EU ACHO …

ESCREVER, PARA APAZIGUAR…

Viver pressupõe aprendizado e muita coisa que se aprende precisa de método – a determinação de razões e senões não deixa de ser um método para estabelecer sentidos à vida. Dos vários modos que existem para aprender a viver melhor, um dos que mais aprecio é a escrita. Para escrever, é preciso pensar. Para escrever bem, é preciso pensar bem. Escrever ajuda a elaborar o raciocínio, a sublimar emoções, a organizar o mundo. A escrita tem funções que muita gente não imagina; é útil nas situações mais diversas e inusuais. A humanidade faz isso há séculos: para espantar seus fantasmas, ela escreve.

Quando três dos meus filhos eram pequenos, houve uma época em que eu e minha mulher trabalhávamos muito e chegávamos tarde em casa, às vezes só depois das dez ou onze horas da noite. Tínhamos uma ajudante para cuidar das nossas crianças. Mas, por mais que ela zelasse pela “tropa”, era quase impossível não haver conflito entre eles. Note que o conflito é inerente à convivência humana – conflito é uma divergência de posição, de postura, de ideias, de atitudes. Conflitos são inevitáveis. O que não pode acontecer é que o conflito se transforme em confronto, que vem a ser a tentativa de anular o outro. Uma guerra nunca é um conflito; é sempre um confronto. Três crianças juntas têm muitos conflitos e isso é normal. O que não pode é que esses conflitos degenerem em confronto.

Mas, então, nós trabalhávamos muito e, assim, não podíamos estar presentes durante o dia para acompanhar o que ocorria em casa. Se, logo depois do almoço, por exemplo, um deles xingava o outro ou rabiscava um caderno de propósito, aquele que tinha sido a vítima ficava numa situação difícil. O tempo transcorrido entre a hora do conflito e a hora do “julgamento” (quando os pais voltassem para casa) era tão grande que isso gerava uma pressão quase incontrolável. Numa época em que não havia celular, telefonar era complicado. A ajudante não tinha autoridade para resolver. O outro irmão não podia fazer nada.

Numa situação dessas, é preciso que o líder ou os responsáveis inventem mecanismos de dificultação do confronto. No nosso caso, criamos um “livro de reclamações”. Ele foi inspirado em algo que aprendi com os bombeiros: todo animal acuado, seja cachorro louco, onça ou humano, precisa de uma rota de fuga. Se um animal se sente ameaçado e não tem para onde correr, ele só vê uma alternativa: atacar quem o está acuando. O corpo de bombeiros, aliás, me ensinou outra coisa importante, que também tem a ver com conflitos e confrontos: nenhum incêndio começa grande. Começa com uma faísca, uma fagulha. A questão então é evitar que o pequeno saía do controle, torne-se grande e provoque um estrago considerável.

Nosso livro de reclamações ficava em um lugar de fácil acesso a todos. Era uma espécie de versão em papel de um “tribunal de pequenas causas”. Sua principal função era acompanhar a rotina e ajudar a apagar incêndios.

Antes de sair de casa, dávamos a instrução: “Registrem no livro qualquer problema que vocês tiverem”.

Então, se o André, o mais velho, puxava a calça do Pedro, o mais novo, em vez de partir para briga, o Pedro ia até o livro e registrava sua reclamação. Como era um livro democrático, o André tinha direito à réplica. Então escrevia embaixo: “Eu não fiz isso, não foi assim que aconteceu, foi de outro jeito”. O Pedro lia as palavras do irmão e colocava ali a sua tréplica: “Ele fez sim, quis me humilhar, foi assim mesmo que ele fez e coisa e tal”.

Além da função prática, escrever tinha um importante componente psicológico, um oportuno fator de descompressão. Quando chegávamos em casa, uma das primeiras coisas que fazíamos era examinar as ocorrências do dia. Se necessário, agíamos como juízes, fazíamos acareações, contemporizávamos, aplicávamos sanções, relaxávamos a pena, passávamos reprimendas, orientávamos: “Olha, é errado você se divertir com a

humilhação do outro. Isso é como caçar por esporte, é a tolice encarnada”. Mas, muitas vezes, não era necessário fazer nada. Eles já tinham desistido da contenda porque o registro do fato ajuda a assimilá-lo e a lidar com ele.

É o que acontece, por exemplo, quando seu carro é furtado e você vai fazer um “boletim de ocorrência” ou um “termo circunstanciado” na delegacia ou pela internet. Quando descobre que parte do seu patrimônio foi subtraída, sua primeira sensação é de impotência. Mas, a partir do registro do fato, a partir do boletim de ocorrência, você acalma um pouco, começa a enxergar uma solução para o problema, uma perspectiva de reparo ao dano e também de justiça.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

PASSADO QUE INSPIRA

Antigo símbolo de status, o BlackBerry sumiu depois do surgimento do iPhone. Agora, a marca aposta nos teclados tridimensionais para recuperar o tempo perdido

Poucas marcas corporativas passaram por altos e baixos tão intensos nas duas últimas décadas quanto a canadense BlackBerry. No início do século, o smartphone lançado pela empresa Research in Motion (RIM) revolucionou o mercado ao criar um aparelho que trazia um teclado tridimensional no corpo do celular. Hoje em dia, na era das telas touchscreen, isso parece bobagem, mas a novidade casou forte impressão naquela época por facilitar a tarefa de digitar textos de mensagens e e-mails. Não demorou para que o BlackBerry se tornasse inseparável na rotina de executivos bem-sucedidos, um símbolo de status profissional e sofisticação. Com o tempo, a reputação foi convertida em desempenho comercial: em 2005, o BlackBerry detinha 20% do mercado global de smartphones e 55% do americano, índices incomuns em qualquer ramo de atividade. O sucesso estrondoso não foi acompanhado pela preocupação da empresa em continuar inovando – o erro foi fatal. Em 2007, Steve Jobs apresentou ao mundo o iPhone, e o resto é história. A partir daí, a queda do BlackBerry foi tão rápida quanto a ascensão. Diante do aparelho de Jobs, com suas câmeras de alta resolução e a infinidade de aplicativos, o rival parecia, de fato, um trambolho obsoleto. Em 2016, sendo responsável por apenas 0,1% das vendas de smartphones no mundo, o BlackBerry foi retirado melancolicamente do mercado.

Agora ele está de volta. Para reconquistar os consumidores, a marca aposta nos aparelhos 5G, dotados de tecnologia de processamento 100 vezes mais veloz que a dos modelos 4G, e no sistema operacional Android. O retorno é fruto da parceria da Onward Mobility, startup americana que será responsável pela produção dos aparelhos, com a FIH, subsidiária da Foxcom, empresa taiwanesa que lidera a fabricação de componentes eletrônicos. À BlackBerry caberá apenas o licenciamento do nome do celular. Embora o design dos novos smartphones ainda não tenha sido finalizado, um detalhe é certo: eles virão com icônico teclado alfanumérico tridimensional, raridade no mundo dos touchscreens. O motivo é simples. Os idealizadores do projeto desejam, obviamente, reconquistar os antigos clientes que fizeram a fama do BlackBerry duas décadas atrás.

Os atrativos do BlackBerry vão além da aparência. A marca ficou conhecida por produzir modelos seguros, com base em técnicas de encriptação que tornam o celular mais difícil de hackear. Desta vez, não deverá ser diferente. Segundo Peter Franklin, presidente da Onward Mobility, os novos produtos continuarão a priorizar a privacidade do consumidor, o que pode, sem dúvida, ser um diferencial em um setor marcado pela crescente clonagem de aparelhos. “O mercado corporativo sempre foi mais exigente em termos de segurança”, diz José Mauro da Costa Hernandez, professor de marketing da Universidade de São Paulo. É justamente esse público que a BlackBerry quer conquistar. “Se por um lado o mercado consumidor está muito bem ocupado com as grandes marcas, também é verdade que ninguém concentrou esforços no segmento corporativo, o que pode fazer diferença a favor do BlackBerry.” Os primeiros modelos serão lançados nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa no início do ano que vem. Se a resposta for positiva, a ideia é levar os aparelhos a todos os mercados importantes, inclusive o brasileiro.

O mundo da tecnologia vive uma aparente contradição. Com consumidores cada vez mais sedentos por novidades, os lançamentos são feitos em velocidade avassaladora, e o que parecia ser inovador hoje rapidamente será considerado ultrapassado amanhã. Mesmo assim, muitas empresas têm olhado para o passado para resgatar produtos que despertem alguma lembrança afetiva. É o caso dos discos de vinil, que foram superados há muito tempo por novas tecnologias mas que resistem ao passar dos anos, e não apenas entre os fanáticos: em 2019, 20 milhões de cópias de vinil foram vendidas nos Estados Unidos. As câmeras instantâneas, que parecem anacrônicas na era digital, também sobreviveram. O BlackBerry é mais um nobre representante dessa tendência a bater na tecla da nostalgia. No caso, literalmente.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

09 DE OUTUBRO

A PRESENÇA CONSTANTE DE JESUS

… eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século (Mateus 28.20b).

Jesus nasceu numa manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz, mas deixou seu túmulo vazio. Antes de retornar ao céu, prometeu aos discípulos que estaria do lado deles até o dia final. Este mundo é hostil aos filhos de Deus, mas não precisamos temer, pois não estamos sozinhos. Jesus está conosco. Sua presença é refúgio no dia da angústia e torre forte na hora da tribulação. Passamos por desertos ardentes, cruzamos vales escuros, subimos montanhas íngremes e descemos ladeiras escorregadias, mas não precisamos ter medo, pois Jesus nos ampara com seu braço forte. A caminhada cristã não é como um passeio por um jardim engrinaldado de flores, mas uma jornada por estradas juncadas de espinhos. Não vivemos num parque de diversões, mas num campo de batalhas. Não estamos incólumes às vicissitudes da vida, mas arrostamos as tribulações mais amargas. Porém, em todos os lugares e circunstâncias podemos contar com a presença de Jesus, que nunca desampara aqueles que nele esperam. Mesmo que caminhemos pelo vale da sombra da morte, não precisamos ter medo algum, pois o Senhor está conosco. Mesmo que as águas do mar da vida tentem, com seus vagalhões em fúria, afundar-nos, podemos ter confiança que o Senhor nos tomará pela mão e nos conduzirá em segurança ao porto seguro da eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

O CÂNCER E O TRABALHO

A doença está crescendo no brasil e os sobreviventes enfrentam um grande desafio: a manutenção da carreira. Para isso, é preciso mais esforço das empresas e das lideranças

Em outubro, o câncer virou assunto do noticiário após o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), ter sido diagnosticado com um tumor na região do estômago. Mesmo durante a internação e as sessões de quimioterapia, o político optou por manter a rotina profissional, participando de reuniões e despachando do hospital. Lidar com essa doença no mercado de trabalho já é uma realidade no Brasil – e no mundo.

Em 2018, o câncer foi a segunda principal doença causadora de mortes no planeta, perdendo apenas para os problemas cardiovasculares. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,6 milhões de pessoas morreram por causa desse mal. No Brasil, a situação também é preocupante. No biênio 2018-2019 surgiram 600.000 novos casos no país, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), que também estima que, em dez anos, a neoplasia poderá se tornar a principal causa de mortes por aqui. Segundo o Observatório de Oncologia, plataforma de análise de dados criada pela Associação Brasileira de Leucemia e Linfoma (Abrale), os óbitos causados por tumores vão superar as doenças cardiovasculares em 2029, com uma taxa de 115mortes por 100.000 habitantes, ante a atual de 113 por 100.000 habitantes.

Mesmo sendo uma doença altamente fatal, o avanço da medicina tem aumentado o número de sobreviventes. De 2010 a 2014, por exemplo, a média de cura para o câncer de próstata foi de 92%; para o de mama, de 75%; e para o de colo de útero, de 60%. E muitos desses pacientes que se curam enfrentam um desafio que vai além da saúde: a permanência no mercado de trabalho durante e depois do tratamento – porque, diferentemente de Covas, isso nem sempre é fácil.

Uma metanálise realizada em 2017 pelo Coronel Institute of Occupational Health, em Amsterdã, na Holanda, com 36 estudos e mais de 20.000 sobreviventes do câncer, mostra que 34% dos pacientes curados não conseguem se recolocar por causa de sequelas físicas e emocionais. Comparado com os 157.603 participantes saudáveis do grupo de controle, os enfermos corriam 1,37 vez mais riscos de desemprego. Além disso, as taxas de desocupação aumentam em casos de câncer de mama (36%), gastrointestinal (49%) e no aparelho reprodutor feminino (49%), uma vez que o tratamento tende a ser mais rigoroso e extenso. No Brasil não existe uma pesquisa desse tipo, e nossa legislação também não garante estabilidade de emprego para pacientes com câncer. Há o Projeto ele Lei nº 8.057/2017, do senador Eduardo Amorim (PSDB­SE), que estabelece estabilidade de no mínimo um ano, mas está parado na Câmara dos Deputados.

FALTA APOIO

Muitas companhias, por outro lado, ainda não estão preparadas para ajudar funcionários que tenham doenças graves. O levantamento “Como as empresas lidam com o câncer?”, realizado no ano passado pela Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), em parceria com o movimento sem fins lucrativos Go All, indica que, do ponto de vista dos gestores, as preocupações mais comuns são a dificuldade de oferecer apoio ao funcionário enfermo (68%) e a reintegração do sobrevivente de câncer ao local de trabalho (35 %).

Embora 58% das empresas tenham campanhas de prevenção ao câncer e divulguem informações sobre a doença, as práticas tendem a ser genéricas e desarticuladas, tanto que só 9% têm ações estruturadas de prevenção, acompanhamento e tratamento. Entre os 20% que de fato possuem programas na área de saúde, a oferta se concentra em serviços não diretamente relacionados ao câncer, como check-ups (73%) e educação para a saúde (72%). “A incidência de câncer cresce, mas as atividades preventivas e de retenção não aumentam na mesma proporção”, diz Marina Miragaia, diretora médica da Saúde Concierge, companhia de gerenciamento de saúde. “A empresa é corresponsável pela saúde do empregado.”

A IMPORTÂNCIA DA OCUPAÇÃO

Para quem está em tratamento, ter o amparo da empregadora é algo fundamental. “No processo de adoecimento há uma quebra de rotina. Quando esse paciente volta para o dia a dia, tem a sensação de controle e de continuidade”, diz Julia Schmidt Maso, psicóloga do Hospital Sírio-Libanês. “Além disso, a doença pode deixar a pessoa com a aparência frágil, ao contrário do que ela quer mostrar no trabalho. Quanto mais a empresa tiver um olhar para o funcionário, mais produtivo, contente e satisfeito ele estará.” Outro motivo para que os pacientes precisem do emprego é o custo financeiro de uma doença como essa, que demanda alto investimento. Tanto que a renda de quem adoece costuma cair. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Pro­ vokers, a pedido da farmacêutica Pfizer, os ganhos de mulheres que enfrentaram o câncer de mama diminuíram 38% entre as usuárias da rede pública de saúde. Entre as pacientes de rede privada a queda foi de 15%.

Para minimizar essa preocupação com as finanças, a Edenred Brasil, detentora da marca Ticket, oferece um seguro de 35.000 reais a todos os funcionários que são diagnosticados com câncer. “Há muitos gastos com medicamentos e tratamentos que não são cobertos pelo plano de saúde. A pessoa pode usar esse valor da maneira que achar melhor, sem precisar prestar contas para a empresa”, afirma José Ricardo Amaro, diretor de recursos humanos da companhia. A multinacional francesa emprega 2.000 pessoas no Brasil e, no ano passado, registrou dez casos de funcionários com câncer.

Além do auxílio financeiro, a Edenred oferece apoio psicológico 24 horas por meio da central Conte Comigo; enfermeira no escritório dedicada a ajudar na intermediação entre o plano de saúde e o hospital para agilizar o tratamento; e ambulatório para exames de rotina e campanhas de prevenção. Se um funcionário acionar o RH para avisar que está doente, o protocolo é o mais discreto possível em respeito ao direito ao sigilo médico e para que a relação com os colegas não seja afetada. “Quando a pessoa autoriza divulgar a situação, a gente orienta o gestor sobre manter um relacionamento mais próximo, passar segurança em relação à estabilidade profissional e rever as demandas do dia a dia”, explica José Ricardo.

A revisão das tarefas e da rotina de quem está com câncer, aliás, é essencial. Na pesquisa da ABRH, quase 60% dos respondentes acredita m que a flexibilização nas condições de trabalho é a iniciativa mais importante para quem enfrenta a doença. “Tem de se perguntar o que a empresa pode fazer para facilitar a vida desse funcionário. É possível negociar home office, jornada flexível, retorno mais lento às atividades, e oferecer alternativas de deslocamento e acompanhamento psicológico”, afirma Ado de Castro Bechelli, médico da equipe da consultoria Willis Towers Watson.

SENSIBILIZANDO A LIDERANÇA

Na pesquisa da ABRH há um dado que chama a atenção: 42% das organizações orientam os gestores para lidar com casos de câncer em suas equipes. A Unilever faz parte desse percentual. A companhia realiza treinamentos com a liderança sobre temas que fogem do âmbito de trabalho – entre eles o câncer. Nos workshops, os chefes aprendem como devem lidar com funcionários doentes e entendem a importância do respeito ao sigilo médico. “Temos dois treinamentos, um EAD de 4 horas e outro presencial, que acontece a cada dois anos, além de um processo de comunicação permanente com os líderes”, diz Elaine Molina, diretora de saúde ocupacional da Unilever.

A empresa também procura investir no apoio psicológico dos empregados doentes. Todos aqueles que acionam a equipe de gestão de pessoas para informar sobre o diagnóstico de neoplasia são encaminhados para o Programa Crescer, um projeto de apoio psicológico, jurídico, financeiro e de assistência social disponível gratuitamente para os funcionários. “Por meio de um 0800 e um aplicativo, os empregados e seus dependentes contam com atendimento especializado nessas áreas 24 horas por dia, sete dias por semana, e os casos mais complexos são encaminhados para atendimento presencial”, diz Elaine.

MAIS ACOLHIMENTO

Outra questão delicada para os profissionais com essa doença é equilibrar a rotina de tratamento com o trabalho. Isso foi citado como o maior desafio numa pesquisa sobre câncer de mama feita pelo LinkedIn em parceria com a Fundação Laço Rosa. As entrevistadas ainda apontaram as questões financeiras e a falta de políticas de apoio aos pacientes na empresa como temas que exigem atenção.

Como a Avon tem um quadro de empregados e revendedores majoritariamente feminino (61% dos funcionários são mulheres), o câncer de mama é uma doença que está em seu radar desde a década de 60. “Fazemos pesquisas com as consultoras e o câncer de mama sempre aparece como um tema de interesse. Por isso, investimos em ações de educação e conscientização”, afirma Daniela Grelin, diretora do Instituto Avon. O tema é abordado em campanhas internas, no programa de integração de novos funcionários e em cursos de formação de liderança. Para incentivar a prevenção, a Avon leva uma carreta para os escritórios da empresa durante a campanha do Outubro Rosa para que as funcionárias façam exames de mamografia e ultrassonografia no horário de expediente. “Na equipe de RH, temos uma assistente social que acolhe mulheres com câncer de mama que acabaram de receber o diagnóstico”, diz Daniela. Cabe a essa profissional orientar sobre o atendimento psicológico, jurídico e financeiro e encaminhar a paciente ao Instituto Avon. Além disso, a multinacional oferece estabilidade profissional durante o tratamento. Ainda há subsídio de 100% dos medicamentos que não são previstos pelo SUS, complemento salarial de seis meses quando a funcionária está afastada pelo INSS e isenção da coparticipação do plano de saúde para consultas e exames.

O tratamento de câncer costuma ser longo e complexo, por isso as empresas – e o RH – têm um papel tão importante. E fazer isso é benéfico para os dois lados, como explica Luciana Landeiro, oncologista da equipe do Núcleo de Oncologia da Bahia (NOB), do Grupo Oncoclínicas: “O apoio do empregador é o fator que mais tem impacto na volta do paciente ao mercado de trabalho. E, ao mesmo tempo, se a empresa não olha para essa população crescente de pessoas com câncer, acaba sofrendo um impacto econômico negativo.”

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – VI

QUAL A DIFERENÇA?

Entenda como se comportam os portadores de outros transtornos de personalidade

As características dos transtornos de personalidade, em geral, aparecem logo na adolescência ou no começo da vida adulta. De acordo com a 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais (DSM-5), este tipo de transtorno é caracterizado por uma conduta padrão, em que o indivíduo evidentemente se desvia das expectativas culturais de comportamento da sociedade em que vive. Normalmente, a pessoa acometida é inflexível e, na vida adulta, suas atitudes costumam causar prejuízo e sofrimento às relações sociais.

MAIS COMUM DO QUE VOCÊ PENSA

Segundo um estudo realizado pela NESARC (em tradução livre, Pesquisa Epidemiológica Nacional sobre Álcool e Condições Relacionadas nos Estados Unidos, entre 2001 e 2002, aproximadamente 15% dos adultos norte-americanos (quase 43 milhões de pessoas) apresentavam ao menos um transtorno de personalidade. Uma grande quantidade de pessoas, não? O fato é que, muitas vezes, os portadores desses distúrbios passam despercebidos aos nossos olhos e assim, desconsideramos a existência dos transtornos de personalidade. Por isso, torna-se importante estudar cada um dos dez tipos conhecidos e seus respectivos comportamentos, com o intuito de melhoraras técnicas terapêuticas existentes.

RELAÇÕES DE CONFLITOS

Mas como se comportam os indivíduos com esses distúrbios? Segundo o psicanalista Roberto Rosas, “de um jeito simples, podemos pensar que as pessoas que apresentam transtornos de personalidade são bem pouco funcionais. Na maioria dos casos, observamos certa estagnação no desenvolvimento emocional da pessoa”. Entretanto, nem sempre o transtorno afeta a formação educacional. Por outro lado, as relações sociais podem ser prejudicadas. “Em boa parte dos casos, é marcada por conflitos que, em vez de atenuados, tendem a ser intensificados”, complementa Rosas.

O psicanalista acrescenta que são muitos os transtornos de personalidade e que, atualmente, fala-se muito sobre o borderline. “Se pensarmos por uma perspectiva da psicodinâmica, quem tem transtorno de personalidade costuma ser mais egocêntrico e onipotente. Em outras palavras, é regido por motivações infantis”, acrescenta. Tal característica, de um modo geral, é muito comum entre esses indivíduos.

O diagnóstico é feito por um psiquiatra e o processo costuma ser difícil, cuidadoso e detalhado e, frequentemente, realizado em conjunto com uma equipe composta por outros especialistas como neurologistas e psicólogos.

DIVISÕES

Os distúrbios podem ser classificados em dez categorias. De acordo com o psiquiatra João Jorge, os indivíduos com transtornos de personalidade paranoide, esquizoide e esquizotípica são excêntricos. Já os de personalidade antissocial, borderline, histriônica e narcisista “são pessoas dramáticas, emotivas e erráticas”, explica o especialista. Há ainda os que apresentam o transtorno de personalidade esquiva, dependente e obsessivo-compulsivo, com características ansiosas ou temerosas. Confira, a seguir, as principais características desses transtornos.

BORDERLINE

Os indivíduos com este distúrbio (em maior quantidade, mulheres) costumam apresentar dificuldades em seus relacionamentos íntimos. Por conta da sua autoestima praticamente “zerada”, elas buscam segurança afetiva nos parceiros. Assim, os companheiros tendem a ser sufocados e machucados pelo excesso de sentimento que as pessoas com este transtorno depositam sobre eles.

Os “borders”, como são conhecidos, têm uma visão distorcida de si mesmos, principalmente em relação à aparência física, e possuem muito medo da rejeição. Costumam apresentar humor instável e, por isso, podem se irritar com pequenos acontecimentos, mudando de humor várias vezes ao longo do dia. É possível que tenham acessos de raiva e, depois, se arrependam ou provoquem a “autodestruição”, por exemplo, consumindo álcool ou drogas exageradamente. O distúrbio é logo identificado na adolescência, quando os indivíduos costumam ter a primeira paixão intensa ou a primeira rejeição amorosa.

OBSESSIVO-COMPULSIVO

Regido por uma ideia de que “pode tudo”, a pessoa que apresenta esse transtorno costuma cumprir rituais que criou com o intuito de se proteger contra acontecimentos ruins. “Trata-se de um jeito primitivo de lidar com a angústia. Por exemplo, se eu encostar em todos os postes de rua no caminho de casa ao trabalho, nada de mau me acontecerá. Eu não serei demitido ou não adoecerei”, explica Rosas.

Os acometidos por esse transtorno de personalidade são extremamente perfeccionistas e necessitam ter controle sobre as pessoas que rodeiam. Tal distúrbio se difere do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) porque o indivíduo não percebe que seu comportamento é problemático e tende a achar que todos ao seu redor estão agindo errado.

Os portadores deste distúrbio são extremamente pontuais, organizados, evitam bagunça e costumam fazer suas atividades profissionais e escolares sozinhos por acharem que outras pessoas irão fazê-las errado. Além disso, também tendem a ser politicamente corretos.

ESQUIZOIDE

Em geral, pessoas com a personalidade esquizoide não apresentam interesse pelas relações sociais, principalmente as mais próximas mesmo que seja com familiares. Normalmente preferem fazer atividades sozinhas e sentem prazer com pouquíssimas delas. Também demonstram indiferença aos elogios ou críticas de outras pessoas, são frios e distantes. Elas preferem realizar tarefas mecânicas ou abstratas como jogos matemáticos ou usar computador. Segundo o DSM-5, o transtorno de personalidade esquizoide é diagnosticado com mais frequência em homens e pode causar mais prejuízos a eles.

HISTRIÔNICA

Emoções que transbordam e uma busca excessiva pela atenção de outras pessoas, o histriônico se sente desconfortável em situações em que não é o centro das atenções. Quando se relaciona com outras pessoas, tende a ser provocativo e sedutor. Para isso, utiliza a aparência física para chamar a atenção de quem está por perto.

O modo de falar impressiona, mas é carente de detalhes. O indivíduo também é influenciado facilmente por outras pessoas e costuma teatralizar suas ações, exagerando nas emoções.

DEPENDENTE

Imagine ter dificuldades em tomar decisões sobre a sua própria vida sem ter muitos conselhos e a confiança de outras pessoas. Parece estranho, porém é uma atitude bem comum de quem sofre com o transtorno de personalidade dependente. Tais indivíduos precisam que outros se responsabilizem pela sua vida e têm dificuldade em expressar opiniões contrárias por medo de perder o apoio de amigos ou familiares próximos.

Eles podem chegar à situações extremas para obter o carinho ou apoio de outras pessoas, mesmo que aquelas atitudes não lhes agradem. Também são muito preocupados em serem deixados sozinhos para cuidarem da própria vida.

PARANOIDE

Segundo Rosas, nas ações paranoides, de maneira geral, “existe uma projeção do conteúdo recalcado da pessoa no outro; ou seja, se sou bom, o outro é mau e trama contra mim. Se eu recalquei uma característica minha, poderei vê-la no outro, quando meu ideal de mim não me permite ter sentimentos hostis. O paranoide vê-se engendrado numa trama de agressões que, pela sua subjetividade, vêm de fora, e não de dentro dele mesmo”. O recalque, então, seria uma maneira de se defender de exigências contrárias à uma atitude que está praticando. Tal transtorno de personalidade aparece no início da vida adulta e tem como características a desconfiança de outras pessoas, tendência a pensar que outros pretendem explorá-lo, prejudica-lo ou enganá-lo, mesmo que não haja evidência concreta disso ou que alguém esteja apenas o elogiando. Por pensar que estão conspirando contra ele, o indivíduo com o transtorno pode atacar amigos ou colegas de trabalho a qualquer momento.

NARCISISTA

Os acometidos pelo transtorno de personalidade narcisista tendem a seguir um padrão de grandiosidade (exagerando em suas realizações e talentos), com a necessidade de serem reconhecidos pelos outros. Costumam se preocupar com o sucesso, beleza ou amor ideal.

Aproveitam-se dos outros para alcançar seus objetivos e não reconhece os sentimentos ou as necessidades de outras pessoas. Os narcisistas também acreditam que são o motivo da inveja dos outros e podem ter atitudes arrogantes.

ESQUIVA

Os indivíduos com esse transtorno têm certa inibição social e sentem que não estão adequados às situações que vivenciam. Também são muito sensíveis às avaliações e comentários negativos que recebem. Por isso, tendem a evitar profissões em que haja contato social por medo de rejeição ou reprovação.

De fato, esquivam se de relações sociais (mesmo amorosas) com receio de serem ridicularizados por enxergarem eles mesmos como desagradáveis ou inferiores aos outros. Só fazem novas amizades se tiverem a certeza de que serão aceitos sem críticas.

ESQUIZOTÍPICA

As pessoas com este transtorno apresentam desconforto em relacionamentos íntimos, comportamento excêntrico e distorções na cognição e na percepção. Tais indivíduos interpretam incorretamente acontecimentos do cotidiano, obtendo deles um significado próprio e específico. Além disso, possuem crenças que influenciam no seu comportamento, como superstições, telepatia ou “sexto sentido”, que não condizem com as normas existentes em diferentes culturas.

A maneira de falar e o pensamento desses indivíduos costumam ser vagos, com metáforas, ou extremamente elaborados. O comportamento e a aparência podem ser classificados como estranhos, excêntricos ou peculiares. Ainda possuem ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a estar associada ao medo, ao invés de pensamentos negativos sobre elas mesmas.

É DIFERENTE?

A psicopatia também é um transtorno de personalidade, contudo, possui diferenças visíveis dos outros distúrbios descritos anteriormente.

De acordo com o psicanalista Roberto Rosas, o transtorno antissocial caracteriza-se, basicamente, por atuações destrutivas no âmbito social. São pessoas que não têm empatia, não se importam com a dor ou o prejuízo do outro”. Ainda para o especialista, esses indivíduos não conseguem ver fundamento nas Leis, nem sentido na regulação dos próprios impulsos.

Em comparação com o borderline, por exemplo, enquanto esta é praticamente pura emoção e falta de razão, o antissocial é o contrário, sendo bem racional em tudo o que faz.  O antissocial tende mais a usar as pessoas para alcançar seus objetivos do que preocupar-se com o que irão pensar sobre ele. Além disso, não sente culpa pelas suas ações.