A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ENTRE MENINOS E MENINAS

Psicóloga americana estuda os primeiros indícios do pensamento em bebês. No início da vida, papel dos hormônios é maior que o da cultura

Se tivesse sido cego a vida inteira e de repente passasse a enxergar, será que você distinguiria pela visão o que já conhecia pelo toque – por exemplo, diferenciaria um cubo de uma esfera? As flores pareceriam com as flores tocadas e os rostos com os rostos, ou tudo seria uma grande confusão? De que forma começaria a dar sentido aos vários objetos apresentados imediatamente à sua vista? Se nascemos sem saber nada, como passamos a saber alguma coisa?

A psicóloga Elizabeth Spelke, professora da Universidade Harvard, leva essas questões àqueles que talvez sejam os mais habilitados para respondê-las: os bebês. No amplo laboratório do William James Hall, Spelke e seus colaboradores têm lidado com alguns dos mistérios mais insondáveis do conhecimento humano pesquisando seres que ainda não conseguem falar, andar ou mesmo engatinhar. Ela tem o que chama de “apetite insaciável” para estudá-los. Seus colegas de laboratório procuram voluntários por meio de páginas na internet, folhetos e cartas enviadas a berçários e consultórios de pediatria. Eles observam como os bebês sentam no colo de suas mães, procurando pelos sinais que permitem aferir suas primeiras compreensões de números, linguagem, percepção de objetos, espaço e movimento.

As descobertas de Spelke ajudaram a rever drasticamente nossos conceitos sobre a percepção humana nos primeiros dias, semanas e meses de vida. A pesquisadora forneceu algumas das evidências mais substanciais até hoje a respeito de questões como Natureza versus cultura e características inatas versus adquiridas. Suas constatações sobre aquilo de que um bebê é capaz se tornaram centrais para desvendar a cognição humana.

A partir de suas conclusões, a psicóloga construiu uma teoria audaciosa – se não polêmica – do core knowledge ou “conhecimento de base”, segundo a qual todos os humanos nascem com habilidades cognitivas que lhes permitem entender o mundo. Esse conhecimento básico, diz ela, fundamenta tudo que aprendemos ao longo da vida e tanto nos unifica como nos distingue enquanto espécie. A teoria levou a Associação Americana de Psicologia a laureá-la com o William James Fellow Award no ano 2000. E seu trabalho mostra que, apesar das diferenças entre as pessoas, todos temos mais em comum do que em geral reconhecemos.

CLAREZA, NÃO CONFUSÃO

O cerne da metodologia de Spelke é a observação do “olhar preferencial” – a tendência de bebês e crianças a examinar mais demoradamente aquilo que é novo, surpreendente ou diferente. Mostre repetidas vezes a um bebê um coelhinho de brinquedo e ele vai olhá-lo por um período cada vez mais curto. Mas experimente colocar quatro orelhas no coelhinho ao mostrá-lo, digamos, pela décima vez. Se o bebê detiver o olhar por mais tempo, você saberá que ele diferencia quatro de dois. A abordagem consegue contornar as incapacidades do bebê em falar ou em articular movimentos e tira o máximo da única coisa que ele controla bem: o tempo em que fixa os olhos em um objeto.

Spelke não inventou o método de estudo do olhar preferencial. O crédito é de Robert L. Fantz, psicólogo da Universidade Western Reserve, que na década de 50 e no começo da de 60 descobriu que chimpanzés e bebês olham por mais tempo para objetos inesperados. Um pesquisador conseguiria avaliar a capacidade de discernimento e percepção de um bebê ao lhe mostrar uma sequência de eventos diferentes e controlados, observando quais mudanças seriam percebidas como novidade.

Usando essa técnica básica, Fantz e outros descobriram que o mundo dos bebês não era, como supunha o psicólogo William James em 1890, uma “confusão cheia de movimentos e zumbidos”. Os bebês davam sentido ao mundo de imediato. Por exemplo, Fantz e outros descobriram que os recém-nascidos podiam diferenciar o vermelho do verde; com 2 meses discriminavam todas as cores primárias e, com 3, preferiam o amarelo e o vermelho ao azul e ao verde.

Eles constataram que um recém-nascido é capaz de distinguir o rosto da mãe do de um estranho (exceto quando ambos os adultos usavam um lenço sobre o cabelo), um bebê de 4 meses reconhece familiares e um de 6 pode interpretar expressões faciais. Na década de 70, os psicólogos reconheceram o primeiro ano de vida como um período de enorme desenvolvimento, muito mais agitado do que então se considerava.

SEM CAIR

Esse trabalho atraiu Spelke quando ela ainda era universitária na Faculdade Radcliffe. De 1967 a 1971, ela estudou com o psicólogo do desenvolvimento infantil Jerome Kagan, de Harvard, e se entusiasmou com a investigação das operações essenciais da cognição através da análise de crianças. Spelke prosseguiu com essa pesquisa quando trabalhou em seu doutorado em psicologia na Universidade Cornell, onde a famosa psicóloga do desenvolvimento Eleanor J. Gibson a orientou. Gibson, uma das poucas psicólogas premiadas com a Medalha Nacional de Ciência, revelou muito sobre a cognição infantil com alguns experimentos de alta qualidade. Sua experiência mais conhecida é a do “abismo visual”, em que faz uso de uma chapa de vidro sobre o tampo de uma mesa. Ao engatinhar sobre essa superfície escorregadia, os bebês evitariam uma provável queda, A maioria sim, descoberta que modificou as teorias sobre a percepção espacial dos bebês.

Inspirada por essas pesquisas, Spelke chegou à sua própria experiência inovadora. Quis investigar se quando os bebês olham e escutam percebem imagem e som como duas coisas separadas ou se reconhecem a relação entre ambos.  Ao se perguntar como averiguar isso, ela conta que imaginou dois eventos visuais lado a lado, como dois filmes, e um alto ­ falante onde se poderia alternar o som de cada um dos eventos. “O bebê viraria o olhar para o evento correspondente à trilha tocada pelo alto-falante: “Essa experiência virou minha tese de doutorado. Foi a primeira vez que fui capaz de começar com uma pergunta geral sobre como organizamos um universo unitário a partir de modalidades múltiplas e transformar a questão em um experimento de olhar preferencial simples – que se revelou bastante eficaz.”

VINCULAÇÃO INATA

Spelke descobriu que os bebês reconhecem a ligação entre som e visão, movimentando o olhar conforme a trilha sonora. Assim teve início a sua carreira de análise de grandes questões por meio de experimentos aplicados a crianças. A abordagem de modalidade mista tratou do mesmo “problema de vinculação” enfrentado pelos cegos que subitamente começam a ver, investigando como o cérebro decodifica os sinais de diferentes sentidos numa única impressão. Segundo Spelke, a abordagem não respondeu como essa habilidade parece ser inata.

Ao longo dos anos, a especialista conduziu outras investigações sobre o reconhecimento de objetos e rostos, movimento, navegação espacial e números (incluindo relações numéricas). Como é capaz de desenvolver testes simples, mas tão poderosos? “Penso como uma criança de 3 anos”, diz ela. Ao mostrar aos bebês objetos em movimento e depois interromper seu curso lógico ou a velocidade, ela descobriu que mesmo um bebê de 4 meses infere que um objeto em movimento deve se manter em movimento. Apesar disso, apenas aos 8 meses ele entende o princípio da inércia e espera que o trajeto do objeto seja constante.

Ao mostrar aos bebês diferentes séries de discos, ela descobriu que os de 6 meses conseguem distinguir 8 de 16 e 16 de 32 – mas não 8 de 12 ou 16 de 24. Spelke constatou que bebês de 1 ano de idade, ao observar uma pessoa escolher entre dois objetos, sabem pelo olhar do adulto qual objeto ele pegará, enquanto os de 8 meses não têm essa capacidade.

À medida que aumentavam os dados resultantes desses projetos, Spelke começou a desenvolver sua teoria do conhecimento de base, em boa parte feita em colaboração com colegas como o renomado linguista Noam Chomsky, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o matemático e neuropsicólogo cognitivo francês Stanislaus Dehaene e a psicóloga de Harvard Susan Carey. Os sistemas do conhecimento de base, diz Spelke, são “módulos ” neuronais presentes no nascimento para a construção das representações mentais de objetos, pessoas, relações espaciais e numéricas. Similar à “gramática profunda” que Chomsky acredita estar subjacente a toda linguagem humana, esses módulos de conhecimento básico permitem que todos os bebês organizem sua percepção.

TEORIA POLÊMICA

A sofisticação desses sistemas em bebês parece a dos módulos de primatas não-humanos, o que sugere um desenvolvimento antigo e evolucionário; um bebê de 6 meses tem a mesma compreensão de números, espaço, objetos e rostos que um macaco reso adulto. Spelke entende que esses instrumentos cognitivos são subjacentes a habilidades mais complexas e a conhecimentos que adquirimos ao longo do crescimento, como habilidade de falar novos idiomas, manipulação de números e outras operações mentais abstratas.

O conhecimento de base constitui o fundamento para um robusto aparato cognitivo que nos acompanha durante a vida, fato que pratica mente ignoramos. “Mesmo para os adultos”, afirma Spelke, “a maior parte das capacidades que nos permitem lidar com o mundo (guiar nossas escolhas através do ambiente, articular o que dizemos, calcular se um carro na rua pode nos atropelar ou se objetos em queda nos acertarão) é completamente inconsciente. Quantas coisas fazemos sem pensar direito nelas? Operamos com sistemas cognitivos complexos que em geral não estão acessíveis à simples introspecção. Para mim, esse é mais um sinal de que a maioria de nossas operações cognitivas é como as dos bebês – construídas sobre o conhecimento de base que temos desde pequenos.”

Essa visão de Spelke é o que os filósofos chamam de teoria “inatista” – a certeza de que nossas características são inatas. Elas são naturais e não construídas. Spelke sabe bem que isso a coloca em uma posição arriscada. Falar de habilidades naturais dá margem a especular sobre diferenças naturais para essas habilidades.

Há poucos anos, Spelke se viu envolvida em acalorada controvérsia sobre essas possíveis diferenças quando foi bastante questionada sobre a declaração do reitor de Harvard, Lawrence Summers, de que as disparidades biológicas podem ajudar a explicar por que as mulheres ocupam tão poucos postos nos departamentos de matemática e ciência daquela universidade.

É claro que Spelke foi a escolha natural para debater o assunto, não apenas por ser uma cientista altamente reconhecida da mesma universidade de Summers, mas também por ter estudado precisamente as habilidades inatas mencionadas pelo reitor. Embora não tenha inclinação para a briga, Spelke é espirituosa, engraçada, bem informada e dotada de habilidade argumentativa. Assim, cumpriu com elegância a tarefa de baixar a bola de Summers.

“Se você encarar as coisas de acordo com o ponto de vista de Summers,” diz ela com um leve sorriso, “pesquisar as habilidades cognitivas inatas, como eu faço, é um estudo das diferenças entre os sexos. Na verdade, eu não sabia que estudávamos diferenças de gênero, porque não encontramos nenhuma. Mas uma vez que o assunto apareceu, fiquei feliz em lhe contar sobre nosso trabalho.”

BRINCANDO DE ESCONDER

Spelke explicou em várias entrevistas e num debate público, bastante noticiado, com o colega e amigo Steven Pinker, psicólogo de Harvard, como o grande volume de evidências, reunidas depois de décadas de pesquisa, mostra pouca (ou quase nenhuma) diferença baseada no sexo de bebês ou de crianças pequenas. Nesses primeiros anos, quando a cultura exerce o mínimo de efeito e os níveis de hormônios sexuais estão extremamente altos, não apareceu nenhuma diferença determinada pelo sexo na enorme variedade de habilidades relacionadas ao pensamento matemático.

Por exemplo, coloque uma criança de 4 anos numa sala especialmente arrumada, esconda um bloco em um canto, faça a criança fechar os olhos e a gire, e então peça que ela procure o bloco. Algumas delas vão se reorientar rapidamente na sala e encontrar o objeto; outras não. A porcentagem de meninos e meninas que conseguem, no entanto, é idêntica. Portanto, embora “haja uma base biológica para o pensamento matemático e científico”, como Spelke lembrou no debate com Pinker, “esses sistemas se desenvolvem igualmente em homens e mulheres”.

Otimista inabalável, Spelke acredita que a compreensão crescente das habilidades cognitivas irá reduzir, e não alimentar, a discórdia sobre as qualidades humanas. “Algumas pessoas acham assustadora a ideia de termos habilidades naturais, porque isso parece estimular a noção de que alguns tipos podem nascer mais dotados que outros. Se você é um inatista no que se refere às capacidades cognitivas básicas, como eu, isso o leva a ser um inatista sobre, digamos, as diferenças entre os sexos?: Essas alegações de base biológica podem evoluir até o ponto de ser invocadas para explicar tudo. Mas você tem de ser muito cuidadoso sobre os dados que utiliza.”

A informação que parece indicar diferenças entre os sexos, afirma Spelke, vem de estudos problemáticos cujos resultados são distorcidos por influências culturais – como pais que respondem de modo diferente para meninas e meninos, departamentos de universidade que avaliam as mulheres com mais rigor. Summers deve ter levado o último ponto ao pé da letra: em maio, anunciou que Harvard gastaria US$ 50 milhões em dez anos para admitir e manter mulheres e minorias em sua faculdade.

Enquanto isso, as crescentes pilhas de informação sobre as crianças – pessoas ainda não contaminadas pela cultura – mostram uma paridade surpreendente entre os sexos e as raças. “Obtivemos evidência de um sistema intrincado e rico de conhecimento de base compartilhado por todos e que nos dá um fundamento comum”, declara Spelke. “Em um mundo com tantos conflitos, acho que isso é algo de que precisamos muito.”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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