EU ACHO …

A GRAÇA DA VIDA

Uma das questões mais intrigantes da humanidade é por que somos capazes de tirar a nossa própria vida.

O sociólogo francês Émile Durkheim, no século 19, estudou a fundo o assunto e escreveu um livro chamado O suicídio. Se o equilíbrio está no apego a si, o suicídio está no desapego à vida, no nada mais me importa. Chamo atenção para o verbo “importar”, que significa portar para dentro, trazer para dentro. Quando eu vivo apenas a “exportação” – quando só coloco para fora e nada recebo para dentro – crio a possibilidade de me desapegar.

Essa questão também foi tratada pelo escritor italiano Umberto Eco no livro O nome da rosa, que pode ser lido como um romance histórico, como uma história policial mas também como uma obra filosófica. Há ali um embate entre duas correntes teológicas do século 13, os franciscanos e os dominicanos, que divergem sobre como a Igreja deve encarar a posse e o uso de bens materiais. Os franciscanos diziam que Jesus apenas usava seu manto, portanto, era livre dele. Os dominicanos sustentavam que ele o possuía, era seu dono e, assim, era atrelado a ele. Por trás disso, estava uma questão maior: a Igreja deveria ter bens ou apenas usá-los? Como se sabe, prevaleceu a primeira opção e a Igreja daquela época se tornou riquíssima. Já eu concordo com São Francisco de Assis, patrono dos franciscanos: uma pessoa deve ter o uso, ou até possuir, mas jamais ser possuída por aquilo que ela possui. Ou, como diria Millôr Fernandes, o importante é ter sem que o ter te tenha.

E assim, retornando ao nosso tema, ser possuído por aquilo que possui é paixão, não é apego nem amor.

A falta de razão na paixão é tamanha e tão assumida que muitos dizem “estou louco por você” ou, como disse antes, “sou louco por futebol”. Em oposição a isso, está o apego. É com ele que você se agarra à vida, à natureza, ao mundo mas sem se sentir proprietário deles, e sim um usuário, alguém que compartilha e, por isso, quer que o outro fique bem.

Para quem mora em São Paulo, por exemplo, não é fácil se sentir conectado à natureza. Por mais que alguém tenha consciência ecológica e saiba que precisa proteger o solo e os rios, não se sente apegado ao rio Tietê ou ao Pinheiros. Esses rios são de todos – mas, quando algo é de todos, também é de ninguém. E, se é de ninguém, também não é meu. Se não é meu, a relação com ele será de indiferença.

Por que os jardins e quintais são cuidados? Porque pertencem a alguém e esse alguém cuida deles, da mesma forma que algumas praças são adotadas por empresas ou associações de bairro. Se não, seriam terrenos baldios, de todos e de ninguém.

Como o apego está ligado à Ética – ao campo da conduta e do comportamento –, também está ligado à Estética, ao bom e ao belo. Nós também nos apegamos ao que consideramos belo. Todos dizem que aquela “é uma bela macarronada”, “uma bela jogada”, “uma bela pessoa”. Nenhum desses comentários tem a ver necessariamente com simetria ou com beleza.

Citando mais uma vez o Guernica de Picasso: você o olha e diz que é um belo quadro, mesmo que ele seja a expressão do desespero e do horror, ainda que tudo lá seja disforme. Onde está a beleza no disforme? Está na emoção que ele provoca e, portanto, no apego que ele oferece.

De maneira geral, a expressão da beleza está conectada àquilo que lhe agrada, que lhe dá uma graça – por isso se fala em agradecimento. Em latim, gratia (que originou graça em português) era uma versão do grego caris, de onde vêm palavras como carisma. E caris, no grego antigo, é a boa graça, a proteção, a bênção. Trata-se de uma bonita conexão, pois, quando você vê o bom e o belo, quando se apega a algo ou alguém, se sente cheio de graça.

Não é à toa que cristãos usam a expressão “Ave, Maria, cheia de graça”. O que é a graça aqui? Aquilo que me protege, que cuida de mim, que me abençoa, me deixa feliz.

O que tem graça é engraçado, ao passo que o que me faz sofrer é a ausência do bom e do belo, é o desgraçado, o feio, o mal. O desgraçado derruba e o engraçado anima e me dá graça.

Poucas coisas na vida são melhores do que a gratuidade do gesto, aquilo que vem de graça. É o abraço espontâneo, o beijo roubado, a mão no ombro, é o gesto certo num momento em que não seria necessário fazê- lo. É a graça que desperta o sentimento genuíno de agradecimento por sua gratuidade. É a graça da gratidão.

Quem é muito jovem talvez não tenha ouvido a cantora argentina Violeta Parra cantar a música Gracias a la vida. Pois, para mim, graças à vida é a erotização da vida, é a vida cheia de graça. Um exemplo disso está naquilo que os que moramos na cidade de São Paulo nem sempre entendemos: muitos cariocas, no final de tarde, param na beira da praia para aplaudir o pôr-do-sol. Alguns veem nisso um gesto sem sentido. Mas é um agradecimento, assim como muitas pessoas elevam as mãos aos céus quando se sentem muito bem, numa reverência que pode ser entendida como uma espécie espontânea de gracias a la vida.

A vida em paz é a vida cheia de graça, enquanto a vida em tormento é a vida desgraçada.

O amor conduz à graça. A paixão é o ponto de partida, o impulso para o amor. A paixão, porém, é desgraçada. Como não tem controle sobre sua força e seu movimento, ela produz beleza como um vulcão, mas na sequencia vem a destruição. É o filme Atração fatal, que ficou famoso com a cena do coelhinho na panela…

O Deus do Antigo Testamento é um deus apaixonado, um deus furioso que tem tamanha paixão por sua criação que é capaz de afogá-la com um dilúvio. Por outro lado, também tem apego, pois deixa um grupo sobrando.

Sobre as decisões divinas, há uma interessante parábola islâmica. Um mestre sufi está meditando quando de repente chega um grupo de crianças com um saco de balas. São 14 balas para 12 crianças e elas pedem que o mestre as ajude a reparti-las da maneira mais justa possível. O mestre diz que vai ajudá-las, mas antes pergunta se as crianças querem que ele as divida como Deus o faria ou como o Humano faria. Em coro, todos dizem que como Deus.

E o mestre então começa: “cinco para você, duas para você, nenhuma para esse, uma para aquele…”.

A justiça divina, se entendida como destino, é um acaso, ao passo que a justiça humana é uma construção, para criar igualdade nas diferenças…

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do Livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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