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APERTE A TECLA ZEN

O número de seguidores das aulas on-line de ioga se multiplicou na quarentena, popularizando uma prática milenar que acalma – mas, se malfeita, também pode machucar

Pessoas isoladas buscando transcender a própria existência unem duas situações separadas por milênios: a criação da ioga por volta de 3.500 a.C. e as aflições de quem, neste 2020, teve a vida revirada de cabeça para baixo (esta, aliás, uma postura típica da prática nascida na Índia) pelo novo coronavírus. Com tempo disponível, necessidade de atividade física e encanto pelas poses de celebridades no Instagram, homens, mulheres e crianças enfurnados em casa pela quarentena pegaram seu tapetinho e se puseram a se esticar e se dobrar nas aulas de ioga a distância como se não houvesse amanhã. No Google, a procura por “ioga on-line” foi, neste primeiro semestre, 25vezes maior do que em igual período do ano passado. O número de alunos inscritos em cursos no YouTube e outras plataformas cresceu 160% entre os adultos e inacreditáveis 4.500% entre as crianças. “A ioga, com sua imagem de antídoto contra o stress, foi a porta usada por muita gente para tentar se adaptar à mudança de rotina”, diz o professor Cario Guaragna.

Além da modelo Gisele Bündchen, que há anos publica fotos fazendo ioga em locais idílicos, famosas como Isis Valverde, Fernanda Lima e Grazi Massafera rechearam o Instagram de posturas (difíceis de reproduzir) durante a quarentena. “Temos tendência de estar sempre no passado ou no futuro, o que cria ansiedade. A ioga nos traz para o estado presente”, elogia Grazi. Com tal incentivo, Guaragna diz que o curso que oferece em rede social saltou de 60.000 para 113.000 seguidores nos últimos meses. “As pessoas se inspiram em outras, mas acabam desenvolvendo sua individualidade. O autoconhecimento que a ioga proporciona é justamente o caminho para cada um se aproximar de suas autenticidades”, ensina. A designer de moda Roberta Tordin, 41 anos, que nunca foi fã de exercício físico vigoroso, conta que tentou primeiro a meditação, sem sucesso, antes de aderir à ioga on-line. “Nunca pensei que ia fazer uma atividade sozinha, na minha casa, e me sentir bem. Ela serviu para me acalmar quando a pressão ficou muito pesada”, descreve.

Precursora de videoaulas de ioga em português no YouTube, onde mantém um canal há seis anos (atualmente, o maior do Brasil), Pri Leite viu seu número de inscritos, que já não era pouco, mais que dobrar, de 310.000 para 740.000. “Em geral, são pessoas que têm interesse em alinhar o autoconhecimento com o autocuidado”, explica. Pri, que mora em Los Angeles, comemora a descoberta da ioga a distância e acha que o interesse será duradouro, até porque na internet as aulas ou são gratuitas ou bem mais em conta do que as dos estúdios, com mensalidades que variam de 90 a 300 reais. Boa parte dos novos fãs da milenar prática oriental é de pequenos presos em casa, com pouco ou nada para fazer e precisando gastar energia. A professora Nataly Pugliesi, de Campinas, interior de São Paulo, conta que antes da pandemia dava aulas extracurriculares a duas turmas. Com o fechamento das escolas, a disciplina entrou no currículo e o número de alunos explodiu. “Antes eu tinha uns trinta alunos. Agora, até 200 crianças passam por mim semanalmente. As mães notam que, sem perceber, elas se acalmam”, relata Nataly.

Para os alunos, a opção pela ioga on-line, com o pouco material e o espaço pequeno que exige, o preço mais baixo (ou zero) e a promessa de menos stress, não foi difícil. Já os professores mais conservadores resistiram de início ao curso a distância, considerando que ele privilegia o esforço físico em detrimento da concentração. Marcos Rojo, ph.D. em ciência da ioga que lecionou a prática durante mais de 35 anos na Universidade de São Paulo, relutou, mas aderiu às aulas pelo aplicativo Zoom. “O aprendizado ficou muito mais acessível e abrangente. Atualmente tenho alunos de Salvador a Chicago”, diz. No entanto, ele insiste em que as aulas têm de ser muito bem conduzidas, para que a precisão no exercício possa ser alcançada. “Algumas técnicas possuem sutilezas de execução quase impossíveis de ser ensinadas a distância. Nunca consigo ir tão longe quanto na aula presencial, quando eu posso ‘sentir’ o meu aluno”, explica.

Outra preocupação dos profissionais, como em qualquer exercício físico, é o risco de lesões. Na prática diante da tela, é importante respeitar os limites do corpo e evoluir conforme esses limites. “As dificuldades nas posturas, no início, são normais. É preciso ter sempre o acompanhamento de um instrutor para superar e aprender certo”, alerta a professora e youtuber Fernanda Yoga, que tem 260.000 pessoas inscritas no seu canal, cinco vezes mais do que antes da quarentena. No mais, é inspirar, expirar e se concentrar em alcançar a calmaria no meio do caos.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 30 DE AGOSTO

FILHOS REBELDES, PAIS AFLITOS

O filho sábio alegra a seu pai, mas o filho insensato é a tristeza de sua mãe (Provérbios 10.1).

Não há maior alegria para um pai e uma mãe do que ver seus filhos andando na verdade. Bem- aventurados são os pais cujos filhos têm ouvidos para ouvir os conselhos da sabedoria. Infelizes são os pais cujos filhos escarnecem dos princípios aprendidos dentro do lar. Os filhos são a maior fonte de prazer ou a maior dor de cabeça dos pais. Há filhos que não honram nem obedecem aos pais. São ingratos e rebeldes que magoam os pais durante a vida e depois os abandonam na velhice. Há filhos que nunca tiveram ensino nem exemplo dos pais. Outros, porém, mesmo recebendo boa doutrina e tendo testemunho irrepreensível dos pais, escarnecem dessa herança e enveredam-se por caminhos perigosos. Filhos rebeldes atraem sobre si mesmos maldição. Associam-se a más companhias, apressam-se para fazer o mal e encurtam seus dias sobre a terra. Os filhos do sacerdote Eli, Hofni e Fineias, mesmo criados na Casa do Senhor, foram jovens irreverentes, profanos e adúlteros. Perderam o temor do Senhor e taparam os ouvidos à voz da advertência. A vida deles foi um pesadelo para o pai e uma maldição para a nação. Cabe aos pais ensinar os filhos no caminho em que devem andar, criando-os na disciplina e admoestação do Senhor. Cabe aos filhos amar a Deus, servir a Cristo, obedecer aos pais e andar pelas veredas da justiça.

GESTÃO E CARREIRA

A VITÓRIA DO TRABALHO REMOTO

O que era provisório vai se tornar permanente. O aumento de produtividade dos funcionários e a redução de custos levam empresas a adotar o teletrabalho de forma definitiva.

O trabalho remoto, por razões óbvias, cruzou o Brasil de maneira acelerada desde o início da quarentena, em março. Desconhecido na prática pela maioria e desejado por muitos profissionais, o modelo precisou ser adotado às pressas por indústrias, empresas, comércios e repartições públicas – uma das poucas boas notícias do mercado de trabalho nos últimos meses. Mais do que manter o ritmo dos negócios e evitar demissões, o teletrabalho proporcionou economia de tempo e de recursos financeiros, poupou desgastes físicos e emocionais em meio à pandemia e tem sido visto por patrões e empregados como uma alternativa segura e viável em um futuro de incertezas.

Mais do que oferecer uma nova perspectiva sobre a importância da casa na rotina das pessoas, o trabalho remoto tem propiciado aumento de produtividade dos funcionários. Pesquisa da consultoria KPMG com 700 executivos brasileiros mostra que, para 24,5% deles, houve crescimento de 20% no rendimento, enquanto quase metade deles (49,5%) afirmou que o nível de eficiência se manteve. Isso significa três em cada quatro lideranças.

O resultado não poderia ser outro. O que era provisório vai se tornar permanente em muitas empresas. Algumas delas já decretaram que o formato será definitivo, outras delegarão ao funcionário a decisão de continuar em casa ou optar por uma forma híbrida, em home office parcial, com alguns dias presenciais. O Google, gigante da tecnologia, por exemplo, surpreendeu na segunda-feira ao anunciar a extensão do sistema ao menos até 30 de junho de 2021. A posição da empresa americana, anunciada via e-mail pelo CEO, o indiano Sundar Pichai, pretende ajudar os colaboradores com crianças em casa e que poderiam ter dificuldades para retornar. A medida, no entanto, é opcional nos 70 escritórios em 50 países.

A decisão de Pichai vai beneficiar os 200 mil funcionários da organização pelo mundo. “Ninguém (dos 1 mil colaboradores brasileiros) vai ao escritório desde o dia 13 de março”, afirmou o presidente do Google no Brasil, Fabio Coelho, na quarta-feira, em live promovida pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Para o executivo, a pandemia redefiniu o papel da casa na vida das pessoas, e a função da tecnologia foi essencial para que pudessem estudar, trabalhar, se informar, tomar decisões. “E quando sairmos dessa situação, aprenderemos também que podemos ter uma rotina de trabalho que combine o presencial com o a distância. Que precisamos estar com as pessoas por uma questão de socialização, de transferência de valores, de interação.”

DEFINITIVO

Na Housi, startup 100% digital especializada no aluguel de empreendimentos residenciais em nove capitais, o aumento da eficiência dos cerca de 100 colaboradores na quarentena animou o CEO Alexandre Frankel, que devolveu o espaço alugado pela empresa em um coworking em São Paulo e adotou o trabalho remoto em definitivo. A decisão garantiu à empresa uma economia mensal de R$ 100 mil apenas com o aluguel. “Quando necessitamos de um espaço físico utilizamos uma das propriedades que a Housi aluga”, disse Frankel, também fundador e CEO da construtora Vitacon.

O aumento da produtividade dos colaboradores também foi constatado pelo Banco BV. Segundo Ana Paula Tarcia, diretora de Pessoas e Cultura, as áreas de operações e crédito, por exemplo, registraram crescimento de 15% desde março. “Os setores já estavam adaptados ao modelo”, afirmou. Apesar de ter implantado o trabalho remoto aos 4 mil funcionários pelo Brasil – sendo 2,5 mil em São Paulo e o restante distribuído por 40 lojas em outros estados –, a empresa já adotava o home office havia três anos, com variação de um a três dias de atividade remota dependendo da função.
De olho nos índices sobre a evolução da pandemia pelo País, a instituição financeira planeja o retorno gradual dos funcionários aos escritórios a partir de setembro. A instituição tem realizado pesquisa com os seus profissionais para definir a retomada. Certo mesmo é que o trabalho remoto será ampliado e o BV admite enxugar a estrutura física. Já o quadro colaborativo será ampliado com a contratação de 50 pessoas.

ECONOMIA

Pesquisa on-line com 800 trabalhadores de escritórios brasileiros desenvolvida pela consultoria Robert Half revelou que, para 81,36% deles, a economia de tempo e dinheiro em deslocamentos está entre os principais atrativos do trabalho remoto. O diretor de recrutamento da empresa, Lucas Nogueira, chama atenção ainda ao fato de muitas empresas estarem repassando o valor correspondente ao vale refeição para o vale alimentação dos funcionários, o que tem ajudado na hora das compras. “Já as companhias têm reduzido os custos físicos, principalmente nos grandes centros, com a devolução de espaços de escritórios, vagas de estacionamento e o fim das taxas de condomínio e de energia elétrica”, afirmou. O Banco do Brasil, por exemplo, pretende devolver 19 dos 35 prédios de escritórios. Com 32 mil colaboradores em atividade remota, a instituição vai economizar R$ 1,7 bilhão em 12 anos. “É como se o pai tivesse jogado a criança na água. E ela teve de se virar para não afundar”, disse Nogueira, que vê duas grandes lições da pandemia ao mundo do trabalho: a capacidade de adaptação dos funcionários e das organizações e o papel relevante do “senso de dono” nas atividades futuras. “É aquele que sabe se organizar, não precisa de chefe para ficar cobrando e tem ideia do impacto do trabalho dela na empresa. Ela será mais valorizada no futuro.”

EU ACHO …

OS EFEITOS DA EXCLUSÃO FINANCEIRA NA PANDEMIA

O quadro do novo coronavírus no Brasil prejudica desproporcionalmente as classes mais baixas. E existem razões que tornam a Covid-19 mais mortal para os brasileiros com menor renda

Segundo estudo publicado pelas economistas Luiza Nassif Pires, da Bard College (EUA), e Laura Carvalho, da USP, em parceria com a médica e pesquisadora Laura de Lima Xavier, da Universidade Harvard, pessoas que pertencem às classes socioeconômicas menos favorecidas têm, proporcionalmente, mais comorbidades como hipertensão, obesidade e diabetes. Esses indivíduos têm naturalmente maior probabilidade de apresentar problemas de saúde e menos acesso a hospitais.

Soma-se a isso o fato deque trabalhadores de menor renda têm poucas oportunidades de se isolar prestando serviços remotamente. Isso porque muitas das atividades que exercem nem sequer podem ocorrer fora do local físico de trabalho. É o caso de serviços como limpeza, operação de máquinas ou segurança. Um estudo recente apontou que, na região Norte, para cada trabalhador capaz de realizar suas atividades em regime de home office há cinco que desempenham funções presenciais. Além de mais numerosos, são também mais vulneráveis por estarem expostos ao transporte público.

Dados do Ministério da Saúde apontam que a desigualdade também atinge a política de testes no Brasil. Até maio, apenas 52,8% dos casos foram confirmados por laboratórios públicos.

Outra causa, quase oculta e por isso pouco discutida, é a falta de acesso ao sistema financeiro. Dados do Ministério da Economia indicam que entre 35 milhões e 45 milhões de brasileiros não possuem conta corrente ou poupança. A inclusão financeira permitiria que mais pessoas comprassem produtos essenciais pelo e-commerce. A entrada no sistema financeiro também possibilitaria acesso a serviços populares de saúde por telemedicina. Não faltam exemplos de serviços oferecidos a preços populares, incluindo a possibilidade de avaliação de diversas enfermidades, bem como acompanhamento de casos suspeitos de Covid-19 para que a busca por tratamento seja feita antes do surgimento de sintomas avançados da doença.

Um estudo publicado pela The Lancet destaca que as regiões Norte e Nordeste são as mais afetadas pelo novo coronavírus. Essas regiões também são as que concentram as maiores porcentagens de adultos desbancarizados, com 40% e 37% da população não bancarizada, respectivamente, de acordo com os dados do alt.bank. A pesquisa mostra que mais da metade dos negros (55%) internados em hospitais no Brasil com SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), com confirmação de Covid-19, morreram. Em comparação, apenas 38% da população branca em situação similar perderam suas vidas. Não por acaso, 69% dos brasileiros sem banco são negros, de acordo com dados do Instituto Locomotiva.

Por tanto, todos os fatores estão relacionados entre si e também são conectados com aumento de mortes devido ao novo coronavírus. Quando avaliamos as taxas de desbancarizados no Brasil, a correlação é clara: aqueles que são excluídos do sistema financeiro sofrem desproporcionalmente de Covid-19.

FABIO SILVA – é diretor-geral do alt.bank no Brasil

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

POR TRÁS DAS PALAVRAS

O cérebro lida com um fluxo constante de sinais. Expressões, gestos e palavras revelam o que desejamos e pensamos

Nenhum pensamento desagradável passa pela mente do sr. K. enquanto ele caminha para o supermercado, pouco antes do horário de o comércio fechar. Mas ao entrar no estabelecimento registra o olhar fulminante da moça do caixa, ansiosa pelo final do expediente. No momento em que pega o cartão de crédito para pagar pelas mercadorias, a funcionária é incapaz de conter a explosão: “Chega tarde e, ainda por cima, sem dinheiro! Adoro quando isso acontece…”.

Nesse momento, uma torrente de informações o atinge. O rosto vermelho da moça, sua careta de desgosto e tom de voz grosseiro. Não resta dúvida: ela está mesmo furiosa! Os sinais explosivos que o sr. K. recebe são decifrados e avaliados e m diversas regiões do cérebro com a rapidez de um raio. Logo, também ele está irritado: “Quem ela pensa que é, essa idiota?”.

Há mais de um século, psicólogos e neurocientistas investigam a natureza das emoções e a forma como nossa mente as processa. Descobriram que a comunicação emocional desempenha papel importante no convívio social. Charles Darwin já suspeitava do sentido e do propósito da exteriorização dos sentimentos. A expressão facial típica que acompanha emoções básicas como alegria, raiva ou repugnância foi descrita por ele como um código herdado, capaz de incrementar a cooperação dentro de um grupo e aumentar as chances de sobrevivência.

Um grupo de jovens pesquisadores alemães tem investigado a fundo a linguagem de nossos sentimentos. São psicólogos, médicos e físicos que procuram resposta para a seguinte pergunta: como, afinal, o cérebro processa os sinais emocionais recebidos pelos diversos órgãos dos sentidos?

 Nossa vida emocional é governada de forma decisiva pelo chamado sistema límbico, conjunto de estruturas localizadas nas profundezas do cérebro. Ali, os estímulos sensoriais recebidos ganham coloração emocional particular. Como comprovam diversos estudos, trata-se de atribuição a cargo sobretudo da amígdala. Essa componente do sistema límbico em forma de amêndoa atua como o sinal de alarme, respondendo com mobilização total a estímulos sinalizadores de perigo: o corpo se arma para fugir ou atacar.

É diante dessa escolha que K. se vê no supermercado. A expressão facial da moça do caixa, seu tom de voz malcriado, o significado de suas palavras – todos esses sinais – são interpretados como ameaça. A consequência disso é que ele começa a suar, o coração bate mais forte e ele se prepara mentalmente para o contra­ ataque. Mas, antes mesmo que possa tomar consciência dos sentimentos sinalizados, outras regiões cerebrais devem entrar em ação – em particular áreas sensoriais mais externas do córtex. Elas se distribuem por todo o córtex cerebral, separadas de acordo com o sentido em questão: visão, audição e assim por diante.

A perda de certas funções em pacientes com lesões no cérebro sugere que os hemisférios cerebrais reagem de forma diversa às emoções. Pacientes com lesões do lado direito – resultantes, por exemplo, de derrame – podem perder a capacidade de reconhecer as emoções transmitidas por expressões faciais. Descobertas como essa conduziram à formulação da chamada “hipótese dos hemisférios”. Segundo ela, o hemisfério direito seria responsável pelos sentimentos, ao passo que o esquerdo responderia pela linguagem e pela lógica.

O psicólogo Richard Davidson, da Universidade Harvard, contesta a suposição. Com o auxílio de medições efetuadas com eletroencefalografia (EEC), ele descobriu que em pessoas tristes ou deprimidas o hemisfério direito é o mais ativo, enquanto nas mais alegres e felizes, o esquerdo revela maior atividade. É possível, portanto, que o hemisfério cerebral direito processe apenas emoções chamadas negativas, como o luto, o medo ou a repugnância, cabendo ao esquerdo a parte agradável de nossa vida emocional. Essa suposição ficou conhecida como “hipótese das valências”.

Qual teoria estaria correta, então? “Para responder a perguntas dessa natureza, é necessário um amplo esforço de pesquisa”, afirma a psicolinguista Johanna Kissler, da Universidade de Constança, Alemanha. “Por isso, submetemos pessoas a diversos estímulos – imagens ou palavras portadoras de carga emocional, por exemplo e, paralelamente, medimos a atividade cerebral.” Para tanto, os pesquisadores se valem de diferentes procedimentos: além do tradicional EEC, empregam o magneto encefalograma (MEC) ou a tomografia funcional por ressonância magnética (fMRI). A combinação desses métodos permite compreender com mais exatidão o processamento dos sentimentos no cérebro.

ATENÇÃO DIRECIONADA

Seu colega Markus Junghõfer lançou-se à investigação de como percebemos imagens de conteúdo emocional. Ele mostrou a pessoas saudáveis fotos contendo cenas neutras, repugnantes e estimulantes. O detalhe da apresentação foi o fato de as cenas cintilarem às centenas numa tela, sucedendo-se à razão de até cinco por segundo. A sequência veloz permitiu ao pesquisador medir até mesmo respostas brevíssimas do cérebro ao conteúdo emocional apresentado.

Os resultados mostraram que, 200 milissegundos após terem piscado na tela, as imagens com carga emocional deflagraram um pronunciado sinal elétrico no córtex visual, tão mais forte quanto mais provocativa a imagem em questão, fosse ela uma cena de sexo ou de perigo. Portanto, o conteúdo emocional dos estímulos sensoriais influencia rapidamente o processamento cerebral em regiões sensoriais mais externas.

“É plausível supor que o sistema límbico responde a estímulos-chave antes mesmo de a informação contida na imagem chegar ao córtex visual”, acredita Junghõfer. “A amígdala, por exemplo, poderia, em frações de segundo, dirigir nossa atenção visual para estímulos importantes.” A ativação do sistema límbico, verificada em medições com fMRI, favorece essa interpretação. Do ponto de vista evolutivo, tal reação­ relâmpago da “atenção direcionada” faz sentido: quem se afasta a toda velocidade de potenciais fontes de perigo ou se aproxima rapidamente de estímulos atraentes – de uma presa, por exemplo – aumenta suas chances de sobrevivência.

A sequência de fotos revelou ainda mais. O sinal cerebral mostrou-se nitidamente mais forte do lado direito, provavelmente porque as redes neuronais responsáveis por atenção e orientação espacial se situam no hemisfério direito. Mas o que acontece quando submetemos as pessoas a palavras ou frases de conteúdo emocional? Na maioria de nós, as áreas responsáveis pelo processamento da linguagem situam- se no hemisfério esquerdo. Nesse caso, será esse lado o mais ativo ou prevalece rá ainda assim o hemisfério direito?

Os pesquisadores de Constança examinaram também essa questão. Para tanto, em vez de imagens, apresentaram aos participantes adjetivos de cargas neutra, positiva e negativa. Mais uma vez, constataram a presença do já mencionado sinal elétrico imediato no córtex visual, em resposta a estímulos emocionais – agora, porém, com predominância do lado esquerdo do cérebro. Evidencia-se, pois, que a rápida ativação do sistema límbico faz com que os sinais recebidos sejam processados com mais precisão pelas regiões cerebrais correspondentes.

Outro integrante do grupo, o neurologista Dirk Wildgruber, baseou seus experimentos na entonação das palavras. Com frequência, o modo como dizemos as coisas transmite mais informação emocional do que o que estamos dizendo. Isso se verifica quando conteúdo e entonação se apartam um do outro, como no caso da ironia. “Adoro quando isso acontece…”, diz a caixa, mas K. compreende muito bem a crítica, porque percebe mais autenticidade no tom do que no enunciado. Aos participantes de sua experiência, Wildgruber apresentou frases como “Tenho visitado a Agnes todo fim de semana”, ditas por um ator ora com alegria, ora com frustração e ora de forma neutra. Elas foram gravadas e editadas em computador de forma a diferir apenas em altura e na duração das vogais. Isso bastou para que os ouvintes percebessem a força da expressão emocional.

SECREÇÃO REDUZIDA

No entanto, para percebê-la, precisam não apenas ouvir e compreender as frases, mas também dirigir sua atenção para a qualidade sonora de cada uma, armazenando-a na memória operacional. Tudo isso pode ser constatado na leitura dos padrões de atividade registrados pelas imagens de tomografia funcional. Além disso, a coloração emocional estimulou duas áreas do córtex – uma na porção frontal do cérebro, outra no lobo parietal – e, aliás, de modo mais pronunciado do lado direito.

“O êxito na diferenciação das entonações baseia-se, no entanto, em numerosas contribuições parciais dos dois hemisférios”, salienta o pesquisador, incitando à reflexão. Está claro, portanto, que não se pode afirmar de forma cabal se cabe de fato ao hemisfério direito a primazia no trato das emoções. Isso parece depender, antes, da modalidade sensorial em questão e de como se dá a estimulação.

No futuro, os pesquisadores pretendem investigar as perturbações no processamento dos sentimentos nas pessoas que sofrem de distúrbios psíquicos. Na Universidade de Mannheim, na Alemanha, a psiquiatra Gabriele Ende estuda pacientes deprimidos. Eles têm mais dificuldade de reconhecer os sentimentos dos outros, assim como de comunicar os seus próprios, supostamente em virtude da secreção reduzida de certos neurotransmissores no cérebro. Com o auxílio da espectroscopia por ressonância magnética (ERM), a pesquisadora mede os produtos do metabolismo no tecido nervoso dos pacientes. No hipocampo – região cerebral importante para a memória de longo prazo -, os depressivos exibem uma quantidade menor de metabólitos do neurotransmissor acetilcolina do que as pessoas saudáveis. Cabe agora descobrir se as mesmas disfunções na central de sentimentos do sistema límbico poderiam explicar a perturbação no processamento de emoções.

Embora ainda haja muito por pesquisar, uma coisa é certa: a noção popular de um hemisfério direito “emocional” oposto a um hemisfério esquerdo “racional” nada mais é que uma simplificação grosseira. É fato que muitos estudos mostram um processamento mais intenso de sinais emocionais do lado direito do cérebro, mas a comunicação emocional demanda tantos canais e processos parciais diferentes que a “hipótese dos hemisférios” pode, no máximo, almejar um grau restrito de acerto.

A comunicação emocional ainda é uma equação com muitas variáveis. Por experiência própria, sabemos que também nosso estado de espírito influencia a maneira como acolhemos os sentimentos alheios. Se K. tivesse sido promovido naquele dia, talvez pouco tivesse se importado com o mau humor da moça do caixa. Mas deixou-se contagiar pelo rancor da funcionária – ainda que tenha se arrependido logo em seguida.

EMOÇÕES INSTANTÂNEAS:

O cérebro reage de forma distinta diante de cada uma das imagens menos de 200 milissegundos depois de observá-las. A intensidade das reações registradas por encefalografia variada menos intensa à mais forte.