A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

SAIR DA DEPRESSÃO

Além das drogas, outros tratamentos têm sido eficazes no combate ao distúrbio que afeta 20% da população

Os números são preocupantes: 10 milhões de brasileiros sofrem de depressão. Estima-se que o distúrbio se manifeste em 15 % a 20% da população do planeta pelo menos uma vez durante a vida. Quem sofre a primeira crise tem 50% de chance de reincidência. Após o segundo episódio, a probabilidade sobe para 70% e a partir do terceiro pula para 90%. Apesar das estatísticas pouco animadoras, existem diversos recursos disponíveis para controlar a doença que, dependendo da intensidade, além da tristeza profunda e inexplicável, pode incluir entre seus sintomas distúrbios de sono e de apetite, irritabilidade, cansaço, perda da memória, dores de cabeça e no corpo, problemas digestivos e até mesmo pensamentos suicidas.

Até a década de 70, quando surgiram os primeiros antidepressivos, o único tratamento disponível contra o distúrbio era a psicoterapia. Atualmente, existem mais de 60 medicamentos no mercado. Eles estão na linha de frente no combate ao problema, já que a de pressão envolve alterações neuroquímicas – embora também tenha fortes implicações psíquicas, emocionais e sociais. Do ponto de vista neurológico, o cérebro do depressivo sofre queda dos níveis dos neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. Os antidepressivos restabelecem esses níveis.

Além das quatro classes de antidepressivos comercializados desde as décadas de 80 e 90, o arsenal de combate à doença ganhou novas armas em 2005, quando foram lançados no Brasil os inibidores de noradrenalina e serotonina zenlafaxina e duloxctina (pertencentes à categoria de antidepressivos atípicos). “O fato de agirem em dois neurotransmissores faz com que esses medicamentos funcionem melhor. A remissão do quadro e o início da ação são mais rápidos que os verificados com as outras classes de antidepressivos. Além disso, também diminui o número de recaídas”, explica a psiquiatra Verusca Lastoria, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a médica, essa classe de drogas é especialmente eficiente para pacientes com depressão moderada ou grave, associada a sintomas somáticos, como dores no corpo.

TERAPIAS COMPLEMENTARES

Além da terapia farmacológica, atividades como ioga, meditação e acupuntura são cada vez mais bem­ vistas pelos especialistas como complemento para os modernos antidepressivos no combate à depressão. “Medicamento é indispensável e ao mesmo tempo insuficiente”, reconhece o psiquiatra Geraldo José Ballone, coordenador do site Psiqweb. A ciência vem descobrindo que, assim como o exercício físico, exercitar a mente pode estimular a gênese de novas células cerebrais e ajudar no tratamento de depressão, ansiedade e stress. Segundo Ballone, somente nos casos de depressão leve é possível melhorar sem medicamentos.

A ioga foi o complemento escolhido pela empresária paulistana Cláudia Pereira, de 40 anos, no combate à depressão e ao pânico. O problema começou em 1999, desencadeado por complicações financeiras. Ela evitou o tratamento durante mais de seis anos, e o caso evoluiu para crises de pânico, no começo de 2006. “Fiquei apática e passei a ter medo terrível, não sei do quê. O tele fone não podia tocar que eu achava que alguma coisa horrível tinha acontecido”, conta. Foi nesse ponto que decidiu procurar um psiquiatra e começou a tomar antidepressivo. “Voltei a ficar bem, parecia outra pessoa.” Como não sentia mais nada, a empresária decidiu abandonar a medicação e, após uma sobrecarga de trabalho, os sintomas voltaram. A solução foi novamente recorrer aos remédios, mas desta vez acompanhados da ioga. “Acho importante praticar uma atividade física, alguma coisa que faça a pessoa olhar para si e desacelerar. A depressão me fez esquecer das coisas de que eu gostava. Agora estou me tratando e tentando levar a vida menos a sério.” Ela pretende persistir nos dois tratamentos.

Outra técnica que vem sendo pesquisada para o combate à depressão é a acupuntura. “Empiricamente, ela auxilia no tratamento de depressão leve, que muitas vezes não exige o uso de remédios. Em casos mais avançados, tem sido um recurso terapêutico complementar ao tratamento clínico medicamentoso, ajudando na redução ou eliminação de efeitos colaterais potenciais e aumentando a tolerância às drogas.

Além disso, as agulhas melhoram a qualidade do sono e podem ser benéficas para tratar quadros paralelos como gastrite, dor de cabeça e tensão pré-menstrual. Elas potencializam os efeitos do tratamento e costumam acelerar a melhora”, explica o psiquiatra Francisco Carlos Machado Rocha, do departamento de psiquiatria da Unifesp, especialista em medicina chinesa e acupuntura.

Falar sobre o problema como forma de resolvê-lo ou amenizá-lo é o sistema adotado por grupos de auto- ajuda específicos para portadores de distúrbios psiquiátricos como depressão e pânico. Instituições sem fins lucrativos como a Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) e a Associação Pró-Saúde Mental (Fênix) organizam reuniões semanais para pacientes e parentes, em que as pessoas partilham suas experiências. “Como não se trata de um tratamento, e sim de um coadjuvante contra a depressão, não existe orientação específica. Os participantes se encontram e trocam experiências”, explica o psicólogo Adriano Camargo, presidente executivo da Abrata. “Ao escutar relatos de vivências parecidas com as suas, as pessoas se sentem mais capazes de enfrentar seus problemas e deixam de se sentir como ETs.” Para os que preferem se expor menos, outra opção são os grupos de auto- ajuda on-line. Existem diversos espalhados pela internet.

CASOS EXTREMOS

Além da depressão leve e moderada, existem os casos mais graves, com grande risco de suicídio. Cerca de 30% dos pacientes não respondem nem aos medicamentos mais modernos. Para esses casos, a novidade é a estimulação magnética transcraniana (EMT), aplicada ainda de forma experimental tanto no Brasil como no exterior. “A EMT pode ser usada também em casos mais leves de depressão, para diminuir o tempo de tratamento. Os efeitos colaterais são mínimos, mas há relatos de dor de cabeça nas primeiras sessões”, explica o psiquiatra Roni Broder Cohen, que conseguiu aprovação da comissão de ética da Unifesp para utilizar a técnica clinicamente. Segundo ele, o tratamento requer dez a 15 sessões de cerca de 45 minutos. “É o suficiente para 70% dos casos”, diz.

Mais antiga e polêmica, mas também eficiente para depressão grave, é a eletroconvulsoterapia, o conhecido eletrochoque. A eficácia no tratamento do transtorno é muito alta (em torno de 90%), comparada com as medicações (em torno de 70%), segundo Ballone. O psiquiatra explica que o tratamento consiste na aplicação de uma carga elétrica no cérebro, com o paciente anestesiado (é utilizada anestesia geral com duração em torno de 5 minutos). A estimulação produz uma convulsão, mas muito diferente da que ocorre na epilepsia, pois a anestesia promove relaxamento muscular. “O eletrochoque é usado como primeira alternativa para depressão grave em países nórdicos, e nos Estados Unidos é bastante aplicada. Já no Brasil, existe muito preconceito, sendo praticada somente em universidades. Trata-se de um tratamento muito seguro, com complicações mínimas, especialmente em casos em que os medicamentos são contra- indicados, como na gravidez e em pacientes idosos.”

Apesar de os médicos preferirem não usar a palavra “cura” quando o assunto é tratamento do distúrbio (assim como acontece em outras doenças crônicas, como diabetes e pressão alta), o termo- chave é “controle”. Os diversos recursos da ciência e as terapias disponíveis permitem que o paciente mantenha o controle dos sintomas e leve vida normal.

ARSENAL FARMACOLÓGICO

ANTIDEPRESSIVOS DISPONÍVEIS NO MERCADO

INIBIDORES DA MONOAMINAOXIDASE (lmao) – Foram os primeiros antidepressivos largamente usados. Eles inibem a ação de uma enzima responsável pela degradação dos neurotransmissores noradrenalina, dopamina e serotonina. Raramente são prescritos como tratamento de primeira linha porque exigem uma dieta especial para evitar interações potencialmente perigosas, embora esporádicas, com certos alimentos. No entanto, ainda são indicados como último recurso.

ANTIDEPRESSIVOS TRICÍCLICOS (ADT) – Inibem a recaptação dos neurotransmissores noradrenalina e serotonina. Os ADTs têm efeitos colaterais desagradáveis como sonolência, boca seca e visão embaçada; cerca de 30% dos pacientes param de tomar o medicamento por causa desses problemas. Eles são potencialmente letais em altas doses. No entanto, ainda podem ser a melhor escolha para certos casos de depressão.

INIBIDORES SELETIVOS DE RECAPTAÇÃO DE SEROTONINA (ISRS) – Drogas como Prozac e Paxil bloqueiam a recaptação da serotonina pelos neurônios pré-sinápticos. Eles substituíram os ADTs porque provocam menos efeitos colaterais e apresentam menor probabilidade de morte em casos de overdose. Mesmo assim, efeitos adversos como problemas gastrointestinais e sexuais não são raros. Indicações de que os ISRSs possam aumentar pensamentos e ações suicidas em crianças e adolescentes levaram a uma advertência obrigatória no uso do medicamento para essas faixas etárias nos Estados Unidos e à proibição para menores na Inglaterra.

ATÍPICOS – Afetam vários sistemas neurotransmissores ou usam mecanismos diferentes para o bloqueio da recaptação. Alguns exemplos são bupropion, venlaflaxina, nefazodona e mirtazapina.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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