EU ACHO …

JARDINS E LEBLON

Os ”barracos” no restaurante Gero e na praia carioca resumem a tirania do que se chama de elite

O comportamento da elite brasileira, ou de parte dela, revela que ainda não foi possível fazer a transição da estrutura colonial escravista para uma sociedade cidadã em que vigoram os princípios democráticos, constitucionais e civilizados. Dois tristes episódios recentes expuseram esse viés colonial, anticidadania e autoritário das nossas elites: os conflitos ocorridos no restaurante Gero, em São Paulo, e na Praia do Leblon, no Rio de Janeiro. No primeiro episódio, um homem chegou ao restaurante minutos antes de fechar e se recusou a deixar o local. Quebrou os protocolos sanitários e ofendeu outros clientes. Sentiu-se desrespeitado ante as tentativas de que cumprisse a lei. No segundo caso, duas mulheres passeavam de biquíni em um carro conversível com a capota abaixada quando foram atingidas com garrafas jogadas por clientes de um restaurante que estavam nas mesas da calçada em frente ao veículo. Uma das moças desce e agride fisicamente quem jogou as garrafas.

Em ambos os casos está presente a aporofobia: o preconceito, a aversão e o ódio contra os pobres. Nossa elite tem como regra não aceitar a pobreza, identificada com a negritude, os nordestinos e os indígenas. Não existe aceitação de que a pobreza é parte integrante da nação. O resultado é o sentimento que essa elite criou de que é superior aos outros, de que constitui sozinha a nação. Gente da elite tende a tratar o outro, quando conflitam, mesmo em se tratando de um igual, como um estrangeiro deseducado, desinformado e de menor qualidade humana. Nos conflitos, busca retirar do outro as suas características humanas mínimas. Exatamente o que aconteceu nos dois episódios. No caso do Gero, o senhor que provocou o incidente gabava-se de “ser de berço”, ter tido educação nos EUA e Europa e de ser um “cavalheiro”.

Essa autorreferência como privilegiado implica que visão e comportamento são sempre orientados por uma percepção de que a lei serve para os outros, mas não para si mesmo. Trata-se de uma noção absolutista típica, na qual o soberano produzia as leis que ele mesmo se desobrigava a cumprir. A elite comporta-se assim, como um rei absolutista. Não se coloca numa condição de cidadania, em que todo e qualquer um é igual perante a lei. As tentativas de fazer a lei ser cumprida são entendidas como ofensa, justamente por contrariarem o sentimento de “minirrei”. A igualdade perante a lei, que funda a ideia de cidadania, é tida como agressão, como expressou o tumultuador do Gero. A noção de privilégio vem daí e choca-se com o sentido maior dos direitos, a ideia de universalidade.

No caso do Leblon, circulou a informação de que as moças trocaram beijos e isso teria levado à indignação do agressor. Mas o fato de duas mulheres se beijarem é amparado pela Constituição. Se pode haver uma expressão heteroafetiva na via pública, igualmente pode haver uma homoafetiva, fundamento que se origina também do princípio da igualdade.

Uma vez mais, o traço antidemocrático, autoritário e inconstitucional revela-se. Se alguém enxerga uma ilegalidade que ocorre no passeio público, que comunique às autoridades, em vez de assumir a Justiça com as próprias mãos.

Caso houvesse algum delito no automóvel, uma infração de trânsito, é desproporcional e mais delituosa a reação violenta de jogar garrafas, assim como a agressão física usada como resposta às garrafas atiradas. A violência é algo a ser repudiado intensamente numa sociedade democrática, constitucional e civilizada.

Mas a elite se acha no direito de fazer justiça com as próprias mãos. Isso ecoa a estrutura colonialista que segue latente. Os escravos eram torturados e punidos pelos donos. O julgamento não é o Estado quem faz, mas o indivíduo. Juiz e carrasco, assim como os donos de escravos eram. O governo Bolsonaro estimula esse paradigma ao difundir uma ideia de nação formada apenas por incluídos e apoiadores. Os demais são excluídos. Sobrepostas a essa estrutura colonialista, as formas de autoritarismo líquido que ganharam impulso com Bolsonaro também liquefazem a distinção entre público e privado, atribuindo ao particular funções típicas de Estado. Assim, em vez de significar o direito a ter direitos e, portanto, o dever de garantir e manter os direitos, a cidadania é substituída pela noção do direito individual de exercer funções de polícia, típicas do Estado. O autoritarismo líquido percorre não apenas os ambientes da intersubjetividade política, ele penetra na subjetividade dos cidadãos. No seu Discurso da Servidão Voluntária, uma das lições que Etienne de La Boétie nos dá é a de que indivíduos apoiam o tirano para poder exercer suas pequenas tiranias. Eis o resultado da eleição de Bolsonaro: a elite, ou uma parte, apoiou um tirano para poder exercer no cotidiano essas pequenas tiranias.

OUTROS OLHARES

DO PUNK AO POP

Os coturnos, que surgiram na 2ª Guerra, chegaram às passarelas e hoje fazem parte do vestuário feminino

Criadas pelos britânicos como parte do uniforme militar, as “combat boots”, ou botas de combate, foram feitas para os soldados destinados à luta na Segunda Guerra Mundial. Ao contrário das botas anteriores, essas possuíam solados tratorados, evitando quedas, e também cadarços, facilitando assim a vida dos combatentes. Contudo, faltava o conforto. E quem o encontrou foi o médico alemão Klaus Martens, que havia machucado os tornozelos usando as botas do antigo inimigo. Foi na Inglaterra que ele concebeu a marca de coturnos mais famosa do mundo: a Dr. Martens. O modelo, feito à mão, de couro preto e com costura em fio amarelo, foi lançado no dia 1o de abril de 1960 e, por isso, ficou conhecido como “1460”.

Usado em qualquer estação do ano até hoje, foram ícones da contracultura, do punk e do rock, até chegar aos guarda-roupas femininos. Contam com versões em todas as marcas de calçados do mundo – desde a francesa Louis Vuitton até o modelo de plástico da brasileira Melissa. Usados em protestos, os coturnos voltaram às passarelas em 2020. Dior, Prada, Arezzo e Schutz dão exemplos da tendência. “Gosto da versatilidade de como os coturnos entraram no vestuário feminino. Vestem bem com um vestido florido ou com uma calça jeans rasgada”, diz a estilista Débora Leal, que desenhou sua própria versão do calçado. Será que durante o “Dia D” alguém imaginou que um dia os coturnos seriam objetos tão caros e desejados?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

04 DE OUTUBRO

FILHOS, HERANÇA DE DEUS

Herança do SENHOR são os filhos; o fruto do ventre, seu galardão (Salmos 127.3).

O Salmo 127 diz que os filhos são herança de Deus, tesouros preciosos que Deus confia aos pais para cuidar. Uma herança é algo que recebemos, e não que conquistamos por nosso esforço. Os filhos são presentes de Deus. São dádivas da graça. Por outro lado, uma herança é recebida para ser cuidada e cultivada. Não podemos desperdiçar uma herança. Os filhos precisam receber nosso mais extremado cuidado. Os pais carregam os filhos no coração, nos braços, no bolso e nos sonhos. Os pais devem ensinar os filhos no caminho, sendo-lhes exemplo na jornada da vida. Devem amar a Deus e inculcar neles a verdade. Devem criá-los na disciplina e na admoestação do Senhor, buscando ganhá-los para Cristo. Os pais devem ser convertidos aos filhos, separando tempo para eles e orando com eles e por eles. Os pais devem cuidar da vida física, emocional e espiritual dos filhos, sabendo que este é o melhor dos investimentos e que seus filhos são o melhor dos seus tesouros. Nenhum sucesso compensa o fracasso dos filhos. Nenhuma riqueza é mais preciosa que os filhos. Os filhos são presentes de Deus, a herança de Deus, o galardão de Deus, o motivo da alegria dos pais.

GESTÃO E CARREIRA

BRASILEIROS JOVENS & BILIONÁRIOS

Nove empresários com menos de 40 anos estão no seleto grupo dos dez dígitos, segundo ranking da “Forbes”. Se somadas, suas riquezas superam R$ 100 bilhões. Uma surpresa: a maior parte não é de herdeiros

Alcançar independência financeira antes dos 40 anos é meta de muita gente. Já ficar milionário é um sonho para poucos. Que dirá virar um bilionário nessa idade em um país tão carente como o Brasil, que acabou de bater mais um recorde de desempregados, segundo dados do IBGE. Pois este ano nove pessoas conseguiram entrar para esse seleto grupo, que tem 238 brasileiros no total, conforme levantamento feito pela revista “Forbes”. Juntos, eles somam uma fortuna de mais de R$ 100 bilhões. Quase todos vivem no eixo Rio-São Paulo.

O mais rico da lista fez fortuna no exterior. É Eduardo Saverin, co-fundador do Facebook, que aos 37 anos acumula um patrimônio de R$ 68,12 bilhões. O montante também o coloca em outro ranking, entre os três mais ricos do Brasil, perdendo apenas para o banqueiro Joseph Safra e o empresário Jorge Paulo Lemann. Atualmente, Saverin mora em Singapura e continua multiplicando sua fortuna, investindo em startups na Ásia e na América Latina.

O mais jovem do ranking é Pedro de Godoy Bueno. Aos 29 anos, o caçula dos bilionários preside o grupo de laboratórios DASA (Diagnósticos da América) e já soma R$ 8,5 bilhões em patrimônio. Pedro é filho de Edson de Godoy Bueno, que comprou a rede DASA de laboratórios em 2015. Em 2017, após a morte do pai, ele herdou junto com a meia-irmã Camilla (filha de Dulce Pugliesi, segunda mulher mais rica do Brasil) o patrimônio do pai, que incluía também participação na empresa de planos de saúde Amil.

Outro jovem bilionário — o segundo mais rico da lista, com R$ 11,48 bilhões aos 36 anos — é Franco Bittar Garcia, também herdeiro. Ele é filho do casal Wagner e Maria Trajano Garcia, fundadores do Magazine Luiza, e sobrinho de Luiza Trajano, a mulher mais rica do Brasil. Com R$ 2,4 bilhões, Gilberto Schincariol Junior, 36, também recebeu dos pais 49,55% das ações da cervejaria que leva o nome da família e foi vendida para a japonesa Kirim. Única mulher do grupo dos jovens bilionários, com R$ 1,25 bilhão, Ana Luiza Campos Garfinkel, 39, é herdeira de Jayme Garfinkel, fundador da Porto Seguro.

MÉRITO PRÓPRIO

Engana-se quem acha que na lista de bilionários jovens só existam herdeiros. A maior parte deles, incluindo Saverin, construiu sozinho seu próprio patrimônio. E vem do setor financeiro a maior parte das fortunas, três delas ao todo, como a de André Street, que aos 36 anos soma R$ 10,3 bilhões, após fundar, em 2012, a fintech StoneCo, que hoje já se tornou um conglomerado do ramo de pagamentos, com marcas como a própria Stone, Pagar.me, Mundipagg, Equals e Cappta. Também figuram na lista dos “self made men” dois sócios da XP Investimentos: Carlos Alberto Ferreira Filho, com 39 anos e um patrimônio de R$ 1,33 bilhão, e Gabriel Leal, também com 39, que acumula R$ 1,02 bilhão. Ferreira entrou na XP em 2008 e hoje já tem a terceira maior fatia acionária da corretora financeira. Já Leal começou a trabalhar na companhia como gerente da XP Educacional, em 2006, e se tornou o sócio-diretor, quinta maior participação individual na companhia. CEO e acionista da construtora Mitre Realty, com patrimônio total de R$ 1 bilhão, Fabrício Mitre, 36, fecha a lista dos bilionários com menos de 40 anos. Um grupo diferente e, como os próprios números mostram, só para poucos. Bem poucos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DESVENDANDO A PSICOPATIA – I

Embora a ficção os apresente como criminosos, eles carregam um transtorno que merece atenção

A psicopatia é quase sempre relacionada a personagens de ficção (seja de livros, filmes ou séries) que cometem os crimes mais bárbaros, torturam suas vítimas e, claro, manipulam quem está à sua volta para alcançarem seus objetivos. Contudo, por trás de toda essa história, existe um transtorno de personalidade que atinge de 0,2% a 3,3% da população mundial, de acordo com os dados da 5ª edição do Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais (DSM-5). Dessa forma, é importante desmitificar a personalidade e o comportamento daqueles que são quase sempre rotulados como frios e violentos por escolha própria.

AS DEFINIÇÕES

O transtorno de personalidade antissocial, além de estar presente no DSM-5, também está descrito na Classificação Internacional de Doenças (CID-10), publicado pela Organização Mundial da Saúde. De acordo com a psiquiatra Andrea Kraft, “os transtornos de personalidade não são doenças, mas anormalidades da psiquê, onde há uma dissonância do afeto e da emoção. Na psicopatia, existe uma falta de empatia e de emoção em relação ao outro. Quando há uma exacerbação desta insensibilidade, estes indivíduos são classificados como sociopatas ou psicopatas”. Entretanto, o termo “psicopatia” não aparece nas classificações internacionais de doenças, pois não é um diagnóstico psiquiátrico atual, mas uma forma de denominar as características da personalidade.

DE TRANSTORNO MENTAL A ANTISSOCIAL

A história do conceito de psicopatia mudou bastante ao longo dos anos e também entre os próprios psiquiatras, devido ao aperfeiçoamento das pesquisas na área. “De uma maneira geral, no século 19, quando a psiquiatria se constituía, psicopatia era sinônimo de transtorno mental. Já no início do século 20, o termo passou a significar transtornos de personalidade, isto é, transtornos persistentes, de longa duração, caracterizados por padrões inflexíveis de comportamentos, pensamentos e sentimentos, que causam sofrimento para a pessoa ou para os outros, e que são muito diferentes do esperado para o contexto cultural”, explica o psiquiatra Claudinei Biazoli. Contudo, no decorrer do século 20, a psicopatia passou a significar um transtorno de personalidade específico. Hoje, é chamado de antissocial (de acordo com a classificação da Associação Americana de Psiquiatra, responsável pelo DSM) ou transtorno dissocial (para o CID). “Mais recentemente, em 2013, na última edição do DSM, o termo ‘características psicopáticas’ foi empregado em uma nova proposta voltada à classificação dos transtornos de personalidade para um subgrupo do transtorno de personalidade antissocial”, acrescenta Biazoli.

ALTERAÇÕES NEUROLÓGICAS

De acordo com os especialistas, as origens do distúrbio são multifatoriais. “Não consistem sobre um fator específico. Sendo assim, há vários históricos das possíveis causas, desde traumas psicológicos a questões genéticas”, explica o psiquiatra Antônio de Pádua Serafim. Dessa forma, tanto a genética quanto o ambiente podem contribuir para o surgimento do transtorno ainda antes da vida adulta.

De acordo com Biazoli, existem muitas pesquisas que buscam identificar diferenças na anatomia ou em funções cerebrais específicas de pacientes com o transtorno antissocial. “No entanto, os resultados desses estudos ainda não são conclusivos. Vale ressaltar que as classificações em psiquiatria, hoje, não se baseiam na causa dos transtornos mentais, na presença de lesões cerebrais ou diferenças entre os funcionamentos cerebrais dos pacientes”, acrescenta.

Há ainda algumas evidências (mas nada conclusivo) de que o uso de álcool e cigarro durante a gravidez pode influenciar no desenvolvimento do transtorno. “Sabe-se que histórico de abuso de substâncias [psicoativas] pelos pais ou outros membros da família aumenta o risco do transtorno”, afirma Biazoli. Outros fatores incluem diagnóstico de transtorno de conduta na infância, história familiar de transtorno mental, ter sofrido abuso verbal, físico ou sexual na infância, possuir um ambiente familiar instável e a perda dos pais. Contudo, não existem formas efetivas de prevenção.

SEM EMOÇÃO OU CULPA

Mas será que todos os psicopatas são capazes de mentir, cometer crimes e manipular quem está ao seu redor? E existe mesmo uma classificação de teor de “maldade”? De acordo com Antônio Serafim, não há níveis do transtorno, mas características marcantes como indivíduos manipuladores, exploradores e sádicos.

Entre os principais traços do caráter, estão a falta de emoção e ausência de culpa sobre seus atos. “São pessoas incapazes de sentir empatia com outros indivíduos; angústia e remorso são sentimentos impensáveis para pessoas diagnosticadas desta forma. Outras características que eles não possuem e merecem destaque são senso crítico e noção ética”, detalha a psicóloga Cleunice Menezes.

Ainda de acordo com a especialista, em um relacionamento amoroso, os indivíduos com o transtorno se apresentam insensíveis e não gostam de compromissos. Além disso, são incapazes de frear seus impulsos e raramente aprendem com seus erros. “Os portadores dessa estrutura psíquica causam boa impressão e são considerados normais por aqueles que conhecem superficialmente. Porém, costumam ser egocêntricos, desonestos e mentirosos”, acrescenta Menezes.

Em suas relações sexuais, também, podem ser exploradores e terem vários parceiros. É possível que nunca sustentem relacionamentos monogâmicos por muito tempo pois, quando se envolvem com outra pessoa, é com a pretensão de alcançar seus objetivos, seja poder, status ou apenas por pura diversão. Assim, estão sempre em busca de pessoas manipuláveis para se relacionarem.

Entretanto, tal comportamento não impede que se tornem pais, porém costumam ser irresponsáveis. Há históricos de que os filhos de pessoas com o transtorno sofrem com má nutrição e falta de higiene, por puro descuido e falta de compromisso. Assim, as crianças dependem de vizinhos ou outros familiares para conseguir comida e abrigo.

CRITÉRIOS DE DIAGNÓSTICO

Para que se chegue ao diagnóstico correto, é preciso que o indivíduo apresente comportamento desrespeitoso e tenha o costume de violar os direitos de outras pessoas desde antes dos 15 anos de idade. Contudo, de acordo com o DSM-5, o laudo final só pode ser concedido a partir dos 18 anos, mesmo que o adolescente apresente essa conduta desde a infância.

Além das características especificadas anteriormente, os portadores do transtorno tendem a cometer várias vezes o mesmo ato ilícito, que os levam para a detenção. Isso porque, em busca do prazer ou lucro pessoal, enganam outras pessoas. Além disso, são imprudentes quanto à própria segurança.

Ainda segundo o Manual de Diagnóstico, o transtorno parece estar associado com um nível socioeconômico mais baixo e ambientes urbanos. Entretanto, é possível que os laudos tenham sido mal aplicados a indivíduos que aparentam ter comportamento antissocial, porém tal conduta pode fazer parte de sua estratégia de sobrevivência e proteção em ambientes específicos. Assim sendo, como também acontece com outros transtornos de personalidade, é preciso que especialistas considerem o contexto social e econômico de cada paciente antes de dar a avaliação definitiva do caso.

Fazer o diagnóstico do distúrbio não é fácil, principalmente na hora de identificar os aspectos descritos pelo DSM. Segundo Menezes, “todo cuidado é pouco ao rotular alguém com este diagnóstico”.

ANOMALIAS CEREBRAIS

Uma pesquisa recente da Universidade de Montreal, no Canadá, mostrou que indivíduos com o transtorno de personalidade antissocial podem apresentar algumas anormalidades em partes específicas do cérebro, relacionadas à noção de punição. Isso explicaria porque, mesmo após serem presos pelos crimes que cometeram, apresentam altas taxas de reincidência.

Para o estudo, a amostragem selecionada foi de 50 homens, sendo que 32 estavam presos e apresentavam características da personalidade psicopata. Eles haviam sido condenados por assassinato, tentativa de homicídio, lesão corporal e estupro. Os resultados mostraram que seus cérebros apresentam anormalidades estruturais na massa cinzenta, responsável pelo processamento de informações e cognição, e na substância branca, que coordena o fluxo de dados entre as diferentes partes do órgão.

Depois de diversas ressonâncias magnéticas, foi encontrado um volume menor do que o normal no córtex pré-frontal rostral desses indivíduos e também nos polos temporais, ligados à empatia, raciocínio moral e processamento de culpa e vergonha. Já no cíngulo dorsal {parte do órgão relacionada à falta de empatia), foram encontradas anomalias na massa branca. Desse modo, por apresentarem “defeitos” nas áreas envolvidas com a apreensão de recompensas e punições, esses indivíduos reincidem em crimes mais vezes do que outros presos.