EU ACHO …

A MÁSCARA VAI FICAR

Neste complexo “novo normal”, é melhor não abandonar a sua

Fui ao Rio de Janeiro. Encontrei uma amiga. Chegou de máscara e tirou na porta (amigos tendem a achar que tirar a máscara é prova de confiança, como se a relação evitasse o contágio). Quando eu reclamei, assustado, ela garantiu que estava em pleno confinamento. No dia seguinte me liga de um restaurante. Queria que eu fosse para lá. Fugi. No outro, de uma festa. “Mas é com pouca gente”, observou. Voltei a São Paulo. Os amigos querem marcar encontros. A verdade é que o confinamento está acabando, em ritmo avançado, se é que já não acabou. Ouço falar de baladas, vejo fotos de praias lotadas… Nesta retomada, inclusive das relações sociais, como proceder?

Sempre fomos um povo expansivo, de abraços e beijos. Fui jantar no apartamento de um casal de amigos. Por viajar muito, ele fez teste de Covid uns dias antes. Hoje em dia não se dá mais aperto de mão. O correto entre homens é bater os antebraços e cotovelos. As mulheres estendem as unhas umas para as outras. Tipo um ritual primitivo. Mas minha amiga virou o rostinho. Um rostinho lindo, por sinal. Como não beijar? A técnica de estalar os lábios no ar é muito útil. Mas ainda não está inteiramente aceita. Dizem que o olhar é expressivo, mas fica tranquilo disfarçar. Use um olhar intenso e não pisque. No caso de a pessoa estar desabafando, parecerá de solidariedade. Se falar de finanças, de fascínio pela inteligência alheia. Conversar é um pouco mais difícil, já que a dicção fica comprometida e a voz abafada, horrenda. A máscara tem vantagens. Outro dia fui a uma endocrinologista que me recebeu usando uma florida. Só retiramos nossas respectivas no consultório, a 2 metros de distância. Quase coloquei a minha novamente para disfarçar a expressão de susto quando veio o preço da consulta. Máscara é útil. Conheço uma atriz que ficou com o nariz terrível após procedimentos. Hoje, de máscara, está bela como antes.

Se a pessoa fez Botox e está de máscara, torna-se mais indecifrável que uma esfinge. Não mexe nem a sobrancelha. Tendo a acreditar que quando a pupila vai para a direita é alegria, à esquerda, mistério e preocupação. Os fetichistas também já estão incorporando a máscara. Elimina o beijo e a troca de caronas, além de ser uma viagem.

De agora. em diante, você, como eu, será convidado para os mais variados eventos. O confinamento está se tornando lenda. Meu conselho: aceite e depois não vá. Ninguém mais entende que você queira ficar isolado. Dê a impressão de que ocorreu um imprevisto. Senão você ganha o rótulo de “careta”.

É um novo jeito de viver, sem contato físico. E com uma nova estética. Cuidado! Se você tomar sol de máscara, ganhará um novo design de bronzeado. Mas já se tornou moda também. Uma amiga foi vista com máscara, top, bolsa e sapatos combinando. Saiba quando dizer: “Que bela más cara!”. Pessoalmente, demorarei muito para retirá-la de meu uso pessoal. No “novo normal”, a máscara terá seu lugar. Nunca abandone a sua.

*** WALCYR CARRASCO             

OUTROS OLHARES

CULTIVANDO A IMAGINAÇÃO

Muitos pais recorrem a soluções mirabolantes no afã de estimular os filhos. Pois a ciência esclarece: o melhor mesmo é ler um bom livro para eles

Uma questão existencial vive a rondar os pais: como preencher o tempo dos filhos de modo a ajudá-los a escalar os degraus do desenvolvimento? O risco nesse campo delicado é descambar para o excesso, seja promovendo uma agenda atribulada de atividades, seja equipando a criança com todo tipo de tela -TV, computador, celular. Pois numa das mais antigas tradições da humanidade, a contação de histórias de uma geração à outra, reside uma profícua trilha para o estímulo do raciocínio e da imaginação, em que a garotada é lançada para universos onde descobre palavras, associa ideias e acumula saber. A ciência, que vinha desbravando havia algum tempo os benefícios da leitura em família desde os primeiros anos de vida, deu um novo salto de conhecimento ao observar a efervescência do cérebro infantil ao ouvir o enredo de um bom livro.

Um dos mais abrangentes estudos nessa linha, conduzido por um grupo do hospital de Cincinnati, nos Estados Unidos, resolveu cutucar o problema de um ângulo que esclarece quais incentivos, afinal, mais provocam positivamente a mente da criança. O grupo entre 4 e 5 anos foi monitorado por aparelhos de ressonância magnética em três situações distintas, nas quais era apresentado a uma mesma história gravada: primeiro apenas escutava a fita, depois junto com ela assistia à animação da história na TV e, por fim, as imagens eram projetadas sem movimento nenhum, simulando um livro. Os pesquisadores queriam saber em que cenário as cinco regiões fundamentais do cérebro mais se conectavam. A resposta foi incisiva: enquanto a animação agita em demasia a mente, freando a ligação entre os neurônios, e o áudio puro e simples pouco a ativa, a imagem parada causa uma pequena revolução. “Isso ocorre porque obriga a criança a exercitar a imaginação e, assim, ela vai construindo uma forte conexão entre os neurônios, formando uma rede”, explica o neurocientista Ariovaldo da Silva Júnior, da Universidade Federal de Minas Gerais.

A leitura feita pelos pais funciona como uma alavanca potente, especialmente no começo da vida. Na fase que vai dos primeiros meses à alfabetização (quando a criança já ganha autonomia para as próprias aventuras literárias), o cérebro realiza sinapses como em nenhuma outra etapa. Por isso, costuma ser comparado a uma esponja, tamanha sua capacidade de absorver estímulos – e é aí que os livros desempenham função valiosa. “Os estudos mostram que uma criança de 2 anos com pais que lhe contam histórias pode se desenvolver até duas vezes mais rapidamente do que aquela que não tem esse hábito”, frisa o pediatra Ricardo Halpern. Além da já verificada ampliação do repertório linguístico e da habilidade de transmitir ideias, o mini leitor evolui no lado psicológico: o momento em que pais e filhos compartilham um livro tende a sedimentar os laços, ainda mais se o programa virar uma prazerosa rotina.

A Sociedade Brasileira de Pediatria passou a recomendar aos próprios médicos que receitem livros para ser devorados em família, um santo remédio para vários males. Cabe, porém, uma ponderação: que a atividade não se transforme em uma corrida maluca pela busca do ponto-final – o mais importante é o trajeto e a conversa que se desenrola a partir dele (veja o quadro abaixo). A publicitária Ludmila Abreu de Freitas, 37 anos, reserva os fins de tarde para ler para Eduardo, de 2, um pequeno tagarela. Enquanto a mãe conta a história, o menino repete palavras e gosta de tratar das emoções vividas pelos personagens. “Sinto que ele expandiu o vocabulário, pronuncia palavras difíceis corretamente e constrói frases com destreza”, orgulha-se a publicitária. São ganhos que se desdobram por toda a jornada escolar, já que formam uma base para o pensamento lógico e a compreensão de textos. Como no ciclo virtuoso do aprendizado uma coisa leva à outra, a neuropsicóloga Rochele Paz Fonseca, da PUC-RS, atenta para resultados menos previsíveis e duradouros da leitura precoce: “Além de tirar notas até 15% mais altas, as crianças que tomam contato cedo com os livros se convertem em adultos mais capazes de administrar o tempo e com melhor saúde mental”, diz.

A leitura é uma extraordinária mola para abrir as portas do saber e, no caso de crianças mais pobres, pode ser a única verdadeiramente proveitosa. “Um caminho que já se revelou bem-sucedido é treinar os pais dessa turma para ler aos filhos”, ressalta João Batista Araújo e Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, que implantou um programa dessa natureza em Roraima e aferiu um avanço significativo em testes de Q.I. Mãe de duas meninas, de 5 e 8 anos, a empresária Fernanda Pina, 37, se empenha em encontrar títulos que agradem às duas e avalia que ambas afiaram o português. “A mais velha acaba puxando a caçula”, resume. De livro em livro, vai se formando uma bem-vinda geração de leitores, sem a qual nenhum país pode almejar virar a página do desenvolvimento.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

02 DE OUTUBRO

O NOVO MANDAMENTO

Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros (João 13.34).

O mandamento de amar o próximo não era novo. Por que, então, Jesus diz que está dando um novo mandamento? É porque esse mandamento é profundamente diferente da ordem de amar o próximo como a si mesmo. Jesus mudou radicalmente a referência desse amor. Não é amar o próximo da mesma forma que amamos a nós mesmos. É amar o próximo mais do que a nós mesmos. É amar o próximo sacrificialmente. É amar como Cristo nos amou. Cristo nos amou e a si mesmo se entregou por nós. Ele nos amou e morreu por nós. O amor é a marca mais visível do cristão. Somos conhecidos pelo amor. Não é amar apenas de palavra, mas de fato e de verdade. Quem não ama nunca viu a Deus, porque Deus é amor. Quem não ama o próximo, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Aquele que ama vive na luz e passou da morte para a vida. Esse amor é a apologética final, o argumento definitivo, a prova irrefutável de que Deus habita em nós. As virtudes cristãs como a esperança e a fé não precisarão estar conosco no céu, pois lá tomaremos posse definitiva do alvo de ambas, mas o amor reinará para sempre, governando nosso relacionamento com Deus e com os irmãos por toda a eternidade.

GESTÃO E CARREIRA

HOLOCRACIA, MODOS DE USAR

Uma empresa sem chefe, nem diretores, nem gerentes; com todos os funcionários assumindo responsabilidades na gestão. Soa como uma balbúrdia? A Holocracia mostra que não

“Era uma empresa muito engraçada. Não tinha chefe, não tinha nada.” A paródia do poema musicado A Casa, de Vinicius de Moraes, é uma brincadeira, claro. Mas a holocracia é um sistema de gestão sério e o número de companhias que o adotam está aumentando. E, sim, em tal modelo de governança não há chefes nem RH. Em uma descrição sucinta, holocracia é a “ausência de centralização de poder”, define Luciana Lima, especialista em gestão de pessoas e professora do Insper. “E poder é autoridade sobre decisões.” Ainda que não seja um conceito novo – experiências de autogestão em fábricas e minas de carvão, pedras angulares da holocracia, datam do início do século 19 -, o modelo ganhou tração a partir de 2007, depois que foi “descoberto”, entre muitas aspas, e popularizado pelo empresário e consultor americano Brian Robertson.

Porém, especialistas apontam que sua fama é justamente a maior barreira para sua real implantação e entendimento. Assim como a palavra “gourmet” foi banalizada a ponto de encontrarmos pastéis de feira livre vendidos com tal classificação, toda e qualquer decisão moderna de gestão vem sendo chamada de experiência holocrática. “No Brasil, holocracia mesmo só tivemos na Geek, que já abandonou o sistema, e agora na eduK. Muitos falam que adotam, soa bonito, moderninho, pega bem com os clientes, mas são adaptações”, diz Davi Gabriel, sócio da consultoria Target Tea, e um dos pioneiros do conceito no Brasil.

Em contrapartida, João Lins, professor da FGV – Eaesp e especialista em gestão de pessoas, lembra que “modelos teóricos de gestão são muito úteis do ponto de vista didático, servem de ponto de partida, mas a realidade bagunça com tudo”. De acordo com uma pesquisa realizada por João, Edvalter Holz e Diego Avancine (seus colegas na FGV), o hibridismo na governança predomina. Publicado em 2018 depois de consultar 99 empresas, o estudo analisou como é o processo de gestão e tornada de decisões nas companhias. Conceitos mais modernos vêm sendo adotados em muitas delas, mas sem necessariamente envolver toda a organização. “É muito difícil ter uma empresa 100% fordista ou 100% holocrática. Cada uma faz o que é melhor para ela”, avalia João.

O conceito costuma ser mais aplicado em áreas de pesquisa e desenvolvimento, startups e em unidades de negócio que requeiram agilidade de ações, mas existem casos em fábricas, restaurantes, salões de beleza e hotéis. “Hoje, há demanda por participação dos funcionários na tomada de decisões. Alguns empresários até diminuem a margem de lucro para aumentar a felicidade geral dos funcionários”, diz Davi, da Target Tea. A seguir, conheça os tópicos fundamentais da holocracia e entenda como aplicá-la em sua empresa.

SEIS PONTOS PARA ENTENDER A HOLOCRACIA

1. DISTRIBUIÇÃO DO PODER

Nas empresas tradicionais, a autoridade concentra-se nos indivíduos que ocupam cargos de chefia e há uma hierarquia bem definida. Na holocracia, a autoridade está nos papéis (responsabilidades e atribuições) que os funcionários desempenham dentro da organização, e não nas próprias pessoas. Não significa que todos tenham o mesmo poder: ele é distribuído e há regras gerais que devem ser seguidas. Ainda que haja uma autonomia dos papéis, todos são interdependentes e devem funcionar em harmonia para a empresa prosperar. Existe também muita mobilidade entre os diferentes papéis dentro da companhia.

2. SAEM AS ÁREAS, ENTRAM OS CÍRCULOS

As organizações costumam se dividir em unidades de negócio, áreas, departamentos e têm organogramas piramidais, com o topo (presidência, conselho e diretoria) responsável pela gestão das demais “caixinhas” que vêm abaixo na estrutura. Uma companhia holocrática abole as compartimentações e adota sistemas e organograma de esferas concêntricas, com um grande anel externo abrigando outros círculos em seu interior. Todos os círculos (que são equipes multitarefas responsáveis por determinados objetivos) conduzem os próprios processos de governança. Em cada um deles há pessoas que desempenham papéis de elos para facilitar a comunicação e o fluxo de trabalho. Os círculos estão sempre em mutação, evoluindo, crescendo, fundindo-se ou desaparecendo. Essa característica confere flexibilidade às empresas, que podem mudar rapidamente para acompanhar alterações no mercado. É um erro comum definir holocracia como um modelo sem nenhuma hierarquia. A organização acontece assim: o círculo maior prevalece sobre os demais e a hierarquia é de objetivos e estratégias, e não de pessoas.

3. CONSTITUIÇÃO PRÓPRIA

Empresas holocráticas seguem uma carta de princípios norteadores. A Constituição oficial, da consultoria de Brian Robertson, já está na versão 4.1, tem 35 páginas e está disponível na internet. O texto dá algumas diretrizes e ajuda a começar, mas é genérico. O documento define o que são círculos e papéis, mas não indica quais devem ser adotados, pois isso depende dos contextos e das áreas de atuação de cada companhia. No Brasil, já há adaptações dessa ideia, com empresas e funcionários colocando acordos e compromissos no papel, assinando e se comprometendo com objetivos comuns. Ainda que o contrato de trabalho tradicional tenha muitas cláusulas definindo padrões de comportamento ético e profissional, ele tem pouca ou nenhuma similaridade com os acordos holocráticos. Enquanto os contratos são impositivos, feitos apenas pela empresa, os compromissos de inspiração holocrática são redigidos de forma colaborativa, com todos os envolvidos participando do processo. Assim, seu valor é mais respeitado pelas companhias e pelos profissionais.

4. AUTOGESTÃO

Essa é a base da holocracia. Nos sistemas de governança tradicionais, os chefes delegam responsabilidades para seus subordinados e o sucesso ou o fracasso de um projeto fica na conta do gerente da área.

Na holocracia, cada profissional é responsável e responsabilizado por suas decisões, e os círculos a que eles pertencem devem controlar, executar e auferir todo o trabalho. Isso quer dizer que cada papel e cada círculo são autogeridos. Há acordos definindo as atribuições dos diferentes papéis e círculos, mas eles têm autonomia para alterar sua estrutura de forma progressiva e contínua. Os acordos só têm validade se estiverem registrados na Constituição ou em outro documento interno. Ninguém responde pelo que está implícito, somente pelas diretrizes explícitas nos acordos. Isso dá uma larga margem de ação, pois os empregados não têm de convencer ninguém para tomar decisões, precisam apenas cumprir as atribuições definidas pelos papéis que ocupam, da melhor forma que encontrarem.

5. PODER NA OPERAÇÃO

A agilidade na tomada de decisões é uma das grandes vantagens desse tipo de gestão, segundo os especialistas. Isso porque o modelo possibilita que os funcionários tomem decisões – as que estão a seu alcance, conforme previamente acordado – sem consultar ninguém. Um exemplo mundialmente conhecido é o serviço de atendimento ao cliente da Zappos, varejista online americana e o caso mais bem-sucedido de holocracia. Nas empresas tradicionais, dependendo do tipo de problema (financeiro ou logístico, por exemplo), os atendentes devem seguir scripts predefinidos e transferir a ligação para o setor responsável. Na Zappos, cada atendente tem liberdade para seguir um roteiro próprio. Durante o atendimento, eles se responsabilizam por várias dimensões e, se for o caso, podem tomar decisões diferentes para um mesmo problema se isso for necessário para satisfazer os clientes.

6. QUESTÃO DE MINDSET

O mais importante para que a holocracia dê certo é o perfil das pessoas que trabalham naquela companhia – e isso não tem a ver com idade, setor de atuação ou nível educacional. Funcionários de uma empresa holocrática precisam ter disposição para aprender, vontade de se reinventar, prazer em trabalhar com autonomia e serenidade para navegar num mundo sem respostas prontas. Mas encontrar esse tipo de profissional não é fácil. Na eduK, que começou a implementar a holocracia há apenas três anos, esse ainda é um grande desafio. “Tivemos jovens cheios de energia, que vieram de startups e não deram certo. Houve também profissionais gabaritados, com experiência em grandes empresas, boa formação e que não se encaixaram”, diz Marco Barón, sócio, Jedi da cultura e mestre de remuneração da eduK. Em contrapartida, técnicos, seguranças e atendentes de telemarketing se adaptaram com facilidade, propondo melhorias em seus papéis, assumindo novas responsabilidades e dando feedbacks relevantes. A experiência da eduK mostrou que as pessoas só mudam se entenderem claramente suas funções. “A antiga cisão entre quem pensa e quem executa as tarefas não faz sentido. Ninguém sabe mais de atendimento de telemarketing do que a pessoa que está lá na ponta trabalhando diariamente com isso”, explica Marco. Assim, a holocracia empodera e dá autonomia a quem entrega resultados e tem ideias inovadoras, independentemente de seu cargo na empresa.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AVALIAÇÕES DISTINTAS

Em processos judiciais que avaliam a incapacidade de um réu mediante um transtorno, é importante ressaltar as diferenças técnicas e conclusivas que cercam a Perícia de Interdição e a Perícia Retrospectiva

A princípio, as expressões latinas ex -nunc ou ex- tunc (mais adiante traduzidas) podem soar estranhas ao leitor não familiarizado à linguagem forense. Mas elas existem e não raras vezes são utilizadas em discussões ferrenhas nos processos de interdição, a envolver peritos, promotores de Justiça, advogados e juízes.

Sucede que quando alguém pede a interdição de um paciente, por entender que é mentalmente incapaz, alega transtornos mentais, por exemplo demência senil, esquizofrenia, doença de Alzheimer etc.

Então, o perito examina o interditado e conclui que padece de mal incapacitante e, portanto, não consegue gerir a sua própria pessoa nem administrar os seus bens, necessitando assim de curador.

O juiz, baseado no laudo pericial, decreta a interdição e a partir daquela data qualquer ato que porventura o paciente venha a praticar, tal como comprar, vender, emprestar, dar quitação etc., é nulo.

Porém, aí entram o ex -nunc e o ex -tunc.

O primeiro termo quer dizer “a partir de agora”; o segundo, “a partir de então”. Em outras palavras, discute-se juridicamente se a incapacidade do interdito começa no dia da sentença exarada pelo juiz (interdição ex -nunc) ou se antes, a partir do início da doença incapacitante (interdição ex-tunc). Muitos advogados, pretendendo anular um negócio praticado antes da interdição, desejam arrancar do juiz que este reconheça a incapacidade ex -tunc(desde o início da doença), visando retroagir à época do ato que pretende cancelar.

Essa discussão é, do ponto de vista psiquiátrico-forense, simples de resolver, basta que o perito se atenha ao seu mister e mostre que pericia de interdição é totalmente diferente de perícia retrospectiva.

São técnicas completamente diversas. No caso de perícia retrospectiva para fins de anular negócio jurídico, procura-se pelo início da doença e se à época em que praticou o ato estava ou não doente. Em caso positivo, busca-se saber quanto e em que medida tinha capacidade mental para entender o que fez e se era livre para não fazê-lo se assim quisesse. O procedimento pericial consistirá em observar a assinatura aposta no documento anulando, para analisar a psicomotricidade, bem como contemplará entrevistas com pessoas que conheceram o examinando à época, as quais podem dar informações sobre o seu estado pregresso de saúde mental, além de verificar que tratamentos ele fazia, se foi internado em hospitais, se há registros clínicos e quais anotações neles contidas etc.

Já a perícia em caso de interdição é muito mais simples: quer saber do estado atual do examinando, de que doença padece e qual o prognóstico. Com apenas esses três elementos fica fácil concluir pela interdição ou não e em qual medida, se é relativa ou total.

Em outros termos, trata-se de perícias diversas, com técnicas, escopos e conclusões totalmente diferentes, embora a acurácia seja de igual valor.

O que não é possível em psiquiatria forense é usar uma no lugar da outra, vale dizer “fazer um gato” (esquema na fiação elétrica a fim de puxar eletricidade para ter internet ou TV a cabo de graça). Assim não dá.

GUIDO ARTURO PALOMBA – é psiquiatra forense e membro emérito da Academia de Medicina de São Paulo