EU ACHO …

A SOCIEDADE DA EXPOSIÇÃO

Por falar em diferenças e igualdades, o fato de vivermos em metrópoles – em cidades altamente povoadas, com elevada densidade demográfica, onde a convivência se dá em aglomerados imensos – cria automaticamente uma situação de anonimato para seus habitantes.

Pela simples expressão numérica, por ser um entre milhões, todo cidadão se torna anônimo, sem identidade, invisível. O filósofo irlandês George Berkeley disse um dia que “ser é ser percebido”. Ou seja, se não é percebido, não existe. Berkeley não estava falando apenas de pessoas, mas de tudo o que existe. Uma estrela, um planeta, uma galáxia, se nós não os conhecemos, não os percebemos; logo, eles não existem para nós – e só passam a ter existência quando são notados. Isso vale para uma sociedade “galáctica” como a nossa – e não é galáctica pelo número de estrelas que contém, mas pelo número de pessoas que querem ser estrelas para poder brilhar.

Não é casual que vivamos afirmando que “gente foi feita para brilhar”. O brilho pessoal é uma concepção da modernidade, pois, na Ásia antiga ou mesmo no mundo medieval europeu, o que prevalecia era o culto ao anonimato, ao silêncio, a prática do silêncio e da meditação. Isso ficou para trás.

Hoje a modernidade transformou o ruído numa forma de expressão – a tal ponto que nossa expressão de vida tem de ser ruidosa. Para serem notadas, para ganharem existência, as pessoas vivem em função de apelos como “eis-me aqui”, “olhem para mim”. É aquilo que Guimarães Rosa um dia chamou de “viver em voz alta”. Isso contraria os modismos orientais que vira e mexe são abraçados por um segmento da classe média que tenta negar o ruído com o silêncio e a meditação, práticas hinduístas, chinesas, asiáticas de maneira geral.

“Ouvir é ouro e falar é prata”, eis um ditado que não faz mais sentido para a sociedade moderna. Hoje é o contrário. Eu preciso falar, e preciso fazê-lo em voz alta para que me notem. Viver no formigueiro é viver num anonimato que me conduz ao esquecimento. Daí vem a inconformidade em relação ao silêncio, a necessidade de exposição para passar a existir e brilhar.

Esse brilho, no entanto, é menos o brilho duradouro de uma estrela e mais o brilho passageiro de um cometa – num trocadilho, o brilho célere da celebridade, o brilho instantâneo.

No século 17, Blaise Pascal disse, ao olhar para o céu, uma frase que gosto demais: “O silêncio desses espaços infinitos me apavora”. Talvez o maior pavor moderno hoje seja o silêncio – não apenas o silêncio como a ausência de ruído, mas o silenciar sobre mim. Por isso, a obsessão por comunicação, uma comunicação regida pela celeridade, pela celebridade, uma comunicação do “cá estou”, do “fale comigo” seja como e onde for – no celular, no SMS, Orkut, no Facebook, no Twitter.

Se não retornam, eu entro em depressão. Tendo em vista o tamanho da rede de comunicação na internet, muitas vezes criar um blog equivale a jogar uma garrafa no oceano, à esperança do náufrago de que algum dia alguém encontre a garrafa.

É o grito dos desesperados.

Na oração cristã Salve, Rainha, diz-se que “a vós bradamos os degradados, filhos de Eva; a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. O vale é lugar baixo em que vivemos, embora desejemos o alto da montanha, onde o sol bate. O vale é frio e sombrio na maior parte do tempo.

Não é à toa a noção de que o mundo inferior – inferos, em latim, de onde vem a palavra inferno – é o reino das sombras. Nós não queremos o inferior, e sim o superior.

Uma das características da modernidade foi trazer à tona o culto a homens que conseguiram chegar aonde ninguém jamais esteve. Reverenciamos quem atingiu o pico do Everest, do Aconcágua, quem venceu o Himalaia ou chegou ao Polo Norte, ao Polo Sul, à cabeceira do Nilo, mesmo que à custa da morte. Mas tudo isso já foi conquistado no passado. Então era preciso ir além. Assim, no século 20, e mais ainda no 21, o desafio foi e ainda é chegar aonde ninguém mais chegou enquanto riqueza, admiração, exposição.

Em latim, há um sufixo – o peni – que apavora o homem moderno. Peni quer dizer quase. Penúltimo é o quase último, península é a quase ilha e, a que eu mais gosto, penumbra é a quase sombra.

O homem moderno se desespera em ser quase, em quase ser – quase conhecido, quase famoso, quase feliz. O “quase” leva ao desespero. O homem quer escapar da penumbra da caverna e chegar ao sol, à exposição da luz. Hoje, no entanto, toda a lógica disso passa pelo “olhe, estou aqui, preste atenção em mim”.

A velha frase de Greta Garbo I wanna to be alone, o seu desejo de não ser mais vista, ao contrário do que imagina, inaugura a era da exposição moderna. Isso porque uma mulher com a fama de Greta Garbo – uma mulher que construiu sua fama com a beleza que deixou de ter ao envelhecer –, quando diz “eu quero ficar só”, na verdade está dizendo “não me esqueçam, prestem atenção em mim”.

Isso é o esconder para ser procurado. Isso só faz quem quer estar em evidência. Aquele que quer ficar quieto no seu canto não constrói uma vida de exposição.

Se você quer o anonimato, seja anônimo – e não se torne célebre para depois dizer que quer o anonimato. Apesar disso, não é difícil entender a postura de Greta Garbo. Brigitte Bardot, por exemplo, não se escondeu, manteve a exposição. E assim, aos poucos, foi sendo esquecida como a Brigitte Bardot deslumbrante, o símbolo sexual que mereceu estátua em Búzios. Foi esquecida até como a mulher idosa que é hoje, pois muitos não sabem quem ela foi ou é, assim como muitos que a conheceram dos filmes não sabem dizer se está viva ou não.

Assim, para não serem esquecidas, as pessoas fazem música, escrevem livro, tatuam o corpo, participam de comunidades virtuais, mergulham no Twitter, criam blogs. O que é manter um diário senão o desespero contínuo, o pedido silencioso e desesperado para que alguém o leia?

Ninguém, em sã consciência, faz um diário para si mesmo – isso seria um exercício psicopata.

O grande desejo de quem faz um diário é ser lido. O diário fica escondido apenas para aumentar a emoção, para atribuir mais valor ao que será alcançado. Nenhum de nós faz um diário, escreve poemas, pinta quadros, para que sejam esquecidos. Quem faz para ser esquecido tem problemas mentais, como Van Gogh, um louco que queimou boa parte de sua produção. Antes de ser um artista genial em sua arte, ele era um doente.

Insisto: ninguém faz um diário para ser mantido fechado, assim como ninguém produz nada para ser esquecido.

A caixa de Pandora, que guardava todos os males que poderiam afligir a humanidade, só se tornou um dos mitos mais importantes do Ocidente porque foi aberta. Se continuasse fechada, sem que ninguém visse seu conteúdo, não haveria mito algum.

Na sociedade da exposição e do espetáculo, ver e ser visto é fundamental. O velho ditado “diz-me com quem andas e te direi quem és” ressurge com força. Estar em boa companhia qualifica o acompanhante – até por isso, as pessoas gostam de ir a bares e outros lugares da moda, onde vão artistas e celebridades. Estar cercado de estrelas, de pessoas que brilham, tira o anônimo das sombras, diminui seu pavor da penumbra.

Esse pavor, aliás, está muito bem retratado em Alice no país das maravilhas, livro de Lewis Caroll. Alice cai num buraco escuro que a leva a outro mundo, do qual ela tenta desesperadamente voltar. Ela precisa voltar à luz, pois isso significa mostrar-se. Em outro livro, Caroll coloca Alice atrás do espelho. Na nossa sociedade, nós também temos pavor de ficar atrás do espelho, pois, nas histórias infantis, quem fica ali é a bruxa. Queremos ficar na frente, ter nossa imagem refletida. Por isso, inclusive, quebrar espelho traz má sorte – se quebro o espelho, como terei a minha imagem? E a minha exposição, onde fica?

OUTROS OLHARES

TIJOLOS MÁGICOS

A crise do novo coronavírus fez bem para a Lego. Com mais tempo em casa, pais e filhos voltaram a se divertir juntos – e as vendas das peças de encaixar dispararam

A pacata cidade dinamarquesa de Billund, atualmente com pouco mais de 6.000 habitantes, assistiu em 1932 ao nascimento de um mundo mágico. Naquele ano, o carpinteiro Ole Kirk Christiansen, insatisfeito com as vendas de sua loja de móveis e ansioso para proporcionar alguma diversão ao filho, decidiu se aventurar no ramo dos brinquedos. Christiansen começou de forma artesanal, com animais de madeira. Dois anos depois, a empresa ganhou um nome – a junção das palavras legegodt, cujo significado é “brincar bem” no idioma local – e, no fim da década de 40, veio a revolução: a Lego começou a produzir tijolos de plástico, duradouros e encaixáveis uns nos outros, abrindo infinitas possibilidades para a imaginação de crianças e adultos.

A brincadeira ficou séria e levou a empresa familiar à consagração internacional. Eleitos o brinquedo do século XX pela revista americana Fortune, os tijolinhos ainda hoje constroem sonhos e foram capazes até mesmo de driblar a crise do novo coronavírus. A marca, na verdade, viu no cenário uma oportunidade. Com pais e filhos obrigados a permanecer em casa, velhas diversões – mais lúdicas e socializáveis do que tablets ou videogames – se tornaram uma alternativa. Fenômeno semelhante ocorreu com os quebra­ cabeças, cujas vendas em 2020 triplicaram, de acordo com a Ri Happy, a maior loja de brinquedos do país.

Os alicerces sólidos fizeram com que o Grupo Lego obtivesse no primeiro semestre de 2020 um dos melhores resultados de sua história. As vendas aumentaram 14% em relação ao mesmo período de 2019, enquanto o lucro avançou 11%. Distribuidor oficial da Lego no Brasil, o Grupo MCassab informou que o país acompanhou um “crescimento de dois dígitos”, acima do esperado para o ano. Seu mais recente lançamento, a linha Super Mario, está se esgotando. “Notamos os benefícios de nossos investimentos em iniciativas de longo prazo, como e-commerce e a inovação de produtos”, disse o CEO da Lego, Niels Christiansen.

O caminho, porém, foi tortuoso. A pandemia levou ao fechamento por alguns meses de duas das cinco grandes fábricas da marca no mundo, no México e na China, o que obrigou os varejistas a recorrer ao estoque existente para atender à demanda. O mercado asiático foi fundamental: o lançamento do conjunto Monkey Kid, inspirado em uma lenda chinesa, obteve grande sucesso no país da Muralha, que deverá ganhar oitenta lojas oficiais da Lego ainda em 2020.

O novo coronavírus forçou a marca a acelerar planos que demorariam de dois a três anos para ser implementados. O número de visitantes do site dobrou para 100 milhões no primeiro semestre. Ao contrário das concorrentes Mattel e Hasbro, que relataram perdas operacionais e puseram a culpa no fechamento de lojas e problemas com distribuição e estoque, a Lego conseguiu garantir as entregas on­line ao reforçar parcerias no varejo. De acordo com um estudo da consultoria britânica Brand Finance, a pandemia deve reduzir o valor de mercado das empresas do setor de brinquedos em até 20%, um prejuízo calculado em 3 bilhões de dólares. A Lego, no entanto, deve seguir como líder mundial, com queda de apenas 3%.

O gigante dinamarquês repetiu em 2020 a notável capacidade de se reerguer – e fez isso tijolo por tijolo. No início do século, a empresa, que ainda pertence à família fundadora, quase foi à falência. Sem saber como concorrer com a onipresença de computadores e videogames, acumulou prejuízos de 200 milhões de dólares em 2003. No ano seguinte, com a troca do CEO, iniciou um plano de recuperação extremamente bem-sucedido, baseado na volta às origens: foco nos tijolos. Cortou 30% da mão de obra, reduziu os tipos de peças, eliminando versões semelhantes, e investiu em produtos licenciados como os da linha Star Wars, seu best­seller, além de outros ícones do mundo pop, como Harry Potter e Bob Esponja. Heróis como Batman e Homem-Aranha e modelos de carros como Bugatti e Ferrari também foram contemplados com versões criativas da Lego.

A estreia do longa-metragem Uma Aventura Lego (2014), que obteve grande sucesso de bilheteria, foi um marco para o renascimento da marca. Hoje em dia, os brinquedos estão presentes em 140 países (desde 1986 no Brasil), e saem das fábricas da Lego 100 bilhões de peças todos os anos. Uma de suas virtudes, a longevidade dos tijolos, se tornou um problema ambiental – eles podem demorar até 1.300 anos para se decompor no mar. A Lego, então, se comprometeu a buscar materiais sustentáveis e, estreou uma linha à base de cana-de-açúcar.

Assim como a Apple, a Lego não atrai apenas clientes, mas fervorosos fãs, especialmente educadores. ”A Lego tem a capacidade de unir a família e, sobretudo, estimular a criatividade das crianças”, diz a psicoterapeuta Fernanda Grimber. “Na pandemia, desenvolver a imaginação se tornou essencial para pais e filhos. Eu diria até que a Lego tem uma função terapêutica e ajuda a baixar a ansiedade.” Perto de completar noventa anos, a empresa nascida do sonho de um carpinteiro está cada vez mais ativa.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE OUTUBRO

RESTAURANDO O FERVOR ESPIRITUAL

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (Apocalipse 3.15).

A igreja de Laodiceia, na Ásia Menor, era rica e abastada. Olhava-se no espelho e dava a nota máxima a si mesma. Porém, quando passou pelo escrutínio de Jesus, foi reprovada. A única coisa boa que havia naquela igreja era a opinião que tinha de si mesma e, ainda assim, era uma opinião falsa. Jesus disse que estava a ponto de vomitar-lhes de sua boca por ser aquela comunidade uma igreja morna. A falta de fervor espiritual provoca náuseas em Jesus. Um cristão não pode ser apático, insosso e morno. A mornidão espiritual é uma tragédia, pois, além de não saciar a sede das pessoas à nossa volta, ainda provoca enjoo no Filho de Deus. A igreja de Laodiceia recebeu apenas censuras, e nenhum elogio de Jesus. Essa igreja, contudo, não foi acusada de heresias nem de imoralidade. Era uma igreja ortodoxa, ética e próspera. Não tolerava falsas doutrinas. Não havia escândalos entre seus membros. Não havia pobreza em sua membresia. A igreja vivia em paz mesmo num tempo em que a perseguição se espalhava pelo mundo. Talvez você e eu nos sentíssemos orgulhosos de sermos membros de uma igreja assim. Mas Jesus identifica nessa igreja falta de fervor. As coisas aconteciam na igreja, mas Jesus estava do lado de fora. A igreja estava feliz consigo mesma, mas provocava grande sofrimento ao Filho de Deus. A igreja tinha muito da terra, mas lhe faltava o fervor vindo do céu.

GESTÃO E CARREIRA

PELO FUTURO DA PROTEÍNA – E DO PLANETA

Maior produtora mundial de hambúrgueres, a Marfrig é também a primeira empresa de proteína animal do Brasil na lista da Science Based Targets, iniciativa internacional que promove diretrizes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa com base na ciência

Limitar o aquecimento global em no máximo 2ºC até o ano 2100, como prevê o Acordo de Paris firmado em 2015, tem sido um desafio para países e empresas. Especialmente para aquelas cuja atividade envolve fontes de emissão de gases de efeito estufa, como é a pecuária. Balizar procedimentos que permitam às empresas cumprir as metas de redução de emissões com base na ciência é a missão da iniciativa internacional Science Based Targets. Ela é formada por entidades que representam as grandes autoridades no tema: Pacto Global das Nações Unidas, WWF, World Resources Institute e Carbon Disclosure Project. Até agora, quase 1 mil companhias aderiram à mobilização. No Brasil, apenas uma empresa se proteína animal integra a lista: a Marfrig.

Em meio à pressão internacional pela preservação da Amazônia e dos recursos naturais de forma a garantir a sobrevivência das futuras gerações, é louvável que uma empresa entenda fazer parte do problema e ajudar a buscar soluções. Esse modo de encarar o ecositema em que atua ajudou a dar à Marfrig o primeiro lugar entre os frigoríficos.

A agenda de sustentabilidade tem sido uma das pautas mais importantes da Marfrig desde 2009. Para o diretor-presidente Miguel Gularte, o compromisso com o meio ambiente, ao lado do cumprimento das projeções financeiras estabelecidas para o biênio 2019/2020, foi um dos fatores que levaram a empresa a se diferenciar no segmento em que atua. “A Marfrig saiu na frente das demais em diversas iniciativas. Ela se antecipou à concorrência ao tomar decisões corretas na área de sustentabilidade e também de inovação, ao lançar produtos de origem vegetal que se mostraram um grande êxito”, afirmou.

Em julho, a Marfrig assinou um compromisso público articulado pelo Centro Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) junto de 38 empresas dos setores industrial, agrícola e de serviços. Um dos principais focos dessa coalizão é o combate ao desmatamento ilegal na Amazônia e nos demais biomas brasileiros, mas ele prevê ainda ações para a inclusão econômica de comunidades locais como forma de garantir a preservação das florestas e a redução do impacto ambiental no uso dos recursos naturais. Dentro da Marfrig, um comitê de sustentabilidade reúne nomes como Marcelo Furtado, ex-diretor do Greenpeace no Brasil, e Daniela Mariuzzo, diretora do IDH Brazil.

Em 2019, pontuado por importantes movimentos estratégicos e societários, a Marfrig registrou uma receita líquida consolidada de R$ 49,9 bilhões, crescimento de 11,2% em relação ao ano anterior. Um dos destaques da gestão no período foi o aumento de participação na National Beef (quarto maior player do mercado americano de carne bovina), para 81,73% do capital da companhia. Em dezembro, a Marfrig realizou uma operação de follow-on de R$ 900 milhões, utilizando os recursos para reduzir seu endividamento. O BNDES aproveitou a oferta e vendeu ao mercado a fatia de 33% que detinha na empresa.

Os recordes continuaram no primeiro semestre de 2020, quando o resultado do desempenho operacional ficou significativamente acima da média de mercado. Entre abril e junho deste ano, a receita líquida consolidada atingiu R$ 18,9 bilhões, crescimento de 54% em relação ao mesmo período de 2019. O melhor indicador, contudo, foi o lucro líquido do período. Com R$ 1,6 bilhão, ele ficou 1.743% acima do registrado no segundo trimestre do ano passado – e muito acima das expectativas dos analistas do mercado.

AS MELHORES

1. MARFRIG 440,63 PONTOS

2. JBS 399,10 PONTOS

3. BRF 346,13 PONTOS

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NÃO HÁ PROBLEMA EM COMER CARNE?

Publicações científicas podem causar danos quando são irresponsáveis

Em outubro passado, o Comitê Médicos pela Medicina Responsável, uma organização com 12 mil associados, pediu à promotoria pública da Filadélfia que lançasse uma investigação sobre imprudência perigosa. A causa desse pedido foi uma série de estudos e diretrizes de dieta publicados em Annals of Internal Medicine, sugerindo que não há problema se os americanos mantiverem uma dieta rica em carnes vermelhas processadas.

As diretrizes geraram um frenesi na mídia, e manchetes dramáticas sugeriam que houve uma reviravolta no conhecimento nutricional. Isso gerou uma reação contrária, e vários estudiosos e organizações de saúde pública atacaram as diretrizes.

Os críticos apontaram numerosas falhas na publicação em Annals. Em especial, os autores usaram uma metodologia de revisão que valoriza os testes clínicos randomizados (TCR). Mas, uma vez que é difícil fazer TCRs na área da nutrição, ao escolherem essa ferramenta em particular, os pesquisadores excluíram a maioria dos estudos de referência sobre carne vermelha e saúde. Pouco depois, soube-se que alguns deles tinham laços não revelados com a indústria de alimentos. Em particular, o autor principal é autor sênior de um estudo semelhante de 2016 que contestou a orientação de se ingerir menos açúcar. Esse estudo, também publicado em Annals of lnternal Medicine, foi pago pelo International Life Sciences Institute, um grupo fundado por um executivo da Coca-Cola, notório por suas reiteradas tentativas de contrariar orientações internacionais de saúde.

Mais precisamente, a mensagem “carne vermelha é boa” vai contra um grande e bem estabelecido corpo de evidências de estudos epidemiológicos de coorte, testes randomizados com fatores de risco comprovados e estudos com animais. Pessoas (e animais de laboratório) cujas dietas contêm expressivos percentuais de carnes vermelhas e alimentos processados têm maior probabilidade de sofrer e morrer de diabetes do tipo 2, doença cardiovascular, problemas respiratórios, doenças neurodegenerativas e câncer do que aquelas com dietas menos carregadas em carnes. Um estudo com dezenas de milhares de pessoas acompanhados por 26 anos, na média, mostrou que cada porção diária extra de carne vermelha foi associada a um risco 13% mais alto de morte por todas as causas. Comer carne vermelha processada para 20%. Considerando-se o que a literatura tem informado sobre carne, mais de uma dúzia de especialistas pediram a Annals a retratação do estudo. Alguns sugeriram que ele nunca deveria ter sido publicado.

Se a ciência estiver aberta a novas evidências e ideias, estudos ruins ou mesmo irresponsáveis serão publicados algumas vezes. Mas a Annals fez duas coisas problemáticas. Primeiro, não publicou apenas uma série de estudos sobre nutrição: publicou uma série de diretrizes. Seus autores, além disso, sugeriram “a continuidade do atual consumo de carne vermelha não processada (recomendação fraca, evidência com baixo grau de certeza), …[e] sugerimos a continuidade do atual consumo de carne processada (recomendação fraca, evidência com baixo grau de certeza)”.

Mais do que isso, Annals não apenas publicou as diretrizes, mas as promoveu com um editorial e material para a imprensa que começa com uma manchete sem ressalvas: “Não é preciso reduzir o consumo de carne vermelha processada para ter boa saúde” – e termina com uma declaração que, em 24 horas, foi contrariada com credibilidade: “Aqueles que buscam contestar as conclusões terão dificuldades para encontrar evidências adequadas para construir um argumento”.

A indústria exagera a incerteza científica e promove visões anômalas para defender atividades e produtos perigosos. Cabe às publicações especializadas cautela ao publicar descobertas polêmicas e não tomar posições. Já há som e fúria suficientes na imprensa para nos confundir. A última coisa de que precisamos são publicações científicas contribuindo para a cacofonia.