueto durante o Holocausto. O diário de Anne Sulivan, que trata da capacidade de alguém enxergar sem enxergar. O diário de Bridget Jones, uma mulher que se sente desconfortável consigo mesma e que pensa em homens e calorias durante 95% do seu tempo. Diários de adolescentes, de felizes e infelizes, de perdidos e achados, diários de todo jeito. Como alguém faz para se diferenciar se quase tudo já foi feito?

Um coloca piercing, o outro também. Um expande a orelha, outro imita. Uma transa com quem quer, a outra também. Uma faz tatuagem, a outra vai atrás. Faço mais uma, duas, três tatuagens, o outro faz quatro, cinco, seis, até só sobrarem os olhos. E aí voltamos à desfiguração, que leva à perda de identidade. Se todos têm tatuagem no corpo todo, o que virá agora? Tirar toda a pele certamente seria um diferencial, assim como se perfumar com os próprios cheiros ou descobrir uma outra coisa que ninguém fez para se distinguir na multidão.

Hoje, a diferenciação está ligada à exposição hiperbólica, ao exagero pleno, ao grotesco. Nos nossos tempos, o grotesco se tornou altamente sedutor. É a mulher com a bunda do tamanho de melancia, o seio explodindo de silicone, o lábio inflado como uma boia de sinalização. É o homem com os músculos estourando, com o cabelo hiperproduzido, com a vaidade desvairada de uma diva ou uma violência desmedida a troco de nada.

A hipérbole é mais necessária para quem está por baixo. Veja o exemplo dos Estados Unidos da América da década de 1970, quando a nação mais militarizada do Ocidente foi humilhada pelos vietnamitas. Para resgatar sua autoestima, hiperbolizou a figura do herói de guerra, do Rambo. Antes disso, era um país que cresceu dizimando os índios e, por isso, precisou hiperbolizar a figura do “mocinho” e do cowboy. Essa compulsão ao exagero faz com que a penumbra e o anonimato sejam ainda mais desesperadores.

Essa, de verdade, é a divina comédia humana.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

SE MEUS CABELOS FALASSEM

O visual exuberante com franjão da inesquecível Farrah Fawcett ganha adeptas nas redes sociais como sinônimo de sensualidade e liberdade femininas

Nunca houve cabelos como os de Farrah Fawcett (1947-2009) – ou, posto de outra forma, nunca as madeixas definiram tanto um tempo da civilização quanto os anos 1970 impregnados nos fios da atriz de As Panteras. Os cabelos, enfim, são como um tratado de sociologia que sai do salão para andar pelas ruas. Podem ser ultrafemininos e sensuais como os de Farrah, na pele da detetive particular Jill Munroe, que enchia a tela com a juba loira, esvoaçante e repicada, completamente imune a cenas de ação e perseguições. Podem ser curtíssimos e utilitários como o corte rente na nuca de Coco Chanel, criado há cem anos, logo depois da Gripe Espanhola e da I Guerra, quando as mulheres começavam a brigar pelo direito ao trabalho. Não há enigma: diga-me como cortas o cabelo e te direi quem és, simples assim. Neste estranho 2020 da pandemia, de nostalgia como socorro a um presente difícil e futuro incerto, o estilo Farrah Fawcett voltou a ganhar simpatizantes e se popularizou nas redes sociais, sobretudo no Tik­Tok, a invenção chinesa que colou. Há adeptas dos 8 aos 80.

A história começou com coleções de roupas lançadas no finzinho de 2019, inspiradas em peças da década de 70. Estava tudo lá: as calças com barras avolumadas, casacos de alfaiataria, acessórios com pedrinhas e o jeitão um tanto desleixado de andar de Farrah Fawcett. Para chegar à mítica cabeleira o passo foi pequeno. A modelo Sofia Richie, a atriz Hailee Steinfeld e a cantora Jennifer Lopez, todas americanas, foram algumas das que apareceram com o novo visual. “O corte exuberante fica bem em quase todos os tipos de rosto”, diz o cabeleireiro Marcos Proença, dono de dois cobiçados salões paulistanos.

Mas pegou, mesmo, agora, porque pode ser feito em casa, ali onde a civilização se fechou desde março. Proliferam nas redes sociais tutoriais nos quais meninas que mal passaram dos 20 anos ensinam com proficiência como usar os datados bobes e os modeladores de cabelo (muitas vezes ao som das melodias da banda sueca Abba). Há aulas de como cortar a franja característica e o jeito correto de movimentar escovas e pranchas com as mãos, a fim de conquistar os fios avolumados que contornam o rosto em formato de cascata. “Para as jovens, reexibir o que foi moda há cinquenta anos é uma potente forma de expressão, é celebrar os aspectos libertários daquele tempo”, diz o professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) João Braga.

Não há, portanto, futilidade alguma no movimento de imitação de Farrah. Trata-se de um modo de expressão. Ressalve-se que exibir as melenas lindas, livres e soltas já foi um tabu. No início do século XX, poder enxergar um bom volume de fios livres desde o topo da cabeça era um benefício concedido apenas ao marido, na intimidade do lar, entre quatro paredes. Os lenços eram compulsórios, associados a chapéus. A lógica só começou a ser invertida com movimentos como os de Chanel e, depois da I Guerra, numa nova versão, com os chamados cortes à la garçonne (do francês “ao modo dos rapazes”). Na década de 50 surgiriam as tinturas para ser usadas em casa e, então, brotou a mágica de Marilyn Monroe, com cabelos loiríssimos.

Lembre-se que o fenômeno Farrah Fawcett, esse que renasceu, era o desfecho de uma revolução que tinha nascido um pouco antes, na virada dos anos 1960 para os 1970 – havia, portanto, uma avenida aberta para avanços notáveis. As mulheres já podiam usar pílula anticoncepcional, desciam ao asfalto para defender seus direitos, se tornaram donas da própria liberdade sexual e passaram a decidir ter ou não filhos. Uma liberdade coroada magistralmente com a chegada de Farrah Fawcett e sua personagem. “Ela reunia as qualidades de ser heroína, poderosa, feminina e glamourosa, algo totalmente relacionado à imagem da mulher naqueles anos”, diz a historiadora da moda Laura Ferrazza, autora do livro Quando a Arte Encontra a Moda. O retorno de um ícone que simboliza liberdade em um momento como o de agora, quando a independência foi tão tolhida com a pandemia, é extraordinariamente emblemático. Tem a força de um belo manifesto feminino.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE OUTUBRO

UMA MULHER MUITO ESPECIAL

Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas joias (Provérbios 31.10).

O livro de Provérbios fala sobre uma mulher muito especial, conhecida como a mulher virtuosa. Ela mantinha um relacionamento correto com seu marido, que confiava nela; ela lhe fazia bem todos os dias de sua vida; e ele a elogiava publicamente. Também mantinha um relacionamento correto com os filhos, pois trazia nos lábios palavras de sabedoria e bondade, e seus filhos se levantavam para chamá-la de mulher feliz. Essa mulher mantinha ainda um relacionamento correto com o próximo. Embora fosse uma empresária com muitos compromissos e ainda atendesse ao bom andamento da sua casa, não se esquecia dos pobres nem encolhia sua mão aos necessitados. Essa mulher relacionava-se saudavelmente consigo mesma, pois, embora se vestisse com elegância e bom gosto, sabia que enganosa é a graça e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa será louvada. Mais importante que tudo, a mulher virtuosa mantinha um relacionamento de intimidade com Deus. Ela temia ao Senhor, e a força e a dignidade eram seus vestidos. A biografia dessa mulher pode ser assim resumida: ela é louvada pelo marido, pelos filhos, por suas obras e pelo próprio Deus. De fato, uma mulher muito especial. Você quer imitá-la?

GESTÃO E CARREIRA

UM POR TODOS, TODOS POR UM

A cooperativa paranaense Coamo ultrapassa a marca de 29 mil associados e planeja faturar R$ 17,8 bilhões em 2020, 33% acima do resultado anterior

Pouca gente sabe, mas a expressão popular “a união faz a força” tem origem no texto bíblico que diz “é fácil quebrar uma vara, mas é difícil quebrar um feixe de varas”. As cooperativas do agronegócio brasileiro são a pura concretização da metáfora. Juntas, as 1.613 entidades ativas no País respondem por quase 50% do Produto Interno Bruto (PIB) agrícola. De tudo o que é produzido no campo, 48% passam por uma dessas empresas de caráter associativo em algum momento da produção até chegar ao destino final. Os dados são do último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números que demonstram o gigantismo desse setor não param por aí. Eles também se referem a pessoas. De acordo com a Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), mais de 1 milhão de associados fazem parte desse sistema, que gera cerca de 210 mil empregos diretos. Nesse contexto, a paranaense Coamo Agroindustrial se destaca como a maior cooperativa agrícola da América Latina.

Ter vencido no ano passado e agora, em 2020, comprova a alta eficiência da gestão da cooperativa criada em 1970. A Coamo nasceu como fruto da união de 79 agricultores associados que subscreveram sua ata de fundação, com capital social de 37.540 cruzeiros, a moeda corrente da época. Hoje, possui 29.174 associados que estão distribuídos em 71 municípios dos estados de Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina. Para este ano, projeta faturamento de R$ 17,8 bilhões. A meta, se realizada, representará crescimento de 33% em comparação a 2019, ano no qual faturou R$ 13,4 bilhões.

Em crescimento consistente com a expansão do agronegócio brasileiro, a cooperativa contabilizou a movimentação de 8,1 milhões de toneladas de soja, milho, trigo, aveia e café de janeiro a agosto. Até o fim do ano, a marca de 9 milhões de toneladas deve ser superada com tranquilidade. O ano poderia ser ainda melhor, se não fossem os impactos da pandemia da Covid-19, que, mesmo sem causar grandes estragos no agronegócio brasileiro, prejudicou algumas culturas – como a do café, que registrou ligeira retração nas vendas com o fechamento do segmento Horeca (hotéis, restaurantes e cafeterias), além de ter a velocidade da colheita reduzida, devido à diminuição do número de trabalhadores no campo.

Para José Aroldo Gallassini, presidente do conselho administrativo da Coamo, o segredo para que a cooperativa continue a prosperar é a fidelidade dos associados. “O quadro vem crescendo, conforme vamos implementando novas áreas de atuação. Temos como objetivo ampliar constantemente o volume de recebimento da produção e o fornecimento de insumos”, afirmou Gallassini. Em 2019, a Coamo recebeu 3,1% da produção nacional de grãos e exportou mais de 4,8 milhões de toneladas, que representam quase US$ 1,5 bilhão. Para 2020, a previsão é de que os embarques ao exterior ultrapassem as 5 milhões de toneladas, em mercadorias no valor de US$ 1,65 bilhão.

Para possibilitar o crescimento da receita total da cooperativa, projetos de expansão estão na agenda. Entre eles investimentos em novas unidades de recebimento para a ampliação da capacidade de exportação. “Ainda este ano devemos aumentar o recebimento da produção em 20%, a capacidade de esmagamento de soja em 70% e o faturamento em mais de 30%”, disse o presidente. A meta é inaugurar mais quatro unidades, além das atuais 119. Dentro do planejamento da cooperativa, a primeira inauguração deve acontecer este mês e será para o recebimento de grãos na cidade de Dourados (MS). Em seguida, um novo terminal próprio de exportação em Paranaguá (PR) deverá entrar em operação no segundo semestre de 2021. Outras duas unidades estão em fase de estudo para implantação: uma para a indústria de ração e outra para etanol de milho.

Mesmo com a pandemia da Covid-19 ainda assombrando o mundo, a cooperativa manteve o ritmo e adotou medidas para que os impactos fossem amenizados entre seus mais de 10 mil colaboradores, entre diretos e indiretos. Redução de tempo de horas trabalhadas sem comprometer salários, sistema de rodízio nas unidades, regime de quarentena para grupos de risco e iniciativas para evitar aglomeração e circulação de pessoas, além da higienização pessoal, foram essenciais para que a rotina prevalecesse. “Promovemos condições para vencer essa dura batalha. A agricultura não para e não pode parar”, disse Gallassini.

Os resultados que estão por vir comprovam a efetividade da precaução e do comprometimento de todos. “Comemoramos 50 anos em 2020 celebrando a maior produção da Coamo, com faturamento recorde, graças à variação cambial e ao aumento das exportações”, afirmou o presidente do conselho. Ainda contribuíram para o desempenho da Coamo a safra recorde do campo, a alta do preço de algumas commodities e, sobretudo, a resiliência dos cooperados brasileiros.

AS MELHORES

1. COAMO 434,35 PONTOS

2. COCAMAR 395,93 PONTOS

3. COOPAVEL 327,98 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO? – II

CONHECENDO O ALTISMO

O transtorno ainda não é completamente desvendado pela ciência, mas pede a atenção da sociedade. Conheça comportamentos que auxiliam a identificar o TEA.

Crianças isoladas que evitam contato visual e pouco ou quase nada falam. Essas são algumas das manifestações do autismo, um distúrbio que ainda é um enigma para ciência, mas que afeta mais de 70 milhões de pessoas pelo mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

UM POUCO DE HISTÓRIA

Em 1906, o psiquiatra suíço Plouller utilizou o termo autismo pela primeira vez ao descrever o isolamento frequente em alguns de seus pacientes. Mas foi só na década de 1940 que o transtorno recebeu maior atenção, quando o médico austríaco Leo Kanner, vivendo nos Estados Unidos, teve contato com Donald T., um garoto com um problema que seria batizado, posteriormente, como autismo; e o psiquiatra austríaco Hans Asperger descreveu uma condição muito semelhante, que ficou conhecida como Síndrome de Asperger.

A partir de então, artigos científicos e pesquisas sobre o tema só aumentaram.  Popularmente conhecido como autismo, o transtorno possui uma história marcada por alterações na nomenclatura e nos critérios utilizados para o diagnóstico. Atualmente, as características do distúrbio constam na 5′ edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como parte do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

NÃO É DOENÇA

O TEA é classificado como um transtorno ou distúrbio do neurodesenvolvimento. Não se trata de uma doença nem um uma síndrome, já que não é conhecido seu gene causador. Especificamente no caso do autismo, tampouco há identificado um gene comum em vários pacientes, embora os comportamentos e déficits sejam descritos de forma semelhante. A síndrome de Rett, por exemplo, anteriormente era considerada como um dos Transtornos do Espectro do Autismo. “Agora, sabe-se que é uma síndrome genética definida, com uma mutação em um gene específico”, explica a bióloga Patrícia Beltrão Braga.

CAUSA INDEFINIDA

Apesar dos avanços da ciência, as causas concretas do Transtorno do Espectro Autista ainda são desconhecidas pela ciência. “Hoje, sabe-se que o transtorno é decorrente de uma associação entre alterações genéticas e predisposição ambiental. Não há uma causa única. Diferentes genes têm sido reconhecidos como mais possivelmente associados com a ocorrência do transtorno”, explica a neurologista Ana Carolina Coan. A especialista destaca que uma questão importante é que com o maior número de pesquisas e estudos sobre o tema, vários mitos sobre a possível causa do autismo foram esclarecidos, como a associação de vacinas e a ocorrência de autismo. A hipótese de que vacinas com ou sem metais pesados poderiam causar o transtorno surgiu em 1998, quando o pesquisador britânico Andrew Wakefield publicou um artigo fraudulento relacionando o autismo em 12 crianças à vacina tríplice viral (que protege contra sarampo, bócio e rubéola).

Como não se sabe ao certo a causa, não há cura ainda para o autismo. Contudo, os estudos sobre terapias e tratamentos específicos para o transtorno, visando a qualidade de vida, vêm trazendo descobertas animadoras. “Vários grupos de pesquisa têm desenvolvido protocolos de tratamento, que podem ser individualizados de acordo com o sintoma do paciente, e que poderão direcionar melhor os esforços de tempo e uso de recursos financeiros visando uma melhora dos sintomas dos pacientes”, afirma Ana Carolina.

COMPORTAMENTOS TÍPICOS

O autista não apresenta nenhuma anomalia física, passível de identificá-lo apenas pela aparência, como a Síndrome de Down. São características do comportamento que entregam o quadro. O TEA pode se manifestar logo nos primeiros meses de vida de forma leve, moderada ou grave, mas não costuma ser identificado nesse período. Há algumas semelhanças entre os indivíduos com autismo, contudo, elas podem mudar com o tempo, quando há o acompanhamento de profissionais habilitados que estimulam as áreas afetadas pelo transtorno.

CONFIRA OS PRINCIPAIS SINTOMAS:

Dificuldades persistentes de se comunicar e de interagir socialmente. “A criança pode ter atraso para adquirir a fala ou não conseguir falar. Da mesma forma, pode apresentar dificuldade de se comunicar mesmo por gestos ou entender o que está acontecendo em um contexto social específico (por exemplo, ter dificuldade de reconhecer expressões das faces relacionadas com alegria ou tristeza)”, elucida Ana Carolina;

Dificuldade de manter relacionamentos de amizade;

Movimentos estereotipados, isto é, padrões restritos e repetitivos de interesses e de atividades. Por exemplo: passar horas em uma mesma atividade, usar sempre o mesmo tipo de roupa ou comer o mesmo tipo de alimento, movimentos ou vocalizações repetitivas, como abanar as mãos, repetir várias vezes a mesma palavra ou um mesmo som. “Elas ainda apresentam uma grande necessidade de se manter em uma mesma rotina, podendo apresentar muita dificuldade de mudanças no dia a dia”, ressalta a neurologista.

NADA DE OUTRO MUNDO

É comum ouvir que “o autista vive em um mundo à parte”. Essa afirmação, além de bastante excludente, é equivocada. É verdade que, devido às alterações neurológicas típicas do transtorno, o autista pode apresentar alterações sensoriais e na captação de estímulos no ambiente em que está. Porém, isso não significa que ele não tenha conexões com a realidade.

COM A PALAVRA…

Danilo Benette Marques, neurocientista:

“A neurociência tenta enxergar mais a fundo o autista, olhando para seu cérebro e, principalmente, como as alterações nele se relacionam aos seus comportamentos diferenciados”, principalmente, como as alterações nele se relacionam aos seus comportamentos diferenciados”, esclarece.

Assim, o profissional ressalta que cada vez mais fica em evidência o fato de que o autismo se origina no desenvolvimento do feto, por causas genéticas, ambientais ou uma fusão de ambas. “Já foram descritos alguns genes específicos que estão relacionados ao autismo bem como efeitos ambientais que podem ser influentes durante a gestação, como uso de drogas, intoxicação por metais e infecções”, complementa. Ainda assim, outra possibilidade envolvendo neurônios despertou muita atenção entre os cientistas recentemente.

OS ESPELHOS QUEBRADOS

Em 1990, um grupo de neurocientistas liderado pelo italiano Giacomo Rizzolatti colocou eletrodos em cérebros de macacos. O objetivo da pesquisa era descobrir quais neurônios estavam ativos durante seus movimentos, como, por exemplo, ao pegar uma noz. Identificadas as células, um dos estudiosos esticou o braço para pegar a noz, e surpresa: os neurônios do macaco também se ativaram.

Esse acontecimento marcou a descoberta dos neurônios-espelho, capazes de imitar uma ação ao verem alguém executando o mesmo movimento – e que, posteriormente, descobriu-se que também se aplica a emoções. Você chora ao assistir uma série bem dramática? Fica feliz quando algum amigo está extremamente contente por conquistar algo? Tudo isso está ligado à propriedade espelho do cérebro.

Eis que, em 2005, outro experimento, dessa vez capitaneado pelo médico indiano Vilayanur Ramachandran, surpreendeu ao sinalizar a possibilidade de associar essas células ao autismo. “Por meio de uma técnica específica, ocorre uma certa alteração da atividade elétrica do cérebro, tanto quando alguém movimenta a própria mão quanto na hora que a pessoa vê outra movimentando”, descreve Danilo. “Os resultados dessa pesquisa mostraram que crianças autistas evocavam tal atividade quando moviam a mão, mas não ao verem outra pessoa se movimentando”. Tal observação acabou levando a reflexões sobre a chance de essas alterações na atividade espelho influenciarem no comprometimento da interação social de quem possui e ainda na sua inabilidade de sentir o que o outro sente ou de se colocar no lugar dessa pessoa.

Porém, é preciso ter muitas ressalvas ao tratar essa questão. “Apesar de elegante, é improvável que todo o espectro autista seja explicado com a hipótese dos espelhos quebrados”, salienta o especialista, “mas é evidente que ela contribui muito para nossa compreensão do que se passa na mente de um autista. Realmente, ainda existe muita pesquisa a ser feita na neurociência do autismo”, finaliza.

DIAGNÓSTICO COMPLEXO

Uma das mais complicadas questões que envolve o TEA diz respeito ao seu diagnóstico. Alguns outros quadros como depressão, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e dislexia possuem características semelhantes, mas que o neurocientista Danilo Benette Marques faz questão de diferenciar. “O papel evolutivo do comportamento depressivo é exatamente o contrário do que se vê no autismo”, explica o especialista, “já que, na depressão, existe um anseio grande pela expressão emocional para seu grupo social sejam amigos ou familiares. Além disso, muitas vezes o que gera o estado depressivo são eventos aversivos associados ao grupo em que o paciente se insere”.

Já em relação ao TDAH, cuja definição por si só já é controversa, “o transtorno é originalmente caracterizado por hiperatividade e falta de foco, o que levaria a um baixo rendimento escolar. No caso do autismo, também é possível encontrar baixo rendimento escolar, no entonto a criança ainda mantém interesses restritos e comportamentos repetitivos, evidenciando não a falta de foco, mas sim um foco exacerbado em coisas muito específicas

Por fim, em se tratando da dislexia, pacientes disléxicos apresentam maior dificuldade na linguagem escrita – enquanto a verbal transcorre normalmente, além da interação social. Em relação ao autismo, as últimas características são muito mais prejudicadas.