EU ACHO …

NOVA ONDA: MENOS ALARMISMO

E os confinamentos são recebidos com oposição maior

“Eu não trivializo o vírus nem o dramatizo”. Com essas simples palavras, o epidemiologista alemão Hendrik Streeck, da Universidade de Bonn, sintetizou o que pode ser considerada a reação mais equilibrada à pandemia entre todos os países desenvolvidos. A Alemanha não seguiu nem a estratégia relativamente relaxada da Suécia, que está sendo recompensada agora por um nível mais baixo de contágios, mas deixou um número alto de mortes, nem os confinamentos muito estritos, que funcionaram para evitar o colapso dos sistemas de saúde e, diante do ressurgimento das infecções, voltam a ser acionados.

A equanimidade da Alemanha é invejável e, a essa altura, irreproduzível. Ao contrário do que aconteceu quando o vírus explodiu na Europa e, diante da dramaticidade de uma doença desconhecida, provocou um alto grau de conformidade com as medidas de restrição da livre movimentação, os ânimos nessa segunda onda estão exaltados e divididos. Não é impossível falar num espírito de revolta anticonfinamento. Em países como Israel e Espanha, já total ou parcialmente trancafiados de novo, predomina o modelo clássico de protestos de esquerda contra governos de direita (no caso da Espanha, a nível estadual).

O caso mais interessante é o da Inglaterra, onde a revolta é de direita contra direita. O governo de Boris Johnson, um conservador que pretendia modernizar a ideologia e o partido, está deixando eleitores e influencers políticos simplesmente enlouquecidos. Os revoltados acham que está tudo errado e que reativar medidas como o trabalho remoto, além da imposição de um toque de recolher às10 da noite para bares e restaurantes, vai quebrar as pernas de uma economia já cambaleante, sem conseguir controlar os contágios.

O racha agora está abertamente declarado também entre cientistas, acadêmicos e pesquisadores, inclusive das grandes universidades. Dois conhecidos especialistas de Oxford lideraram um abaixo-assinado, endossado por um total de 32 nomes, argumentando que 89% das mortes pelo novo coronavírus ocorrem na faixa acima de 65 anos e 95%nos já portadores de doenças preexistentes, indicando que “o dano causado por políticas uniformes suplanta os benefícios”. Como é inevitável nos tempos atuais, seguiu-se um abaixo-assinado contrário, vindo dos mesmos ambientes de excelência do primeiro. A ideia de uma “Ciência” superpoderosa, reinando suprema entre seus conformes cultivadores, que já estava superada, agora rodou de vez. Vários dos signatários do primeiro abaixo-assinado são cardiologistas e oncologistas preocupados com os pacientes que deixaram de ser atendidos e tratados enquanto toda a infraestrutura de saúde se concentrava nos casos de Covid-19. Cálculos mais pessimistas falam até em 60.000 mortes precoces por câncer nos próximos anos como consequência.

E o que o professor alemão acha de tudo isso? “Chega de alarmismo”, diz Streeck. “A Covid-19 estará entre nós por um bom tempo e temos de aprender a viver com ela. Não podemos continuar a confinar nossas vidas e parar tudo”. Tem gente querendo importar o alemão.

*** VILMA GRYZINSKI

OUTROS OLHARES

A GUERRA DAS VACINAS

Entre acusações de espionagem e pressões políticas e econômicas, a solidariedade fica em segundo plano

No começo, parecia o resultado de uma equipe de revezamento muito bem treinada. Em 11 de janeiro, apenas dez dias depois de relatar uma nova doença respiratória, os chineses publicaram a sequência do genoma do vírus. Pesquisadores de todo o mundo começaram a trabalhar na elaboração de vacinas contra a Covid-19, como a doença ficou conhecida, e a primeira candidata entrou em testes com humanos em 16 de março. Com o passar dos meses, dezenas de outras a seguiram. Os cientistas estavam exultantes, com razão. Eles tinham quebrado todos os recordes de vacinologia para chegar a esse ponto. Mas então começaram a surgir tensões entre os integrantes das equipes e, ultimamente, até um espectador distraído terá notado que eles parecem querer derrubar uns aos outros na corrida. Com acusações de que russos e chineses hackearam grupos de pesquisa de outros países, executivos de biotecnologia criticados por lucrar por conta própria com vacinas ainda não aprovadas, e a Rússia aprovando uma que ainda está em testes clínicos, a busca por um imunizante parece ter azedado. Há uma crescente pressão política para que os cientistas forneçam um resultado que salve a economia, e diariamente se ouve falar em tentativas de cortar etapas. Dois dias antes do início da convenção nacional do Partido Republicano, o presidente Donald Trump acusou a FDA de adiar a aprovação de qualquer vacina experimental para depois das eleições presidenciais em novembro. Quando a FDA mais tarde autorizou o “uso emergencial” de tratamentos com plasma sanguíneo para doentes de Covid-19 antes que eles tivessem provado qualquer benefício claro nos ensaios clínicos, aumentaram os temores deque se fizesse o mesmo com uma vacina candidata antes que ela tivesse passado por todas as fases de testes, apenas para servir à agenda presidencial.

E os norte-americanos são demorados no que se refere a cortar etapas. Antes que a Rússia aprovasse sua vacina, a China aprovou uma fabricada no país, mas não completamente testada, para uso em militares – e no fim de agosto anunciou que vinha administrando uma vacina não aprovada a funcionários importantes desde julho. Não só os políticos têm pressa. Em 2 de agosto, Steven Salzberg, biólogo computacional da Universidade Johns Hopkins em Baltimore, Maryland, sugeriu na revista Forbes que uma vacina promissora fosse testada em um grupo maior de voluntários antes que os testes clínicos fossem concluídos, provocando protestos (e alguma aprovação) que o levaram a se retratar no dia seguinte. Enquanto isso, um grupo de pesquisadores ligados à Universidade Harvard continua a defender sua publicação em julho, da receita de uma vacina caseira contra aCovid-19 – que apenas os 20 integrantes do grupo haviam testado anteriormente. “Lá fora, no mundo real, milhões estão ficando doentes e um grande número morre todos os dias”, disse Preston Estep, um cientista genômico.” Não acreditamos que nossa vacina seja tão arriscada.”

O acúmulo desses incidentes deixou muitos cientistas profundamente inquietos. “Estou cada vez mais preocupada que as coisas estejam sendo feitas apressadamente”, afirmou Beate Kampmann, diretora do Centro de Vacinas da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres (cuja conta de e-mail profissional sofreu um ataque malsucedido em julho). Em 13 de agosto, o editor-chefe da revista Science fez um chamado à ordem. “Atalhos nos testes de segurança e eficácia da vacina colocam em risco milhões de vidas a curto prazo e prejudicam a confiança do público nas vacinas e na ciência por muito tempo”, escreveu H. Holden Thorp. Os riscos são maiores, acrescentou, do que com outras terapias não comprovadas, entre elas a hidroxicloroquina, porque a vacina é aplicada em seres humanos saudáveis. “A aprovação de uma vacina que é prejudicial ou ineficaz pode ser alavancada por forças políticas que propagam o medo da vacina”, alertou. Mesmo que a maioria dos grupos de pesquisa não esteja se apressando, disse Paul Offit, chefe do Centro de Educação de Vacinas do Hospital Infantil da Filadélfia, a linguagem usada para descrever a busca por um imunizante pode sugerir o contrário: o governo dos Estados Unidos chamou seu programa de financiamento de vacinas de Operação “Warp Speed” (velocidade maior que a da luz), a Rússia evocou a corrida espacial na Guerra Fria com sua vacina “Sputnik V”, e até mesmo a expressão “corrida da vacina”. “Faz parecer que os cronogramas estão sendo suprimidos ou os problemas de segurança, ignorados”, alertou. Fazer as coisas de acordo com o manual, quando se trata de testar uma vacina – ou qualquer intervenção médica -, significa submetê-la a um ensaio clínico ou humano. Este, convencionalmente, compreende três fases. Na primeira, um pequeno grupo saudável recebe a vacina para ver se é segura – isto é, se não causa efeitos colaterais graves. A fase 2 continua a testar a segurança, mas principalmente a capacidade da vacina de induzir uma resposta imunológica. Isso ocorre em algumas centenas de voluntários, alguns dos quais atuam como controles porque receberam placebo ou uma vacina diferente. Na terceira fase, que também inclui controles, a vacina é normalmente administrada a dezenas de milhares de pessoas que são acompanhadas durante muitos meses, geralmente em um local onde o risco de infecção é alto. Isso testa se a vacina funciona no mundo real – se previne doenças – e tenta eliminar os efeitos colaterais que podem não ter ficado claros em grupos menores e menos diversos. Se uma vacina experimental for considerada segura e eficaz ao final desse processo, ela poderá ser aprovada. Mas se reconhece universalmente que os ensaios clínicos não conseguem captar todos os efeitos colaterais possíveis, pois alguns podem surgir apenas em certas subpopulações, ou depois de muito tempo, então a vigilância continua após a aprovação (isso, às vezes, é chamado de fase 4 do teste). Uma vacina contra o rotavírus, uma causa comum de diarreia em bebês, foi retirada do mercado em 1999, depois que se descobriu que causava obstrução intestinal em uma pequena porcentagem de bebês – o que, devido à sua raridade, os ensaios não tinham notado.

*** LAURA SPINNEY

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

01 DE OUTUBRO

CUIDADO COM AS DÍVIDAS

A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros… (Romanos 13.8a).

Milhões de pessoas não conseguem conciliar o sono por causa das dívidas. Gastam mais que ganham e assumem compromissos que não podem cumprir. Um ditado popular diz: “Não coloque o chapéu onde sua mão não alcança”. Não é sensato firmar obrigações que não podemos honrar. Não é sábio entrar em dívidas sem planejamento. Muitas famílias vivem perturbadas por causa das dívidas. Gastam mais do que ganham, compram mais do que podem e mantêm um estilo de vida acima de suas posses. Algumas pessoas não sabem administrar seus recursos financeiros nem se controlar quando estão diante dos apelos sedutores do comércio. Muitos indivíduos acabam enterrando suas finanças em juros altos, porque compram aquilo de que não precisam, com o dinheiro que não têm, para impressionar pessoas que não conhecem. Precisamos colocar em prática uma ética de como ganhar o dinheiro e como investi-lo. Não podemos gastar mais que ganhamos nem tudo o que ganhamos. Precisamos fazer uma poupança de pelo menos 10% do que ganhamos. Não podemos comprar tudo o que temos vontade. Há uma grande diferença entre vontade e necessidade. Não é sábio comprar a prazo pagando juros altos. Não é sensato pegar emprestado, seja do banco ou de particulares, para comprar o que é supérfluo. Quem se enrola em dívidas acaba perdendo seus bens, seu nome e sua paz. A Bíblia diz que não devemos ficar devendo nada a ninguém, exceto o amor.

GESTÃO E CARREIRA

O NEGÓCIO DA NOSTALGIA

Para conquistar os adultos com saudade da infância e da adolescência, o mercado resgata itens que fizeram sucesso em décadas passadas. Saiba quais oportunidades podem surgir com esse movimento

“Klift-kloft-still, a porta se abriu!” Foi com a famosa frase que o boneco porteiro do Castelo Rá-Tim­Bum recepcionou os mais de 460.000 visitantes que passaram pela exposição do programa no Museu da Imagem e do Som (MIS), em 2014) em São Paulo. A mostra sobre a série infantil que narrava as aventuras de Pedro (Luciano Amaral), Biba (Cinthya Rachel) e Zequinha (Fredy Allan) junto com o garoto de mais de 300 anos) Nino (Cássio Scapin), foi um fenômeno e fez milhares de pessoas passar horas em filas que dobravam quarteirões. Por causa do alto volume de público, o MIS foi obrigado a ampliar os horários de atendimento e a disponibilizar a compra antecipada de ingressos online. O êxito da exposição foi tanto que, apenas três anos depois, ela foi reexibida no Museu da América Latina, também em São Paulo, recebendo outras 860.000 pessoas. Os números expressivos da mostra sobre o Castelo Rá-Tim-Bum são exemplos de uma tendência que invadiu diversos segmentos: o resgate ou o relançamento de produtos que foram sucesso em décadas passadas. Em 2019, clássicos como MIB: Homens de Preto, O Rei Leão e O Exterminador do Futuro ocuparam as telas dos cinemas e nos levaram de volta para os anos 80 e 90. Artistas como Sandy e Júnior, Backstreet Boys e Spice Girls retornaram aos palcos e arrebataram multidões. E programas como She-Ra e Perdidos no Espaço estrearam, vejam só, nas plataformas de streaming. O movimento de reviver o passado, entretanto, não é uma ferramenta nova do mercado, mas tem relação coma geração que hoje é economicamente ativa – os chamados millennials (nascidos entre 1982 e meados de 1990). “E assim que a indústria de marketing determina o que deve voltar ou não, de acordo com as mudanças de gerações”, afirma Helder Haddad, professor de publicidade e propaganda na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Segundo Juliana Breschigliari, psicoterapeuta e mestre em desenvolvimento humano pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, ter sensibilidade para entender o que vai tocar (ou não) os adultos de hoje é a chave para os negócios baseados em nostalgia. “É preciso saber explorar os pontos que levam as pessoas a querer retomar as lembranças do que viveram há 20, 30 anos”, afirma.

MEMÓRIA AFETIVA

A produtora Caselúdico, responsável pelas cenografias da exposição Castelo Rá-Tim -Bum, soube aproveitar esse movimento. Criada em 2009 pelos sócios Bruno Ogura, Eduardo Tranquilini, Marcelo Jackow e Claudio Guimarães, durante cinco anos a empresa se especializou em ambientar eventos corporativos, como lançamentos de produtos, estandes de vendas e feiras. Contudo, o foco do negócio mudou em 2014, quando foram contratados pelo MIS para produzir a mostra do cantor David Bowie, morto em 2016, que teve seu auge nos anos 70 e 80. “Já éramos conhecidos pela cenografia de outros projetos grandes, mas todos voltados para a área empresarial, não cultural”, afirma Marcelo.

A exposição de Bowie durou 71 dias e recebeu cerca de 80.000 pessoas – o que fez a empresa ganhar destaque no segmento. Meses depois, quando a Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura e dona dos direitos autorais do Castelo Rá-Tim -Bum, abriu edital para a concessão da exposição sobre o programa, a Caselúdico conquistou o projeto. Para montar os dez ambientes, reproduzidos em detalhes, a companhia levou cerca de oito meses e Marcelo assistiu a todos os 90 episódios da série. “É na nostalgia que conseguimos acertar em cheio as pessoas, já que elas se lembram dos temas com emoção. Para isso, entretanto, é preciso muito estudo de acervo e do público para reproduzir experiências fiéis”, diz Marcelo. Com o sucesso, a produtora dominou o mercado de mostras sobre temas que mexem com a memória afetiva do público. Além de Castelo Rá-Ti m-Bum, a Caselúdico produziu as exposições Quadrinhos (2019), que recebeu 120.000 pessoas, Mickey 90 Anos (2019), por onde passaram 110.000 visitantes, e O Mundo de Tim Burton, (2016), com público de 260.000 pessoas. Atualmente, está em exibição com Batman 80, no Memorial da América Latina, que até dezembro já havia contado com aproximadamente 90.000 visitantes. Embora a produtora não tenha deixado de lado o ramo corporativo, Marcelo admite que agora o foco são as exposições, que correspondem a mais de 55% do faturamento anual da empresa. “A nostalgia é o que tem feito nosso sucesso. Por isso tratamos cada tema com carinho”, diz Marcelo. Outro profissional que pegou carona no revival do programa da TV Cultura foi o jornalista Bruno Capelas, de 27 anos. Cinco anos depois de realizar seu trabalho de conclusão de curso sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, em 2014, Bruno conseguiu publicar um livro sobre o assunto. Batizada de Raios e Trovões: a História do Fenômeno Castelo Rá-Tim-Bum (Summus, 79,80 reais), a obra chegou às livrarias em dezembro de 2019 com tiragem de 3.000 exemplares. E uma nova tiragem estava prevista para janeiro de 2020. “Senti que precisava compartilhar meu trabalho com todos os fãs que, assim como eu, estavam envolvidos pelas lembranças do programa”, afirma.

SAUDADES DO QUE NÃO VIVI

Mas nem sempre a nostalgia foi encarada com um sorriso nos lábios. Quando surgiu, o termo tinha uma conotação pesada. Quem o criou, em 1688, foi o médico suíço Johannes Hoffer. Ele estudava os sintomas psicológicos dos soldados de guerra e empregou a palavra “nostalgia” para descrever a saudade que os militares sentiam de casa e suas possíveis consequências para a saúde mental. No limite, o vocábulo era usado para designar desordens psíquicas, e desse modo permaneceu através dos séculos. Porém, desde o início dos anos 2000, uma série de estudos do professor de psicologia Constantine Sedikides, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, mostrou que, na verdade, a nostalgia se trata de um sentimento universal, experimentado desde a infância, e que nos ajuda a neutralizar emoções negativas. Na prática, isso quer dizer que, quando rememoramos momentos felizes do passado, nos sentimos mais preparados para lidar com as adversidades do presente e do futuro.

Em tempos de excesso de informações e de transformações aceleradas por causa da tecnologia, o sentimento de segurança que a nostalgia traz nunca foi tão útil – e com potencial para ser explorado por publicitários e empreendedores. Esse movimento, inclusive, foi batizado pelo guru do marketing e inovação Rohit Bhargava como “RetroTrust”. O especialista, que desde 2014 publica, como ele mesmo diz, “tendências não óbvias nos negócios”, incluiu o conceito em sua lista de projeções para 2019. “Quando olhamos para consumidores adotando videogames e brinquedos retrô, relançando programas de entretenimento antigos ou produtos artesanais, fica claro que estamos gravitando em direção a produtos com uma história ou com os quais tivemos um envolvimento. O passado que conhecemos é seguro. A RetroTrust está crescendo porque confiar em produtos que reconhecemos ou com os quais temos experiência anterior nos ajuda a tomar decisões sobre em que prestar atenção ou o que comprar”, escreveu Rohit no livro Non-Obvious 2019 (sem edição em português).

A necessidade de resgatar itens que foram lançados mesmo antes de nascermos também tem a ver com a vontade do ser humano em se conectar com a história. “Assim como queremos deixar nossa marca no mundo, também gostaríamos de resgatar o que foi vivido em outra época”, afirma Juliana, da USP.

Isso pode explicar, por exemplo, por que produtos como máquinas de escrever e discos de vinil estão em alta mesmo entre os jovens. No caso dos vinis, esse resgate foi responsável, inclusive, por reaquecer uma indústria praticamente extinta.

Criado há mais de 60 anos, o auge dos discos foi entre os anos 70 e 80 e durou até o surgimento do CD, em 1990, quando as vendas de LPs caíram vertiginosamente. Entretanto, com a onda retrô, a busca pelos bolachões voltou a crescer. De acordo com a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, no mundo os vinis têm apresentado crescimento de 6% ao ano desde 2006. Em 2018, esses produtos já correspondiam a 3,6% do mercado fonográfico mundial, representando cerca de 687,6 milhões de dólares vendidos.

O potencial de negócio nesse túnel do tempo foi percebido pelos sócios Márcio Sartorello e Carlos Rodrigues, da Casa Elefante, mistura de café e loja no centro de São Paulo. “Os fãs do vinil sempre foram muito fiéis, com colecionadores que possuíam conhecimento profundo sobre os itens. Entretanto, o que mudou foi o interesse crescente do público mais jovem”, afirma Márcio. Mas, para atrair esse novo público, só os vinis não bastavam. Por isso, em 2015 os sócios investiram 70.000 reais para criar um local que unisse café, discos e brechó. “Nos demos conta de que precisávamos diversificar para alcançar os dois públicos. Agora as pessoas nos buscam pelo ambiente retrô, pelos produtos e pela troca de conhecimento que permite descobrir coisas novas”, diz Márcio. Hoje, a Casa Elefante fatura aproximadamente 120.000 reais por ano por meio do brechó, do aluguel do espaço para saraus, além de vender aproximadamente 180 itens por mês.

O VELHO E O NOVO

Outra empresa que está apostando em tendências do passado para continuar relevante é a fabricante de brinquedos Estrela. A companhia, criada em 1937, tem no portfólio atual mais de 30 itens que foram lançados originalmente antes dos anos 2000 – e que fizeram parte da infância de muitos adultos que estão hoje na casa dos 30 e 40 anos.

E esse pessoal adora um revival. “Recebemos mais de 1.000 ligações por mês em nosso serviço de atendimento ao cliente e cerca de 15% são referentes a sugestões de relançamentos de brinquedos”, afirma Aires José Leal Fernandes, diretor de marketing da marca. Por isso, clássicos como Pogobol (1987), Ferrorama (1979) e os bonecos Topo Gigio (1960) e Falcon (1977) voltaram às prateleiras das lojas, para felicidade dos saudosos.

De acordo com Aires, de cinco anos para cá a procura pelos brinquedos antigos tem aumentado. Para ele, isso se deve ao fato de que a geração que era criança no auge do sucesso dos produtos (e cuja, família nem sempre podia dar os brinquedos de presente) agora tem poder aquisitivo para comprá-los. A teoria é compartilhada por Juliana, da USP. “Quando crianças, não temos controle financeiro do que consumimos, e os pais podem se recusar a comprar o que queremos. Quando crescemos, é o momento de realizar esses sonhos de infância”, afirma a psicoterapeuta.

Atualmente, o relançamento de brinquedos representa de 15% a 20% do faturamento da Estrela, que foi de 174,4 milhões de reais em 2018. E, para que os objetos não fiquem restritos aos adultos e mantenham um apelo com as crianças de hoje, a fabricante tem incrementado as versões originais – principalmente quando se trata dos jogos de tabuleiro.

Por isso, agora o Banco Imobiliário tem cartão de crédito, o Detetive tem um aplicativo que envia pistas ao celular dos jogadores e o Pula Pirata ganhou óculos de realidade aumentada. “As novas edições trabalham na convergência entre o digital e o físico para alcançar a geração atual, que vive no mundo tecnológico. Porém, o sucesso vem do aval dos pais que conheceram o tradicional”, diz Aires. No fim, não se trata de uma disputa para definir se uma época é superior a outra, mas de uma tentativa de entender como as memórias constroem o que somos hoje ou seremos amanhã. E, se essa busca render negócios lucrativos, tanto melhor para as empresas e para quem quer atuar nesse segmento.

DIRETO DO TÚNEL DO TEMPO

Os produtos de décadas passadas que foram relançados nos últimos anos

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESPERAR É UM APRENDIZADO

Os modelos familiares são de grande e decisiva importância em todo desenvolvimento infantil e tal influência é ainda mais notável durante os dez primeiros anos de vida

Ainda existem, infelizmente, pessoas que pensam que crianças não percebem as coisas que acontecem a sua volta, não ouvem os comentários dos adultos nem aprendem a partir dos modelos de comportamentos de seus pais. Todo ser humano, pleno em suas capacidades, está apto a iniciar uma forma de comunicação com o ambiente, mostrando por meio do choro seu desconforto, suas necessidades primordiais, e aprende que há como suprir uma falta a partir dessa comunicação, e assim vai estruturando seu comportamento.

A partir do nascimento, o bebê observa o meio que o cerca e começa estabelecendo contato através principalmente da mãe. Inicia essa relação quando percebe que obtém a satisfação de suas necessidades ao ser atendido prontamente a partir do choro: com ele vêma atenção, o colo, o carinho, a higiene, o alimento e o conforto.

Aprende, após sentir suas necessidades ou desejos serem satisfeitos, a como resolver novamente, no futuro, seus problemas. Se for atendido sempre muito rapidamente, vai perceber que é assim que as coisas acontecem com ele e não conseguir esperar numa próxima ocasião. Se por vezes a mãe demorar um pouquinho mais do que em outras situações anteriores, aprenderá que pode esperar. Se raramente for atendido, ficará confuso, se sentirá abandonado e poderá até adoecer.

Se um pequeno lapso de tempo transcorre entre o reclamar e ser acolhida, a criança vai percebendo o que é esperar, sente a necessidade, mas, por vivencias anteriores, confia que será atendida, embora tenha que aguardar um tempo. Isso não é fácil, é um aprendizado primordial e muitas vezes, por não querer que o filho chore, os pais não o ensinam desde cedo, e de modo natural, a esperar.

Se ao longo do crescimento a criança é sempre atendida muito prontamente e sem que haja urgência, se não há um tempo mínimo de espera para seus desejos serem realizados, ou se o são antes mesmo que ela os perceba, acaba por não desenvolver a tolerância e, pior, a não sentir falta de nada; portanto, sempre satisfeita, não consegue distinguir seus desejos, necessidades e não  aprende como deveria. Torna-se assim eternamente insatisfeita e esse comportamento se dissemina em todas as áreas de sua vida.

Vivemos em uma sociedade muito diversa daquela da geração dos pais e avós dos pré-escolares de hoje: a profusão de possibilidades, de ofertas de produtos, coisas às vezes extremamente sedutoras aos olhos infantis que chegam por todas as vias: além da televisão, por meio da internet, da propaganda de rua, do shopping, dos amiguinhos que usam, que possuem. Realmente há um mar de apelos!

Aí entra o adulto que hoje se sente duplamente constrangido frente a esses pedidos. De um lado sabe que deve educar, dar limites, mas de outro está fragilizado perante uma posição múltipla de dúvidas: ou porque crê que fica pouco tempo com seu filho e acha que satisfazer suas vontades pode fazê-lo menos frustrado ou porque crer que seu filho ao possuir muitas coisas se eleva a uma condição social melhor do que a sua e assim tem mais chances de ascender a futuras posições de sucesso. Tais adultos agem como se marca de ténis, de camiseta, os brinquedos mais atuais ofertados em profusão agissem como um cordão de ligação entre a realidade familiar e um mundo muito mais promissor e feliz.

Pesquisas recentes realizadas pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas mostraram que cerca de 64% das mães não resiste a satisfazer a vontade dos filhos, fazendo compras desnecessárias e corre o risco de comprometer o orçamento doméstico. Além disso, 46% não impõem regras para presenteá-los.

Serão essas crianças mais felizes ou esses lares mais harmoniosos! Não é o que vemos acontecer. Até pelo contrário, ao receber um presente após o outro a criança não aprende a usufruir do prazer de explorar algo desejado nem aproveitar tudo o que o brinquedo pode lhe dar. Insatisfeita, logo passa a querer outro, mais outro e, passada a alegria do desembrulhar do pacote, o descontentamento, a frustração, a falta de motivação para conquistar coisas por si mesma voltam.

E há consequências de toda ordem: esse modo de agir acaba contaminando toda a escolaridade, em que, não havendo tanto prazer, a criança se desmotiva e deixa de aprender como sua capacidade cognitiva permitiria.

Disso se tira mais uma conclusão importante para a atualidade: não se cria dessa forma um consumidor consciente. E aí o modelo familiar influi muito, assim como a maneira como a criança foi criada desde o berço. Impulsividade nas compras, compulsividade mostram ser falhas educativas muito sérias ao longo da vida.

O ato de comprar requer aprendizado que passa pela maneira como a criança é presenteada. Por mais que os pais queiram ou possam dispor de recursos para adquirir lindos e numerosos presentes, é preciso repensar o que as compras frequentes, algumas absolutamente dispensáveis, ensinam aos pequeninos.

Provavelmente é assim que muitas crianças se tornam compradores compulsivos, eternamente insatisfeitos, adolescentes sem limites, sem noção de preço e principalmente de valores.

MARIA IRENE MALUF – é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/2007). É editorada revista Psicopedagogia, da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais. Coordena curso de especialização em Neuroaprendizagem.

irenemaluf@uol.com.br