EU ACHO …

QUANDO A CIÊNCIA É INCAPAZ DE DAR UMA RESPOSTA

Em tempos de coronavírus, nossos conhecimentos são maiores, mas as dúvidas são idênticas

É julho de 1944, e o vírus da poliomielite devasta os Estados Unidos em meio ao verão inclemente e à guerra em continentes longínquos. Em contraste com a Covid-19, as crianças são as mais atingidas pela paralisia. Nas férias, mesmo sem aulas, continuam a frequentar o pátio escolar, onde jogam beisebol e treinam outros esportes, sob a orientação de um professor de educação física. Aos poucos, a doença começa a fazer vítimas, sem que ninguém saiba direito dizer de onde vem, nem se as medidas de precaução são suficientes para garantir a segurança. Nos casos graves, só um pulmão artificial dá alguma esperança contra a morte precoce. As sequelas são visíveis nos sobreviventes. A pólio é atribuída ao leite contaminado, ao cachorro-quente servido numa lanchonete pé-sujo, à falta de desinfetantes e higiene nas mãos, a uma gangue de outro bairro que vem procurar briga e cospe no chão.

“Puseram um aviso de quarentena numa casa na minha rua. Há um caso de pólio na minha rua!”, esbraveja outra. “Tem que haver uma coisa a fazer, mas não estão fazendo nada!”, diz uma terceira. “Não seria melhor se ficassem em casa até que isso terminasse? A casa não é o lugar mais seguro numa crise como essa?”

Tal é o cenário pintado pelo romancista Philip Roth em Nêmesis, obra de sua fase final em que narra a tragédia pessoal de um professor de educação física dividido entre a lealdade às crianças de quem deve tomar conta no pátio escolar e o desejo de fugir para uma colônia de férias e reencontrar a noiva, assumindo um novo emprego perto dela e longe da dor. “Como é que posso deixar todos esses garotos na mão? Não posso abandoná-los. Eles precisam de mim mais do que nunca”, diz àquela que ama. Só fica mais tranquilo quando o pai dela, um médico, lhe revela a dificuldade dos próprios cientistas para lidar com o mal: “Não sabemos quem ou o que são os vetores da doença, nem como ela penetra no organismo. Uma doença que aleija em especial as crianças – isso é difícil para qualquer adulto aceitar”. Questionado sobre a necessidade de fechar o pátio onde meninos e meninas se divertem, mas estão a cada dia mais amedrontados, o doutor responde com outra pergunta: “O que fariam se não pudessem ir para o pátio? Ficariam em casa? Não, jogariam bola em qualquer outro lugar – nas ruas, nos terrenos baldios, nos parques. É impossível impedir que se juntem. Vão tomar um gole na garrafa de água do companheiro, por mais que se diga para não fazerem isso. Não são anjinhos – são meninos”.

Em tempos de coronavírus, nossos conhecimentos são maiores, mas as dúvidas são idênticas. Sabemos que a Covid-19 é mais branda nas crianças e que é pequena a chance de alguém contraí-la de quem tem menos de 10 anos. Que, para reduzir o risco, é possível adotar medidas como distanciamento, máscaras, ventilação e turmas menores. Que ficar em casa retarda o desenvolvimento infantil, e que o ensino à distância não tem a mesma eficácia do presencial. Que a retomada das aulas tem funcionado com poucos sobressaltos em países como Dinamarca ou Alemanha. Mas também sabemos que houve ressurgimento da epidemia em Israel, graças ao surto numa escola do ensino médio. Que, nos Estados Unidos, jovens se aglomeram nos estados onde as aulas foram retomadas, sem medidas de segurança nem cuidados com o avanço da epidemia. Que, por toda parte, a tensão toma conta das associações de professores e de profissionais da educação, em virtude dos riscos desconhecidos, ainda que sabidamente inferiores aos que afetam áreas como saúde e transporte. Todos olham para a ciência em busca de uma resposta, mas a ciência não tem resposta para tudo, não tem o poder de proteger todos, nem de impedir o pior. Qualquer decisão será necessariamente política – e o romance de Roth, como toda boa literatura, nos mostra que nem sempre é possível evitar a tragédia.

***HELIO GUROVITZ

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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