EU ACHO …

O QUE SE APRENDE COM ÓBVIO

Ensinar vem do latim ensignar, vem de signo, de sinal, de deixar uma marca. Ensignar é o que você grava em algo ou alguém. Se uma pessoa me pergunta o que aprendi na vida até agora, minha resposta revelará tudo que me ensignou, as marcas que foram gravadas em mim. Revelará minhas características, meus caracteres, meu caráter. Perceba que as palavras ensignar e aprender estão conectadas, uma vez que ninguém ensina sem ter aprendido e vice-versa. Parece óbvio, mas pouca coisa é mais perigosa na existência do que o óbvio, essa âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro.

Quantas vezes você já disse ou ouviu alguém dizer isso: “Puxa, procurei as chaves pela casa toda e só encontrei no último lugar que olhei”. E quem escuta isso geralmente diz: “Que curioso, isso também sempre acontece comigo!”. Mas é óbvio. É claro que a pessoa encontra no último lugar que procurou, pois ninguém encontra algo e, em sã consciência, continua procurando o que já encontrou. Sempre se encontra algo no último lugar, e jamais antes nem depois.

Todo conhecimento e todo avanço vão contra o óbvio, contra tudo aquilo que ancora, que evita o progresso e o desenvolvimento humano. Sim, mudar é complicado, pois a mudança é contrária à imobilidade – e a imobilidade diversas vezes se esconde por trás da máscara traiçoeira da coerência. Os melhores artistas não são coerentes. São a antítese do óbvio. Picasso e sua Guernica, eis um bom exemplo disso. Guernica é uma aldeia que foi bombardeada em abril de 1937, durante a guerra civil espanhola. Picasso pintou um painel sobre o tema. Nele, não há nada de óbvio; não há bombas, explosões, soldados, nada disso. Mas basta olhar as pessoas que estão ali, o cavalo, para ver que o quadro retrata o desespero e o horror. Há muitas maneiras de fugir do óbvio, e os melhores artistas são especialistas nisso.

O grito também pode ser contrário ao óbvio. O diretor Francis Ford Coppola, no Poderoso Chefão 3, mostrou o grito mais silencioso da história do cinema, na cena em que a filha do personagem de Al Pacino leva um tiro e morre. Ao perceber o que ocorrera, ele abre a boca em desespero e grita sem som por uns 30 segundos, num silêncio ensurdecedor. Nelson Rodrigues disse que o que dói na bofetada é o som. Shakespeare disse que a vida é feita de som e fúria. Se você tirar o som, a fúria desaparece – no filme Ran, o diretor Akira Kurosawa inseriu uma cena de batalha, retirou o som e, ao passá-la em câmara lenta sem som, foi contra o óbvio e transformou um confronto sangrento em um balé.

O que podemos aprender com o óbvio? Podemos aprender que ninguém nasce pronto e vai se desgastando. Nós nascemos crus e vamos nos fazendo. Sim, isso é óbvio, mas como eu aprendi? O que mais aprendi? Com quem, por que eu aprendi? E o que deixei de aprender, todas as coisas que ainda não aprendi? Quando aprenderei, se aprenderei? Sou sempre a minha mais recente edição, revista e ampliada.

Gosto muito de um verso em particular do grande poeta gaúcho Mario Quintana, que teve o infortúnio de morrer na mesma semana de Ayrton Senna, em maio de 1994, e, por conta da merecida celebridade do piloto, a partida do genial poeta ficou obscurecida.

Fazendo um parênteses. Eu viajo muito de avião e não gosto quando há pessoas muito famosas a bordo. Fico imaginando que, se houver um acidente fatal, quando divulgarem a lista de passageiros, as pessoas só vão prestar atenção nos nomes ilustres e eu serei “rebaixado”, entrarei apenas na relação do “e outros”, no pé da página do jornal. E nem eu nem ninguém quer ser reconhecido, seja na vida ou na morte, como apenas “mais um”. Quer ser identificado como alguém especial.

Voltando. Mario Quintana por três vezes concorreu a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras e, em todas, foi recusado, apesar de lá já terem estado e ainda estarem alguns “imortais” extremamente banais. Como forma de recusa à essa afronta estética e ética, o gaúcho, nascido em Alegrete, fez uma das mais brilhantes reações, produzindo um Poeminho do Contra (e é poeminho mesmo):

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho.

Eles passarão.

Eu passarinho.

Quintana também disse que, se um autor tem de explicar a seu leitor o que ele quis dizer com uma determinada frase ou conceito, um dos dois é burro. Pois, no meu caso, sempre considero que o burro sou eu. Quando escrevemos, nunca sabemos como seremos interpretados. Às vezes escrevo algo com a certeza de que aquilo vai chamar a atenção, mas as pessoas só dão importância a algo que não dei muita bola. É como se eu estivesse interessado no recheio e o leitor, na casca da empada, ou ao contrário. Isso mostra que raramente a gente tem controle, mesmo em algo que antes parecia ser bastante previsível e, portanto, controlável.

Mas é aí, na negação do óbvio, na eterna mutação do que está ao redor, que está a beleza da coisa.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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