EU ACHO …

O ACOLHIMENTO DA DISCORDÂNCIA

Para lidar com a mudança, você precisa, sobretudo, prestar atenção nas pessoas. Paulo Freire, o brasileiro que mais acumulou títulos de doutor honoris causa na história do nosso país, também era um mestre nisso. Quando alguém vinha falar com ele, um homem mundialmente famoso, Paulo não só parava para escutar como dava toda a atenção do mundo. Não raro, colocava a mão no ombro do interlocutor para criar uma condição de igualdade, um vínculo, uma conexão física para materializar o que Aristóteles chamou de amizade: dois corpos numa única alma.

Quando conversava, Paulo Freire não mantinha com seu interlocutor uma fala diplomática ou cordial. Ele cultivava uma disposição legítima de aprender com o outro. Era um homem da ética, e não da pequena ética, da mera etiqueta (sim, etiqueta é a pequena ética, assim como camisetas são pequenas camisas).

Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acomodados com o que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras e âncoras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo.

A concordância faz com que permaneçamos estacionados. A discordância faz com que cresçamos. A palavra concordância vem de cor, coração, e significa unir os corações. Discordar, por sua vez, é promover a separação dos corações, algo que possibilita o desenvolvimento pessoal. Assim, para estimular o crescimento do outro e de si mesmo, Paulo Freire primeiro acolhia seu interlocutor, colocava a mão em seu ombro, estabelecia uma ligação. Depois, quando fosse o caso, discordava, sempre aberto a acolher em si a discordância do outro e, portanto, a aprender.

Desse modo, ao prestar atenção naquilo que não era o óbvio nele mesmo, ele conseguia avançar. Seguindo esse princípio, nos seus 76 anos de vida, Paulo Freire nunca parou de crescer.

Acolher a discordância foi justamente uma das mais importantes lições que recebi de meu pai, grande torcedor do time do São Paulo. Pais geralmente gostam que os filhos torçam para o mesmo time. Mas eu me bandeei para o Santos, um time que não é óbvio nem em seu emblema (conhecido como peixe, seu símbolo é uma baleia – baleias são mamíferos, não peixes). Curiosamente, nenhum dos meus filhos é santista. Todos torcem para o São Paulo. Da mesma maneira que jamais interferi na preferência futebolística dos meus filhos, meu pai não só jamais questionou a minha escolha como a aprovava e a apoiava. Para demonstrar com clareza que acolhia a nossa discordância, ele me levava ao estádio quando o São Paulo jogava contra o Santos. E era capaz de aplaudir o Santos! Respeitar o time de futebol alheio é uma maneira soberba de ensinar a respeitar e a acolher as ideias, as posições, as perspectivas do outro.

E olha que, para o brasileiro, futebol é mais sagrado do que religião – você pode até conhecer um ex-católico, mas jamais vai encontrar um ex-corinthiano, ex-gremista ou ex-flamenguista. Futebol é paixão e a paixão é a suspensão temporária do juízo e da razão, é uma expressão da irracionalidade. Meu pai acatava a minha escolha pelo Santos por que sabia que o futebol, assim como a religião e a preferência musical, pertence ao território da paixão, do irracional, do gosto que não se discute – apesar de a irracionalidade, não raro, descambar para o fanatismo, que é uma suspensão violenta do juízo e da razão. Meu pai dizia: “Torça, grite, lamente e comemore, mas não transforme o seu time no único time possível. Se você achar justo brigar pelo seu time até o fim, entenda que o torcedor de outro time também pode fazer o mesmo”. Assim ele me ensinava a cultivar a tolerância mesmo num ambiente de rivalidade.

Os estádios estão cada vez mais violentos, mas isso não quer dizer que a tolerância não seja possível em grandes arenas. Veja o exemplo do Boi Bumbá no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Durante três horas, desfilam os Caprichosos, de azul, e depois o Garantido, de vermelho. Na hora do desfile de um, a torcida do outro não pode vaiar, gritar, dar um pio. Se algum torcedor gritar, seu time perde pontos. A regra ali é deixar o espetáculo acontecer. Por mais que haja rivalidade no ar, não pode haver conflito. O respeito pelo outro é tão grande que os juízes não usam caneta com tinta azul ou vermelha, as cores dos dois times. Para dar suas notas, usam tinta verde.

A paixão pode ser irracional, mas a manifestação dela não.

Loucos por futebol! O perigo está no “loucos”, pois há o perigo de a paixão se tornar fanatismo, do conflito se transformar em confronto. A divergência é admissível, até desejável, mas ela nunca pode conduzir à anulação do outro, daquele que pensa diferente de você. Por que muita gente perdeu o gosto de ir a estádios de futebol?

Porque, ali, o conflito cedeu lugar ao confronto. A torcida organizada passou a ser uma espécie de exército empenhado em anular os adversários.

Aqui é preciso lembrar que um adversário fraco te enfraquece, um concorrente burro te emburrece. E que um adversário forte fortalece. Lembra-se da final da Copa das Confederações, em junho de 2009, quando o Brasil terminou o primeiro tempo perdendo de dois a zero e terminou o jogo ganhando por três a dois dos Estados Unidos? O Brasil reagiu porque encontrou um adversário poderoso que o estimulou, um oponente que ele desprezava a princípio, mas que aprendeu a respeitar.

Se você não respeita um adversário poderoso, corre o risco de cometer a mesma tolice do general Sedgwick, algo que registrei em meu livro Qual é a tua Obra? (Vozes). Sedgwick lutou na guerra civil norte-americana. No dia 9 de maio de 1864, durante a batalha de Spotsylvania, o general, ao ver as tropas inimigas parando lá longe, não se preocupou sequer em se proteger. Ainda debochou, proferindo uma das frases mais fatídicas de todos os tempos: “Imagina se vou perder meu tempo. Dessa distância, eles não acertariam nem em um elef…”. E caiu morto com sua frase incompleta, fulminado por um tiro certeiro na cabeça disparado ao longe por um inimigo poderoso que foi negligenciado.

A anulação do outro é o ápice do confronto e o confronto deve ser evitado a todo custo. Isso vale para o terreno das ideias, da convivência, para o casamento. Aliás, para o campo dos relacionamentos, o grande pensador Rubem Alves criou uma imagem excelente. Para ele, os relacionamentos devem ser como um jogo de frescobol, e não como uma partida de tênis. Eis aí uma boa lição. No tênis, você usa toda a sua competência para que o outro receba a bola do pior modo possível. Você procura sacar de um jeito que ele não veja nem a cor da bola. Toda vez que o oponente erra, você se congratula. No frescobol, por sua vez, você capricha para que o outro receba a bola do melhor modo que consegue. Quando manda uma bola atravessada, você pede desculpas e procura não repetir mais isso, pois quer sempre repassar a bola ao outro com perfeição. Esse é o sonho, a meta a ser alcançava, embora muitas vezes a vida se pareça mesmo com uma partida de tênis.

O esporte traz muitos aprendizados para não sucumbir à paixão, àquilo que suspende o juízo e a razão.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro ‘‘O QUE A VIDA ME ENSINOU”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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