EU ACHO …

COMO ME TORNEI EU MESMO

E a exposição pessoal? Vale um pouco dela para reforçar alguns aprendizados memoráveis, isto é, que podem ser lembrados por mim e, eventualmente, servir a outras pessoas.

Uma das coisas que sempre me perguntam é como entrei na área de Filosofia, como profissão, como professor, com gosto, prazer ou perturbação. É impossível pensar o mundo da Filosofia sem pensar o mundo dos livros, pois ele se dá basicamente no campo teórico. Nós trabalhamos com aquilo que a humanidade recolheu e refletiu sobre o que chamamos de pensamento filosófico. Por isso, é impossível separar os livros da Filosofia.

Para eu ter contato com o pensamento de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, preciso ter acesso àquilo que foi registrado por eles. Assim, meu encanto com a Filosofia surgiu com os livros.

Nasci em Londrina, no norte do Paraná, em 1954. Meu pai era bancário, um homem sem escolaridade completa; tinha só o que hoje se chama de ensino fundamental. Minha mãe era professora, formada na antiga escola normal, mas que deixou de ensinar quando se casou. Os dois se mudaram jovens para lá, numa época em que se “desbravava” aquela região. Como gerente do Banco Mercantil de São Paulo, meu pai tinha a tarefa de abrir agências no norte do Paraná. Vivemos em Londrina até meus 13 anos, em 1967.

Como é que a Filosofia entra nessa história? Em primeiro lugar, eu morava numa casa com pais escolarizados; logo, livros não eram estranhos ao nosso cotidiano. Segundo, meu pai era um autodidata – embora só tivesse o fundamental, teve uma carreira bem-sucedida e se aposentou como diretor do banco. Numa casa que sempre teve muitos livros, minha mãe incentivava a leitura. Comecei com gibis, que eu adorava, e aos poucos peguei gosto pelos livros. Tenho um débito muito grande com o grupo Abril, dos Civita, cujas publicações foram decisivas em três momentos da minha vida.

Quando eu tinha uns 5 anos, todos os domingos, eu saía de casa de mãos dadas com meu pai ou com minha mãe e íamos até uma banca de jornal que ficava atrás da igreja para comprar o “Patinho”, como eu chamava O Pato Donald, revista quinzenal que demorava para chegar em Londrina. Aprendi a ler com os gibis, e também com Monteiro Lobato. Não havia emissora de televisão e nem transmissão na minha época de garoto em Londrina. Durante o dia, ficava entre a escola e as brincadeiras com os amigos. À noite, antes de dormir, eu lia.

Com meus 10 anos, a Abril lançou uma enciclopédia chamada Conhecer, em fascículos quinzenais. Eu os colecionei, fascículo por fascículo, até somar os 12 volumes mais os três dicionários enciclopédicos. O último número daquele tempo saiu em 1969, trazendo o milésimo gol do Pelé. Quarenta anos depois, eu mantenho essa enciclopédia até hoje. Mas a questão é que eu não apenas comprava e colecionava, mas que eu lia tudo, verbete por verbete – o que gerou para mim uma cultura literalmente enciclopédica, em alguns momentos erudita, em outros pernóstica, uma vez que, com 12 anos, eu sabia que escaravelhos e outros besouros são coleópteros, chamava papagaio de psitacídeo, sabia que o nome científico da barata é periplaneta americana, que oplita era um soldado da infantaria pesada na Grécia Antiga, sabia o que era o Canal do Panamá, qual a capital da Tanzânia, os afluentes do Amazonas, o peso atômico do bário…

Essas informações acumuladas, ainda que superficiais, depois seriam fundamentais na minha vida, como aluno ou professor.

Em 1973, quando eu entrei na faculdade de Filosofia, já morando em São Paulo, a Abril lançou Os Pensadores, coleção de capa dura com textos dos principais filósofos. Na época, não havia nada parecido. Li toda a série, fascículo por fascículo. Foi assim que três publicações da Abril – O Pato Donald, Conhecer e Os Pensadores – formaram o assoalho sobre o qual construí um conhecimento que pode ser chamado de holístico.

Além disso, cultivei ao longo dos anos um hábito que meus amigos achavam muito estranho: eu lia dicionário. Começava a letra A em janeiro e lá pelo mês de setembro tinha chegado ao Z. Eu não lia para decorar. Apenas lia para ler. As informações ficavam adormecidas na memória, até o momento em que precisava acessar o estoque.

Às vezes era útil, às vezes não. Mas estava lá.

Da biblioteca de casa, tinha lido todos os infantis, dos irmãos Grimm a Monteiro Lobato, na época um autor proibido pela Igreja para católicos. Minha família era católica com bom senso. Para a Igreja, ele era identificado como comunista, algo que nunca foi. Mas, como ele era um nacionalista que defendia o petróleo, a Igreja associava uma coisa a outra e o tachava de comunista. Assim, livros como Reinações de Narizinho estavam no Index Librorum Prohibitorum.

Certamente a semente do gosto pela leitura sempre esteve comigo. Mas houve um fato que propiciou que ele se desenvolvesse – um fato que Darwin diria que foi fruto do acaso.

Aos 7 anos, eu era aluno do Grupo Escolar Hugo Simas, em Londrina, onde fui alfabetizado pela dona Mercedes. Nas férias de janeiro de 1961, meus pais decidiram visitar parentes que moravam no interior de São Paulo. Fomos de jipe. Na barreira que então separava os estados de São Paulo e Paraná, tive de ser vacinado contra hepatite. E, aí, eu peguei hepatite… Fui obrigado a ficar três meses de cama. O tratamento, na época, consistia em repouso absoluto (não podia levantar nem para tomar banho) acompanhado de duas injeções por dia e comida absolutamente sem sal.

Isso me levou a sonhar – e eu sonho até hoje – com a torta da Minie, aquelas tortas salgadas que ela fazia para o Mickey e colocava na janela para esfriar. Quando eu via aquilo nos gibis, salivava como um cão de Pavlov. Até hoje, quando vejo uma torta da Minie, eu salivo.

Para não enlouquecer nos três meses em que fiquei de cama, tinha três opções. A primeira era dormir bastante, o que eu não gostava. A segunda era ler, algo que eu já gostava devido aos gibis do Pato Donald – nessa época eu tinha um hábito de leitura que foi mantido até uns 20 anos de idade: eu colocava o gibi no chão e o lia deitado de bruços na cama, com a cabeça para fora. Mais tarde, como na evolução das espécies (no caso, a nossa), passei a ficar de pé para ler e, só depois, aprendi a sentar com o livro na mão.

A terceira opção para não enlouquecer era ouvir rádio. Ouvia novelas radiofônicas. Lembro até hoje da voz de Lima Duarte quando jovem. Ouvia as novelas O direito de nascer e Jerônimo, herói do sertão. Ouvia também as rádios Mairynk Veiga e a Nacional, ambas do Rio de Janeiro, transmitidas em ondas curtas. Ouvia um programa inesquecível para mim, o Balança mas não cai, com Paulo Gracindo e Brandão Filho. Também participava de alguns dos programas de rádio que havia em Londrina naquela época. Eu tinha um telefone ao lado da cama e então ligava para participar.

Além disso, lia jornais, inclusive a Folha de Londrina, que existe até hoje. Esse hábito devo a meu pai. Todos os dias, antes de sair de casa para o trabalho, ele deixava o jornal para mim e meu irmão mais novo, já falecido, e nos dizia: “Quando voltar, vou tomar o jornal” – tomar o jornal como quem toma a lição de casa. Assim, durante anos, ele tomou o jornal de mim e do meu irmão, perguntando o que tinha acontecido de mais importante em Londrina, no Rio de Janeiro, Brasília, a nova capital do país, os principais fatos no mundo. No começo, era odioso. Depois, se tornou um hábito, como tomar banho, escovar os dentes, fazer ginástica.

Então: durante a hepatite, além do rádio, havia gibi e jornal. Mas gibis e jornais são curtos e eu tinha muito tempo para preencher. Comecei a pedir emprestado os gibis da vizinhança. Em uma semana, já tinha consumido o estoque. Aí foi a vez de pedir emprestado os livros infantis – em um mês, todos os disponíveis estavam lidos. Como eu ainda tinha bastante tempo de cama, os vizinhos começaram a trazer seus outros livros – Irmãos Karamazov, El Cid, Dom Quixote, obras de Kafka. E eu fui lendo para passar o tempo, lendo sem entender nada, mas não tinha importância, eu me distraía com os clássicos da literatura. Ainda hoje, eu brinco dizendo que minha relação com a literatura é figadal, por causa da hepatite.

Mas o que isso tem a ver com a Filosofia?

Bem, para ser “filósofo”, é preciso gostar de ler, ter dedicação ao mundo das ideias, o que eu fazia desde os 7 anos. Agora vem a revelação de um desejo: à medida que fui crescendo, tinha uma intenção clara – servir a humanidade.

Eu tinha dois modos de fazê-lo. O primeiro era seguir a noção de honra, bravura e valor que aprendi com os Romanos, seja com a literatura latina ou com filmes do Cecil B. DeMille (Cleópatra era um deles). Quando criança, eu tinha escudo, elmo e espada, tudo de plástico mas igual a dos romanos. Uma das minhas brincadeiras preferidas era simular lutas no quintal de casa – na minha imaginação, eu fui um general romano durante anos e anos da minha infância. Isso também ajudou a que, mais tarde, eu tomasse gosto pelo estudo da História, para saber como foram realmente as coisas que eu gostava de imitar.

O segundo modo era servir a humanidade inspirado nas muitas leituras que eu fazia, sobretudo nas histórias de grandes homens, de grandes exemplos da humanidade, como o líder indiano Gandhi ou o médico e teólogo Albert Schweitzer.

Naquele momento, para mim, o melhor jeito de atingir minha meta era entrar no clero católico. Assim, aos 14 anos, decidi que iria me dedicar ao sacerdócio e exercer atividades missionárias. Meus pais, que tinham mais bom senso do que eu, não me deixaram entrar com 14 anos. Mas com 17 eu entrei. E fui para a Ordem Carmelitana Descalça, que me levou a ficar três anos em um convento.

Por que o clero foi para mim uma opção? No Brasil de 1973, quando entrei no clero e na universidade, nós estávamos vivendo uma ditadura. Eu morava em São Paulo e, antes de entrar na faculdade, estudava num colégio público, o Marina Cintra, localizado na rua da Consolação, perto da rua Maria Antônia, onde ficava a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e também, como até hoje, a Universidade Mackenzie (com parte dela no CCC, Comando de Caça aos Comunistas). Minha atuação política na época se dava no movimento secundarista e vivíamos nos confrontando com o pessoal do Mackenzie, universidade que admiro agora com alegria.

O clero foi uma escolha consciente em relação a uma experiência religiosa que eu queria adensar e aprofundar. Além disso, com suas missões, o clero proporcionava um trabalho social e, principalmente, oferecia a possibilidade de desenvolvimento do que eu entendia ser a minha tarefa na vida, a de auxiliar a humanidade. Na ditadura, a Igreja era a única entidade que atendia a todos os meus interesses.

O convento era um lugar enorme, com cerca de 100 quartos e 100 banheiros. Ali, na época, moravam seis pessoas, entre elas um de meus “professores”, o brilhante e fascinante irmão Demetrius. Com seus 70 anos, poliglota, fluente nos principais idiomas, vivos ou mortos – em suas conversas, misturava português, latim e italiano –, leitor voraz, ele tinha visto de perto duas guerras mundiais. Imagine o deslumbramento de um rapaz como eu poder conviver com uma pessoa com tanto conhecimento e experiência de vida.

No convento, meu quarto tinha um catre, uma pia, uma mesa, uma cadeira e um cabide para pendurar o hábito. Dormia cedo, acordava às 4 da manhã, ia à capela fazer as vésperas e voltava ao quarto. A rotina incluía rezas – às seis horas da manhã, ao meio-dia, quatro da tarde, oito da noite e também à meia-noite – e trabalho manual, como cozinhar, cuidar da roupa, limpar o convento, lavar banheiro.

Tudo era comunitário. O dinheiro que lá havia ficava numa caixa de sapatos. Quando ia ao cinema, pegava algumas notas, assistia ao filme e, na volta, depositava o troco na caixinha.

Ali, aprendi a viver com menos, a levar uma vida mais simples. Aprendi a respeitar a hierarquia e a ter disciplina, vivendo numa ditadura do relógio, pois a Igreja preza a divisão do tempo, com horários rígidos para acordar, rezar, fazer tarefas, dormir. Aprendi muito com o estudo, consolidei minha formação, aprendi idiomas. E, como não há como estudar Teologia sem estudar Filosofia, para alguém como eu, que não se cansa de ler, era um mundo próximo do ideal.

Quando terminei minha formação, após o curso de Filosofia, decidi não continuar no clero, embora me mantivesse firme em meu propósito de ajudar a humanidade.

O que eu poderia fazer? A Filosofia era uma paixão (com o tempo se converteu em amor). Adorava o mundo da Literatura, da História, do pensamento, adorava pensar o pensamento.

No clero, também aprendi a pregar, isto é, a falar em público, procurando convencer e ensinar. Assim, tornar-me professor me pareceu um caminho natural. Com o tempo, fui aprendendo a transformar o complexo em simples e a me expressar com o que eu chamo de uma “profunda superficialidade” nas minhas provocações filosóficas, na minha filosofia do cotidiano.

Formei-me no final de 1975 e, antes da diplomação, a faculdade na qual eu estudava convidou-me para assumir aulas de Ética Social no ano seguinte, e também para atuar como assistente do professor doutor Paulo Afonso Caruso Ronca.

Antes de completar 22 anos de idade, lá estava eu como professor universitário e, na sequência, no ano seguinte, também iniciei a docência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, lugar no qual me “exponho” até agora…

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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