EU ACHO …

O RAIO DA PAIXÃO E A CONTRUÇÃO DO AMOR

Nós vivemos numa civilização e, em sociedade, a irracionalidade é a princípio inaceitável. Mas a paixão, que é irracional, é aceita – e é aceita porque somos seres apaixonados.

Não há invenção sem dor e paixão, assim como não há religião sem temor ou terror, ou a possibilidade de conceber um ser superior sem você ter de se reconhecer como inferior. Da mesma forma, não há necessidade de divindade se alguém se considera completamente potente. Mas, se você supõe que uma entidade pode machucar ou “puxar seu tapete”, é preciso encontrar modos de agradá-la. A fonte da religião é o terror, mas seu significado vai muito além.

De maneira geral, a Ciência, a Arte, a Filosofia e a Religião são quatro caminhos que têm por trás uma mesma questão: “Por que algo – nós, o mundo, o universo – existe?”. Ou: “Por que existimos em vez de não existirmos?”. Reconheça que é um tema que desperta paixões, assim como o futebol e a política…

Observo aqui que a palavra latina “paixão” vem do grego pathos, que é a raiz da palavra patologia, que carrega consigo doença e afecções, ou seja, aquilo que te afeta (quando o mal está dentro, é uma infecção). Por isso, a Paixão de Cristo. Não é “paixão” porque Cristo estava apaixonado por alguém, e sim porque sofreu. Paixão é transtorno, é ebulição. E a metáfora do frescobol nos ajuda a lembrar que uma das coisas que precisamos aprender é a transformar paixão em amor.

A paixão agride, suspende todas as referências, suspende o tempo e o espaço. A paixão é a suprema negação do óbvio. Um casal de apaixonados num banco de parque está sempre sozinho – ao redor, não existem crianças, bolas, cães, parque, trânsito lá fora, cidade em volta. A paixão é uma explosão de energia que exige um desgaste imenso para sustentar sua produção de energia. Se ela não for transformada em amor, ela sucumbe em si mesma, implode, se transforma em um buraco negro – buracos negros se originam em estrelas superpoderosas que, num dado momento, deixam de produzir energia e, por isso, passam a consumir apenas a energia que já têm. E aí elas têm, digamos, um momento de paixão fulgurante, que é quando explodem. No momento da explosão, são chamadas de supernovas. Mas, depois disso, elas desabam, arrastando tudo ao redor, inclusive a gravidade, e se transformam num buraco negro.

O psicanalista alemão Erich Fromm afirmava que o amor imaturo diz que te ama porque precisa de você. E que o amor maduro diz que precisa de você porque te ama. A paixão é movida por necessidade. Por esse ponto de vista, nós não conseguimos existir sem paixão – mas ela não pode ser contínua, pois não pode fornecer, para usar uma palavra da moda, sua própria sustentabilidade.

A paixão tem de ser o ponto de partida, mas não pode ser o ponto de chegada. Ela precisa ser transformada em algo que seja menos explosivo e mais propício à constância, como o amor. Gosto muito de uma frase de Roland Barthes, escritor e filósofo francês, que consta de um livro chamado Fragmentos de um discurso amoroso: “Você não ama alguém, e sim ama o amor”.

Uma pessoa que te ama é aquela que guarda o teu amor consigo. Quando ela deixa de te amar, ela também deixa de guardar o teu amor dentro dela.

Assim, o amor é uma sensação de pertencimento recíproco que almeja a plenitude. No fundo, o amor é uma identidade, pois eu me encontro no outro ou na outra. O amor tem turbulências, mas ele não é confronte, e sim conflitante. O amor, ao contrário da paixão, oferece paz – sendo que paz não é ausência de conflitos, e sim a capacidade de administrar conflitos para que não haja ruptura. Assim, se você consegue guardar o meu amor, se

cuida dele, eu fico. Mas, se não cuida nem o guarda, eu parto. Há também os casos em que o amor não é cuidado nem guardado e a pessoa resolver ficar mesmo assim. Nesses casos, isso é conveniência, e não convivência.

Ao contrário do amor, a paixão não tem a ver com o outro, e sim com você mesmo, com a sua obsessão por uma pessoa ou situação. Há pessoas que são viciadas em paixão, na adrenalina da paixão, para alimentar uma necessidade que só pertence a si mesmo, e não ao outro.

Ninguém é isento de paixão, mas é preciso ter em mente que a paixão é eventual e rápida. A paixão, insisto, consome uma energia impossível de sustentar. Se o amor e a vida são uma maratona, a paixão são os cem metros rasos – e todo mundo que já viu uma corrida dessas sabe que o atleta a termina mal conseguindo se sustentar em pé, tamanho o consumo de energia. Ninguém consegue se manter em disparada, há um limite físico para isso. A paixão é como um raio; ela brilha, ilumina, tem uma energia imensa – uma energia que precisa ser contida ou canalizada para não fulminar aquilo que está na sua frente, uma energia que precisa ser transformada para que não origine uma perturbação ou um transtorno.

Ao contrário da paixão, o amor compreende. Compreensão é diferente de dominação ou de aceitação, até porque alguém que não seja um preconceituoso contumaz só pode aceitar ou rejeitar depois de ter compreendido. Compreender é ser capaz de entender as razões, mesmo sabendo que razões são sempre provisórias. Quando você tem consciência da fugacidade das razões, mata qualquer indício de fanatismo e se torna uma pessoa mais acolhedora, apta a receber o outro como a um igual. Caso contrário, está à mercê da paixão, vulcânica e devastadora.

Só quando a paixão arrefece, quando fica sob controle, que pode se transformar em amor e, assim, em paz de espírito. Observo mais uma vez que paz não é ausência de conflito ou a inexistência de desacertos, e sim a capacidade de administrar as turbulências sem se perder.

São inevitáveis as pedras no meio do caminho (quando Drummond escreveu sua poesia, ele estava brincando com Olavo Bilac, que tem um poema chamado No meio do caminho da nossa vida, que, por sua vez, é o primeiro verso da Divina Comédia, de Dante Alighieri).

Mas pedras são apenas pedras, umas grandes, outras menores. São obstáculos a serem contornados. O que não pode acontecer é que as pedras se tornem barreiras. Pedras são fronteiras: elas demarcam um território de risco, mas não indicam impossibilidade.

Impossibilidade é haver paz enquanto há paixão.

***MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”.

OUTROS OLHARES

LIBERTAÇÃO DOS ORIXÁS

Após um século, objetos de religiões afro-brasileiras apreendidos pela polícia vão para o Museu da República. Mas parte do País ainda reluta em aceitar a liberdade de culto

Um contido e escondido canto pede licença há cento e trinta anos para ser entoado plenamente às claras. Um batuque bem baixo do atabaque quer o direito de libertar uma cultura aprisionada. Desde o início da decretação de nossa República, em 1889, religiões afro-brasileiras foram tratadas como marginalidade e malandragem, tratadas com desrespeito e intolerância (“chuta que é macumba!). Cento e trinta anos se passaram para que hoje se reconheça, e ainda assim com ressalvas, a importância da liberdade de culto como um dos principais valores republicanos e democráticos. Quinhentas e vinte e três peças, utilizadas na umbanda e no candomblé, acabam de ser transferidas, no Rio de Janeiro, do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) para o Museu da República.

Desde 1890 e pelo menos até 1941 a polícia fechava à bala terreiros e casas de candomblé e umbanda; o tempo foi passando, a repressão seguiu em diante, tudo o que era apreendido foi rolando de delegacia em delegacia até que acabou no Dops. A perseguição e o preconceito acabaram? Infelizmente, ainda não. E só terminarão quando o tecido social assimilar que o mal não está na essência das religiões, mas, sim, em mentalidades arcaicas, como as que estão novamente sendo impostas a partir do governo federal. Ivanir dos Santos, professor especializado em intolerância religiosa, levanta a questão: “Como o Museu da República vai contar uma das mais tristes histórias da própria República?”.

A movimentação para a libertação dos objetos começou com a ialorixá mãe Meninazinha de Oxum. Ela foi a grande pioneira da ação “Liberte nosso sagrado”: “É crime ser do candomblé? É crime cultuar orixás?”. As perguntas de mãe Meninazinha podem parecer vagas atualmente, e não sem razão: apesar de persistir boa dose de intolerância, já não há penalidades legais aos adeptos de religiões afro. Houve um tempo, no entanto, em que cultuar orixás era crime previsto no Código Penal — o de 1891, já no Brasil republicano, que punia severamente os praticantes. Eram criminalizados “a prática do espiritismo, da magia, dos sortilégios e o curandeirismo”. Só que, no mesmo ano, a primeira Constituição do País já fixava a liberdade religiosa — ou seja, vem do final do século XIX a carência de coerência entre a Constituição e as leis infraconstitucionais. Valendo-se então do Código Penal, aconteciam confiscos e prisões. Eis um resumo da opressão: quando tomaram o escudo do cidadão Sizenando José da Silva, em 1941, a polícia o obrigou a encenar o “recebimento de um espírito”. Violência maior, impossível.

A RESSACA DO MAR

Situação semelhante se deu com Custodio de Souza Caravana Filho, no bairro carioca Turiaçu: ele foi preso e seus objetos confiscados porque policiais acreditavam que estava “fazendo macumba”. À época, o jornal “Diário da Noite” noticiou: “Grupo de ‘macumbeiros’ na Polícia Central”. “Tudo isso fez parte da minha história e da minha família”, diz o filho Fabrícius Cusdodio de Souza Caravana, diretor da tradicional casa espírita de pai Fabrício, fundada em 1914. “De alguma forma, o Estado precisa reparar a violência cometida”, diz ele. A transferência, agora, de apetrechos de umbanda e candomblé para o Museu da República é uma vitória, mas não se traduz ainda em democracia de culto: somente no ano passado a intolerância religiosa aumentou 56% no Brasil. Nas passagens de ano, muita gente veste branco, pula sete ondinhas em reverência a Iemanjá e lança- lhe oferendas nas águas. Mas aí vem a ressaca do mar, vem a batida do dia a dia, vem a cultura secularmente enraigada. E, muitas vezes, nessas mesmas pessoas ocorre a recidiva da intolerância.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

11 DE OUTUBRO

DEUS, O FUNDAMENTO DA NOSSA FÉ

De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe… (Hebreus 1 .6a).

Com frequência escuto a pergunta: “Se Deus é o Criador de todas as coisas, quem criou Deus?”. Não falta quem afirme que Deus é uma criação do homem. Será isso verdade? Se o homem que veio do pó, é pó e voltará ao povo que criou Deus, qual é o tamanho desse Deus? A verdade irrefutável é que Deus não foi criado, mas existe desde toda a eternidade. Ele é autoexistente, eterno, imenso, infinito, imutável, onipotente, onisciente, onipresente, transcendente, soberano. É o Criador, o sustentador e governador do universo. Deus não precisou criar o universo para ser Deus nem deriva dele sua glória. É glorioso em si mesmo, perfeito em si mesmo, feliz em si mesmo. Não descobrimos Deus pela lucubração mental nem pela meditação transcendental. Foi Deus que se revelou a nós. Revelou-se pela criação e também em sua Palavra. Revelou-se na nossa consciência e sobretudo em seu Filho. Deus é o fundamento da nossa fé. É a razão da nossa vida. Ele é nosso Criador, nosso provedor, protetor, consolador e redentor. É nosso refúgio e nossa esperança. É torre forte no dia da angústia e orvalho nas noites escuras da alma. Deus é nossa paz, nossa herança, nossa recompensa; é o maior bem que possuímos na terra e nossa incomparável herança no céu.

GESTÃO E CARREIRA

O PODER FOI PARA A PONTA

O mercado brasileiro de franquias está cada vez mais concentrado em operadores com diversas unidades de uma OLI mais marcas. São os multifranqueados, que já atraem até o interesse de fundos de investimento

Todos os anos, no mês de março ou abril, um grupo de empreendedores brasileiros embarca para Las Vegas, nos Estados Unidos, para a feira mundial de multifranqueados. O aumento do tamanho da turma revela uma evolução no mercado brasileiro de franquias. Em 2017, foram seis participantes; em 2019, 18. Multifranqueados são empreendedores que têm várias unidades de franquias, de uma ou mais marcas. Nos Estados Unidos, alguns operadores têm mais de 1.000 lojas. No Brasil, a tendência é mais recente, mas cresce em ritmo acelerado. Em empresas como a fabricante de cosméticos O Boticário, alguns franqueados chegam a ter uma centena de lojas. O empreendedor Mauro Nomura, dono do Grupo Nomura, é exemplo desse novo tipo de empreendedorismo. Com 31 lojas de calçados Adidas, Arezzo e Schutz, em Florianópolis, São Paulo e Rio de Janeiro, Nomura deve faturar 230 milhões de reais neste ano, 33% mais do que em 2019. Em 2010, eran11 lojas, com receita total de 35 milhões de reais. “Há cinco anos, ninguém sabia direito o que era um multifranqueado”, diz Nomura.

Iniciativas como essa têm se tornado cada vez mais frequentes – e muitas vezes incluem até planejamentos de expansão feitos sob medida para os bons operadores. A Domino’s, do Grupo Trigo, vendido ao fundo Vinci Partners em 2018 por cerca de 300 milhões de reais, acabou de fechar um plano minucioso de abertura de dez lojas na Região Sul. O trabalho foi feito especialmente para um dos multifranqueados. “Trata-se de um deste Lot e os gestores da marca chegaram à conclusão de que valia à pena aprofundar a relação. “Lot é um excelente operador, com conhecimento do negócio e capacidade para nos ajudar na expansão”, diz Marcelo Cordovil, diretor de expansão da franqueadora. A loja de Brasília tem sido um sucesso, com 13.000 clientes em dezembro.

Empreendedores como Nomura e Lot são expoentes de uma sofisticação no mercado brasileiro de franquias. Os grandes franqueadores preferiam diluir os riscos com a contratação de dezenas ou centenas de franqueados, numa estratégia de expansão definida na matriz. Ao franqueado cabia executar o já definido. Mas a crise econômica dos últimos anos acelerou uma mudança que, na visão de especialistas do setor, seria inevitável. A dificuldade financeira de algumas lojas fez com que as franqueadoras acelerassem a busca por franqueados experientes, dispostos a assumir mais responsabilidade. “Os pequenos franqueados, que tinham só uma loja, tiveram mais dificuldade para enfrentar a perda de clientes”, diz o consultor de franquias Marcelo Cherto, presidente do Grupo Cherto.

Na rede Mania de Churrasco, que faturou 224 milhões de reais em 2019, o dobro de 2017, hoje 70% dos franqueados têm mais de uma loja. Há quatro anos eram apenas 30%. Na Domino’s, os multifranqueados têm metade das 224 franquias no país. Com uma estrutura operacional mais robusta, os multifranqueados em geral conseguem baixar custos, como gastos com energia elétrica e água e também com insumos básicos. Tudo isso ajuda a elevar a rentabilidade do negócio, mantém mais dinheiro em caixa e facilita o ganho de escala. Alguns multifranqueados têm inovado também no pós-venda. O carioca Leonardo Sobral, franqueado de 24 lojas das redes de roupas Levi’s e Hering e da rede de cosméticos O Boticário, criou uma estratégia para tornar fiel a clientela. Os funcionários de sua empresa, a Sfera Multifranquias telefonam para os consumidores para saber se gostaram do produto que compraram. Quando há alguma insatisfação com o produto, um funcionário da Sfera visita os clientes para entender os motivos da reclamação e procurar uma solução. “Convidamos o cliente para ir à loja e oferecemos um atendimento especial”, diz Sobral. Com iniciativas dessa natureza, o valor médio de cada venda da Sfera aumentou 12% no ano passado. “Para as marcas, é um passaporte para o crescimento sustentável”, afirma Alberto Oyama, diretor da unidade de multifranqueados na Associação Brasileira de Franchising.

Os bons resultados dos multifranqueados começaram a chamar a atenção até de fundos de investimento. Segundo apuramos, o Vinci Partners e o americano H.I.G. Capital, com 35 bilhões de dólares em ativos, estudam investimentos. A tendência de ganho de escala dos multifranqueados, a resiliência perante a crise econômica e o aumento da procura por alimentação fora do lar estão entre os fatores de atração. Nomura vem conversando com vários desses fundos. “Provavelmente, em 2021 receberemos algum aporte”, afirma ele. Seria um divisor de águas no setor de franquias, um importante motor da economia. No ano passado, esse mercado movimentou quase 187 bilhões de reais, ante 175 bilhões em 2018. De 2014 a 2018, no auge da queda do consumo das famílias; o setor cresceu cerca de 30%. “ó mercado ainda pode amadurecer mais, com a chegada de novas marcas e o fortalecimento cada vez maior dos bons operadores, como já acontece em outros países”, diz Oyama. A referência é o mercado americano. Mais da metade dos franqueados por lá tem mais de uma loja. O Flynn Restaurant Group, que opera 1.245 restaurantes das marcas de fastfood Aplebee’s, Taco Bell e Arby’s e da rede de padarias Panera Bread, faturou 2 bilhões de dólares em 2019. O grupo recebeu em 2014 investimentos da ordem de 300 milhões de dólares do Ontario’s Teacher’s Pension Plan, um dos maiores fundos de pensão canadenses. O NPC International não fica muito atrás, com 25.000 funcionários e mais de 1.000 lojas de Pizza Hut e Wendy’s, e um faturamento de mais de 1 bilhão de dólares. Já o grupo mexicano Alsea, criado em 1997, opera mais de 3.000 restaurantes de Burger King, Starbucks, Domino’s, P.F Chang’s e Cheescake Factory. As lojas estão distribuídas por México, Chile, Argentina, Colômbia, Espanha e França. A empresa faturou 12,6 bilhões de dólares em 2018 e abriu o capital no México há seis anos. Neste ano, deve abrir na Espanha. “O mercado brasileiro está no caminho certo para chegar ao ponto de maturidade de outros países”, diz Cheito. O risco dessa concentração é desvirtuar o próprio conceito de franquia, que proporciona à dona da marca o controle das decisões – e royalties livres de risco. Uma gestão descentralizada tende a reduzir margens, que passam do franqueador para o franqueado. Para empresas como Domino’s, O Boticário e Arezzo, parece que vale a pena apostar.

CONCENTROU E CRESCEU

As redes de franchising expandiram a receita em 44% desde 2014, mantendo quase o mesmo número de unidades

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – VIII

LIDANDO COM O MAL

Com o diagnóstico correto, é possível seguir medidas paliativas para conviver com o transtorno

Nenhum transtorno mental é fácil de ser tratado, já que são manifestações complexas e que, por não serem doenças, não são passíveis de cura. O que ocorre, muitas vezes, é o controle dos sintomas, o que ameniza comportamentos agressivos e melhora a convivência social.

Isso é o que acontece no transtorno de personalidade antissocial. “Por não ser uma doença, não existe tratamento. Nem medicamentos e nem psicoterapia”, afirma o psiquiatra Vladimir Bernik. Isso quer dizer que devemos nos refugiar nas colinas mais próximas fugindo dos psicopatas a solta? Não é bem assim…

CONTORNANDO OS SINTOMAS

Apesar de a ciência ter evoluído bastante, tornando capaz a identificação de diversas características da psicopatia, pouco se sabe sobre como enfrentar todos os sintomas do indivíduo considerado psicopata, porém, medidas paliativas têm demonstrado bons resultados. “Todos os tratamentos atualmente disponíveis são paliativos e não visam a cura do transtorno, mas o controle dos sintomas e comportamentos”, conta o psicólogo Armando Ribeiro. O especialista destaca as terapias como cognitivo-comportamental, a cognitiva dos esquemas e a comportamental dialética, entre algumas das abordagens psicológicas mais usadas atualmente para lidar com o transtorno. Elas representam dados positivos sobre a redução dos sintomas das psicopatias, principalmente no fortalecimento das conexões cerebrais relacionadas à empatia e ao controle do impulso”, complementa.

Com toda sua complexidade e sintomas diversos, é comum que mais de uma terapia seja aplicada no indivíduo. “Não há um tratamento eficaz para a psicopatia como um todo. Como a impulsividade a irritabilidade e a agressividade são frequentes neste transtorno, medicações que controlam estes sintomas, tais como o carbonato de lítio, alguns anticonvulsivantes e antipsicóticos são utilizados. Além disso, a psicoterapia cognitivo-comportamental costuma ser associada aos medicamentos”, explica o psiquiatra Sérgio, Tamai. Assim, na busca pelo controle (e não cura!) do mal, diversos profissionais são envolvidos com seus meios específicos.

MELHOR DO QUE REMEDIAR…

… é prevenir! O velho ditado também pode ser aplicado no caso de psicopatas. Apesar de não se saber completamente o motivo do desenvolvimento do transtorno, bem como o que seria o estopim que desencadeia o comportamento agressivo, o ambiente pode apresentar forte influência. Assim, possibilitar qualidade de vida desde a infância é fundamental para evitar o desenvolvimento da psicopatia. “A prevenção por meio de programas pré-escolares e o esclarecimento de pais e professores são medidas socioeducativas importantes para reduzir o aparecimento do transtorno em crianças e adolescentes. O encarceramento é comum a muitos portadores de psicopatia por conta da prática de crimes e atos violentos contra pessoas”, destaca Ribeiro.

COMO FUNCIONAM AS TERAPIAS

TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL:

Uma mescla de terapia cognitiva e de terapia comportamental, é considerada uma das técnicas mais eficazes no tratamento de transtornos mentais. É guiada pelo diagnóstico do transtorno e pela análise do problema individual.

TERAPIA COGNITIVA DOS ESQUEMAS:

Desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Jeffrey Young, a técnica foca no tratamento de diversos transtornos de personalidade. O objetivo é mudar a forma de encarar, interpretar e reagir aos estímulos, chamado de esquema.

TERAPIA COMPORTAMENTAL DIALÉTICA:

Desenvolvida especialmente para o tratamento de transtornos de personalidade, busca resolver conflitos de forma reacional por meio de sua exposição direta, ao mesmo tempo em que prioriza a qualidade de vida do paciente.

O PODER DA HIPNOSE

Uma das terapias que pode ser aplicada nos casos de psicopatias é a hipnose. De acordo com Stephen Paul Adler, psicanalista que aplica a hipnose Ericksoniana, voltada à resolução de trauma psicológico, focalização e treinamentos corporativos, os psicopatas estão em uma espécie de transe destrutivo negativo, ficando muito sensíveis ao transe hipnótico. “Eles normalmente sofrem de má ligação e um transtorno de apego a si mesmos. A hipnose pode ser usada para refazer uma conexão para que eles possam eventualmente tornar-se conectado com firmeza. Um indivíduo bem conectado tem conhecimento de outras pessoas e suas necessidades e vive a vida em uma base relacional”, explica Adler.

Seguindo esta linha de tratamento, quem sofre do transtorno pode ser curado, porém, é um caminho longo: “pode ser refeito através de transes hipnóticos positivos que permitem que o paciente relembre traumas passados ou experiências negativas da família e construa um final diferente e saudável. Um final que deveria ter acontecido, mas não o fez”, conta o especialista.  Contudo, é importante destacar que nem todos os casos podem ser resolvidos. “Nem todas as abordagens funcionam com qualquer um. Cerca de 95% de toda a mudança de comportamento começa no inconsciente”, relata.