EU ACHO …

A LIÇÃO DAS PIONEIRAS

As vitórias e, em especial, as derrotas das feministas do século XX têm muito a ensinar sobre a causa

Se você tentar entender o que é ser uma feminista a partir das muitas histórias populares que existem hoje, os livros sobre “mulheres corajosas” ou “mulheres incríveis”, os filmes sobre cientistas negras ou sufragistas brancas, poderia pensar que é uma vida muito simples. Uma vida caracterizada por um senso de destino que se movimenta rapidamente pela clara estrada do progresso. Tenho certeza – espero, de qualquer modo – que muitas ativistas reconhecem esse ritmo em suas vidas.

Eu, nem tanto. Especialmente nos últimos anos, ser politicamente ativa muitas vezes foi como estar perdida em um campo escuro sem uma tocha. Estamos indo para a frente ou para trás? Quem colocou esse diabo de rochedo em nosso caminho? Por que todo mundo está brigando por causa do mapa? Será que alguém tem o mapa?

E foi por isso que me apaixonei pela nova série de tevê Mrs. América. Não são apenas as atrizes carismáticas ou o roteiro inteligente, é a maneira como ela dramatiza o fracasso. Acho que isso não a faz parecer tão interessante, mas, como legiões de fãs podem atestar, ela é.

A autora, Dahvi Waller, resvala nos acontecimentos reais para injetar verdadeiro drama, por exemplo, no furioso fracasso quando Gloria Steinem não conseguiu forçar uma importante votação sobre o aborto na convenção democrata de 1972, ou o fracasso heroico quando a candidatura de Shirley Chisholm à Presidência foi minada por feministas brancas que quiseram ficar ao lado dos homens brancos mais poderosos. Acima de tudo, ela salienta o amargo fracasso que espreita as mulheres idealistas que não conseguiram ver a reação que crescia, uma reação cuidadosamente plantada e cuidada pela líder conservadora Phyllis Schlafly.

Por que preciso tanto disso neste momento? Porque estou cansada das interpretações que passam verniz sobre esses duros desafios. Preciso ver isso reconhecido, que o ativismo político muitas vezes fala de fracasso. De ser abandonada pelos que você pensou que fossem seus aliados, ou reconhecer que você mesma foi uma má aliada ou subestimou todos os seus inimigos.

Ao estruturar a série toda em torno do fracasso das feministas da segunda onda para conseguir a ratificação da Emenda da Igualdade de Direitos, as autoras introduziram um ritmo de maldição. Fracasso, fracasso e mais fracasso perseguem as corajosas e inteligentes feministas de Mrs. América. Assim como fracasso, fracasso e mais fracasso podem estar espreitando os nossos passos hoje. De fato, a série foi claramente desenvolvida com um olhar para o agora, para dar substância a como as populistas de direita se imiscuíram e roubaram o sucesso debaixo dos narizes das progressistas. Por isso aprecio, quase contrariando meus instintos, que essa série dê ao espectador uma compreensão muito mais profunda do que motiva Schlafly e suas seguidoras. Seu desejo de respeito e seu medo de mudanças surgem de maneira quase visceral.

Se os autores simpatizam ou não com elas, não caíram na armadilha da condescendência, e isso parece importante em um mundo em que os ativistas de esquerda muitas vezes rejeitam os nossos inimigos como simplesmente deploráveis. Temos de aceitar nossos fracassos e aprender com eles, de vez em quando. Mas não se trata somente de fracasso. A série também fala, de maneira muito eficaz, sobre onde reside nossa esperança de sucesso – na solidariedade.

Com demasiada frequência, nestes tempos individualistas, colocamos ênfase demais no poder da líder carismática. Aceitamos a ideia de que a maior feminista é aquela com mais seguidores, a voz mais forte, a marca maior. No percurso, o feminismo com frequência foi visto como uma via para a força individual, e não para a mudança política mais ampla.

Mas essa série também nos lembra que nos movimentos políticos cada indivíduo faz parte de uma rede complexa. Cada feminista famosa – Steinem, Chisholm, Bella Abzug, Betty Friedan – é vista aqui, vitalmente, em suas relações com outras, tanto outras mulheres famosas como as menos conhecidas com quem elas trabalham nas conferências, revistas e grupos de trabalho. Vemos como cada uma das heroínas é apenas parte de um1a imagem maior, como elas captam energia umas das outras, como só podem crescer enquanto ecossistema, e não sozinhas.

Isso não quer dizer que a série faz a solidariedade parecer fácil. Ao contrário, ela é honesta sobre as questões insolúveis que dividem essas feministas, particularmente a incapacidade das mulheres brancas de reconhecer a liderança das negras, e a cegueira das mulheres hétero sobre o lesbianismo. E mesmo entre as mulheres brancas hétero há divisões profundas, enquanto elas vacilam quanto a trabalhar pragmaticamente com os políticos ou mais radicalmente contra eles, sobre dar prioridade à reforma ou à revolução. A cultura do cancelamento não é novidade na sororidade. Houve tempos na era das sufragistas e nos anos 1970, assim como hoje, em que as mulheres feministas não suportavam trabalhar juntas mesmo para algo aparentemente tão simples quanto o voto ou a Emenda da Igualdade de Direitos, por causa de suas diferenças.

Os movimentos sempre foram assim: fragmentados, divididos com amargor, cheios de ódio feroz, assim como de amor. Mas, quando as feministas se erguem para cantar juntas acima das divisões na enorme conferência em Houston, no penúltimo episódio de Mrs. América, sua solidariedade reverbera. Poderemos ainda ouvi-la retinir hoje, mesmo que nossas diferenças sejam tão dolorosas que não consigamos nos reunir nas mesmas conferências? Espero que possamos, que continuemos encontrando pontes e momentos de conexão. Só a solidariedade nos permitirá seguir em frente pelos tempos obscuros.

Nosso poder está não só no grito individual por liberdade, mas também na amplificação recíproca de nossas vozes. Mulheres da segunda onda fizeram avançar discussões políticas e culturais, atos, leis e visões que continuam até hoje. Elas muitas vezes falharam, mas às vezes tiveram êxito, e, se formos honestas sobre as primeiras, poderemos ser mais honestas, e talvez mais esperançosas, sobre as segundas.

Elizabeth Banks, Rose Byrne, Tracey Ullman, Margo Martindale, Cate Blanchett, and Uzo Aduba

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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