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É OU NÃO É?

Níveis de testosterona são usados de forma preconceituosa para banir as atletas. A campanha ”Let Her Run” quer mudar as coisas

A atleta sul-africana Caster Semenya tem dois ouros olímpicos, três mundiais, o quarto melhor tempo da história na provados 800 metros e, desde 8 de setembro, a obrigação de se medicar caso queira defender seu título nas Olimpíadas de Tóquio, reagendadas para 2021. Com altos níveis de testosterona no sangue, condição natural em algumas mulheres chamada de hiperandrogenismo, a imposição das autoridades esportivas a Semenya reacendeu um antigo debate nos esportes que envolve preconceito, estereótipos, intolerância e um vergonhoso histórico de testes abusivos feitos em atletas do sexo feminino. A pergunta que move a discussão, ainda longe de acabar após a decisão do Tribunal Arbitral do Esporte (CAS, na sigla em inglês, baseado na Suíça), pode ser resumida em uma frase: o que significa ser mulher no esporte?

Semenya é negra, musculosa, tem voz grossa e é abertamente homossexual, características que a afastam do estereótipo de feminilidade normalmente imposto. Começou a ser observada pela Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês) ainda no início da carreira, quando levantou suspeitas sobre seu sexo depois de colher ótimos resultados num período curto e conquistar o primeiro lugar no campeonato mundial de atletismo de 2009. Com diferentes acusações de que Semenya não seria mulher, a IAAF a submeteu a um teste de verificação de sexo disfarçado de antidoping e chegou a barrá-la de competições até o ano seguinte – um acordo da associação internacional com a federação sul-africana de atletismo permitiu seu retorno.

Em diferentes formatos por décadas, testes para verificar o sexo de mulheres que “geravam suspeitas” são antigos no esporte e chegaram ao absurdo de, na década de 1960, terem o aspecto humilhante das chamadas nude parades. De frente para médicos homens, elas eram obrigadas a tirara roupa e mostrar suas genitálias, procedimento que evoluiu para práticas diferentes com os anos: agora são sorteadas para passar por testes que não envolviam nudez, mas exames parecidos com os de antidoping.

Em 2011, a IAFF decidiu acabar com o teste de verificação de sexo e instituiu um novo exame específico para mulheres com o cromossomo XY – combinação padrão para homens e verificado em atletas com uma condição intersexual, o que, supõe-se, seria a situação de Semenya. Chamada “46XYDSD”, ela provoca o crescimento de testículos internos no lugar de ovários, o que resulta na produção de testosterona acima da quantidade considerada “normal” pela IAAF entre as mulheres, ou 5nmol/L. O novo procedimento teria por base identificar a concentração no sangue a partir da dedução de que o hormônio dá vantagens desleais às hiperandrogênicas, especificamente nas provas entre 400 e 1,5 mil metros. Nos casos em que a concentração for maior que o limite, a organização estipula o uso de medicamentos para diminuir a produção natural da testosterona.

Com as idas e vindas do caso, incluída a concordância de Semenya em diminuir sua concentração de testosterona no passado, além de uma suspensão dos testes em 2015 após a suspeita de que o hormônio não era tão definidor nos resultados, a IAAF voltou a aplicá-los a partir de 2018. Nesse meio-tempo, a atleta sul-africana levou o ouro na prova dos 800 metros nas olimpíadas de Londres, em 2012, e do Rio, em 2016 – nesta última sob desconfiança declarada das colegas de prova.

A renovação na obrigatoriedade do exame dois anos atrás, depois de um estudo detalhado que mediu a influência do hormônio nas provas, foi contestada pela atleta em apelações. Após a última contestação, negada pelo CAS, ela publicou em suas redes sociais: “Recuso-me a permitir que a IAAF me drogue ou me impeça de ser quem eu sou. Excluir atletas do sexo feminino ou pôr nossa saúde em risco apenas por causa de nossas habilidades naturais coloca o atletismo mundial no lado errado da história”. Semenya não é a única prejudicada pela decisão. Francine Niyosaba (Burundi), Margaret Wambui (Quênia), Dutee Chand e Santi Soundarajan (ambas da Índia) enfrentam a mesma imposição.

“Alguém vai pedir para um atleta de basquete parar de jogar porque ele é alto além da conta?”, pergunta Guilherme Artioli, professor na Escola de Educação Física e Esportes da USP. “Chamamos isso de seleção natural do esporte e é normal que vantagens estruturais específicas aconteçam, ainda que isso torne um determinado biótipo mais predominante naquela prova.” O argumento contrário normalmente usado pelos defensores das exigências da IAAF é de que o nível de testosterona é capaz de oferecer vantagens maiores nas provas de atletismo do que diferenças corporais em outros esportes. Mas pedir para as atletas reduzirem artificialmente seus níveis de testosterona, afirma Artioli, contraria o discurso antidoping, que prega a não alteração dos níveis hormonais. “Isso não é condizente com o que ouvimos das organizações e impedi-la de correr por esses termos é cruel.”

O mesmo posicionamento tem o jornalista e especialista em Olimpíadas Guilherme Costa, que aponta o preconceito na postura da organização. Defensores das atletas prejudicadas costumam afirmar que a questão seria tratada diferentemente caso elas fossem europeias, viessem de países mais tradicionais no esporte e competissem em provas com maior destaque, além de pertencerem a um padrão de feminilidade esperado. Há ainda a comparação com homens, que não têm nenhuma limitação imposta nos níveis naturais de testosterona. “O caso de Semenya não chama tanta atenção porque ela é negra e africana, e provavelmente teríamos mais manifestações a seu favor se não fosse o preconceito”, avalia Costa.

Até o momento, o Comitê Olímpico Internacional não se pronunciou sobre o assunto. Sintomático, diz o jornalista. “Não se posicionar, nesses casos, é se posicionar a favor do que está sendo feito.” Desde o início da controvérsia, há mais de uma década, diversas personalidades saíram em defesa das atletas prejudicadas pela decisão da IAAF. O caso de Semenya estimulou a campanha “Let Her Run”, apoiada por atletas do mundo inteiro. Apesar da decisão do início do mês, Semenya continua a treinar e a tentar reverter por vias legais a imposição de tomar os remédios. Conta com o apoio do governo sul-africano. “Vou continuar a lutar pelos direitos humanos de atletas mulheres, tanto dentro quanto fora da pista, até que nós todas possamos correr livres e do jeito, que nascemos”, escreveu no Twitter. É um direito básico.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.