A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – IX

AMOR OU ÓDIO?

Conheça os motivos que levam homens e mulheres a cometerem crimes passionais

O que leva uma namorada a agredir seu amado? Ou um cônjuge a tirar a vida de sua parceira? Em um clássico da literatura inglesa, o general Otelo é tomado pelo ciúme e convencido pelo soldado lago que havia sido traído por Desdêmona, sua esposa. O militar, então, a asfixia e, ao descobrir a verdade, apunhala-se, tirando a própria vida.

NA OBRA DE SHAKESPEARE

O ciúme é narrado desde a Antiguidade, mas a expressão “verde de ciúme” surgiu devido à obra Otelo, o Mouro de Veneza, do dramaturgo inglês William Shakespeare. A frase apareceu por conta da cena em que o soldado Iago – que manipula o general Otelo ­ afirma que “o ciúme é um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta”.

Na história, o velho general Otelo havia se apaixonado e casado com a jovem e bela Desdêmona. No entanto, o soldado lago faz de tudo para abalar o casamento e alcançar seu objetivo: obter o cargo de tenente, que havia sido concedido ao soldado Cássio. Iago, então, convence Otelo de que Desdêmona e o soldado recém-promovido estão tendo um caso extraconjugal. O general fica descontrolado e asfixia a própria esposa, motivado pelo ciúme. No entanto, ao saber que tudo não se passava de uma armação, apunhala-se e cai morto sobre o corpo de sua mulher.

FORA DA FICÇÃO

Crimes passionais que levam à morte, agressão física, mutilação genital ou qualquer outra espécie de violência não existem apenas em livros, filmes e peças de teatro. Muitos Otelos e Desdêmonas estão espalhados pelo mundo. As psicanalistas Maria Thereza Coelho e Rosilene Santiago explicam que um crime passional pode ocorrer “quando uma pessoa passa por experiências que envolvem o término de um relacionamento por parte do parceiro (motivado por uma terceira pessoa) ou o relacionamento se encontra em vias de romper (pelo mesmo motivo)”. Os agentes também podem ser motivados pela dúvida da traição e sentimentos como ciúme e ódio, em relação à parceira e ao “rival”. Além disso, não têm a possibilidade de “descarregar o excesso de energia psíquica e denominar o que lhe ocorre”, acrescenta. Ainda segundo as especialistas, o indivíduo pode ficar descontrolado, ansioso, impulsivo e também consumir substâncias psicoativas que o levam a ações não planejadas. “No momento do crime, ele perde o controle sobre si e seus atos. Às vezes, tem um lapso de memória em relação à própria ação criminosa, significando-a como fraqueza, tentação demoníaca, defesa da honra, dentre outros sentidos”, complementam.

De acordo com o psicólogo João Alexandre Borba, para uma pessoa cometer um crime passional, é preciso que acumule a raiva por muito tempo até perder o controle. “Nunca uma pessoa vai virar, de repente, e tomar uma atitude exasperada ou que cause um mal ao outro. Se ela fizer isso, é porque já vem agredindo o próximo”, explica.

ESCUDO ERRADO

Quem está dentro de um relacionamento amoroso em conflito pode perceber os primeiros sinais de raiva, agressão física e psicológica da parte do parceiro. Além disso, é possível notar se há algum sentimento reprimido. “A raiva, quando muito acumulada, é um sentimento que funciona para proteger outra emoção”, afirma Boroa.

Também de acordo com o psicólogo, o ideal seria expressar o que a está causando; no caso, pode ser o sentimento de tristeza ou a insegurança. “Quando esse nível de autoexpressão não acontece, a pessoa começa a se perder e isso gera um descontrole. E aí, no momento em que passa a perder quem ela é, realmente pode fazer uma besteira”. O suicídio ou a agressão física a outrem podem ser algumas das consequências.

É PSICOPATIA?

O indivíduo que se descontrola diante de uma situação de intensa emoção nem sempre é um portador do transtorno de personalidade antissocial. Muitas vezes, ele perdeu o controle e não conseguiu manter um nível saudável de sanidade naquele momento. Contudo, segundo Boroa, no caso de um crime em que se tira a vida de alguém de uma maneira descomunal, “pode-se contar que há alguns traços de psicopatia no meio”, destaca.

Por outro lado, se o indivíduo for um psicopata – em um nível severo -, é capaz de assassinar e usar o outro para alcançar seus objetivos ou para adquirir status, o nível de racionalização do psicopata é altíssimo; eles não têm emoção. Se alguém é muito sensível, vive sofrendo e não sabe o que fazer com esse sofrimento, está sempre se lamentando e, então, encontra um psicopata, para ele, essa pessoa é um prato cheio”, explica o psicólogo. O fato é que o psicopata irá utilizar uma pessoa frágil e insegura para conquistar o que deseja. E, quando tal vítima não “servir” mais, é possível que ele a torture, ataque e cometa um crime, mesmo sem motivos aparentes.

Contudo, no caso de uma raiva extrema, a origem está na dificuldade em impor as próprias emoções o que leva ao descontrole emocional “porque, se quer demonstrar o amor e não consegue, na hora em que o companheiro fizer algo que agrida ou que ele critique o fato de não demonstrar amor, a pessoa pode ficar agressiva”, explica Boroa. Como o indivíduo está lutando para demonstrar e não consegue, ele pode se sentir cobrado e humilhado e, assim, desenvolver a raiva. “O psicopata não tem essas emoções; ele vai sentir algo, ou sentir que está compreendendo. Daqui a pouco, ele faz alguma coisa para poder conseguir o poder, o status ou pela própria diversão”, acrescenta o psicólogo.

QUESTÃO DE PODER

Em 2010, Santiago e Coelho publicaram o artigo A violência contra a mulher na perspectiva de homens presos que cometeram o crime passional. Elas desenvolveram um estudo qualitativo em duas unidades prisionais em Salvador, na Bahia, para saber o que levava alguns homens a praticarem o crime passional dentro de um relacionamento. “A nossa pesquisa não contemplou os aspectos psicopatológicos do crime passional, mas possibilitou ver que tal crime pode ocorrer tanto entre pessoas de estrutura neurótica quanto entre indivíduos com diversos transtornos psicológicos e de personalidade. A baixa tolerância à frustração e à perda da pessoa amada podem desencadear passagens ao ato em indivíduos com personalidades variadas”, explicam as autoras.

Ainda de acordo com a pesquisa, a violência de gênero está associada às desigualdades presentes nas relações de poder construídas na sociedade, entre homens e mulheres. “Historicamente, o patriarcado e o machismo deram origem a uma lei que defendia essa forma de violência como um ato por amor, em legítima defesa ou honra, inocentando os homens que a cometiam”, acrescei1tam as psicanalistas.

PARA A LEI

Segundo a advogada Danielly Ferlin, os crimes passionais são aqueles cometidos em razão da paixão, mesmo que platônica. “É necessário que haja um vínculo entre estas pessoas, seja ele afetivo, sexual ou econômico. Ou seja, muitos passionais acreditam que, por sustentarem financeiramente sua parceira, esta é sua propriedade”, explica. Por isso, nem todo delito no âmbito amoroso é caracterizado como passional. Existem crimes, por exemplo, que visam a obtenção do seguro de vida do cônjuge.

Não há, na legislação brasileira nem no Código Penal um conceito de crime passional. Não existem artigos específicos que tratam sobre o tema. “O nosso Código fala que os crimes praticados por emoção ou paixão não excluem a imputabilidade. A pessoa não vai ser considerada inimputável; vai ser considerado um crime da mesma forma. Mas, de uma forma geral, isso é tido como uma atenuante”, acrescenta a advogada Helena Lobo da Costa.

No país, o principal crime passional é o homicídio consumado e a tentativa de praticá-lo. De acordo com Ferlin, “de cada dez assassinatos cometidos, ao menos um tem como motivo o ciúme excessivo e inconformismo com o fim de relacionamentos amorosos. Neste ponto, ainda devemos ressaltar a questão do medo da vítima e de seus familiares. Muitos casos não chegam a ser noticiados perante à autoridade competente por medo das vítimas”.

SOBRE A SENTENÇA

Crimes de violência doméstica nem sempre são passionais. Entretanto, nos casos de atos praticados contra a mulher, existe a Lei Maria da Penha (nº 11.340) que prevê a aplicação de algumas medidas protetivas de urgência como afastamento do lar, delimitação de distâncias que o agressor deve ficar longe da vítima, proibição de comunicação, restrição ou suspensão de visitas aos filhos e enteados.

Já nos casos de homicídios passionais, segundo Ferlin, “o trâmite processual é o mesmo de qualquer homicídio, analisando-se as qualificadoras do crime, e o julgamento ocorre através do Tribunal do Júri, onde o Conselho de Sentença é formado para que o acusado seja condenado ou inocentado”. Mesmo que o autor do crime apresente alguma patologia psíquica, é necessário avaliar se ele sabia o que estava fazendo no momento do crime e se é capaz se determinar o próprio comportamento. Só assim, é possível aplicar uma sentença.

Ainda segundo a advogada, “o agente que mata a vítima por questões passionais quer exercer o direito de posse que julga ter: “se não é minha, não será de mais ninguém”.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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