EU ACHO …

O QUE SE APRENDE COM ÓBVIO

Ensinar vem do latim ensignar, vem de signo, de sinal, de deixar uma marca. Ensignar é o que você grava em algo ou alguém. Se uma pessoa me pergunta o que aprendi na vida até agora, minha resposta revelará tudo que me ensignou, as marcas que foram gravadas em mim. Revelará minhas características, meus caracteres, meu caráter. Perceba que as palavras ensignar e aprender estão conectadas, uma vez que ninguém ensina sem ter aprendido e vice-versa. Parece óbvio, mas pouca coisa é mais perigosa na existência do que o óbvio, essa âncora que paralisa o pensamento e induz à falsidade, à distorção, ao erro.

Quantas vezes você já disse ou ouviu alguém dizer isso: “Puxa, procurei as chaves pela casa toda e só encontrei no último lugar que olhei”. E quem escuta isso geralmente diz: “Que curioso, isso também sempre acontece comigo!”. Mas é óbvio. É claro que a pessoa encontra no último lugar que procurou, pois ninguém encontra algo e, em sã consciência, continua procurando o que já encontrou. Sempre se encontra algo no último lugar, e jamais antes nem depois.

Todo conhecimento e todo avanço vão contra o óbvio, contra tudo aquilo que ancora, que evita o progresso e o desenvolvimento humano. Sim, mudar é complicado, pois a mudança é contrária à imobilidade – e a imobilidade diversas vezes se esconde por trás da máscara traiçoeira da coerência. Os melhores artistas não são coerentes. São a antítese do óbvio. Picasso e sua Guernica, eis um bom exemplo disso. Guernica é uma aldeia que foi bombardeada em abril de 1937, durante a guerra civil espanhola. Picasso pintou um painel sobre o tema. Nele, não há nada de óbvio; não há bombas, explosões, soldados, nada disso. Mas basta olhar as pessoas que estão ali, o cavalo, para ver que o quadro retrata o desespero e o horror. Há muitas maneiras de fugir do óbvio, e os melhores artistas são especialistas nisso.

O grito também pode ser contrário ao óbvio. O diretor Francis Ford Coppola, no Poderoso Chefão 3, mostrou o grito mais silencioso da história do cinema, na cena em que a filha do personagem de Al Pacino leva um tiro e morre. Ao perceber o que ocorrera, ele abre a boca em desespero e grita sem som por uns 30 segundos, num silêncio ensurdecedor. Nelson Rodrigues disse que o que dói na bofetada é o som. Shakespeare disse que a vida é feita de som e fúria. Se você tirar o som, a fúria desaparece – no filme Ran, o diretor Akira Kurosawa inseriu uma cena de batalha, retirou o som e, ao passá-la em câmara lenta sem som, foi contra o óbvio e transformou um confronto sangrento em um balé.

O que podemos aprender com o óbvio? Podemos aprender que ninguém nasce pronto e vai se desgastando. Nós nascemos crus e vamos nos fazendo. Sim, isso é óbvio, mas como eu aprendi? O que mais aprendi? Com quem, por que eu aprendi? E o que deixei de aprender, todas as coisas que ainda não aprendi? Quando aprenderei, se aprenderei? Sou sempre a minha mais recente edição, revista e ampliada.

Gosto muito de um verso em particular do grande poeta gaúcho Mario Quintana, que teve o infortúnio de morrer na mesma semana de Ayrton Senna, em maio de 1994, e, por conta da merecida celebridade do piloto, a partida do genial poeta ficou obscurecida.

Fazendo um parênteses. Eu viajo muito de avião e não gosto quando há pessoas muito famosas a bordo. Fico imaginando que, se houver um acidente fatal, quando divulgarem a lista de passageiros, as pessoas só vão prestar atenção nos nomes ilustres e eu serei “rebaixado”, entrarei apenas na relação do “e outros”, no pé da página do jornal. E nem eu nem ninguém quer ser reconhecido, seja na vida ou na morte, como apenas “mais um”. Quer ser identificado como alguém especial.

Voltando. Mario Quintana por três vezes concorreu a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras e, em todas, foi recusado, apesar de lá já terem estado e ainda estarem alguns “imortais” extremamente banais. Como forma de recusa à essa afronta estética e ética, o gaúcho, nascido em Alegrete, fez uma das mais brilhantes reações, produzindo um Poeminho do Contra (e é poeminho mesmo):

Todos esses que aí estão

Atravancando o meu caminho.

Eles passarão.

Eu passarinho.

Quintana também disse que, se um autor tem de explicar a seu leitor o que ele quis dizer com uma determinada frase ou conceito, um dos dois é burro. Pois, no meu caso, sempre considero que o burro sou eu. Quando escrevemos, nunca sabemos como seremos interpretados. Às vezes escrevo algo com a certeza de que aquilo vai chamar a atenção, mas as pessoas só dão importância a algo que não dei muita bola. É como se eu estivesse interessado no recheio e o leitor, na casca da empada, ou ao contrário. Isso mostra que raramente a gente tem controle, mesmo em algo que antes parecia ser bastante previsível e, portanto, controlável.

Mas é aí, na negação do óbvio, na eterna mutação do que está ao redor, que está a beleza da coisa.

*** MÁRIO SÉRGIO CORTELLA

Extraído do livro “O QUE A VIDA ME ENSINOU”

OUTROS OLHARES

A ÁGUA MAIS PURA DO MUNDO

Empresa brasileira vende, na Europa, água extraída da umidade do ar da Amazônia por 320 reais a garrafa

Instalada na cidade de Barcelos, às margens do Rio Negro, no interior do Amazonas, a empresa Ô Amazon Air Water começou a fazer um verdadeiro milagre: transformar a umidade do ar da região em água engarrafada de alta qualidade e pureza, pronta para exportação.

É um projeto ecológico, de baixo impacto ambiental e no qual se projeta altos lucros. A primeira safra, de 1.080 garrafas, já está sendo na França, no segmento de bebidas de luxo. Para se consumir um único frasco é preciso desembolsar a bagatela de 70 euros, o equivalente a R$ 320,00. Segundo Cal Gonçalves Júnior, fundador e gestor da empresa, foi o conhecimento da tecnologia Atmosferic Water Generator (AWG) que viabilizou o projeto. A AWG permite a retirada de água da umidade do ar e a torna própria para o consumo humano, por meio de um processo de condensação e filtragem. As pesquisas para implantação e desenvolvimento do produto duraram cinco anos. “A água é leve, tem baixa mineralidade e não interfere no paladar”, diz Cal Júnior.

MERCADO DE LUXO

A idealização do produto envolve uma cultura de consumo diferente, que une o negócio a valores de sustentabilidade ambiental. A garrafa de 750 ml é de vidro, 100% reciclável, e a embalagem é uma caixa fabricada a partir madeira de reflorestamento pela empresa Amazon Pack, vizinha da Ô Amazon Water. O produto foi concebido para ser comercializado no mercado europeu. Começou pela França e, em breve, estará disponível em doze países. “Nosso objetivo, por enquanto, é posicionar a marca no mercado”, explica Cal Júnior. A venda acontece em resorts, hotéis cinco estrelas, cafés de luxo e em outros lugares frequentados pela elite mundial.

A Ô Amazon Water está instalada em uma área de 1,75 milhão de m2, num terreno cedido pela Prefeitura de Barcelos.
A companhia produz oito mil litros de água por dia e doa, mensalmente, 15 mil litros para a comunidade. Além disso, foi criado um fundo para o qual se destina R$ 1 de cada garrafa vendida para projetos apadrinhados pela empresa. “A intenção é gerarmos um ciclo virtuoso entre o negócio, a comunidade e a natureza”, diz Cal Júnior.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

06 DE OUTUBRO

O PODER DE JESUS SOBRE OS DEMÔNIOS

Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele (Marcos 9.25).

Jesus tinha acabado de deixar o monte da Transfiguração. Pedro, Tiago e João subiram com ele, mas dormiram em vez de orar. Os outros discípulos, que ficaram no sopé do monte, discutiam com os escribas, em vez de orar e fazer a obra de Deus.  Por isso, estavam vazios de poder. Os discípulos que subiram ao monte viram milagres, mas estavam desprovidos de entendimento. Os discípulos que ficaram no sopé do monte, discutiram com os doutores, mas estavam desprovidos de poder. Nesse ínterim, um pai aflito apresenta aos discípulos seu filho único, possesso de uma casta de demônios que o jogava na terra, na água e no fogo para matá-lo, e isso desde a infância. Os discípulos, porém, não conseguiram curar o menino. Enquanto eles discutiam, o diabo agia. Enquanto estavam sem poder, uma ação maligna agia sem ser confrontada. Essa situação de impotência dos discípulos produziu desespero no pai do menino possesso e dor no coração de Jesus, que exclama: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? (v. 19). Jesus repreendeu o espírito maligno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele. O menino ficou liberto e o pai aliviado. Jesus veio ao mundo para libertar os cativos e desfazer as obras do diabo. Ele também pode abrir os portões da liberdade para a sua alma.

GESTÃO E CARREIRA

SALVE-SE QUEM PUDER E QUISER!

Quem são no mercado, os salvadores de empresas, ou seja, quem são esses profissionais que ajudam as empresas a se recuperarem de uma possível falência?

Há tempos a premissa de “a empresa faliu” ou “não tem mais saída” caiu por terra. Quem acompanha o programa O Sócio, no History, com Marcus Lemonis, vê verdadeiras transformações de vida. Ele não só recupera como investe nas empresas que estão em processo de falência. No Brasil muitas empresas passaram por situações semelhantes a esse cenário americano. Entre janeiro e setembro de 2019 foram requeridas 1.030 recuperações judiciais, segundo levantamento do Serasa. Entre as médias empresas houve aumento de 10,7% e entre as micro e pequenas, aumento de 3,2%, em relação ao mesmo período de 2018.

Especialistas da Grand Hill Consulting, especializada em recuperação judicial e recuperação de empresas, afirmam que esses números demonstram que os reflexos da crise permanecem no nosso País, pois as empresas ainda estão com o caixa desidratado e carregando passivos. Percebe-se que o pico das recuperações judiciais e falências foi no período do ápice da crise, quando a confiança do empresário estava muito baixa. A tendência de recuperação da economia impõe maior demanda de capital de giro. Com isso, o empresário recorre à consultoria com o objetivo de reestruturar passivos e gerar disponibilidade de caixa para captar as novas oportunidades.

Aqui em território nacional também existe apoio, profissionais e formas de dar a volta por cima, além de muitas pessoas que se inspiram e fazem mudanças favoráveis nos negócios com as dicas e puxões de orelha de Lemonis. É o caso de Vanessa Giannellini, 48 anos, jornalista e sócia-fundadora da VGCOM – agência de comunicação. Ela participa de um grupo com mais 110 empresários, todos seguidores e apaixonados pelas dicas do bilionário americano. “Comecei assistindo ao programa no History e um ponto me chamava atenção a cada episódio: a facilidade de Marcus Lemonis em interpretar os pontos vulneráveis dás empresas e ter as soluções assertivas e eficientes. Com esses exemplos passei a assistir aos episódios é colocar em prática os seus ensinamentos para o dia a dia da agência. Em especial no quesito pessoas”, explica a jornalista.

Ela detalha mais a ajuda de Lemonis ao seu negócio. “Coloquei em prática os ensinamentos na rotina da empresa começando pelo ‘conheça seus números’, organizando em especial as despesas x receitas para poder precificar os nossos serviços de forma mais competitiva e racional para os nossos clientes”.

Com essa análise, feita em 2017, ela conta que hoje sua agência tem uma saúde financeira melhor, mudou de endereço para um espaço compartilhado para otimizar as despesas fixas e com isso tomou-se mais competitiva e mais assertiva na busca de novos clientes e parceiros comerciais, conseguindo assim um crescimento contínuo.

Salvador de empresa que investe dinheiro e recupera falência como Lemonis não temos no Brasil. Mas profissionais qualificados que trabalham com Recuperação de Crédito, Recuperação Judicial, Recuperação Comercial e Recuperação de Imagem são joias raras do mercado nacional, fazem a diferença e transformam vidas.

SALVADORES DA PATRIA

A advogada Marina de Barros Monteiro, sócia do Miguel Neto Advogados, ressalta que os principais profissionais que contribuem com a recuperação de empresas hoje no País são advogados e gestores de turnaround empresarial. ”Os primeiros são essenciais para que sejam controladas as contingencias processuais e litigiosas, em especial a própria condução do processo de recuperação judicial. Já os especialistas em gestão de turnaround ou reestruturação, são profissionais dedicados à identificação de causas da crise e respectivas soluções empresariais”.

Essas duas frentes de atuação (a jurídica e a empresarial) devem interagir em intensa simbiose, porque a empresa é um só organismo que deve ser presidido por ideais e valores que se assemelhem e convirjam. Além disso, os advogados e os gestores de turnaround poderão atuar nas duas principais frentes da recuperação, quais sejam, (I) a de gerenciar o passivo acumulado e fazer o diagnóstico da situação passada e (II) impulsionar o resgate da rentabilidade da empresa, através de medidas aptas à implementação de mudanças  concretas que reestruturem um futuro saudável. “Isso significa dizer, em outras palavras, que a recuperação não terá sucesso se esse momento for visto apenas como uma facilitação ou postergação de vencimentos. Em suma, também é preciso ter um novo olhar”, ressalta Marina.

Importante destacar a diferença entre falência e recuperação judicial. Em caso de falência, não há mais espaço para um “oxigênio novo” nem para a esperança de uma “virada de jogo”. “Trata-se, somente, da gestão de passivos e ativos consolidados para satisfação dos créditos nos termos da lei”, explica Marina.

No caso da recuperação judicial, não inicia- se um novo plano de recuperação factível, que venha seguido de sua aprovação e, evidentemente, do seu efetivo cumprimento. Essas são as principais etapas da recuperação e também os seus maiores desafios.

Em algumas situações, as empresas quebram e o motivo não é só má gestão. Pode ser, por exemplo, por uma mudança regulatória, como quando o governo aprova uma lei que acaba com determinado segmento da economia. Um exemplo disso foi o que aconteceu com os extintores de incêndio de veículos. Quando eles eram obrigatórios, nunca se vendeu tanto, e depois o governo tirou a obrigatoriedade do item. Foi então que algumas empresas pequenas – criadas justamente para atender a essa demanda de mercado – fecharam, devido à mudança da legislação”, ressalta o mentor de carreiras e empreendedorismo, Jorge Perillo.

Ele cita outro exemplo, as empresas dos kits de primeiros socorros, que também foram obrigatórios por um tempo dentro dos carros. “Para reestruturar e começar de novo, depois que se estanca a sangria e o dinheiro para de sair por onde não deveria, o certo é fazer um plano de redução de custos, priorizando apenas os itens mais importantes para o negócio principal da empresa, devendo ser preservado a qualquer custo. Ele é o órgão vital da empresa, que precisa ser mantido em funcionamento perfeito. Se for necessário, vai se abrir mão de alguma parte ou divisão da empresa neste momento, terceirizando ou simplesmente acabando mesmo com aquele determinado departamento, produto ou serviço. O principal de uma empresa é aquilo para que ela foi feita, o motivo pelo qual ela foi criada, o objetivo principal. É o que a empresa faz de melhor”, mostra o mentor.

LUZ NO FIM DO TÚNEL

O instituto jurídico da recuperação judicial, assim nominado pelo legislador brasileiro, somente entrou no ordenamento jurídico com a edição e promulgação da Lei 11.101, de 9 de fevereiro de 2005. Contudo, apesar de o instituto da recuperação judicial ser uma possibilidade nova no ordenamento jurídico brasileiro, já existiam outros meios de proteger a empresa e seus credores de uma possível falência. O Decreto Republicano 917, de 24 de outubro de 1890, visa a prevenir a decretação da falência, instituindo a moratória, a cessão de bens, o acordo extrajudicial e a concordata preventiva.

No entanto, as relações comerciais tornaram-se mais complexas, de forma que uma concordata preventiva não se encaixava como uma forma de proteger o interesse da devedora e de seus credores.

Nesse contexto, na década de 1990, iniciou-se um processo de deliberação no âmbito legislativo com o propósito de implantar um processo de soerguimento de empresas que se encontravam em situação de crise econômico-financeira. Por fim, a advogada, especialista em Direito Constitucional e membro da Comissão de Direito Empresarial da OAB/ PR, Natália Brotto, ressalta que é importante trazer o intuito expresso da recuperação judicial, o qual está positivado no artigo 47 da Lei 11.101/2005:

”A recuperação judicial tem por objetivo viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica.”

Para ela, é importante que a empresa sempre conte com um assessoramento jurídico de qualidade, que exerça uma função não só contenciosa, mas também consultiva e preventiva. “A contratação de uma equipe qualificada e manutenção de profissionais motivados pode ser o limiar entre o sucesso e a bancarrota do empreendedor”.

A recuperação Judicial deve ser requerida quando a empresa perde a capacidade de pagar as suas dívidas, objetivando-se, com a recuperação judicial, que exista uma reorganização de seus negócios e passivos, recompondo-se da dificuldade financeira.

Vale salientar que a recuperação judicial pode ser proposta de forma antecipada, haja vista que o objetivo finalístico da recuperação judicial é a recuperação de uma crise econômico-financeira, seja ela atual, seja iminente.

Natália explica ainda que para solicitar a recuperação judicial o empresário deve exercer regularmente suas atividades há mais de dois anos e atender aos seguintes requisitos:

•  não ser falido e, se o foi, estejam declaradas extintas, por sentença transitada em julgado, as responsabilidades dela decorrentes;

•  não ter, há menos de cinco anos, obtido concessão de recuperação judicial;

•  não ter, há menos de oito anos, obtido concessão de recuperação judicial com base no Plano Especial;

•  não ter sido condenado ou não ter, como administrador ou sócio- controlador, pessoa  condenada por qualquer crime previsto na Lei Falimentar.

Tanto a falência quanto a recuperação judicial são redigidas pela Lei 11.101/2005. Porém, a recuperação judicial visa permitir a manutenção da fonte produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, enquanto a falência é a decretação por parte do empreendedor da insuficiência de sua empresa em quitar as dívidas.

Durante o processo de falência as ações judiciais e execuções também são suspensas, porém por um motivo diferente da recuperação judicial. No processo de falência o objetivo maior é que seja estabelecido um rol hierárquico de credores e que todos eles recebam o seu quantum proporcional da dívida. É respeitado no processo de falência o parconditio creditorium, todos os credores de determinada classe devem gozar do mesmo tratamento.

Ademais, a solicitação de recuperação judicial só pode ser feita pelas pessoas que figuram no polo passivo, ou seja, os próprios devedores. O processo de falência pode ser requisitado pelos devedores, porém também pode ser solicitado pelos credores.

Para o sócio da HLB Brasil, empresa de auditoria, consultoria e outsourcing, Luiz Felipe Fleury, o que pode atrapalhar a recuperação é que muitas vezes os empresários demoram para pedir algum tipo de ajuda ou perceber que o problema está ficando mais sério. “Portanto, controles gerenciais deveriam dar ferramentas para o gestor perceber os primeiros sinais, como: perdas de margens por produtos, diminuição nas vendas, início de falta de liquidez, aumento do endividamento e outros, pois quanto antes seja atacada a raiz do problema mais fácil será se recuperar. Pense em uma doença, quanto mais rápido tomar o remédio, é mais fácil curar, e se ficar mais séria, é preciso tomar antibióticos ou até ir para a UTI”.

Fleury conta um caso de reconhecimento de problema, resolução rápida e volta ao mercado após uma crise que levou uma empresa de embalagens quase à falência. “A empresa se encontrava em grave crise financeira com endividamento muito elevado, protestos, atrasos na entrega de mercadorias, salários atrasados, muito estresse e com a fábrica quase parando. Em um primeiro momento, negociamos com os credores para podermos criar um plano de curto, médio e longo prazo. Definimos metas, responsabilidades para cada área e com o plano na mão fomos negociar. Parte do nosso time ficou dando suporte à gestão e outra parte foi conversar com os credores e novos financiadores. Conseguimos melhorias operacionais significativas, alongamento das dívidas de curto prazo e, após 12 meses, recuperação do valor do negócio e uma entrada de recursos estruturada. Por isso é importante descobrir por que as dificuldades apareceram, analisar com cuidado e então traçar um plano de ação”.

CRÉDITO NA PRAÇA

Algo que caminha lado a lado com a recuperação judicial é a recuperação de crédito. A empresa precisa voltar a ter fôlego financeiro e um mercado que confie novamente nela a ponto de emprestar recursos para a retomada de atividades. A advogada Marcia Andrade dá as principais técnicas, em termos legais, para uma empresa se recuperar e não entrar na falência.

I) Evitar ao máximo dívidas de natureza tributária e/ ou fiscal, uma vez que estas não entram no Plano de Recuperação Judicial e no fim do dia são os maiores dificultadores de um processo de recuperação judicial bem-sucedido.

II) Parece óbvio, mas não deixar acumular dívidas sobretudo aquelas sujeitas a protesto em cartório. Ao primeiro sinal de dificuldade o empresário deve buscar ajuda especializada não só com um advogado especialista, mas também com administradores especialistas em reestruturação empresarial. Quanto mais dívidas e credores, maiores as dificuldades de renegociação e reposicionamento no mercado.

III) Evitar tomadas de dinheiro por meio de alienação fiduciária. As instituições financeiras acabam sendo favorecidas nos processos de recuperação judicial sobretudo porque instrumentos como alienação fiduciária em garantia não estão sujeitos às regras do Plano de Recuperação Judicial.

Marcia ressalta que seu escritório possui área de contencioso empresarial estratégico que atende a casos de recuperação judicial e recuperação de crédito. ”Atendemos tanto clientes com créditos em grandes processos de recuperação judicial (de empresas de grande porte e expressão nacional) quanto em negociações específicas em casos de menor repercussão. E observamos que as maiores dificuldades estão em levar adiante os casos em que o cliente é a empresa devedora micro ou pequena, haja vista a dificuldade de aderir ao plano especial previsto no art. 70 da lei, que contém prazos mais curtos de pagamento aos credores (limitado a 36 meses) e regras muito rígidas de atualização das dívidas. Nesses casos os clientes têm optado por aderir às regras estabelecidas para empresas em geral e de grande porte, sendo necessário um empenho muito grande de todos os atores envolvidos, o cliente, os credores, o administrador judicial e, sobretudo, os empregados da empresa para retomar o foco do negócio, quitar as obrigações e manter a empresa reestruturada, lembrando que neste caso os custos da recuperação judicial também são maiores (com experts, assembleias, publicações em jornais etc.)”.

A coordenadora jurídica do escritório Barbero Advogados, Carla Bueno dos Santos, aponta que no geral o movimento mais importante para a empresa tentar recuperar crédito é o time, quanto antes o credor conseguir manejar qualquer tipo de medida na tentativa de recuperar o crédito inadimplido, mais chance há de êxito. “Assim, mediante cenário de inadimplência, o credor deve tomar medidas rápidas, como cobranças extrajudiciais via notificação, protestos, inclusão do nome do devedor nos Serviços de Proteção ao Crédito (SPC) ou Serasa etc. Caso, ainda assim, o crédito não seja satisfeito, a via judicial tem que ser acessada rapidamente para que as medidas constritivas de patrimônio sejam mais frutíferas”.

Tratando-se de micro e pequenos empreendedores, não conseguimos precisar se há um momento exato em que o empresário possa perceber que está em situação de grave crise financeira, pois é algo muito subjetivo. O empreendimento, na maioria das vezes, é a vida do empresário, portanto, fica difícil ter a consciência de que a coisa ruiu, porém, a depender da dimensão da empresa, pode sim ter uma equipe financeira e de planejamento que, pelos números analisados, capte os movimentos de dificuldade e sinalize no momento de implantar plano de ação para tratar a crise, estabilizar o negócio e colocá-lo em ascensão, mas não é a realidade da maioria das empresas no Brasil.

Em momentos de crise, é imprescindível que o empresário conte com certa estabilidade emocional para buscar novas formas de empreender e se reinventar, que saiba observar que nem tudo é crise e que, apoiado por profissionais sérios e competentes auxiliando-o assertivamente na situação de dificuldade, consiga ver outros nortes e explorar novas atividades.

MUDANÇA NA LEGISLAÇÃO

Existe um projeto de lei (10220/2018) que pretende atualizar regras da recuperação judicial brasileira. Empresas em recuperação judicial poderão negociar e quitar débitos com a União Federal em até dez anos.

De acordo com o advogado do escritório Barbero Advogados, especializado em Advocacia Empresarial, Álvaro Augusto Moraes Pereira, as alterações previstas no PL em relação ao parcelamento das dívidas das empresas em recuperação judicial perante a União Federal, se aprovadas, deverão ser encaradas considerando seus pontos positivos e as contrapartidas favoráveis ao governo.

Segundo Pereira, entre os principais pontos positivos para as empresas em recuperação judicial estão o aumento no número de parcelas permitidas (de 84 para 120); redução no percentual mínimo da dívida que deve ser pago a cada parcela; possibilidade de liquidação de débitos com créditos decorrentes de prejuízo fiscal; base negativa da Contribuição Social ou outros créditos próprios (nesses casos se mantêm as 84 parcelas) e permissão para não incluir no parcelamento os débitos que tenham a exigibilidade suspensa ou para os quais sejam apresentadas garantias.

Dentre as principais contrapartidas estão a obrigatoriedade de fornecimento de informações bancárias à Receita Federal Brasileira e à Procuradoria Geral da Fazenda Nacional; obrigação de amortização do saldo devedor do parcelamento a cada alienação de bens e direitos integrante do ativo não circulante da pessoa jurídica (com redução no número de parcelas vincendas); dever de manutenção da regularidade fiscal, manutenção da regularidade perante o FGTS, possibilidade de a União pedir a falência da empresa em caso de exclusão do parcelamento etc. “Embora os pontos positivos beneficiem empresas em recuperação judicial, as consequências pelo descumprimento são graves e as contrapartidas exigidas são mais fortes do que as atuais. A adesão ao parcelamento mais benéfico deve ser muito bem avaliada pelos gestores das empresas em recuperação judicial”, comenta Pereira.

O PL prevê também a possibilidade de parcelamento de débitos tributários retidos na fonte, descontados de terceiros ou de sub-rogação, e de IOE em condições mais rigorosas que as comentadas anteriormente.

DE OLHO NOS IMPOSTOS

Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2017, mostra que 95% das empresas pagam mais impostos do que deveriam. Diante da complexidade da legislação tributária e da dificuldade de acompanhar corretamente a cobrança realizada de impostos, as empresas não só pagam a mais como criam dividas por causa disso. “Diante desse cenário, é possível recorrer ao serviço de recuperação de impostos que apura corretamente os pagamentos da empresa dos últimos cinco anos e compara com o que realmente deveria ter sido pago. O processo leva em média dois meses”, explica o advogado tributarista e sócio da Attributor, startup de tecnologia especializada na recuperação de imposto para o Simples Nacional, Sergio Fernandes Jr.

O especialista em mercado corporativo e sócio de Sergio, Pierre Couto, explica que descobrir se há crédito com impostos pagos indevidamente pode ser uma grande oportunidade para a empresa. “Todo o valor pago a mais é corrigido e para muitos empresários representa a entrada de caixa não planejada e de forma rápida, o que permite ao empresário quitar novas dívidas ou até mesmo fazer os reinvestimentos prioritários”.

No modelo de negócio da Attributor, a empresa recebe um diagnóstico com os detalhes do serviço realizado e mais um diagnóstico tributário que permite corrigiros possíveis erros do passado e assim reduzir a carga tributária como um todo, o que impacta diretamente a capacidade de reestruturação da empresa.

MUDANDO OS RUMOS

O especialista que trabalha com recuperação judicial de médias e grandes empresas Naomi Sákuma, desenvolvendo um trabalho em uma empresa industrial e comercial de alimentos, com grande participação de mercado nas capitais do Sul e Nordeste do País e que enfrentava uma séria dificuldade financeira, diagnosticou uma das causas que drenavam recursos da empresa. Essa empresa distribuía os alimentos congelados e refrigerados nos bares, restaurantes e hotéis dessas capitais.

Após minuciosa análise de lucratividade de produtos, mercados e clientes, Sakuma conta que chegaram à conclusão de que a venda e entrega pulverizada para clientes de pequeno volume eram deficitárias e a decisão adotada foi a de abandonar as vendas para tais clientes. “No início, foi uma decisão muito difícil para o empresário, pois o faturamento bruto de R$4,6 milhões por ano despencaria para próximo de R$2,9 milhões. Uma redução de 37% nos níveis atuais de vendas da empresa. Mas essa redução no volume de vendas, interrompendo a produção e venda de produtos deficitários para clientes de baixo volume e que costumeiramente atrasavam os pagamentos, proporcionou ajustes de redução de custos de logística, além de economia com a venda de caminhões e utilitários de entrega”, explica o especialista.

Efetuada a reestruturação, a empresa saiu de um prejuízo de R$140 mil mensais para um lucro de R$180 mil. “Foi isso que deu fôlego novo para a empresa, e essa reestruturação, aliada a um processo de recuperação judicial, permitiu a negociação de dívidas bancárias de R$13,4 milhões para pagar com desconto de 60%, carência de um ano e pagamento em 120 parcelas mensais, com juros de 50% do CDI”.

Hoje a empresa opera com lucro e caixa suficientes para honrar seus compromissos em dia e ainda gera recursos para investimentos. Por isso, e devido a outras experiências  semelhantes a essa, Sakuma  afirma que a reestruturação é altamente recomendada quando uma empresa se encontra por um longo período sem crescimento, com lucros abaixo da média das empresas do seu setor, estagnada, com prejuízos recorrentes por mais de um ano, sem a perspectiva de recuperação no curto prazo e caminhando para a insolvência.

ARRANHOU SUA IMAGEM? E AGORA?

A empresa pode ter sua imagem arranhada na forma como ela se comunica com o mundo e na forma como ela interage. E isso pode ser um dos motivos também que uma empresa cava sua derrocada no mercado. “Caso você venda a ideia de que seu produto ou serviço transforma a vida da pessoa de certa maneira e isso não é entregue, é outro ponto que gera danos à imagem de uma marca. Pôr esse motivo, é necessária uma comunicação autêntica, que seja condizente com às tendências de mercado, mas que tenha a ver com a empresa”, explica o jovem empresário de 28 anos que salvou empresas que rumavam à falência utilizando técnicas de marketing digital em meio à crise econômica, Rapha Avellar.

A primeira empresa salva por Avellar era um negócio de família, mais especificamente de seu padrasto. Tradicional em seu segmento, a empresa buscava novos clientes por meio da ideia de estandes em eventos. A estratégia era custosa e não trazia a eficiência no retorno que esperavam, visto que a empresa não estava com as contas em dia.

Foi então o momento em que ele entrou nos negócios e utilizou estratégias de marketing digital e mídias sociais para salvar da falência o negócio da família. Aos 23 anos, ele entendeu que era mais vantajoso criar um blog, fortalecer o nome da marca nas redes sociais, fazer anúncios pagos do que montar estantes em grandes eventos. O resultado foi simplesmente incrível.

Em três anos, a empresa de Avellar cresceu cerca de 300%. Ele alavancou as vendas de R$3 milhões para R$12 milhões durante a maior crise da história do Brasil. Com tamanho sucesso nessa primeira recuperação, adquiriu outra empresa e hoje é dono da sua própria agência de publicidade, a Avellar Media, que está se destacando cada vez mais no mercado e ampliando sua conta de clientes, que inclui nomes como: XP Investimentos, Stone Pagamentos, MRV e Tinder Brasil. “Tenha em mente também que o mundo em que vivemos é muito diferente do mundo em que as pessoas cresceram. Antigamente havia anúncios preconceituosos contra minorias, tanto contra negros como contra LGBT. Esse tipo de posicionamento era visto até como aceitável, hoje em dia não é. Essas minorias estão deixando de ser minorias e estão se tornando a maioria no agregado coletivo; trazendo pautas muito fortes, com méritos fortes e que as marcas têm o dever de respeitar”, explica Avellar.

Outro ponto destacado por ele é: prometa menos e entregue mais para causar impacto positivo. “Sem dúvida nenhuma, qualquer negócio é construído com base em sua reputação. E não só negócios, as marcas também, seja uma marca pessoal, seja corporativa. A reputação é construída durante anos, mas pode ser facilmente destruída em uma única ação”, mostra.

Sempre na crise de imagem o primeiro de tudo é identificar se a sua falha está na comunicação, ou na entrega, ou se está nos dois. A partir daí, planeja-se um conjunto de iniciativas internas que alinhe a companhia na direção desta resolução. ”Essa dinâmica precisa ser resolvida em curto prazo, mas é um problema de longo prazo, pois ninguém conserta a sua reputação do dia para a noite. A minha dica é: não tente consertar a sua reputação, invista mais tempo garantindo que ela não será arranhada”.

Por tudo isso, Avellar afirma: “o foco deve estar cada vez mais no ser humano, no final a tecnologia é só um meio para produzir uma comunicação autêntica e eficaz, que é o pilar para se combater os danos de uma reputação”, conclui.

SINTOMAS E DIAGNOSTICO

Se continuarmos agindo nos sintomas, por exemplo, tomando mais empréstimos para cobrir déficit de caixa, continuamos cavando o buraco, e chega urna hora que não conseguimos mais sair dele. Na maioria dos casos, os prejuízos e as altas dividas não são as causas dos problemas nas empresas. São sintomas de um problema.

O diagnóstico detalhado é realizado para descobrir as causas nos casos de redução progressiva de vendas, falta de dinheiro em caixa, atraso para pagar despesas e custos e queda de desempenho e de lucratividade na empresa. O processo compreende questionar e verificar onde e como os recursos podem ser empregados de melhor forma na empresa.

Estabelecer os planos de ação para reduzir e controlar custos, despesas e ativos, controlar com efetividade o fluxo de caixa e evitar as arn1adilhas do mercado financeiro são algumas dicas para superar a crise. Essas ações são parte de um processo mais amplo que é a reestruturação da empresa.

1. REDUÇÕES E CONTROLE RIGOROSO DE CUSTOS, DESPESAS E ATIVOS.

Uma redução de 30% nos custos totais da empresa é facilmente conseguida eliminando-se desperdícios e ociosidades em todas as áreas funcionais. O resultado é o aumento da eficiência operacional, fazendo mais com menos, e por consequência aumento nas margens de lucro e menos demanda por caixa. A venda de ativos não operacionais e desova de estoques de baixo giro são formas rápidas de conseguir caixa.

2. PLANEJAMENTO E CONTROLE RIGOROSO DO FLUXO DE CAIXA.

O ideal é manter pelo menos um horizonte de 13 semanas para antecipar os problemas de insuficiência de caixa e negociar com credores alternativas para pagamento. Um procedimento simples, mas que funciona, é centralizar as compras, manter um controle rigoroso e comprar somente o estritamente necessário e com autorização.

3. PLANEJAMENTO DAS NECESSIDADES DE CAPITAL DE GIRO.

Na maioria das vezes a conta não fecha quando se pensa em vender mais. Para vender mais é necessário antecipar compras, contratar mais funcionários de produção, a menos que tenha capacidade ociosa, produzir e estocar, aumentar os esforços de venda e, por fim, vender e receber pelas vendas dos produtos. Esse ciclo pode levar alguns meses de saídas de dinheiro do caixa até o recebimento pelas vendas. Nessa etapa a empresa toma recursos de bancos que são muito caros e que nem sempre cobrem os lucros das vendas adicionais e acaba se endividando além de sua capacidade de tomar crédito.

4. EVITAR AS ARMADILHAS DO MERCADO FINANCEIRO.

As sucessivas renegociações de dívidas bancárias e novos empréstimos são feitas sempre com taxas de juros mais elevadas e com garantias adicionais, inclusive com bens dos sócios, das pessoas físicas. O banco vai fornecendo a corda para você se enrolar cada vez mais e acabar se enforcando. O ideal é interromper as renegociações muito antes do esgotamento cadastral, como entregar em garantia todo o faturamento da empresa e os bens do ativo permanente. Continuar com esse procedimento será questão de tempo para a liquidação da empresa.

FONTE: Naomi Sakuma trabalha com recuperação judicial de médias e grandes empresas. Há 25 anos atua como Consultor de Gestão nas áreas de reestruturação de empresas, recuperação judicial, avaliação de empresas e implementação de modelos de gestão baseado em criação de valor (VBM).

FIQUE ATENTO!

O que mantém uma empresa “em cartaz” é a adesão de clientes. A empresa só se mantém viva se seus produtos e serviços continuarem, de forma competitiva, a resolver uma dor do cliente. Como o mercado muda, ofertas concorrentes, ofertas substitutas, novos entrantes, mudanças sociais etc. O que de fato mantém uma empresa no mercado é seu poder de adaptação e inovação. As empresas vivas são as que têm ofertas atuais com relação às ondas de mercado. Nesse sentido, as dicas para se manter atualizado são:

1) ANTECIPE AS MUDANÇAS: dedique tempo para entender as mudanças que estão por vir. Quando a mudança chega, o tempo de reação das empresas é muito pequeno.

2) EQUIPE PREPARADA: mantenha em seu time pessoas capazes de preparar e transformar a empresa quando chegar o momento. Pessoas jovens e talentosas devem fazer parte do quadro da empresa.

3) TRANSFORME OBSTÁCULOS EM ALAVANCAS: quando se deparar com grandes desafios de mercado é a hora que tem para agir e preparar a empresa para a nova onda. Toda crise é sinônimo de oportunidade. Gestores com medo da mudança tomam muito tempo para reconhecer que a mudança veio para ficar.

FONTE: Bruno Rondani, CEO do 100 Open Startups.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – III

QUESTÃO DE GÊNERO?

Tanto homens quanto mulheres estão sujeitos à psicopatia

Quando se fala em psicopata, qual a primeira imagem que vem à sua cabeça? Se a resposta foi um homem com cara de mau, você pensa como a maioria das pessoas que relaciona o transtorno como típico do sexo masculino. Porém, mulheres estão propensas como qualquer homem, ainda que elas apresentem menor incidência de distúrbio. “Em revisões de literatura sobre o percentual da psicopatia entre homens e mulheres, foram encontradas, no geral, taxas mais baixas de prevalência do transtorno em mulheres do que entre homens”, afirma a psiquiatra Andrea Kraft.

ESTUDANDO A FUNDO

Há diversas pesquisas sobre o desenvolvimento do transtorno de personalidade antissocial entre os gêneros. A maioria aponta que, além da diferença na prevalência e incidência, cada sexo apresenta alterações na idade de manifestação e, principalmente, em relação ao comportamento. Enquanto a falta de empatia, a impulsividade e a delinquência juvenil são destaques entre o sexo masculino, o comportamento sexual promíscuo e o abuso de substâncias alcoólicas são mais evidentes no feminino.

Quando o assunto é violência, as mulheres apresentam menor índice de crimes. Além disso, no caso delas, os primeiros sintomas costumam aparecer durante a pré-puberdade; já entre os homens, surgem antes deste período. Porém, há manifestações classificadas como comuns aos dois sexos, como insensibilidade, violência, emoções superficiais e ausência de culpa.

PARANOICAS E HISTÉRICAS

Apesar destes dados, o número de estudos relacionando o sexo feminino ao transtorno é menor do que os que relacionam ao masculino. Assim sendo, as informações não podem ser consideradas tão completas e abrangentes. E ainda: pode ser que a psicopatia não seja diagnosticada em muitas mulheres por falta de aprofundamento dos especialistas, dificultando a identificação do transtorno neste grupo. Frente ao crescimento de crimes cometidos pelas mulheres, toma-se importante a maior atenção ao sexo feminino. O diagnóstico correto se torna importante tanto para o melhor tratamento destas criminosas, quanto para evitar problemas futuros com seus filhos, já que o comportamento frio do transtorno na maternidade pode gerar consequências no desenvolvimento da criança.

Com o que se sabe hoje em dia, alguns pesquisadores consideram que as mulheres psicopatas tendem a serem mais paranoicas em comparação aos homens, além de estarem envolvidas em cuidados com o próximo, como a profissão de enfermeira.

NEM TÃO DIFERENTES ASSIM

Se, por um lado, alguns estudos apontam diferenças do transtorno entre os sexos, por outro, especialistas afirmam não haver divergência alguma, a não ser pela forma de agir. “Não há diferença entre homens e mulheres, a não ser, talvez, na estratégia de ação. Afinal, os meios femininos sempre são diferentes dos masculinos”, opina a psicóloga Raquel Staerke. O psiquiatra Vladimir Bemik concorda com a especialista: “o que pode acontecer é que o tipo da prática dos atos de agressão à sociedade seja diferente quando feitos por homens ou por mulheres”.

SEM GENERALIZAÇÕES

Como já foi apresentado na parte I, a manifestação do transtorno de personalidade antissocial depende de diversos fatores. Sendo assim, nunca é demais lembrar que somente o gênero não define o comportamento de um indivíduo. “De natureza multifatorial, o transtorno pode ser compreendido por meio de teorias sobre influências biológicas (como vulnerabilidade genética, excitação baixa e limiar elevado do medo), influências psicológicas (dificuldade em aprender a evitar punição e indiferença em relação a preocupações dos demais, por exemplo) e influências socioculturais (como criminalidade, estresse e exposição à experiência traumática, disciplina inconstante por parte dos pais e dificuldades socioeconômicas)”, destaca o psicólogo Armando Ribeiro.

PSICOPATIA TEM A VER COM HISTERIA?

Originário da palavra grega hystera que significa útero, a histeria foi classificada como uma suposta condição peculiar a mulheres, causando problemas no útero e, consequentemente, perturbações mentais. Com o desenvolvimento de estudos, soube-se que esta relação era equivocada. Tanto que, atualmente, o correto é mencioná-la como transtorno de personalidade histriônica. Como a pessoa apresenta comportamentos estranhos, é comum que se confunda psicopatia com histeria, principalmente no caso das mulheres (herança da crença ultrapassada). No entanto, os transtornos não têm nada em comum. “A histeria mistura características típicas de personalidade explosiva dentro de um quadro agudo de ansiedade, que pode vir a se tornar agressivo”, afirma o psiquiatra Vladimir Bemik. “É um quadro de perfil de estrutura de personalidade com outras características que em nada se aproxima da psicopatia”, afirma a psicóloga Raquel Staerke.