EU ACHO …

O ACOLHIMENTO DA DISCORDÂNCIA

Para lidar com a mudança, você precisa, sobretudo, prestar atenção nas pessoas. Paulo Freire, o brasileiro que mais acumulou títulos de doutor honoris causa na história do nosso país, também era um mestre nisso. Quando alguém vinha falar com ele, um homem mundialmente famoso, Paulo não só parava para escutar como dava toda a atenção do mundo. Não raro, colocava a mão no ombro do interlocutor para criar uma condição de igualdade, um vínculo, uma conexão física para materializar o que Aristóteles chamou de amizade: dois corpos numa única alma.

Quando conversava, Paulo Freire não mantinha com seu interlocutor uma fala diplomática ou cordial. Ele cultivava uma disposição legítima de aprender com o outro. Era um homem da ética, e não da pequena ética, da mera etiqueta (sim, etiqueta é a pequena ética, assim como camisetas são pequenas camisas).

Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acomodados com o que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras e âncoras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo.

A concordância faz com que permaneçamos estacionados. A discordância faz com que cresçamos. A palavra concordância vem de cor, coração, e significa unir os corações. Discordar, por sua vez, é promover a separação dos corações, algo que possibilita o desenvolvimento pessoal. Assim, para estimular o crescimento do outro e de si mesmo, Paulo Freire primeiro acolhia seu interlocutor, colocava a mão em seu ombro, estabelecia uma ligação. Depois, quando fosse o caso, discordava, sempre aberto a acolher em si a discordância do outro e, portanto, a aprender.

Desse modo, ao prestar atenção naquilo que não era o óbvio nele mesmo, ele conseguia avançar. Seguindo esse princípio, nos seus 76 anos de vida, Paulo Freire nunca parou de crescer.

Acolher a discordância foi justamente uma das mais importantes lições que recebi de meu pai, grande torcedor do time do São Paulo. Pais geralmente gostam que os filhos torçam para o mesmo time. Mas eu me bandeei para o Santos, um time que não é óbvio nem em seu emblema (conhecido como peixe, seu símbolo é uma baleia – baleias são mamíferos, não peixes). Curiosamente, nenhum dos meus filhos é santista. Todos torcem para o São Paulo. Da mesma maneira que jamais interferi na preferência futebolística dos meus filhos, meu pai não só jamais questionou a minha escolha como a aprovava e a apoiava. Para demonstrar com clareza que acolhia a nossa discordância, ele me levava ao estádio quando o São Paulo jogava contra o Santos. E era capaz de aplaudir o Santos! Respeitar o time de futebol alheio é uma maneira soberba de ensinar a respeitar e a acolher as ideias, as posições, as perspectivas do outro.

E olha que, para o brasileiro, futebol é mais sagrado do que religião – você pode até conhecer um ex-católico, mas jamais vai encontrar um ex-corinthiano, ex-gremista ou ex-flamenguista. Futebol é paixão e a paixão é a suspensão temporária do juízo e da razão, é uma expressão da irracionalidade. Meu pai acatava a minha escolha pelo Santos por que sabia que o futebol, assim como a religião e a preferência musical, pertence ao território da paixão, do irracional, do gosto que não se discute – apesar de a irracionalidade, não raro, descambar para o fanatismo, que é uma suspensão violenta do juízo e da razão. Meu pai dizia: “Torça, grite, lamente e comemore, mas não transforme o seu time no único time possível. Se você achar justo brigar pelo seu time até o fim, entenda que o torcedor de outro time também pode fazer o mesmo”. Assim ele me ensinava a cultivar a tolerância mesmo num ambiente de rivalidade.

Os estádios estão cada vez mais violentos, mas isso não quer dizer que a tolerância não seja possível em grandes arenas. Veja o exemplo do Boi Bumbá no Festival Folclórico de Parintins, no Amazonas. Durante três horas, desfilam os Caprichosos, de azul, e depois o Garantido, de vermelho. Na hora do desfile de um, a torcida do outro não pode vaiar, gritar, dar um pio. Se algum torcedor gritar, seu time perde pontos. A regra ali é deixar o espetáculo acontecer. Por mais que haja rivalidade no ar, não pode haver conflito. O respeito pelo outro é tão grande que os juízes não usam caneta com tinta azul ou vermelha, as cores dos dois times. Para dar suas notas, usam tinta verde.

A paixão pode ser irracional, mas a manifestação dela não.

Loucos por futebol! O perigo está no “loucos”, pois há o perigo de a paixão se tornar fanatismo, do conflito se transformar em confronto. A divergência é admissível, até desejável, mas ela nunca pode conduzir à anulação do outro, daquele que pensa diferente de você. Por que muita gente perdeu o gosto de ir a estádios de futebol?

Porque, ali, o conflito cedeu lugar ao confronto. A torcida organizada passou a ser uma espécie de exército empenhado em anular os adversários.

Aqui é preciso lembrar que um adversário fraco te enfraquece, um concorrente burro te emburrece. E que um adversário forte fortalece. Lembra-se da final da Copa das Confederações, em junho de 2009, quando o Brasil terminou o primeiro tempo perdendo de dois a zero e terminou o jogo ganhando por três a dois dos Estados Unidos? O Brasil reagiu porque encontrou um adversário poderoso que o estimulou, um oponente que ele desprezava a princípio, mas que aprendeu a respeitar.

Se você não respeita um adversário poderoso, corre o risco de cometer a mesma tolice do general Sedgwick, algo que registrei em meu livro Qual é a tua Obra? (Vozes). Sedgwick lutou na guerra civil norte-americana. No dia 9 de maio de 1864, durante a batalha de Spotsylvania, o general, ao ver as tropas inimigas parando lá longe, não se preocupou sequer em se proteger. Ainda debochou, proferindo uma das frases mais fatídicas de todos os tempos: “Imagina se vou perder meu tempo. Dessa distância, eles não acertariam nem em um elef…”. E caiu morto com sua frase incompleta, fulminado por um tiro certeiro na cabeça disparado ao longe por um inimigo poderoso que foi negligenciado.

A anulação do outro é o ápice do confronto e o confronto deve ser evitado a todo custo. Isso vale para o terreno das ideias, da convivência, para o casamento. Aliás, para o campo dos relacionamentos, o grande pensador Rubem Alves criou uma imagem excelente. Para ele, os relacionamentos devem ser como um jogo de frescobol, e não como uma partida de tênis. Eis aí uma boa lição. No tênis, você usa toda a sua competência para que o outro receba a bola do pior modo possível. Você procura sacar de um jeito que ele não veja nem a cor da bola. Toda vez que o oponente erra, você se congratula. No frescobol, por sua vez, você capricha para que o outro receba a bola do melhor modo que consegue. Quando manda uma bola atravessada, você pede desculpas e procura não repetir mais isso, pois quer sempre repassar a bola ao outro com perfeição. Esse é o sonho, a meta a ser alcançava, embora muitas vezes a vida se pareça mesmo com uma partida de tênis.

O esporte traz muitos aprendizados para não sucumbir à paixão, àquilo que suspende o juízo e a razão.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro ‘‘O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

A ARTE DE COMER BEM

A mudança nos rótulos dos produtos aprovada nesta semana no Brasil estimula o debate sobre a definição de um alimento saudável diante da profusão de ofertas de comida

É natural que, em sete meses de pandemia, as atenções das autoridades de saúde estivessem voltadas para o vírus. Na quarta-feira 7, contudo, deu­se no Brasil uma decisão de valor histórico e permanente – a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou por unanimidade mudanças cruciais nos rótulos dos alimentos no Brasil. A principal alteração é a inclusão de um selo em forma de lupa – que deverá estar visível na frente das embalagens – como alerta para a presença exagerada de gordura, sal ou açúcar no alimento, sinalizando, portanto, que faz mal ao organismo. A ação era fundamental – apenas 25% dos brasileiros entendem perfeitamente o que está escrito nas embalagens – e é resultado de uma longa pressão, de mais de seis anos, do Instituto de Defesa do Consumidor (ldec) com o apoio da comunidade médica. A decisão é louvável, chega a ser mais rigorosa do que em muitos países europeus, mas embute problemas. Os limites estabelecidos dos compostos que podem ser ruins foram postos em patamares exageradamente elevados, 50% acima da proposta original. Ou seja: alguns produtos com ingredientes ruins vão escapar da classificação. “Pôr a régua lá em cima poderá livrar alguns alimentos importantes da rotulação, como nuggets, bolinho pronto e bolacha recheada”, diz a nutricionista Ana Paula Bortoletto, coordenadora do Programa de Alimentação Saudável do ldec.

De todo modo, a valorização dos rótulos no Brasil é uma conquista. Tê-los em evidência é indício de que uma indagação seminal – o que é comer bem? – tem sido feita com empenho. Dito de outro modo: para muito além de etiquetas, o que é se alimentar de maneira saudável diante da profusão de ofertas nos dias de hoje? A batalha vem de longe. Na década de 90, os fabricantes foram obrigados a exibir com mais clareza o conteúdo dos produtos, indicando, por exemplo, a presença de glúten e a quantidade de substâncias delicadas (“baixo conteúdo”, “alto teor”, “reduzido” e “aumentado”). No início dos anos 2000 foram incluídos à rotulagem os itens principais contidos nas embalagens: gorduras saturadas, colesterol, cálcio, ferro e sódio, além do valor energético e de nutrientes. O conhecimento científico e tecnológico conquistado nos últimos anos está conseguindo finalmente consolidar algumas certezas numa área plena de vaivém. A novidade: já não se condena um alimento por ele em si, mas pelo modo como é preparado.

Os famigerados ultraprocessados, elaborados com uma profusão de substâncias sintetizadas em laboratório, que alteram a cor, o sabor, o aroma e a textura do ingrediente principal, devem, sim, ser vetados do cardápio. Os nitritos e os nitratos de sódio utilizados, compostos químicos com a função de evitar a formação de bactérias (e, portanto, fazer com que os alimentos durem mais), podem induzir ao câncer. Já o método de defumação, que dá gosto e também contribui para prolongar a data de validade da comida, faz uso do alcatrão proveniente da fumaça do carvão. “Essas substâncias em exagero aumentam o risco de danos celulares”, afirma o médico Antonio Carlos do Nascimento, membro da Sociedade de Endocrinologia e Metabologia. Quanto maior o consumo desse tipo de comida, maior o risco. Um dos estudos mais completos sobre o assunto, conduzido recentemente pela Universidade de Navarra, na Espanha, mostrou que pessoas que consomem mais de quatro porções por dia desses alimentos têm probabilidade 62% maior de morrer de câncer na comparação com quem come menos de duas porções cotidianas. A equipe monitorou os hábitos alimentares e a saúde de quase 20.000 pessoas ao longo de quinze anos. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde pôs esse tipo de comida na mesma categoria do cigarro em relação aos efeitos cancerígenos.

Para escapar do estigma colado às companhias de tabaco, parte numerosa da indústria de alimentos virou o jogo – e, em movimento para lá de sensato, investiu em produtos mais saudáveis, lançando versões de refrigerantes, iogurtes e biscoitos com menos açúcar, sódio e gordura. Pesquisa mundial conduzida pela Deloitte, empresa especializada em consultorias e auditorias, mostra que nove em cada dez companhias de alimentação introduziram em 2017 ao menos um produto formulado ou reformulado com cuidado para fazer bem ao organismo.

Um dos exemplos clássicos de como um mesmo alimento pode ser tanto benéfico como maléfico para o organismo é o hambúrguer. Há versões fabricadas pela indústria sem absolutamente nenhum condimento, nem mesmo sal. A conservação se faz apenas pelo congelamento. Fora da geladeira, no entanto, a validade equivale à da carne in natura (porque de fato é feito só com carne, sem itens artificiais para turbinar.) “Duram por um período até cinco vezes menor em relação aos produtos com aditivos”, explica István Wessel, fabricante de carnes sem conservantes. Duram menos em temperatura ambiente e não fazem mal – e isso vale para diversos outros produtos das gôndolas dos supermercados. Diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein: “Os sucos industrializados naturais, sem adição de açúcar, são tão saudáveis quanto os feitos em casa”.

Há ainda, nessa direção, um novo conceito prestes a entrar na rotina doméstica: a chamada comida inteligente. São os produtos plant-based (do inglês, à base de plantas), feitos com vegetais, imitando a textura e o sabor da proteína animal, por exemplo. O setor movimenta 6 bilhões de dólares ao ano no mundo, e não para de crescer, incentivado pelo apetite dos jovens millennials. De acordo com um estudo do Instituto Ipsos, de pesquisas de mercado, 47% dos brasileiros estariam abertos a aderir a esse tipo de comida. “Esses alimentos só terão apelo em massa se cumprirem três pilares: excelente sabor, ser sustentável e, sobretudo, ser saudável”, diz Matheus von Mühlen, fundador da Open Food Innovation Summit, feira que reunirá grandes marcas do segmento tecnológico e saudável na próxima semana, em São Paulo. Toda e qualquer opção à mesa que promova a mente sã – em corpo são é bem-vinda.

TÃO IGUAIS, TÃO DIFERENTES

Como identificar se um alimento é saudável ou não

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

12 DE OUTUBRO

CRIAÇÃO, UMA VERDADE ESPLÊNDIDA

No princípio, criou Deus os céus e a terra (Genesis 1.1).

A ciência prova que o universo é constituído de matéria e energia. Prova também que o universo é governado por leis. Matéria e energia não criam leis. Logo, se o universo é governado por leis, alguém fora do universo criou essas leis, uma vez que leis não se criam. Aqueles que defendem que o universo surgiu espontaneamente ou veio à existência mediante uma explosão cósmica, ou mesmo por um processo de evolução de milhões e milhões de anos, ficam sem resposta diante desse fato incontroverso. Como vida procede de vida, o mundo não poderia ter surgido espontaneamente. Uma explosão cósmica não poderia produzir um universo com movimentos e leis tão precisos. Uma evolução de milhões e milhões de anos não explica o fato de todos os seres vivos serem geneticamente programados. Seria mais fácil crer que milhões de letras lançadas a esmo ao espaço cairiam ao chão na forma de uma enciclopédia do que crer que uma explosão deu origem ao universo. Seria mais fácil acreditar que um rato correndo atabalhoadamente sobre as teclas de um piano tocasse “Serenata ao Luar” do que crer que este universo tão vasto e tão complexo surgiu espontaneamente ou foi produto de uma evolução das espécies. A verdade antiga, atual e eterna é que no princípio criou Deus os céus e a terra. O que passar disso é mera conjectura.

GESTÃO E CARREIRA

A GRANDE APOSTA

A guerra entre os bancos tradicionais e as fintechs se acirra com o desempenho conflitante de suas ações na bolsa e põe à prova modelos de negócios antagônicos

Desde a sua origem, os bancos têm um modelo de negócios simples: captar dinheiro dos correntistas e emprestá-lo a juros. Muito mais do que uma atividade de “pessoas gananciosas” – imagem consagrada pelo personagem Shylock no clássico O Mercador de Veneza, de Shakespeare -, os bancos foram fundamentais para as maiores realizações do homem moderno, das grandes navegações aos avanços tecnológicos, da conquista da democracia às inovações na medicina. Sem concessão de crédito, não haveria o mundo tal qual o conhecemos. Segundo o economista americano Robert Shiller, ganhador do Nobel, o sistema financeiro permite a transformação de “impulsos criativos em produtos e serviços vitais”. Na aurora da era digital, tudo isso tem sido posto em xeque de algum modo. Cresce entre os investidores a ideia de que o modelo tradicional dos bancos está se tornando ultrapassado e que, em vez deles, haverá lugar apenas para as chamadas fintechs, instituições financeiras baseadas em aplicativos.

No Brasil, a desconfiança tem sido justificada pela comparação do desempenho das ações dos quatro maiores bancos do país – Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil – com o das do Inter, uma das instituições digitais que melhor simboliza os novos tempos. Desde que o Inter estreou na bolsa, em abril de 2018, seu valor de mercado multiplicou oito vezes. Além do Inter, outra estrela do segmento é a corretora XP, que tem papéis negociados na americana Nasdaq. De dezembro do ano passado, quando abriu o capital, até agora, a alta das ações chega a 60% em dólares. Já os quatro grandes, somados, tiveram queda próxima de 30% no mesmo período. A pandemia piorou o quadro: enquanto as ações dos grandes bancos amargam perdas que chegam perto de 40% entre o fim de fevereiro e o começo de outubro, como é o caso do Banco do Brasil, os papéis do Inter subiram cerca de 25%. O fenômeno não é apenas local. Nos Estados Unidos, na lista das dez maiores quedas nas bolsas em 2020 aparecem quatro das mais tradicionais instituições financeiras do país: JP Morgan, Wells Fargo, Bank of America e Citigroup.

O fenômeno não representa o fim dos bancos clássicos. Muito longe disso. Quando os números entram em cena, as desvantagens dos estreantes em relação aos tradicionais começam a aparecer. Enquanto o Inter registrou pouco menos de 3 milhões de reais em lucros no segundo trimestre e tem 12,4 bilhões em ativos, o Santander, com 27 milhões de clientes, obteve lucros de 2,13 bilhões de reais e 987 bilhões de reais em ativos. Em junho, a carteira de crédito do Itaú totalizava 811,3 bilhões de reais. No Inter, o valor mal chegou a 6 bilhões de reais. “Os grandes bancos são máquinas geradoras de dinheiro,” diz Alberto Amparo, analista da Suno Research. “Apesar da competição com as fintechs, eles ainda têm muitas vantagens.”

Entre elas, a escala, a eficiência e a capacidade de captar dinheiro no mercado a um custo mais baixo que o das instituições menores. A despeito de toda a roupagem descolada dos aplicativos dos bancos digitais, o negócio dos bancos ainda é o mesmo de 500 anos atrás: emprestar dinheiro. “As fintechs precisam crescer muito para emprestar no montante de um grande banco”, destaca Amparo.

Com o tamanho – e os lucros bilionários -, os bancos podem simplesmente absorver parte da concorrência. No marketing, o Itaú briga com a XP no crescente mercado do investidor pessoa física. Mas, em 2017, comprou quase 50% da corretora, participação que pode aumentar nos próximos anos. “As fintechs devem ser parceiras, e não apenas concorrentes”, diz Renato Lulia, head de Relações com Investidores e Inteligência de Mercado do Itaú.

Dito isso, é inegável que os bancos tradicionais parecem enfrentar uma tempestade perfeita. Eles sofrem com questões pontuais provocadas pela pandemia. A principal delas: a quarentena levou ao fechamento de inúmeros negócios e instalou milhões de pessoas na fila dos desempregados. O efeito imediato é o maior risco de inadimplência. Para se ter ideia, no primeiro semestre do ano passado o Itaú destinou 8 bilhões de reais para cobrir eventuais calotes. Em 2020, o montante subiu para quase 18 bilhões de reais. Isso afeta de forma decisiva os resultados: o lucro caiu quase 14 bilhões de reais do ano passado para cá. Como não poderia deixar de ser, a estratégia aborrece os investidores da bolsa, que têm nos bancos uma decisiva fonte de dividendos.

O que mais ameaça os grandes bancos, porém, é o aumento da concorrência. Um país com juros historicamente altos e pouca competição sempre garantiu gordos lucros às instituições que passaram no processo de seleção natural do ambiente econômico do Brasil. Historicamente, os retornos dos bancos brasileiros são maiores do que os dos estrangeiros. Desde 2010, o ROE (sigla em inglês para retorno sobre o patrimônio) do Itaú ficou abaixo de 20% somente em 2012. Nos EUA, o retorno do JP Morgan nos últimos dez anos nunca ultrapassou 15%. No ano passado, chegou a 13,9%.

Recentemente, o Banco Central, seguindo o exemplo de nações civilizadas, iniciou uma série de mudanças regulatórias que permitiram a abertura do mercado para as fintechs – o que, de quebra, tira receita dos grandes bancos. A mudança mais recente é o PIX, um sistema de pagamentos e transferências bancárias instantâneas que pode zerar o custo do TED ou DOC, fontes relevantes de recursos para as instituições tradicionais.

O impacto das ações do BC foi uma concorrência nunca vista no país. Há uma profusão de fintechs especializadas em venda de seguros, concessão de crédito, crowdfunding, plataformas de investimentos, gestão financeira, entre outros serviços. Segundo o Radar Fintechlab, existem no país 771 empresas desse tipo, um aumento de 27% desde o ano passado. Dessas, 270 foram fundadas nos últimos doze meses. Há dezessete bancos digitais e 114 plataformas de empréstimos. “Essas empresas mudaram o mercado de uma forma saudável”, diz João Carlos Santos, da consultoria Accenture.

O cenário é, de fato, desafiador. “Os bancos estão sofrendo ataques de todos os lados”, afirma Renoir Vieira, gestor da Aurora Capital e crítico do modelo de negócios das instituições financeiras do país. Vieira ganhou fama ao sugerir a venda das ações do Itaú – uma operação especulativa em que o operador aposta na desvalorização do preço de determinada ação. Segundo ele, os bancos tradicionais estão perdendo a batalha para as fintechs. “Eles continuarão sendo empresas boas e bem administradas, mas com lucros muito menores do que os atuais. Por que o Itaú teria um retorno maior do que o do JP Morgan? Não faz sentido”, diz Vieira. O Inter é o melhor exemplo da nova geração. “Não somos um banco, mas uma plataforma de serviços financeiros e não financeiros”, afirma João Vitor Menin, presidente do Inter. A isca para atrair clientes, geralmente jovens, é o custo zero na abertura e manutenção da conta- corrente. Para

isso, é preciso contar com uma estrutura leve. Não ter agências é um dos diferenciais apontados por Menin. Segundo ele, o custo de manutenção dos clientes corresponde a apenas 15% do que os grandes bancos gastam com a mesma atividade.

Uma vez dentro da plataforma, aí vale tudo para faturar. O aplicativo não se restringe aos serviços bancários tradicionais, mas permite a compra de produtos como roupas, tênis e passagens aéreas. No segundo trimestre, o marketplace cresceu 218%, com vendas de 123 milhões de reais. O ritmo de abertura de contas chega a 20.000 por dia. Atualmente, são cerca de 7 milhões de correntistas. É esse ritmo frenético de investimentos, com uma pitada de inovação, que está seduzindo os investidores na bolsa.

Criar um ecossistema com diversas marcas é a estratégia do Santander para competir com as fintechs. Recentemente, o banco espanhol comprou 60% da corretora on-line Toro Investimentos. A Toro se junta à Sim, plataforma de crédito para pessoa física, e à em Dia, de renegociação de dívidas, entre outras 22 marcas coligadas que atuam em segmentos como crédito, imóveis, seguros, tecnologia, entretenimento, investimentos, entre outros. “Nós podemos criar um grande ecossistema e ser tão bons quanto fintechs especializadas em um único produto”, diz Sérgio Rial, presidente do Santander. Os bancos públicos também aumentaram a presença digital. A Caixa lançou o aplicativo Caixa Tem que, entre outras funcionalidades, permite o pagamento de contas sem cartão nas casas lotéricas, e o Banco do Brasil criou há alguns dias uma conta digital movimentada totalmente por celular.

Quem vencerá a batalha? Talvez ambos. Alguns analistas acreditam que os bancos clássicos apenas diminuirão de tamanho, mas continuarão a ser empresas tão sólidas quanto sempre foram. As fintechs, por sua vez, precisam ter ganhos de escala inimagináveis para superar gigantes que estão no mercado há mais de 200 anos, como é o caso do Banco do Brasil. O que se sabe de antemão é que, como sempre acontece num mercado em plena competição, quem ganha é o consumidor.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – IX

AMOR OU ÓDIO?

Conheça os motivos que levam homens e mulheres a cometerem crimes passionais

O que leva uma namorada a agredir seu amado? Ou um cônjuge a tirar a vida de sua parceira? Em um clássico da literatura inglesa, o general Otelo é tomado pelo ciúme e convencido pelo soldado lago que havia sido traído por Desdêmona, sua esposa. O militar, então, a asfixia e, ao descobrir a verdade, apunhala-se, tirando a própria vida.

NA OBRA DE SHAKESPEARE

O ciúme é narrado desde a Antiguidade, mas a expressão “verde de ciúme” surgiu devido à obra Otelo, o Mouro de Veneza, do dramaturgo inglês William Shakespeare. A frase apareceu por conta da cena em que o soldado Iago – que manipula o general Otelo ­ afirma que “o ciúme é um monstro de olhos verdes, que zomba da carne de que se alimenta”.

Na história, o velho general Otelo havia se apaixonado e casado com a jovem e bela Desdêmona. No entanto, o soldado lago faz de tudo para abalar o casamento e alcançar seu objetivo: obter o cargo de tenente, que havia sido concedido ao soldado Cássio. Iago, então, convence Otelo de que Desdêmona e o soldado recém-promovido estão tendo um caso extraconjugal. O general fica descontrolado e asfixia a própria esposa, motivado pelo ciúme. No entanto, ao saber que tudo não se passava de uma armação, apunhala-se e cai morto sobre o corpo de sua mulher.

FORA DA FICÇÃO

Crimes passionais que levam à morte, agressão física, mutilação genital ou qualquer outra espécie de violência não existem apenas em livros, filmes e peças de teatro. Muitos Otelos e Desdêmonas estão espalhados pelo mundo. As psicanalistas Maria Thereza Coelho e Rosilene Santiago explicam que um crime passional pode ocorrer “quando uma pessoa passa por experiências que envolvem o término de um relacionamento por parte do parceiro (motivado por uma terceira pessoa) ou o relacionamento se encontra em vias de romper (pelo mesmo motivo)”. Os agentes também podem ser motivados pela dúvida da traição e sentimentos como ciúme e ódio, em relação à parceira e ao “rival”. Além disso, não têm a possibilidade de “descarregar o excesso de energia psíquica e denominar o que lhe ocorre”, acrescenta. Ainda segundo as especialistas, o indivíduo pode ficar descontrolado, ansioso, impulsivo e também consumir substâncias psicoativas que o levam a ações não planejadas. “No momento do crime, ele perde o controle sobre si e seus atos. Às vezes, tem um lapso de memória em relação à própria ação criminosa, significando-a como fraqueza, tentação demoníaca, defesa da honra, dentre outros sentidos”, complementam.

De acordo com o psicólogo João Alexandre Borba, para uma pessoa cometer um crime passional, é preciso que acumule a raiva por muito tempo até perder o controle. “Nunca uma pessoa vai virar, de repente, e tomar uma atitude exasperada ou que cause um mal ao outro. Se ela fizer isso, é porque já vem agredindo o próximo”, explica.

ESCUDO ERRADO

Quem está dentro de um relacionamento amoroso em conflito pode perceber os primeiros sinais de raiva, agressão física e psicológica da parte do parceiro. Além disso, é possível notar se há algum sentimento reprimido. “A raiva, quando muito acumulada, é um sentimento que funciona para proteger outra emoção”, afirma Boroa.

Também de acordo com o psicólogo, o ideal seria expressar o que a está causando; no caso, pode ser o sentimento de tristeza ou a insegurança. “Quando esse nível de autoexpressão não acontece, a pessoa começa a se perder e isso gera um descontrole. E aí, no momento em que passa a perder quem ela é, realmente pode fazer uma besteira”. O suicídio ou a agressão física a outrem podem ser algumas das consequências.

É PSICOPATIA?

O indivíduo que se descontrola diante de uma situação de intensa emoção nem sempre é um portador do transtorno de personalidade antissocial. Muitas vezes, ele perdeu o controle e não conseguiu manter um nível saudável de sanidade naquele momento. Contudo, segundo Boroa, no caso de um crime em que se tira a vida de alguém de uma maneira descomunal, “pode-se contar que há alguns traços de psicopatia no meio”, destaca.

Por outro lado, se o indivíduo for um psicopata – em um nível severo -, é capaz de assassinar e usar o outro para alcançar seus objetivos ou para adquirir status, o nível de racionalização do psicopata é altíssimo; eles não têm emoção. Se alguém é muito sensível, vive sofrendo e não sabe o que fazer com esse sofrimento, está sempre se lamentando e, então, encontra um psicopata, para ele, essa pessoa é um prato cheio”, explica o psicólogo. O fato é que o psicopata irá utilizar uma pessoa frágil e insegura para conquistar o que deseja. E, quando tal vítima não “servir” mais, é possível que ele a torture, ataque e cometa um crime, mesmo sem motivos aparentes.

Contudo, no caso de uma raiva extrema, a origem está na dificuldade em impor as próprias emoções o que leva ao descontrole emocional “porque, se quer demonstrar o amor e não consegue, na hora em que o companheiro fizer algo que agrida ou que ele critique o fato de não demonstrar amor, a pessoa pode ficar agressiva”, explica Boroa. Como o indivíduo está lutando para demonstrar e não consegue, ele pode se sentir cobrado e humilhado e, assim, desenvolver a raiva. “O psicopata não tem essas emoções; ele vai sentir algo, ou sentir que está compreendendo. Daqui a pouco, ele faz alguma coisa para poder conseguir o poder, o status ou pela própria diversão”, acrescenta o psicólogo.

QUESTÃO DE PODER

Em 2010, Santiago e Coelho publicaram o artigo A violência contra a mulher na perspectiva de homens presos que cometeram o crime passional. Elas desenvolveram um estudo qualitativo em duas unidades prisionais em Salvador, na Bahia, para saber o que levava alguns homens a praticarem o crime passional dentro de um relacionamento. “A nossa pesquisa não contemplou os aspectos psicopatológicos do crime passional, mas possibilitou ver que tal crime pode ocorrer tanto entre pessoas de estrutura neurótica quanto entre indivíduos com diversos transtornos psicológicos e de personalidade. A baixa tolerância à frustração e à perda da pessoa amada podem desencadear passagens ao ato em indivíduos com personalidades variadas”, explicam as autoras.

Ainda de acordo com a pesquisa, a violência de gênero está associada às desigualdades presentes nas relações de poder construídas na sociedade, entre homens e mulheres. “Historicamente, o patriarcado e o machismo deram origem a uma lei que defendia essa forma de violência como um ato por amor, em legítima defesa ou honra, inocentando os homens que a cometiam”, acrescei1tam as psicanalistas.

PARA A LEI

Segundo a advogada Danielly Ferlin, os crimes passionais são aqueles cometidos em razão da paixão, mesmo que platônica. “É necessário que haja um vínculo entre estas pessoas, seja ele afetivo, sexual ou econômico. Ou seja, muitos passionais acreditam que, por sustentarem financeiramente sua parceira, esta é sua propriedade”, explica. Por isso, nem todo delito no âmbito amoroso é caracterizado como passional. Existem crimes, por exemplo, que visam a obtenção do seguro de vida do cônjuge.

Não há, na legislação brasileira nem no Código Penal um conceito de crime passional. Não existem artigos específicos que tratam sobre o tema. “O nosso Código fala que os crimes praticados por emoção ou paixão não excluem a imputabilidade. A pessoa não vai ser considerada inimputável; vai ser considerado um crime da mesma forma. Mas, de uma forma geral, isso é tido como uma atenuante”, acrescenta a advogada Helena Lobo da Costa.

No país, o principal crime passional é o homicídio consumado e a tentativa de praticá-lo. De acordo com Ferlin, “de cada dez assassinatos cometidos, ao menos um tem como motivo o ciúme excessivo e inconformismo com o fim de relacionamentos amorosos. Neste ponto, ainda devemos ressaltar a questão do medo da vítima e de seus familiares. Muitos casos não chegam a ser noticiados perante à autoridade competente por medo das vítimas”.

SOBRE A SENTENÇA

Crimes de violência doméstica nem sempre são passionais. Entretanto, nos casos de atos praticados contra a mulher, existe a Lei Maria da Penha (nº 11.340) que prevê a aplicação de algumas medidas protetivas de urgência como afastamento do lar, delimitação de distâncias que o agressor deve ficar longe da vítima, proibição de comunicação, restrição ou suspensão de visitas aos filhos e enteados.

Já nos casos de homicídios passionais, segundo Ferlin, “o trâmite processual é o mesmo de qualquer homicídio, analisando-se as qualificadoras do crime, e o julgamento ocorre através do Tribunal do Júri, onde o Conselho de Sentença é formado para que o acusado seja condenado ou inocentado”. Mesmo que o autor do crime apresente alguma patologia psíquica, é necessário avaliar se ele sabia o que estava fazendo no momento do crime e se é capaz se determinar o próprio comportamento. Só assim, é possível aplicar uma sentença.

Ainda segundo a advogada, “o agente que mata a vítima por questões passionais quer exercer o direito de posse que julga ter: “se não é minha, não será de mais ninguém”.