GESTÃO E CARREIRA

DÊ O PLAY

Quando bem usados, os jogos ajudam as empresas a treinar os funcionários e a aumentar a mentalidade inovadora e o engajamento. Mas, como em todo game, a iniciativa só dá certo seguindo algumas regras

Já faz alguns anos que o mercado de games está em expansão pelo Brasil e pelo mundo. E o isolamento social decorrente da pandemia do novo coronavírus impulsionou o setor ainda mais: em março de 2020, o gasto global com jogos eletrônicos chegou a 10 bilhões de dólares, um recorde mensal, de acordo com a Superdata, empresa da consultoria Nielsen especializada em games. Mas os jogos não precisam ser usados apenas por diversão: eles são ferramentas úteis para os negócios em várias frentes, como treinamento, engajamento e inovação.

Quando se trata de educação corporativa, os jogos parecem ajudar muitos a prender a atenção dos funcionários. Uma pesquisa publicada no Journal of Education for Business, em 2018, constatou que 67% dos empregados ficam mais motivados quando participam de treinamentos gamificados. Outro levantamento, feito pela consultoria americana Talent LMS em 2019 com mais de 1.000 funcionários de empresas de diferentes segmentos mapeou que 89% das pessoas se sentem mais produtivas quando há jogos nos cursos e 88% se sentem mais felizes quando podem aprender brincando. Para Adriano Mussa, reitor da escola de negócios Saint Paul, o artifício faz ainda mais sentido para gerações jovens. “De joguinhos de celular a consoles poderosos, os games fazem parte do cotidiano e do estilo de vida dos jovens”, diz.

No Brasil, a técnica já é usada por grandes companhias, principalmente pelas startups e as que atuam nos setores de tecnologia e educação. “Praticamente todas as grandes empresas já utilizam processos gamificados em suas rotinas”, diz Laila Aaltonen, diretora da Green Hat People, multinacional sueca que atua com gamificação e microlearning.

A REGRA É CLARA

Embora seja uma prática interessante e que gera bons resultados em termos de atenção e engajamento, os games precisam ser usados com cuidado e seguir algumas regras. Se a empresa estiver com problemas como falta de colaboração entre empregados, mentalidade pouco inovadora ou desalinhamento de processos, o jogo não vai funcionar. E, pior, corre o risco de aumentar as fissuras. Além disso, o game não pode se tornar um dever. “Obrigar a jogar é má ideia”, diz Brian Burke, analista da consultoria Gartner e autor de Gamify Hour Gamification Motivates People to Do Extraordinary Things.

Também é preciso tomar cuidado com a infantilização. Abuso de personagens, excesso de cores e roteiros fabulosos podem pegar mal, dependendo da audiência que se quer atingir. “É preciso dosar o nível de ludicidade oara os diferentes públicos, primar por uma interfaxe amigável, sem muitos elementos, evitando cartuns animados e humor desnecessário”, diz Laila

Além disso, é necessário ter clareza sobre as metas por trás do jogo, para que a forma não se sobreponha ao conteúdo. “Se não houver objetivo, é só liberar o videogame, o que estimula a competição e a camaradagem. Um game precisa trazer resultado efetivo para o negócio”, explica Flora Alves, especialista em gamificação e diretora jurídica da SG Aprendizagem Corporativa.

É CARO?

Gamificação não é propriamente o jogo, mas usa de elementos de recepção (como recompensas, desafios e interatividade) dentro das empresas. Por isso, o valor de investimento varia. Os projetos mais ostensivos – como óculos de realidade virtual, drones e equipes jogando simultaneamente em vários países – podem custar até 1 milhão de reais. Mas existem alternativas bem mais em conta e que também geram ótimos resultados.

Uma delas foi usada pelo Grupo Mateus, rede de supermercados maranhense com lojas no Pará e no Piauí, que tem mais de 20.000 funcionários. A companhia precisava ampliar o alcance do Mateus, aplicativo de descontos aos clientes. Para isso, dez pessoas de diferentes áreas da empresa (RH, marketing, desenvolvimento e vendas) participaram de uma imersão numa consultoria de gamificação.

A princípio, o time chegou lá achando que o importante seria criar um desafio, em forma de jogo, para que os clientes do supermercado tivessem mais pontos de descontos no aplicativo. Conversando entre si, a equipe entendeu que o problema não era fazer o consumidor usar o app, mas aumentar o número de downloads – que estava baixo. Com as dinâmicas, concluiu-se que o desafio só seria superado envolvendo quem está no trato diário com os clientes: os operadores de caixa. Melhor ainda se eles fossem envolvidos em um jogo para aumentar o engajamento.

O game em questão demandou apenas a tecnologia do Excel. Funcionou assim: se os caixas convencessem os consumidores que já podduiam o app no celular a digitar seu CPF no momento da compra, ganhariam 1 ponto por cada cliente conquistado. O convencimento a fazer o download e a habilitação do aplicativo valia 10 pontos. Os caixas anotavam os CPFs dos clientes numa planilha e, ao fim do período estabelecido, os operadores com pontuação mais alta recebiam uma bonificação de até 100 reais. Os testes foram executados na maior loja do grupo, e os resultados surpreenderam. Em uma semana, houve um aumento de 33% nas compras feitas pelo app, e os clientes dos 15 primeiros colocados no ranking de atendimento usaram a ferramenta 400% mais. “Vamos criar um jogo para os clientes agora”, diz João Gabriel, gerente responsável pelo app.

BRINCANDO DE CEO

Com mais de 30.000 funcionários, a Gerdau encontrou na gamificação uma maneira de ajudar os empregados a desenvolver pensamento estratégico. A empresa desenvolveu o GLead, que traz situações de tomadas de decisões gerenciais e estudos de caso que auxiliam na aderência de valores entre companhia e  empregados – o algoritmo do jogo mapeia se as respostas estão mais ou menos alinhadas aos princípios da companhia, Além dos desafios, os usuários também contam com textos de apoio, gráficos e vídeos. “O game coloca os jogadores no papel de CEO de uma empresa fictícia. E eles devem tomar de 10 a 15 decisões para melhor gerir a empresa em diversas situações”, explica Lísia Simon, gerente de desenvolvimento humano da Gerdau.

O objetivo é fazer com que os profissionais realmente aprendam na jornada digital – e usem os novos conhecimentos para crescer na carreira. “Ao fim do jogo, todos recebem feedback com sugestões de trilhas de desenvolvimento e comportamentos mais assertivos na direção que a empresa planeja e deseja”, diz Caroline Carpenedo, diretora de pessoas da Gerdau. De acordo com a executiva, isso acelera a formação, o que faz com que os participantes sejam promovidos e convidados a participar de projetos em outras áreas.

CINCO FASES

O que considerar no processo de gamificação

1 – É NECESSÁRIO

O game só deve ser adotado para resolver um problema, e não por ser divertido

2 – CHAME OS PROFISSIONAIS

Há ciência e metodologia por trás dos games. Implantar um jogo corporativo sem embasamento ou foco corretos pode ser desperdício de tempo e de dinheiro. Por isso, contrate especialistas para desenvolver as trilhas ideais.

3 – PENSE NO PÚBLICO

Cada audiência precisa de um estilo de jogo específico para se engajar nos desafios. Fuja de games que não possam ser padronizados para as necessidades e o perfil de sua empresa.

4 – INTEGRAÇÃO PURA

Os games só têm sentido quando dão feedbacks rápidos a cada etapa superada. Além disso, os jogos geram dados interessantes sobre os usuários – que devem ser lidos pelo RH.

5 – NEM TUDO VIRA JOGO

Temas delicados ou tecnicamente muito complex0s nã0 funcionam tão bem em jogos. Assédio sexual e racismo, por exemplo, fazem mais sentido quando debatidos por meio de rodas de conversas ou palestras com especialistas.

QUE COMECEM OS JOGOS

A consultoria Talent LMS ouviu 900 profissionais para entender qual é a relação entre games e engajamento. Veja os resultados:

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.