OUTROS OLHARES

ELES TÊM A RESPOSTA

Em pleno ano pandêmico, a turma que se prepara para o Enem cavucou a internet e encontrou ali aulas oferecidas de graça por mestres do mais alto nível

Não existe momento mais cercado de tensão na vida de um estudante brasileiro do que aquele em que precisa enfrentar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), passaporte de entrada para a imensa maioria das universidades. A próxima edição contém tudo de atípico que um ano pandêmico pode reservar: a data ficou por alguns meses em suspenso, até se cravar os dias 17 e 24 de janeiro, e as aulas seguem para grande parte da turma na modalidade on-line, com as lacunas já conhecidas que ela embute. Diante de tanto sacolejo, os 6 milhões de jovens que passarão pelo temido teste estão se adaptando como podem, o que abrange navegar por conta própria e desencavar caminhos para suprir a falta que um bom professor frente a frente faz. E assim muita gente foi explorar as redes, sempre elas, e ali encontrou mestres inspiradores e divertidos para todos os gostos.

Uma boa régua para medir o tamanho dessa multidão de alunos que partiu em busca de reforço na internet é a audiência nos canais de educação do YouTube, onde floresce um time de professores capaz de arrastar numerosas plateias para as salas de aulas virtuais. De março a agosto, a procura cresceu quase 40%, em média por mês, e o total de inscritos bateu os 80 milhões, um recorde. Tivemos acesso à lista dos dez canais de educação brasileiros mais acessados na plataforma, um grupo que acolhe vários estilos – entre os discretos e os mais dados a um show. Em comum, oferecem uma linguagem direta, afeita às redes, transmitindo com notável entusiasmo um certo ponto da matéria em quinze, vinte minutos. “Esse é o período em que a janela de atenção está aberta e o aluno, assimilando. Mais do que isso, começa a ser contraproducente”, ensina o mestre dos mestres em lições on-line, o matemático americano Salman Khan, o mais visto em todo o planeta. O público aprecia a concisão, fator que, em meio ao mundaréu de tópicos a vencer até o exame, dá um tremendo alívio. “Além disso, posso pausar e voltar mil vezes se não entendi alguma coisa, possibilidade que não tenho nas aulas em tempo real da escola”, explica Bruna Torezim, 17 anos, que quer ser psicóloga.

No topo do ranking, com respeitosos 3 milhões de fiéis inscritos, está o curitibano Noslen Borges, 41 anos, professor de português e redação, que encara pedreiras como a lógica das frases e análise sintática. E bota imaginação aí para despertar a atenção, aferida pela alta participação da garotada que o acompanha. Valem paródias para memorizar o impossível e canções de sucesso para ensinar figuras de linguagem. Como seus colegas de plataforma, apenas recentemente ele conquistou desenvoltura com as câmeras, depois de três anos na web, apesar de ser velho de guerra nos cursinhos pré-vestibular. Trabalhava ao mesmo tempo em sete instituições, entre cursinhos e escolas, até que, premido pela agenda excessiva, resolveu se arriscar em carreira-solo na internet. Já ouvira falar que podia dar dinheiro e bons frutos acadêmicos. “Notava antes que muitos de meus alunos olhavam mais para o celular do que para o professor. Decidi então levar minha presença para dentro do aparelho, falando o idioma deles”, diz. A conversão para a internet exigiu desses docentes um ajuste completo – desde o jeito de ensinar à destreza com a tecnologia. Em 2011, o biólogo Paulo Jubilut, 39 anos, havia perdido o emprego em um cursinho de Florianópolis e, com uma webcam, decidiu gravar aulas no improviso. Foi aos poucos melhorando e acabou montando um estúdio. “Ninguém acreditava que eu poderia tornar essas aulas rentáveis. Falavam que eu estava maluco em apostar tempo e dinheiro nisso”, conta Jubilut, que, como oito dos dez campeões em audiência ouvidos pela reportagem, saltou de estágio nos negócios: além das lições gratuitas no YouTube, onde fatura com anúncios, ele fundou uma plataforma em que cobra mensalidade para fornecer planos de estudo e correção de exercícios. Mesmo tendo atingido esse patamar, nenhum deles abre mão dos sites nos quais deslancharam – afinal, são uma vitrine. Tanto assim que Rafael Procópio, 37 anos, quinto no ranking nacional ensinando matemática, um dia recebeu um improvável telefonema, direto do Vaticano. “Fui convidado para discutir o futuro da educação com gente do mundo todo, com o papa Francisco em pessoa”, orgulha-se ele, que trata de operações complexas em ritmo de funk.

Com a profusão de conteúdo educacional na rede – só no YouTube são 450 canais -, evidentemente nem tudo possui a mesma qualidade: é preciso, portanto, garimpar. “Temos investido na casa de bilhões de dólares para criar um ecossistema confiável e variado, procurando cada vez mais a interação com as escolas”, disse Katie Kurtz, diretora mundial de conteúdo e educação do YouTube. A aproximação da internet com a sala de aula tradicional faz parte de um movimento maior e inescapável – o híbrido entre ensino presencial e remoto. “A escola que brigar contra a tecnologia estará condenando a si própria”, resume Ronaldo Mota, ex-secretário de Educação à Distância do MEC. Aos 31 anos, a carioca Pamella Brandão tem um olhar afiado sobre esses dois mundos: ela já foi coordenadora pedagógica de um dos maiores cursinhos de São Paulo e agora ensina nas redes. “É um ganho para o aluno adiantar a vida assistindo a aulas gravadas e usar a escola para debater e tirar dúvidas”, opina a professora de redação, trilhando a linha que Khan e outros especialistas mundo afora defendem – com uma ponderação: a fusão dos dois universos deve ser muito bem orquestrada.

Os dez mestres ouvidos, altamente calejados em Errem, enfatizam que trata-se de uma maratona, e não de uma corrida de 100 metros, que exige muito treino e controle do ritmo para a boa resolução da prova. Perder tempo demais com uma questão difícil, por exemplo, pode comprometer o andamento geral. Caçula na lista dos mestres de audiência, a mineira Débora Aladim, 22 anos e 2,7 milhões de seguidores, ainda nem se formou em história, mas tem como trunfo a conexão, com o perdão do trocadilho, com a turma que a assiste. “Comecei fazendo resumos e gostaram. Falamos a mesma língua”, avalia. A partir de canais como o dela, formam-se grupos de estudos entre gente que nunca se viu. “Acho a internet prática para estudar. Lá você tem autonomia e uma dinâmica descontraída”, frisa Eduardo Negrão, que brigará por uma vaga no curso de direito da Universidade de São Paulo (USP). Como tudo neste ano sem paralelos, o Enem também não será mais como antigamente.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s