A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A NECESSIDADE DE AFETO

As pessoas reagem de forma diferente às manifestações afetivas. Como podemos atuar como gestores das nossas emoções para uma vida mais saudável

A palavra afeto é um substantivo abstrato, o que significa que ela não existe sozinha, depende de alguém ou algo para existir. Trata-se de uma inclinação a uma pessoa ou objeto, uma disposição, seja positiva ou negativa. Os afetos foram, por muito tempo, subestimados, tratados como algo impreciso, irracional e primitivo, que remete ao início de nossa existência. Porém, hoje podemos perceber como eles são importantes em nossa vida e em nossas interações, pois somosseres relacionais. Apesar de fazer parte de nossa essência, cada pessoa lida de maneira diferente com os afetos, mas por quê? Essa é a questão que busco responder aqui. Para isso, parto do conceito de afeto e de uma contextualização histórica de seu estudo ao longo dos séculos, chegando aos pesquisadores contemporâneos. Dessa maneira poderemos compreender a que fatores estão ligadas essas diferenças e como podemos lidar melhor com os afetos em nossa vida.

A afetividade é um estado psíquico que engloba os sentimentos e as emoções. Mas, qual a diferença entre emoção e sentimento? A emoção é uma reação episódica, que envolve uma alteração no nosso corpo, como aumento na frequência cardíaca: medo, alegria e raiva são exemplos de emoção. O sentimento, por sua vez, é um estado psicológico de longa duração e nós o interpretamos de acordo com as nossas experiências, vivências, ou seja, ele tem uma dimensão subjetiva.

CONTROLE DAS EMOÇÕES

O psiquiatra Daniel Siegel e a psicanalista Tina Payne Bryson explicam que as emoções estão relacionadas à parte de baixo do cérebro (tronco cerebral e região límbica), já a parte superior do cérebro (córtex cerebral e suas diversas partes) garante uma percepção mais completa do mundo, como pensar, imaginar e planejar. Quando essa parte superior está funcionando bem, nós conseguimos controlar bem as nossas emoções, refletir antes de agir e reagir. Podemos afirmar então que quando alguém tem um ato de afeto ou reage positivamente a uma demonstração afetiva está com as duas áreas do cérebro integradas, pois consegue interpretar suas emoções em forma de sentimentos saudáveis. Os psicólogos Ângela Branco e Jaan Valsiner classificam os afetos em níveis: no nível inferior estão os processos fisiológicos imediatos (como uma sensação de bem-estar), no meio estariam as emoções (ódio, medo, alegria, raiva) e, no nível mais alto, estariam os estados afetivos (como os valores, sentimentos, convicções) que são sentidos por cada um de nós de forma diferente.

REGISTROS DA MEMÓRIA

Alguns autores acreditam que as emoções elementares, como o medo e a raiva, estariam se atrofiando no decorrer da evolução do ser humano pois foram configuradas no processo evolutivo da espécie e possuíam, naquele momento, função de reação fisiológica ao ataque e à defesa. Acredita-se que, devido às mudanças nas nossas condições de vida, elas seriam desnecessárias e, por vezes, nocivas para nós. Meu modo de entender os afetos é muito similar ao de Lev Vygotsky. O psicólogo não deixa de tomar como premissa a origem biológica das emoções, porém, segundo ele, elas também podem ser construídas por meio das relações sociais.

Além disso, as emoções elementares não se tornaram inúteis no processo evolutivo da espécie, essa premissa analisa o fato apenas por um viés biológico e deixa de lado o psicológico. Vygotsky destaca que as emoções sempre foram poderosas organizadoras de comportamento e essa função continua existindo até hoje.Assim, acreditando na possibilidade que temos de perceber as emoções, refletir sobre os sentimentos e buscar formas mais saudáveis de agir e reagir no mundo, as emoções podem ser fortes aliadas para uma vida melhor.

Considero que, como uma dimensão do psiquismo, a afetividade dá um sentido especial às nossas vivências e nossas lembranças e influencia sensivelmente os nossos pensamentos. Afetividade e cognição se complementam: sentimos de acordo com o que pensamos e pensamos de acordo com o que sentimos. A partir das memórias que guardamos de todas as nossas vivências, experiências individuais e sociais, construímos nosso modo de pensar, nossas ideias e nossos conceitos e essas questões nos influenciam e moldam a forma como vamos reagir aos afetos recebidos. É impossível desconsiderar o desenvolvimento do ser humano e seus afetos sem o poder das relações intrapessoais e interpessoais e da troca com o meio desde a mais tenra idade.

CARGA EMOCIONAL

Tendo discorrido sobre a relevância da esfera afetiva sobre nossa vida e sua relação com a parte cognitiva, o foco agora cairá sobre a forma como reagimos aos afetos. Para isso, vou me basear na teoria da inteligência multifocal (TIM), que busca oferecer uma compreensão sobre a construção dos pensamentos e sobre a importância de agirmos conscientemente sobre eles, para buscarmos uma saúde emocional melhor.

Segundo a TIM, as nossas experiências são armazenadas por meio de um fenômeno inconsciente chamado RAM (registro automático da memória), que registra, automaticamente, tudo aquilo que apreendemos por meio dos cinco sentidos e guarda essas memórias em “janelas”. Se uma experiência foi vivenciada com alta carga emocional, seja ela positiva ou negativa, ela será mais facilmente resgatada na memória em meio aos milhões de outros registros (janelas) que foram construídos ao longo da vida.

É importante compreender que não construímos nossos pensamentos somente porque queremos, de forma consciente (pela decisão do eu), muito pelo contrário, a construção é, em grande parte, feita de forma inconsciente, por meio do registro das experiências na memória.

Aquelas vivências que tiveram uma forte carga emocional criam janelas killer ou janelas light. As killer recebem esse nome por serem “assassinas da inteligência”, ou seja, elas não permitem que tenhamos reação inteligente diante de estímulos estressantes. Elas contêm nossas experiências traumáticas, como frustrações, perdas, medos, rejeições, traições etc. Já as janelas light são chamadas assim por “iluminarem a nossa inteligência”, permitindo respostas mais sábias diante das situações da vida. Correspondem às experiências saudáveis como superações, coragem, capacidade de se colocar no lugar do outro etc.

Tudo o que percebemos, sentimos, pensamos, experimentamos, torna-se tijolo na construção da plataforma de formação do eu. É por isso que o autoconhecimento da dimensão afetiva, ou seja, perceber aquilo que nos emociona e que nos faz sentir bem ou mal ajuda nas inúmeras decisões do dia a dia e na resolução de conflitos de natureza pessoal e interpessoal.

O que quero dizer é que ao vivenciarmos uma situação, nosso cérebro buscará, em milésimos de segundos, informações para sabermos como responder a ela, E onde ele vai buscar informações? No nosso maior banco de dados, na nossa memória. Assim, se você está tendo uma experiência afetiva qualquer em sua vida e os registros em sua memória em relação a esse tópico são majoritariamente janelas killer, provavelmente você não conseguirá ter uma reação saudável. Dessa maneira, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos é diferente devido, majoritariamente, às diferentes experiências de vida que tivemos e ao registro delas em nossa memória.

GESTOR DA PSIQUE

Então, se tivemos experiências negativas em relação aos afetos, sempre responderemos de forma negativa às novas experiências? Não. Porque somos gestores de nosso psiquismo e podemos alterar em nossa memória não o registro, não a lembrança, mas a carga emocional ligada a elas, agregando novas janelas de compreensão e aprendizado sobre as situações.

A partir dessa compreensão, podemos afirmar que a nossa reação aos afetos depende de algumas variáveis ligadas à nossa memória e à maneira como agimos sobre ela. Essas variáveis seriam: “como estou” (estado emocional e motivacional no momento da vivência), “quem sou” (a história existencial arquivada nas janelas da memória), “onde estou” (ambiente social que influencia meu jeito de ser e minhas respostas), “quem sou geneticamente” (natureza genética e matriz metabólica cerebral) e o “como atuo como gestor da psique” (como atuo conscientemente diante dos registros da minha memória). Na sequência, falarei um pouco a respeito de estudos sobre os efeitos de determinadas experiências sobre os afetos, notadamente sobre o papel da família no desenvolvimento afetivo de seus filhos.

DESENVOLVIMENTO AFETIVO

Desde o princípio da vida fetal, milhões de pensamentos e emoções já são registrados na nossa memória, tecendo complexas redes de janelas na nossa psique, dando início desde cedo a nossa vida afetiva. Assim, é importante a família ter consciência de que precisa preparar um ambiente saudável e afetivo durante a gravidez para que o fenómeno RAM do bebe registre vivências e construa janelas da memória associadas a emoções tranquilas e, dessa maneira, desenvolva habilidades afetivas saudáveis. O feto carregará essas memórias por toda sua infância e vida adulta e elas se transformarão em pensamentos, em noções de si e do mundo, que se desdobrarão em reações daquele ser às manifestações e necessidades afetivas (abraço, segurança, proteção, interações com os outros).

Crianças privadas de afeto apresentam, entre outros prejuízos, alterações no funcionamento de áreas cerebrais associadas ao processamento das emoções, os efeitos serão observados a longo prazo, na idade adulta. Há uma clara evidência de que crianças que não desfrutaram de vínculos afetivos sólidos terão maior tendência à agressividade e ao desenvolvimento de doenças psiquiátricas como depressão. Isso é o que afirma o pesquisador Jamie Hanson, do Departamento de Psicologia da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, ao salientar que “a negligência emocional praticada por pais e cuidadores em relação às crianças deixa marcas nos circuitos neuronais” e que “no futuro, essas cicatrizes podem contribuir para o surgimento de sérios distúrbios afetivos”.

Assim compreendemos o papel imprescindível da família nesse processo de desenvolvimento dos afetos, pois é nela que se estabelecem os primeiros vínculos fundamentais para a possibilidade de pertencimento a outros grupos mais amplos no futuro. No núcleo familiar, a criança entra em contato com o meio que lhe fornecerá suporte para desenvolver seus afetos.

Contudo, muitas crianças nascem em famílias que se encontram em situação socioeconômica degradante, esse fator pode propiciar a vulnerabilidade de vínculos e afetos durante seu desenvolvimento. O abandono parental e a desestruturação familiar são considerados fatores de risco para a construção da afetividade nas crianças.

TEORIA DO APEGO

Corroborando essa linha de pensamento, o psicanalista inglês John Bowlby já havia apontado, na década de 1950, a importância do relacionamento com o cuidador primário no desenvolvimento   social e emocional da criança. Bowlby percebeu que existia uma dinâmica recorrente nas formas como nós nos apegamos às pessoas, o que ele chamou de teoria do apego. Segundo ele, nos relacionamentos amorosos podemos observar três perfis: o perfil A, mais saudável, tem facilidade  de se aproximar dos outros, o B, ansioso, anseia por amor e não sente que tem reciprocidade do  parceiro, e o C, distante, sente-se desconfortável quando alguém chega perto demais dele. Esses padrões de comportamento remontam a padrões da infância, ou seja, experiências traumáticas na infância geram relações amorosas conflituosas. Concluiu-se que as pessoas C provavelmente tiveram alguém da família que estava fisicamente presente, mas emocionalmente distante, por isso essas crianças desenvolveram um entendimento afetivo de que se conectar com alguém machuca. Jó o perfil B foi exposto a uma perda ou desaparecimento do cuidador durante a criação dele, por isso desenvolve o pensamento de que a qualquer momento será abandonado. Ninguém possuí cem por cento de nenhum dos três perfis, mas sim uma maior tendência a algum deles, o que faz com que pessoas que têm percepções muito diferentes do afeto entrem em atrito ao se relacionar.

Além das experiências de cuidado dentro da família e do meio social para o desenvolvimento dos afetos, algumas variáveis traumáticas podem afetar negativamente a forma como vamos lidar com eles, como o abuso sexual. Diversos estudos demonstram que as consequências do abuso sexual infanto juvenil facilitam o aparecimento de psicopatologias graves e prejudicam a evolução psicológica, social e afetiva da vítima. Esses efeitos podem se manifestar de várias formas, em qualquer idade. Muitas vítimas criam mecanismos de proteção que as impedem de continuar a viver como antes, como, por exemplo, desenvolver aversão a algumas formas de manifestação de afeto (abraços, beijos e qualquer tipo de toque no corpo).

É importante frisar que não somente as experiências de alto impacto emocional como traumas ou negligência familiar influenciam o nosso desenvolvimento afetivo, mas todas as nossas experiências e relacionamentos. Discorri sobre as mais impactantes, porém até mesmo situações que pareçam sem importância podem trazer influências às nossas reações afetivas. Portanto, é essencial que possamos pensar sobre a maneira como vivemos e expressamos nosso lado afetivo, colocando nosso eu como gestor, buscando respostas cada vez mais saudáveis e alinhadas ao que desejamos para nossa vida e a daqueles que nos rodeiam.

REAGIR AO AFETO

Com a correria dos dias de hoje, deixamos de nos preocupar com aspectos importantes para a nossa saúde emocional como os afetos. Olhar para dentro de nós é conseguir entender o que acontece na nossa mente para poder dialogar com nosso círculo social sobre o que nos causa dor e, também, sobre nossas alegrias, expectativas, sonhos.

Nós precisamos ser ativos na gestão do nosso psiquismo. O ser humano aprendeu a decifrar sua inteligência para atuar na vida social, mas não para atuar na sua própria mente. A forma como reagimos aos afetos vem sendo configurada desde quando estávamos no útero materno, de maneira inconsciente, mas existe uma forma consciente de modificar tais códigos: não podemos apagar as nossas janelas killer, mas podemos ressignificá-las a partir do momento em que temos consciência de que somos gestores do nosso eu, dos nossos pensamentos e nossos sentimentos.

Uma forma de reeditar nosso inconsciente é questionar qualquer pensamento não saudável que ronde a nossa mente, criticando-o e determinando ter uma nova reação, uma nova atitude, uma nova visão sobre ele. A partir desse processo consciente, retiramos o poder das janelas killer, e aumentamos o número de janelas light com relação àquele assunto que nos traumatiza, nos entristece, nos frustra, e isso influenciará nossas reações diante de acontecimentos do futuro. Um eu gestor que aprende a administrar seus pensamentos e emoções e a reeditar as zonas de conflito expande suas habilidades afetivas.

Assim como Vygotsky, devemos dar a devida importância à nossa vida afetiva, cuidando do que sentimos e do que pensamos. Ao fazer isso, também contribuímos para que outras pessoas possam refletir sobre seus afetos e cuidamos também de nossos relacionamentos, sejam eles afetivos, familiares e também profissionais. Pois toda relação tem afeto em maior ou menor grau.

Podemos concluir então que diferentes variáveis atuam influenciando nossos afetos, porém temos a possibilidade de alterar de maneira consciente nossas reações afetivas ao cuidarmos do nosso mundo interno. Não temos o poder de mudar nossa genética e nem as experiências que vivemos, mas temos o poder de alterar a carga emocional do registro dessas experiências, escrevendo uma nova história de sucesso de dentro para fora.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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