EU ACHO …

COMO ME TORNEI EU MESMO

E a exposição pessoal? Vale um pouco dela para reforçar alguns aprendizados memoráveis, isto é, que podem ser lembrados por mim e, eventualmente, servir a outras pessoas.

Uma das coisas que sempre me perguntam é como entrei na área de Filosofia, como profissão, como professor, com gosto, prazer ou perturbação. É impossível pensar o mundo da Filosofia sem pensar o mundo dos livros, pois ele se dá basicamente no campo teórico. Nós trabalhamos com aquilo que a humanidade recolheu e refletiu sobre o que chamamos de pensamento filosófico. Por isso, é impossível separar os livros da Filosofia.

Para eu ter contato com o pensamento de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, preciso ter acesso àquilo que foi registrado por eles. Assim, meu encanto com a Filosofia surgiu com os livros.

Nasci em Londrina, no norte do Paraná, em 1954. Meu pai era bancário, um homem sem escolaridade completa; tinha só o que hoje se chama de ensino fundamental. Minha mãe era professora, formada na antiga escola normal, mas que deixou de ensinar quando se casou. Os dois se mudaram jovens para lá, numa época em que se “desbravava” aquela região. Como gerente do Banco Mercantil de São Paulo, meu pai tinha a tarefa de abrir agências no norte do Paraná. Vivemos em Londrina até meus 13 anos, em 1967.

Como é que a Filosofia entra nessa história? Em primeiro lugar, eu morava numa casa com pais escolarizados; logo, livros não eram estranhos ao nosso cotidiano. Segundo, meu pai era um autodidata – embora só tivesse o fundamental, teve uma carreira bem-sucedida e se aposentou como diretor do banco. Numa casa que sempre teve muitos livros, minha mãe incentivava a leitura. Comecei com gibis, que eu adorava, e aos poucos peguei gosto pelos livros. Tenho um débito muito grande com o grupo Abril, dos Civita, cujas publicações foram decisivas em três momentos da minha vida.

Quando eu tinha uns 5 anos, todos os domingos, eu saía de casa de mãos dadas com meu pai ou com minha mãe e íamos até uma banca de jornal que ficava atrás da igreja para comprar o “Patinho”, como eu chamava O Pato Donald, revista quinzenal que demorava para chegar em Londrina. Aprendi a ler com os gibis, e também com Monteiro Lobato. Não havia emissora de televisão e nem transmissão na minha época de garoto em Londrina. Durante o dia, ficava entre a escola e as brincadeiras com os amigos. À noite, antes de dormir, eu lia.

Com meus 10 anos, a Abril lançou uma enciclopédia chamada Conhecer, em fascículos quinzenais. Eu os colecionei, fascículo por fascículo, até somar os 12 volumes mais os três dicionários enciclopédicos. O último número daquele tempo saiu em 1969, trazendo o milésimo gol do Pelé. Quarenta anos depois, eu mantenho essa enciclopédia até hoje. Mas a questão é que eu não apenas comprava e colecionava, mas que eu lia tudo, verbete por verbete – o que gerou para mim uma cultura literalmente enciclopédica, em alguns momentos erudita, em outros pernóstica, uma vez que, com 12 anos, eu sabia que escaravelhos e outros besouros são coleópteros, chamava papagaio de psitacídeo, sabia que o nome científico da barata é periplaneta americana, que oplita era um soldado da infantaria pesada na Grécia Antiga, sabia o que era o Canal do Panamá, qual a capital da Tanzânia, os afluentes do Amazonas, o peso atômico do bário…

Essas informações acumuladas, ainda que superficiais, depois seriam fundamentais na minha vida, como aluno ou professor.

Em 1973, quando eu entrei na faculdade de Filosofia, já morando em São Paulo, a Abril lançou Os Pensadores, coleção de capa dura com textos dos principais filósofos. Na época, não havia nada parecido. Li toda a série, fascículo por fascículo. Foi assim que três publicações da Abril – O Pato Donald, Conhecer e Os Pensadores – formaram o assoalho sobre o qual construí um conhecimento que pode ser chamado de holístico.

Além disso, cultivei ao longo dos anos um hábito que meus amigos achavam muito estranho: eu lia dicionário. Começava a letra A em janeiro e lá pelo mês de setembro tinha chegado ao Z. Eu não lia para decorar. Apenas lia para ler. As informações ficavam adormecidas na memória, até o momento em que precisava acessar o estoque.

Às vezes era útil, às vezes não. Mas estava lá.

Da biblioteca de casa, tinha lido todos os infantis, dos irmãos Grimm a Monteiro Lobato, na época um autor proibido pela Igreja para católicos. Minha família era católica com bom senso. Para a Igreja, ele era identificado como comunista, algo que nunca foi. Mas, como ele era um nacionalista que defendia o petróleo, a Igreja associava uma coisa a outra e o tachava de comunista. Assim, livros como Reinações de Narizinho estavam no Index Librorum Prohibitorum.

Certamente a semente do gosto pela leitura sempre esteve comigo. Mas houve um fato que propiciou que ele se desenvolvesse – um fato que Darwin diria que foi fruto do acaso.

Aos 7 anos, eu era aluno do Grupo Escolar Hugo Simas, em Londrina, onde fui alfabetizado pela dona Mercedes. Nas férias de janeiro de 1961, meus pais decidiram visitar parentes que moravam no interior de São Paulo. Fomos de jipe. Na barreira que então separava os estados de São Paulo e Paraná, tive de ser vacinado contra hepatite. E, aí, eu peguei hepatite… Fui obrigado a ficar três meses de cama. O tratamento, na época, consistia em repouso absoluto (não podia levantar nem para tomar banho) acompanhado de duas injeções por dia e comida absolutamente sem sal.

Isso me levou a sonhar – e eu sonho até hoje – com a torta da Minie, aquelas tortas salgadas que ela fazia para o Mickey e colocava na janela para esfriar. Quando eu via aquilo nos gibis, salivava como um cão de Pavlov. Até hoje, quando vejo uma torta da Minie, eu salivo.

Para não enlouquecer nos três meses em que fiquei de cama, tinha três opções. A primeira era dormir bastante, o que eu não gostava. A segunda era ler, algo que eu já gostava devido aos gibis do Pato Donald – nessa época eu tinha um hábito de leitura que foi mantido até uns 20 anos de idade: eu colocava o gibi no chão e o lia deitado de bruços na cama, com a cabeça para fora. Mais tarde, como na evolução das espécies (no caso, a nossa), passei a ficar de pé para ler e, só depois, aprendi a sentar com o livro na mão.

A terceira opção para não enlouquecer era ouvir rádio. Ouvia novelas radiofônicas. Lembro até hoje da voz de Lima Duarte quando jovem. Ouvia as novelas O direito de nascer e Jerônimo, herói do sertão. Ouvia também as rádios Mairynk Veiga e a Nacional, ambas do Rio de Janeiro, transmitidas em ondas curtas. Ouvia um programa inesquecível para mim, o Balança mas não cai, com Paulo Gracindo e Brandão Filho. Também participava de alguns dos programas de rádio que havia em Londrina naquela época. Eu tinha um telefone ao lado da cama e então ligava para participar.

Além disso, lia jornais, inclusive a Folha de Londrina, que existe até hoje. Esse hábito devo a meu pai. Todos os dias, antes de sair de casa para o trabalho, ele deixava o jornal para mim e meu irmão mais novo, já falecido, e nos dizia: “Quando voltar, vou tomar o jornal” – tomar o jornal como quem toma a lição de casa. Assim, durante anos, ele tomou o jornal de mim e do meu irmão, perguntando o que tinha acontecido de mais importante em Londrina, no Rio de Janeiro, Brasília, a nova capital do país, os principais fatos no mundo. No começo, era odioso. Depois, se tornou um hábito, como tomar banho, escovar os dentes, fazer ginástica.

Então: durante a hepatite, além do rádio, havia gibi e jornal. Mas gibis e jornais são curtos e eu tinha muito tempo para preencher. Comecei a pedir emprestado os gibis da vizinhança. Em uma semana, já tinha consumido o estoque. Aí foi a vez de pedir emprestado os livros infantis – em um mês, todos os disponíveis estavam lidos. Como eu ainda tinha bastante tempo de cama, os vizinhos começaram a trazer seus outros livros – Irmãos Karamazov, El Cid, Dom Quixote, obras de Kafka. E eu fui lendo para passar o tempo, lendo sem entender nada, mas não tinha importância, eu me distraía com os clássicos da literatura. Ainda hoje, eu brinco dizendo que minha relação com a literatura é figadal, por causa da hepatite.

Mas o que isso tem a ver com a Filosofia?

Bem, para ser “filósofo”, é preciso gostar de ler, ter dedicação ao mundo das ideias, o que eu fazia desde os 7 anos. Agora vem a revelação de um desejo: à medida que fui crescendo, tinha uma intenção clara – servir a humanidade.

Eu tinha dois modos de fazê-lo. O primeiro era seguir a noção de honra, bravura e valor que aprendi com os Romanos, seja com a literatura latina ou com filmes do Cecil B. DeMille (Cleópatra era um deles). Quando criança, eu tinha escudo, elmo e espada, tudo de plástico mas igual a dos romanos. Uma das minhas brincadeiras preferidas era simular lutas no quintal de casa – na minha imaginação, eu fui um general romano durante anos e anos da minha infância. Isso também ajudou a que, mais tarde, eu tomasse gosto pelo estudo da História, para saber como foram realmente as coisas que eu gostava de imitar.

O segundo modo era servir a humanidade inspirado nas muitas leituras que eu fazia, sobretudo nas histórias de grandes homens, de grandes exemplos da humanidade, como o líder indiano Gandhi ou o médico e teólogo Albert Schweitzer.

Naquele momento, para mim, o melhor jeito de atingir minha meta era entrar no clero católico. Assim, aos 14 anos, decidi que iria me dedicar ao sacerdócio e exercer atividades missionárias. Meus pais, que tinham mais bom senso do que eu, não me deixaram entrar com 14 anos. Mas com 17 eu entrei. E fui para a Ordem Carmelitana Descalça, que me levou a ficar três anos em um convento.

Por que o clero foi para mim uma opção? No Brasil de 1973, quando entrei no clero e na universidade, nós estávamos vivendo uma ditadura. Eu morava em São Paulo e, antes de entrar na faculdade, estudava num colégio público, o Marina Cintra, localizado na rua da Consolação, perto da rua Maria Antônia, onde ficava a Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e também, como até hoje, a Universidade Mackenzie (com parte dela no CCC, Comando de Caça aos Comunistas). Minha atuação política na época se dava no movimento secundarista e vivíamos nos confrontando com o pessoal do Mackenzie, universidade que admiro agora com alegria.

O clero foi uma escolha consciente em relação a uma experiência religiosa que eu queria adensar e aprofundar. Além disso, com suas missões, o clero proporcionava um trabalho social e, principalmente, oferecia a possibilidade de desenvolvimento do que eu entendia ser a minha tarefa na vida, a de auxiliar a humanidade. Na ditadura, a Igreja era a única entidade que atendia a todos os meus interesses.

O convento era um lugar enorme, com cerca de 100 quartos e 100 banheiros. Ali, na época, moravam seis pessoas, entre elas um de meus “professores”, o brilhante e fascinante irmão Demetrius. Com seus 70 anos, poliglota, fluente nos principais idiomas, vivos ou mortos – em suas conversas, misturava português, latim e italiano –, leitor voraz, ele tinha visto de perto duas guerras mundiais. Imagine o deslumbramento de um rapaz como eu poder conviver com uma pessoa com tanto conhecimento e experiência de vida.

No convento, meu quarto tinha um catre, uma pia, uma mesa, uma cadeira e um cabide para pendurar o hábito. Dormia cedo, acordava às 4 da manhã, ia à capela fazer as vésperas e voltava ao quarto. A rotina incluía rezas – às seis horas da manhã, ao meio-dia, quatro da tarde, oito da noite e também à meia-noite – e trabalho manual, como cozinhar, cuidar da roupa, limpar o convento, lavar banheiro.

Tudo era comunitário. O dinheiro que lá havia ficava numa caixa de sapatos. Quando ia ao cinema, pegava algumas notas, assistia ao filme e, na volta, depositava o troco na caixinha.

Ali, aprendi a viver com menos, a levar uma vida mais simples. Aprendi a respeitar a hierarquia e a ter disciplina, vivendo numa ditadura do relógio, pois a Igreja preza a divisão do tempo, com horários rígidos para acordar, rezar, fazer tarefas, dormir. Aprendi muito com o estudo, consolidei minha formação, aprendi idiomas. E, como não há como estudar Teologia sem estudar Filosofia, para alguém como eu, que não se cansa de ler, era um mundo próximo do ideal.

Quando terminei minha formação, após o curso de Filosofia, decidi não continuar no clero, embora me mantivesse firme em meu propósito de ajudar a humanidade.

O que eu poderia fazer? A Filosofia era uma paixão (com o tempo se converteu em amor). Adorava o mundo da Literatura, da História, do pensamento, adorava pensar o pensamento.

No clero, também aprendi a pregar, isto é, a falar em público, procurando convencer e ensinar. Assim, tornar-me professor me pareceu um caminho natural. Com o tempo, fui aprendendo a transformar o complexo em simples e a me expressar com o que eu chamo de uma “profunda superficialidade” nas minhas provocações filosóficas, na minha filosofia do cotidiano.

Formei-me no final de 1975 e, antes da diplomação, a faculdade na qual eu estudava convidou-me para assumir aulas de Ética Social no ano seguinte, e também para atuar como assistente do professor doutor Paulo Afonso Caruso Ronca.

Antes de completar 22 anos de idade, lá estava eu como professor universitário e, na sequência, no ano seguinte, também iniciei a docência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, lugar no qual me “exponho” até agora…

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

ELES TÊM A RESPOSTA

Em pleno ano pandêmico, a turma que se prepara para o Enem cavucou a internet e encontrou ali aulas oferecidas de graça por mestres do mais alto nível

Não existe momento mais cercado de tensão na vida de um estudante brasileiro do que aquele em que precisa enfrentar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), passaporte de entrada para a imensa maioria das universidades. A próxima edição contém tudo de atípico que um ano pandêmico pode reservar: a data ficou por alguns meses em suspenso, até se cravar os dias 17 e 24 de janeiro, e as aulas seguem para grande parte da turma na modalidade on-line, com as lacunas já conhecidas que ela embute. Diante de tanto sacolejo, os 6 milhões de jovens que passarão pelo temido teste estão se adaptando como podem, o que abrange navegar por conta própria e desencavar caminhos para suprir a falta que um bom professor frente a frente faz. E assim muita gente foi explorar as redes, sempre elas, e ali encontrou mestres inspiradores e divertidos para todos os gostos.

Uma boa régua para medir o tamanho dessa multidão de alunos que partiu em busca de reforço na internet é a audiência nos canais de educação do YouTube, onde floresce um time de professores capaz de arrastar numerosas plateias para as salas de aulas virtuais. De março a agosto, a procura cresceu quase 40%, em média por mês, e o total de inscritos bateu os 80 milhões, um recorde. Tivemos acesso à lista dos dez canais de educação brasileiros mais acessados na plataforma, um grupo que acolhe vários estilos – entre os discretos e os mais dados a um show. Em comum, oferecem uma linguagem direta, afeita às redes, transmitindo com notável entusiasmo um certo ponto da matéria em quinze, vinte minutos. “Esse é o período em que a janela de atenção está aberta e o aluno, assimilando. Mais do que isso, começa a ser contraproducente”, ensina o mestre dos mestres em lições on-line, o matemático americano Salman Khan, o mais visto em todo o planeta. O público aprecia a concisão, fator que, em meio ao mundaréu de tópicos a vencer até o exame, dá um tremendo alívio. “Além disso, posso pausar e voltar mil vezes se não entendi alguma coisa, possibilidade que não tenho nas aulas em tempo real da escola”, explica Bruna Torezim, 17 anos, que quer ser psicóloga.

No topo do ranking, com respeitosos 3 milhões de fiéis inscritos, está o curitibano Noslen Borges, 41 anos, professor de português e redação, que encara pedreiras como a lógica das frases e análise sintática. E bota imaginação aí para despertar a atenção, aferida pela alta participação da garotada que o acompanha. Valem paródias para memorizar o impossível e canções de sucesso para ensinar figuras de linguagem. Como seus colegas de plataforma, apenas recentemente ele conquistou desenvoltura com as câmeras, depois de três anos na web, apesar de ser velho de guerra nos cursinhos pré-vestibular. Trabalhava ao mesmo tempo em sete instituições, entre cursinhos e escolas, até que, premido pela agenda excessiva, resolveu se arriscar em carreira-solo na internet. Já ouvira falar que podia dar dinheiro e bons frutos acadêmicos. “Notava antes que muitos de meus alunos olhavam mais para o celular do que para o professor. Decidi então levar minha presença para dentro do aparelho, falando o idioma deles”, diz. A conversão para a internet exigiu desses docentes um ajuste completo – desde o jeito de ensinar à destreza com a tecnologia. Em 2011, o biólogo Paulo Jubilut, 39 anos, havia perdido o emprego em um cursinho de Florianópolis e, com uma webcam, decidiu gravar aulas no improviso. Foi aos poucos melhorando e acabou montando um estúdio. “Ninguém acreditava que eu poderia tornar essas aulas rentáveis. Falavam que eu estava maluco em apostar tempo e dinheiro nisso”, conta Jubilut, que, como oito dos dez campeões em audiência ouvidos pela reportagem, saltou de estágio nos negócios: além das lições gratuitas no YouTube, onde fatura com anúncios, ele fundou uma plataforma em que cobra mensalidade para fornecer planos de estudo e correção de exercícios. Mesmo tendo atingido esse patamar, nenhum deles abre mão dos sites nos quais deslancharam – afinal, são uma vitrine. Tanto assim que Rafael Procópio, 37 anos, quinto no ranking nacional ensinando matemática, um dia recebeu um improvável telefonema, direto do Vaticano. “Fui convidado para discutir o futuro da educação com gente do mundo todo, com o papa Francisco em pessoa”, orgulha-se ele, que trata de operações complexas em ritmo de funk.

Com a profusão de conteúdo educacional na rede – só no YouTube são 450 canais -, evidentemente nem tudo possui a mesma qualidade: é preciso, portanto, garimpar. “Temos investido na casa de bilhões de dólares para criar um ecossistema confiável e variado, procurando cada vez mais a interação com as escolas”, disse Katie Kurtz, diretora mundial de conteúdo e educação do YouTube. A aproximação da internet com a sala de aula tradicional faz parte de um movimento maior e inescapável – o híbrido entre ensino presencial e remoto. “A escola que brigar contra a tecnologia estará condenando a si própria”, resume Ronaldo Mota, ex-secretário de Educação à Distância do MEC. Aos 31 anos, a carioca Pamella Brandão tem um olhar afiado sobre esses dois mundos: ela já foi coordenadora pedagógica de um dos maiores cursinhos de São Paulo e agora ensina nas redes. “É um ganho para o aluno adiantar a vida assistindo a aulas gravadas e usar a escola para debater e tirar dúvidas”, opina a professora de redação, trilhando a linha que Khan e outros especialistas mundo afora defendem – com uma ponderação: a fusão dos dois universos deve ser muito bem orquestrada.

Os dez mestres ouvidos, altamente calejados em Errem, enfatizam que trata-se de uma maratona, e não de uma corrida de 100 metros, que exige muito treino e controle do ritmo para a boa resolução da prova. Perder tempo demais com uma questão difícil, por exemplo, pode comprometer o andamento geral. Caçula na lista dos mestres de audiência, a mineira Débora Aladim, 22 anos e 2,7 milhões de seguidores, ainda nem se formou em história, mas tem como trunfo a conexão, com o perdão do trocadilho, com a turma que a assiste. “Comecei fazendo resumos e gostaram. Falamos a mesma língua”, avalia. A partir de canais como o dela, formam-se grupos de estudos entre gente que nunca se viu. “Acho a internet prática para estudar. Lá você tem autonomia e uma dinâmica descontraída”, frisa Eduardo Negrão, que brigará por uma vaga no curso de direito da Universidade de São Paulo (USP). Como tudo neste ano sem paralelos, o Enem também não será mais como antigamente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE OUTUBRO

O PERIGO DE PERDER O FOCO

… mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo… (Filipenses 3.13b, 14a).

O apóstolo Paulo disse aos crentes de Filipos que estava inteiramente comprometido com o projeto de Deus em sua vida. Tinha um alvo e para ele avançava. Somos como um corredor de olimpíada. Não podemos distrair-nos com os aplausos ou as vaias da plateia. Precisamos manter os olhos fixos no alvo. Um dia, os inimigos de Jerusalém, que se opunham à reconstrução da cidade de Davi, convidaram Neemias, o governador, para assentar-se à mesa com eles. Queriam distrair Neemias e paralisar a obra, mas Neemias respondeu que estava realizando uma grande obra e não podia parar. Neemias não gastou tempo discutindo com os inimigos; ele investiu todo o tempo na obra. Não perdeu o foco. Certo dia, Davi chegou ao campo de guerra, e os soldados de Saul estavam fugindo de Golias. O jovem pastor resolveu enfrentar o temido gigante. Seu irmão mais velho teceu-lhes amargas críticas. Davi, porém, não perdeu tempo com o irmão. Afastou-se dele e continuou firme em seu propósito de vencer o gigante. Davi não perdeu o foco. Os discípulos de Jesus certa feita foram abordados por um pai aflito, cujo filho estava possesso por uma casta de demônios. Esse pai rogou aos discípulos que o curassem, mas eles não puderam. Não puderam porque estavam discutindo com os escribas, os inimigos de Jesus. Em vez de fazerem a obra, estavam discutindo a obra. Por terem perdido o foco, provocaram decepção num pai aflito e grande tristeza em Jesus.

GESTÃO E CARREIRA

DE FORTALEZA PARA O MUNDO

Companhia cearense M. Dias Branco quer conquistar espaço no exterior, com a montagem de fábrica ou a aquisição de alguma empresa já consolidada

A cearense M. Dias Branco sabe bem do seu tamanho e do que ainda pode crescer. No Brasil, a companhia de massas e biscoitos lidera a presença no mercado, com pouco mais de um terço de participação e com crescimento quatro vezes superior à média do setor. Isso, no entanto, não é razão para que a empresa criada em 1953 por Francisco Ivens de Sá Dias Branco (que morreu em 2016), filho do padeiro português Manuel Dias Branco, se acomode. Pelo contrário. O objetivo é claro: conquistar espaço no exterior, com a montagem de fábrica ou compra de empresa já consolidada.

Do total de R$ 1,89 bilhão da receita líquida registrada no segundo trimestre, que representou alta de 22,2% sobre o mesmo período de 2019, as exportações significaram 2%. E os planos da empresa de Fortaleza, segundo o vice-presidente de Investimentos e Controladoria da M. Dias Branco, Gustavo Theodozio, é de aumentar em três pontos percentuais até 2022 para, a partir daí, conquistar o mundo. “Temos grande capacidade para ser um importante player global”, afirmou o executivo.

O caminho para chegar aos Estados Unidos e à União Europeia, os principais mercados no alvo, passa pela América do Sul, principalmente por causa da enorme desvalorização do real frente ao dólar. “Há grandes empresas na América Latina que podem ser parceiras de negócios. Depois o caminho natural é Estados Unidos e Europa”, disse Theodozio. Com exceção da Oceania, os produtos da M. Dias Branco estão presentes em 37 países, com volume maior na América Latina. Hoje a empresa tem 15 unidades industriais, entre fábricas de massas, biscoitos, margarinas e moinhos, e 17,5 mil funcionários.

A perspectiva de crescimento financeiro e geográfico está fincada no bom fôlego financeiro da companhia, principalmente no montante de R$ 1,4 bilhão em caixa e na baixa alavancagem, de 0,4 o endividamento em relação ao Ebitda. Um indicador desse reflete na nota AAA (bra), atribuída em setembro pela agência de análise de risco Fitch Ratings.

Com isso, a companhia pretende expandir algumas de suas 19 marcas pelo Brasil. Cinco delas, incluindo as massas Vitarella, com presença forte em Pernambuco, a Adria, com grande atuação em São Paulo, e a Piraquê, no Rio de Janeiro, serão nacionalizadas. Com uma fábrica no exterior, a previsão é de que esses itens sejam produzidos fora e conduzam o processo de internacionalização. Ainda que não revele o nome, Gustavo Theodozio reconhece que a M. Dias Branco também planeja aquisição de companhias do segmento no Brasil.

A mais recente delas, a compra da Piraquê, em 2018, mostrou-se certeira, com bons resultados na receita da empresa. Logo que chegou ao portfólio da M. Dias Branco, respondia por 7% do faturamento. Hoje, passa de 10%. O ponto alto para a compra foi a possibilidade de redução de custos. “Na conta, consideramos a sinergia de todos os departamentos, logística de distribuição e produção. Além disso, analisamos o potencial de crescimento, que já começa a se consolidar”, afirmou Theodozio.

Nos primeiros seis meses de 2020, a empresa cresceu. Foram comercializados no semestre 291,3 mil toneladas de biscoitos e 234,6 mil toneladas de massas (totalizando 525,9 mil toneladas), alta de 19,1% em biscoitos e 32,7% em massas em comparação ao resultado do primeiro semestre de 2019. Entre maio e junho, o lucro líquido saltou de R$ 100,6 milhões no segundo trimestre do ano passado para atuais R$ 152,4 milhões, alta de 51,5%. No semestre, o resultado foi ainda melhor. Entre janeiro e junho deste ano, a alta na receita foi de 23,2% e, no lucro líquido, alcançou 83,7% de crescimento. A M. Dias Branco fechou 2019 com marketshare de 32% em biscoitos. Após seis meses, o percentual subiu para 34,5%. No caso de massas, saltou de 32,2% para 34,9%.

Para seguir crescendo, justamente em um momento de retomada da indústria brasileira a partir da crise econômica, por causa da pandemia da Covid-19, a M. Dias Branco planeja investir. O objetivo é fechar com aportes de R$ 250 milhões em compras de equipamentos, ações tecnológicas e incentivos a programas de aceleração de startups. “A tendência é de que mesmo no cenário pós-Covid, a M. Dias Branco continue com crescimento forte”, disse Theodozio. Quando o assunto é massa e biscoito, a crise ficou longe do Ceará.

AS MELHORES

1. M. DIAS BRANCO 379,80 PONTOS

2. SANTA CLARA 370,45 PONTOS

3. AURORA 353,60 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

VAMOS FALAR SOBRE AUTISMO?

No Brasil, estima-se que haja dois milhões de casos de TEA (Transtorno do Espectro Autista), com números baseados em pesquisas internacionais. E essa taxa tende a crescer, não em função da quantidade de casos, mas pela eficiência com que os diagnósticos vêm sendo feitos. Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, uma em cada 68 crianças de oito anos de idade possui o transtorno. O resultado da pesquisa foi divulgado já tem quase cinco anos e representava um aumento de 30% em relação 2008, quando a prevalência era de uma criança a cada 88 pessoas – ou seja, se reavaliado, hoje esse número deve ser ainda mais expressivo. No entanto, um dos motivos que ainda continua dificultando o progresso em desvendar o autismo é a falta de conhecimento da grande maioria da população ainda que haja curiosidade e necessidade de conhecê-lo. Para sanar todas assuas dúvidas de maneira correta e sem equívocos, demos o passo inicial cedemos ao transtorno a devida atenção e reunimos nos próximos posts as melhores matérias já publicadas com repostas para as mais diversas perguntas relacionadas ao tema. Afinal, como definir o transtorno? De que maneira é feito o seu diagnóstico e quais são os principais níveis do problema? É possível identificá-lo em casa, nas brincadeiras comuns do dia a dia? A criança autista vai poder conviver normalmente com o restante da família? Existem formas de estimulá-la? O que há de mais avançado nas pesquisas sobre o assunto? Para responder a essas questões e buscar outras temáticas relacionadas, consultamos não só especialistas, mas entramos em contato com quem está inserido nesse contexto, ou seja, os familiares que convivem com os autistas. Eles revelaram não só os desafios, os medos, mas também suas motivações e as conquistas que batalham dia após dia. Convidamos você a fazer o exercício tão importante da empatia, de se colocar no lugar daqueles que reconhecem a necessidade de entender o TEA, a fim de tornar o mundo um lugar muito melhor e cada vez menos hostil para essas pessoas, permitindo a participação e inclusão plena dos indivíduos com autismo na sociedade. Para isso, é necessário dar a eles a mesma oportunidade, só assim será possível empoderá-los como seres humanos diversos e capazes que são.