EU ACHO …

QUE EDUCAÇÃO VAMOS CONSTRUIR?

O isolamento social trouxe à tona algo que já estávamos percebendo: as escolas não estão preparadas para desenvolver os jovens para o futuro

Nesses 150 dias de quarentena por causa do novo coronavírus, muitos de nós vivemos tudo junto e misturado cm nossa casa – inclusive a educação dos filhos. E certamente essa experiência deixou claro que o futuro demandará outras qualidades e especialidades educacionais. Embora não seja novidade que muitas das escolas do país ainda estão presas ao “paradigma do conteúdo”, foi grande o impacto de ver nossas crianças e jovens estudando dentro de casa. É inquietante que elas sejam incentivadas a memorizar, durante horas a fio, diferentes conteúdos, desde as etapas de reprodução da água viva até fórmulas matemáticas complexas. Tudo porque o currículo escolar não pode ser perdido e porque ainda estamos presos a um conceito antigo de educação.

Mas talvez tudo isso gere um lado positivo para o futuro. Quero acreditar que esse quadro de complexidade imposto às escolas e às famílias esteja trazendo à tona os principais pontos que deverão ser discutidos no mundo pós-pandemia. Muita coisa está sendo testada agora, mas o maior saldo do que vivenciamos passará pela construção de planos de educação híbridos. Isso quer dizer que o saber será construído entre o mundo intelectual e o emocional – e não apenas entre o mundo físico e o digital.

O futurista Thomas Frey, um dos grandes pensadores sobre nosso mundo, explica de forma bastante clara por que precisaremos revisitar nossos sistemas educacionais. Ele diz o seguinte: “Estaremos vivendo nas próximas décadas em um mundo que exigirá pessoas de maior calibre moral e ético para fazê-lo funcionar”. Para isso, professores não vão atuar apenas na transferência de conhecimentos. A função dos educadores será fazer a arquitetura dos saberes utilizando as tecnologias como meio – e não simplesmente como um fim em si.

Entendo que temos uma grande oportunidade em nossas mãos. Devemos usar este momento de isolamento social e de homeschooling para ir muito além de encontrar a melhor forma de utilizar tecnologias digitais nas escolas. Nosso papel será, principalmente, o de refletir sobre as maneiras de trazer novos valores para as jornadas educacionais, pois precisamos urgentemente de alunos podendo se desenvolver integral e humanamente. E não ficar decorando fórmulas que serão esquecidas em breve.

Eu já disse isso aqui algumas vezes, mas repito porque é algo em que acredito muito: é da conexão do melhor da tecnologia com o melhor do humano que evitaremos distopias tecnológicas e educacionais. Só assim conseguiremos, enfim, preparar nossos jovens para que se tornem criadores de novos paradigmas para um mundo que necessita urgentemente de reinvenção.

LIGIA ZOTINI – pensadora e pesquisadora de futuro, é fundadora do Voicers. Tem uma carreira de 15 anos em tecnologia e de 20 anos em educação.ligia@voicers.com.br

OUTROS OLHARES

É VOCÊ QUEM PAGA

Em meio à pandemia, funcionários dos Correios entraM em greve. Motivo: a direção da empresa quer acabar com o “vale-peru”, o “vale-cultura”, “o bônus de férias” e outros privilégios

No Brasil, que sofre com a pandemia do coronavírus, milhões de trabalhadores perderam o emprego, mais alguns milhões tiveram o salário suspenso ou reduzido e outros tantos milhões estão vivendo à custa do auxílio emergencial do governo. Enquanto uns sofrem, outros lutam para manter suas benesses. Funcionários dos Correios realizaram uma assembleia em Brasília. Na pauta, a aprovação de um indicativo de greve – proposta que, num primeiro momento, chamou a atenção apenas por ocorrer numa situação absolutamente inoportuna. Mas ela ganha contornos de bandalha quando se verifica que a motivação dos trabalhadores para cruzar os braços é evitar o corte de determinados privilégios e beira o escárnio quando se descobre a que se referem os tais mimos.

Os Correios têm quase 100.000 funcionários, 6.000 agências espalhadas pelo país e um faturamento superior a 18 bilhões de reais, mas, nos últimos anos, enfrentam uma crise financeira sem precedente. Se fosse uma empresa privada, provavelmente teria fechado as portas, abatida por um prejuízo que ultrapassa 2,4 bilhões de reais. Seguindo os manuais ortodoxos de administração, a estatal decidiu recentemente promover uma série de cortes de despesa. Um dos alvos da tesoura é o pacote de benefícios dos empregados. Um exemplo: a lei garante ao trabalhador o direito de receber um abono de férias correspondente a um terço de seu salário. Os Correios pagam dois terços. Além disso, mesmo em férias, o funcionário ainda recebe 1.000 reais de vale­ alimentação. Outro exemplo: a licença­ maternidade na estatal é de até 180 dias – dois meses a mais que o previsto em lei. Há ainda um auxílio-creche para crianças até 7 anos (que, nessa idade, em tese, já não estariam mais na creche), um “vale-cultura” mensal e um inusitado “vale-peru” anual, como é chamado o pagamento de um bônus natalino de 1.000 reais.

Diante dos números superlativos dos Correios, esses privilégios parecem penduricalhos sem importância. Mas, nos cálculos da própria estatal, custam cerca de 600 milhões de reais por ano. “Os benefícios estão sendo tirados porque a empresa não tem capacidade financeira nem condição de sustentar perante a sociedade a preservação deles em um momento tão difícil”, diz o general Floriano Peixoto, presidente da estatal. No ano passado, já em fase de restrições, os Correios registraram lucro, mas a recuperação, assim como aconteceu com outras empresas, foi interrompida com a chegada da pandemia. Em um comparativo com o primeiro semestre de 2019, a receita despencou. Apesar de a crise ter aumentado em 30% o movimento do setor de encomendas, o faturamento no segmento de cartas e correspondências sofreu uma redução de 820 milhões de reais, quando se compara o primeiro semestre deste ano com o mesmo período do ano anterior.

Em mensagem enviada aos funcionários, a estatal ressaltou que ainda houve gastos extras motivados pela pandemia, provocados pelo fechamento temporário de algumas unidades e a contratação de mão de obra terceirizada para compensar o afastamento de funcionários, e pediu a compreensão de todos. O argumento, no entanto, não sensibilizou a categoria, que promete paralisar as atividades em agosto. “O que está acontecendo é algo completamente fora do esquadro, coisa de ditadura, não tem cabimento. Como que, de uma hora para outra, fala-se em ignorar tudo o que foi negociado ao longo de anos?,” afirma Marcos César Alves, vice-presidente da Associação dos Profissionais dos Correios. Ele lembra que metade do quadro funcional dos Correios é formada por carteiros, que têm salário inicial de 1.757 reais, fora os benefícios. A estatal, por sua vez, calcula em 4.000 reais a remuneração média de seus funcionários. Hoje, a folha de pagamentos gira em torno de inacreditáveis 12 bilhões de reais (alô, Paulo Guedes!).

A Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) foi criada durante a ditadura militar, em 1969, época em que a maior parte das comunicações de longa distância era realizada por meio de cartas. “Por mim, privatizava tudo, porque assim vai se desmobilizando uma atividade que já está quase em extinção”, diz a economista Elena Landau. O próprio presidente Bolsonaro anunciou, logo no início da gestão em uma entrevista, a intenção de privatizar os Correios até 2021. A proposta, porém, ainda engatinha. A primeira etapa do processo, cuja responsabilidade é do BNDES, é a contratação de uma consultoria que vai se debruçar sobre a situação da empresa e traçar uma estratégia sobre o melhor formato de venda. Calcula-se que esses estudos, quando iniciados, levem de dois a três meses para ser concluídos. Na sequência, vem a parte mais complicada: a negociação política.

Ao lado do Ministério da Economia e da Secretaria do Programa de Parcerias de Investimentos, a privatização será tocada pelo Ministério das Comunicações, recém­ assumido pelo deputado Fábio Faria. A missão do ministro será convencer deputados e senadores, historicamente refratários a privatizações, a encampar a proposta. Quem acompanha de perto o Congresso demonstra total incredulidade com o avanço da medida no curto prazo. Isso porque, além da conhecida má vontade dos parlamentares em relação ao tema, o ano legislativo já está praticamente encerrado em razão do calendário eleitoral. “Além disso, o presidente não vai querer começar a discutir um projeto de privatização polêmico e desgastante faltando um ano para a eleição”, aposta um experiente parlamentar. A equipe do ministro Paulo Guedes, otimista, afirma que o processo será concluído até julho do ano que vem. Já a greve dos servidores, como estava programada, começou no dia 18.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE AGOSTO

OS CÉUS VISITAM A TERRA

E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus (Lucas 2.13).

O nascimento de Jesus foi primeiramente proclamado aos pastores que guardavam seus rebanhos nos campos de Belém. O anjo apareceu-lhes e a glória de Deus brilhou ao redor deles. Ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor (v. 10,11). A mensagem angelical enfatizou três verdades sublimes sobre o Natal:

1) Jesus é o Salvador do mundo. Não há salvação em nenhum outro nome. Só Jesus salva. Só ele é o mediador entre Deus e os homens. Só ele é o caminho, e a verdade e a vida. Só ele é a porta das ovelhas.

2) Jesus é o Cristo, o Messias, o prometido e o desejado de todas as nações. Foi prometido na eternidade, anunciado pelos patriarcas e profetas e, na plenitude dos tempos, desceu do céu à terra para nos resgatar dos nossos pecados.

3) Finalmente, Jesus é o Senhor. Aquele menino que nasceu na manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz, deixou o túmulo aberto, voltou ao céu e está à destra de Deus Pai reinando soberanamente em todo o universo. Diante dele se dobra todo joelho no céu, na terra e debaixo da terra. Toda língua há de confessar que Jesus é o Senhor, para a glória de Deus Pai.

GESTÃO E CARREIRA

A SAÚDE NA ERA DIGITAL

O que hospitais, laboratórios, healthtechs e clínicas médicas estão trazendo de inovação tecnológica para mudar para sempre sua relação com a medicina.

Fazer contas é uma boa maneira de enxergar contextos. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que os gastos no setor equivalem a 10% do PIB global. Nos países de alta renda, eles representam US$ 270 por pessoa. Nos de renda média e renda baixa caem para US$ 60. No primeiro bloco, esse valor cresce 4% ao ano. No segundo, 6%. Na média global, 51% das despesas são custeadas pelo poder público. Há hoje 7,7 bilhões de pessoas. Em dez anos a previsão é que sejamos 8,5 bilhões – alta de 10,4%. Além disso, viveremos cada vez mais. O resultado é que a conta não fechará. E o cenário da saúde de hoje será a trava do crescimento de amanhã. Em especial nos países de economias mais frágeis ou instáveis. A saída estará em saltos tecnológicos e de inovação. “O futuro será muito mais centrado no paciente e orientado a dados”, disse Tim M. Jaeger, head global de Soluções de Informações de Diagnóstico da Roche, no estudo Clinical Decision Support. Saiba o que os principais hospitais, laboratórios e healthtechs do Brasil trazem para revolucionar as práticas de saúde num motor não só de bem-estar, mas também de toda a economia.

Há seis décadas a humanidade alcançou uma marca sem precedentes. A expectativa média de vida superou os 50 anos. De 1960 até 2020 ela saltou num ritmo exponencial. No ano passado, das 141 milhões de crianças nascidas, as do gênero masculino viverão em média 69,8 anos e as do gênero feminino, 74,2 anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso de um lado. De outro, a mesma OMS divulgou em 2018 a última classificação mundial de doenças, a CID-11. São 55 mil. Juntando as duas pontas o que se tem é mais pessoas vivendo mais em meio a mais doenças. É esse nó na saúde pública que precisa ser desatado. Com velocidade, volume e qualidade. E a tecnologia estará encarregada de resolver o problema.

O serviço de telemedicina do Hospital Albert Einstein já tem em sua base 1,6 milhão de brasileiros de mais de 1,2 mil cidades – cobertura muito superior à abrangência de suas unidades físicas. E isso só deve aumentar. “Dentro de um ano, mais de 50% dos médicos já terão realizado algum tipo de atendimento a distância”, disse à DINHEIRO o presidente do Einstein, Sidney Klajner. “Em três anos, esse número deve passar dos 90%.” A atuação do grupo na área vem desde 2012. Mas a explosão de interações se deu na pandemia de Covid-19. Os atendimentos virtuais saltaram de 70 para 1 mil por dia. “A telemedicina tem sido muito favorável para acompanhar pacientes com doenças crônicas ou em situações agudas de baixa complexidade”, afirmou Klajner. Em pesquisas internas, o Einstein constatou que mais de 90% dos usuários classificam a telemedicina como boa ou ótima.

Esse ponto é decisivo. A aceitação das pessoas. No Hospital Alemão Oswaldo Cruz, isso vem conjugado à aceleração. “Recebi ontem [terça-feira, 28] relatório concluindo que avançamos dez anos em 90 dias”, afirmou Allan James Paiotti, superintendente do Oswaldo Cruz. A avalanche tecnológica, no entanto, não está descolada de um tema sempre sob discussão quando se trata de telemedicina: a relação de confiança e empatia entre médico e paciente. E muitas vezes a resposta vem de cuidados simples. “Algo que tem ajudado muito é o contato visual com o médico”, afirmou Paiotti. “Nossa interface foi desenhada, e os médicos treinados, para sempre existir o contato olho no olho com os pacientes. É algo muito sutil, mas que supera nossas expectativas.”

Essa era a questão que talvez mais preocupasse de pacientes a médicos renomados: a de que a tecnologia comprometesse parte da relação. No United Health Group, empresa americana presente em mais de 130 países, o mergulho tecnológico se dá em duas frentes. Numa, com seus 33 hospitais no Brasil, que incluem o Samaritano Higienópolis (São Paulo) e o Pró-Cardíaco (Rio de Janeiro), sob a bandeira Americas Serviços Médicos. Em outra, com a Amil e seus 3,5 milhões de beneficiários de planos médicos. “Utilizamos soluções de Inteligência Artificial e Inteligência Cognitiva principalmente para análise automatizada e suporte a decisões”, afirmou Jalmor Muller, vice-presidente de Tecnologia da Informação do United Health Group Brasil. Na Amil, a telemedicina começou a ser oferecida desde julho do ano passado a um grupo de 180 mil clientes do plano premium. Em março, com a explosão da pandemia no Brasil, foi lançada solução para todos os 3,5 milhões de beneficiários. Em quatro meses já foram realizados mais de 380 mil atendimentos. O diretor médico da Amil, Fernando Pedro, diz que a aprovação foi universal. “Houve aceitação de 92% entre os clientes, incluindo idosos, que já respondem por 16% dos atendimentos.”, afirmou. Ele credita os índices a um componente mais assimétrico na relação médico-paciente. “A telemedicina empodera os usuários.”

Não apenas nas grandes redes privadas as soluções de ponta se destacam. O paulista Instituto do Coração (Incor), que faz parte do complexo Hospital das Clínicas (HC), mostra que a telemedicina é um jogo ganha-ganha. Desde 2009, com a crise do H1N1, se acentuou a discussão sobre a necessidade de uniformização de atendimentos e especialmente de resultados nos tratamentos. As discussões culminaram na criação de uma Unidade de Terapia Intensiva ‘líder’. “Os membros dessa UTI respiratória, em vez de dar plantão nela, dão plantão na telemedicina e interagem com colegas de diferentes hospitais do estado. Já estamos indo para 20 hospitais da rede pública de São Paulo”, afirmou o professor Carlos Carvalho, coordenador da TeleUTI do Incor. É um ecossistema de soluções. Para ele, o avanço tecnológico levará a mudanças transformadoras no segmento. “Hospitais só terão doentes graves. Casos mais simples serão tratados em casa.”

A telemedicina na UTI também é uma solução do Hospital Moinhos de Vento. Na rede gaúcha, um projeto de TeleUTI pediátrica está conectada a parceiros em Palmas (TO) e Sobral (CE). O resultado é mais saúde à população. “Em um de nossos hospitais reduzimos em mais de 50% a mortalidade na UTI pediátrica, sendo que a redução de 5% é considerada ótima e uma de 10%, fenomenal”, disse Felipe Cabral, responsável pela área de Telemedicina do Moinhos. Ele aposta em outros procedimentos de certa forma não complexos como ferramentas tecnológicas. “Tenho certeza absoluta de que a introdução de wearables vai melhorar e ampliar o leque de diagnósticos.” O que acarretará em agilidade, conforto. Ganhos. “A tecnologia aproxima as pessoas, não afasta”, afirmou Cabral. Com muita saúde.

Em um cenário de isolamento social imposto pelo aumento de casos da Covid-19, que já infectou cerca de 2,5 milhões de pessoas no Brasil, o atendimento médico de forma virtual tornou-se mais do que uma alternativa ao contato presencial entre paciente e médico para se transformar em uma questão de saúde pública. Se antes da quarentena a dificuldade de acesso ao profissional de saúde era algo bem significativo no País, em seus 5.570 municípios, com a crise sanitária o abismo se acentuou. Mas o ponto de partida já foi definido. Nesse contexto, inovar significa garantir mais acesso a consultas, em diferentes tipos de plataformas.

Entre as principais empresas de medicina diagnóstica no País, a adoção da telemedicina é vista como caminho sem volta, independentemente da reabertura gradual da economia e flexibilização de circulação nos municípios. “Vivemos o melhor momento para o binômio médico-paciente. Num país com as nossas dificuldades de acesso, a telemedicina significa acesso à saúde”, disse Ana Elisa Siqueira, CEO da GSC, empresa que integra o grupo Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil. O trabalho de atendimento remoto foi intensificado a partir da regulamentação em caráter emergencial, no fim de março, pelo Ministério da Saúde, durante a pandemia do novo coronavírus.

Nos últimos três anos, a empresa destinou R$ 3 bilhões para ações de transformação digital e acelerou processos nos últimos meses, já durante a pandemia. Hoje, segundo a companhia, são 1 milhão de vidas com acesso à telemedicina. De março até agora, foram atendidos 13 mil pacientes por meio do Pronto Atendimento Digital, a quem manifestou sintomas da doença. Mais recentemente, a telepsicologia foi incorporada pelo GSC. “É uma oportunidade para darmos um passo além na gestão da saúde com o uso da tecnologia”, afirmou Ana Elisa.

SUSTENTABILIDADE DO SISTEMA

A SantéCorp, do grupo Fleury, ampliou a presença nessa modalidade com a plataforma Olhar Digital, que inclui consulta on-line, prontuário eletrônico, ferramenta de anamnese (informações completas do paciente para ajudar no diagnóstico) e acesso a exames realizados nas unidades do grupo de medicina diagnóstica. “A telemedicina vem não só para conectar médicos, mas também para contribuir com a otimização de investimentos e auxiliar na sustentabilidade do sistema”, afirmou o CEO da empresa, Eduardo Oliveira. Ainda que engatinhando no País, a telemedicina já segue as recomendações da Lei Geral de Proteção de Dados, que entrará em vigor em 2021, algo que poderia ser alvo de preocupação por possíveis vazamentos. “Há a garantia do sigilo da consulta e da guarda de informações do paciente”, disse o executivo da SantéCorp.

Antes mesmo da relação remota entre o profissional de saúde e quem precisa de atendimento, o grupo Hermes Pardini passou a adotar, em 2014, exames diagnósticos a distância, especialmente telerradiologia e telecardiologia. Com a pandemia, foram incorporados serviços como triagem clínica – principalmente para suspeitas da Covid-19 – e saúde mental, com telepsiquiatria e telepsicanálise. “De maneira muito acelerada, médicos e empresas de saúde têm compreendido esse movimento, principalmente quando percebem que a tecnologia é uma aliada”, disse Alessandro Ferreira, vice-presidente comercial e de marketing do grupo.

A gestão orientada a soluções tecnológicas pede investimentos de todos os players do segmento. O Grupo Integra de Medicina Diagnóstica-Isa Home Lab investiu R$ 1,5 milhão em inovações para atendimento a pacientes. “Isso ajuda em 80% dos casos de quem iria ao pronto-socorro por uma queixa comum”, afirmou o sócio- fundador David Pares. “Um paciente com dor de cabeça pode ser consultado por um clínico por telemedicina, receber a medicação on-line e evitar uma tomografia desnecessária.” Esse é o diferencial. Ao eliminar o desnecessário, o sistema como um todo se torna mais eficiente.

A análise de Pares é semelhante à do fundador da rede de clínicas Alba Saúde, Paulo Granato, que planeja lançar sistema de autoatendimento com reconhecimento facial, para garantir os processos de agendamento, atendimento e pagamento sem necessidade de interação humana. “Temos soluções de laudos remotos para eletrocardiograma, Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (Mapa), Holter, raios-x e mamografia, além da introdução recente das consultas on-line”, afirmou o dirigente da rede. Já o sócio do grupo Velas e diretor-clínico do Instituto Trata, o médico Thiago Fukuda conta que, nas suas unidades médicas, que reúnem 200 endereços no País, os projetos de tecnologia foram antecipados com a quarentena. “Investimos R$ 2 milhões em um software e mais R$ 500 mil em um aplicativo que gerencia as clínicas e o tempo dos profissionais”, disse.

Há quem aposte em diminuição gradual no trânsito de pacientes para locais físicos, com a consolidação dos serviços de medicina por meio virtual, mesmo após o fim da pandemia, a retomada da economia e a aguardada vacina. Alessandro Ferreira, do Hermes Pardini, diz que isso não significa que a telemedicina irá substituir a maneira tradicional de atendimento. “Mas estamos longe de explorar todas as alternativas”, afirmou. Um bom indicativo de que estaremos trilhando de fato nesse caminho será quando, em vez de procurarmos o endereço do consultório, passarmos a procurar antes o aplicativo no celular que garanta o atendimento rápido. Sem precisar dar um único passo.

Crescimento rápido, soluções tecnológicas, encurtando processos e gerando lucros sem custos exorbitantes. O conceito de startup nunca esteve tão em alta. O Brasil possui 13,3 mil empresas desse tipo, segundo a Associação Brasileira de Startups (ABStartups), quantidade 2.117% maior do que em 2011. As chamadas healthtechs, somam 3,5% do total, atrás apenas das voltadas para Educação (5,9%), Finanças (4%) e Internet (3,6%). O ecossistema criado por elas tomba na ponta final, o consumidor. Duas parcerias da rede Raia-Drogasil, Conexa e Dr. Consulta, já levaram a 15 mil pedidos de telemedicina em apenas quatro meses. Confira, a seguir, nove cases de startups na saúde.

BIOMETRIA CONTRA A TOSSE

A Unike Technologies nasceu em 2019 para oferecer identificação e autenticação por biometria. Durante a pandemia, após receber investimentos de R$ 3 milhões, a frictech ganhou sua vertente healthtech e desenvolveu um hardware para tablet com câmera que realiza medição de temperatura e checagem do uso de máscaras. Também participa de um projeto para uso do microfone e da câmera dos smartphones para efetuar a Tussinografia (estudo do som da tosse) e diagnosticar Covid-19. “Esses conceitos estarão presentes de agora em diante”, afirmou André Barretto, fundador e CEO da Unike Technologies.

ALTA ASSERTIVIDADE

Há 16 anos no mercado de telemedicina, a GetConnect viu a demanda por dermatologia, reumatologia e neurologia crescer na pandemia. A empresa atua com 21 mil médicos e possui cerca de 580 mil pacientes cadastrados. Nos próximos meses, será lançada uma nova ferramenta, o Midas, que vai auxiliar os médicos no diagnóstico. “Um profissional de saúde não tem como absorver milhares de informações. Agregaremos resultados de exames laboratoriais, o que aumentará a assertividade”, disse Marcelo Fanganiello, diretor da GetConnect.

DECISÕES RÁPIDAS

O tradicional modelo de médico da família ganha contornos tecnológicos com a Amparo Saúde, que realiza 20 mil teleconsultas por mês. “Hoje, representam 85% dos nossos atendimentos”, afirmou Emílio Puschmann, CEO e fundador da companhia. Após triagem inicial, feita por aplicativo, site ou telefone, a atendente eletrônica realiza o encaminhamento do paciente. No atendimento, há soluções de vídeo, solicitação de exames, envio de receitas e laudos, tudo de forma 100% digital.

AUTOMATIZAÇÃO E QUALIDADE

Com o fim da quarentena é consenso de que as pessoas estarão receosas em sair de casa, mesmo para ir à consulta, o que leva impactos negativos a consultórios médicos. O que leva o app Docway a ganhar ainda mais relevância – na pandemia e provavelmente em seu pós. A ferramenta usa tecnologia para agendamentos, transmissão de dados, prontuários médicos e envio de receitas. “Fazemos tudo que puder ser automatizado sem prejuízo da qualidade do atendimento”, disse Fábio Tiepolo, CEO da startup. Levantamento da empresa mostra que 70% dos pacientes voltam a fazer uma teleconsulta depois de 60 dias.

FOTO DO BEM

Sabe aquela selfie que você faz de brincadeira? Para a Conexa Saúde, essa foto pode servir para analisar seus sinais vitais, com o uso de Inteligência Artificial. A plestimografia facial está em testes e deve ser usada em breve. Por enquanto, a startup utiliza biometria facial para elegibilidade de acesso médico. Além disso, faz transcrição do áudio da teleconsulta para reduzir o tempo de documentação do atendimento. “E estratificamos diversos dados de saúde dos usuários, entre eles doenças prévias e sintomas”, afirmou Guilherme Weigert, CEO da Conexa.

TERRENO FÉRTIL

A Teladoc Health, que chega a realizar globalmente 20 mil teleconsultas por dia, viu esse modelo de atendimento acelerar durante a pandemia. Aumentaram principalmente os diagnósticos radiológicos, teleorientações médicas e teleconsultas psicológicas e nutricionais. A empresa enxerga um terreno fértil diante do cenário brasileiro, segundo Jean Marc Nieto, diretor-geral da Teladoc Brasil. No País, apenas 25% da população têm plano de saúde e o SUS sofre com a falta de recursos e sobrecarga de atendimento.

PADRÕES DE COMPORTAMENTO

Graças à tecnologia, 98% dos pacientes do Grupo Iron têm seus casos solucionados por atendimento virtual e apenas 2% precisam ir ao consultório. Segundo a empresa, isso acontece devido à utilização de padrões comportamentais dos pacientes, por meio de respostas a inquéritos e comentários dos médicos. “Usamos algoritmos em processos internos e mapeamento de dados”, afirmou Jorge Ferro, fundador e CEO do Grupo Iron, que está em seu primeiro ano no Brasil e prevê faturamento de R$ 40 milhões em 2020.

POR E-MAIL E SMS

Implantada no Brasil em 2012, a receita médica digital tornou-se essencial durante a pandemia. “Um movimento que, talvez, levasse cinco anos para ocorrer, aconteceu em apenas dois meses”, disse Ricardo Moraes, CEO da Memed, que apenas em junho registrou 120 mil médicos, 25 mil farmácias vendendo medicamentos com receita digital e mais de 1 milhão de prescrições eletrônicas. Os documentos são enviados ao usuário por e-mail ou SMS. “Esse processo proporciona segurança ao paciente e garante o entendimento exato do produto prescrito na receita.”

NUM SÓ LUGAR

A proposta do InterPlayers é oferecer serviços de saúde num só lugar . Para isso, atua em cinco frentes: Pharmalink (markteplace B2B, que integra 70 mil farmácias do País e 500 centros de distribuição), Portal Especialidades (marketplace de produtos de alto custo e alta complexidade, que integra hospitais e clínicas com a indústria e a distribuição), Portal da Drogaria (canal de relacionamento entre farmácias e consumidor), Go Pharma (atendimento cognitivo, centrais de atendimento e mídia social) e QuickMed (atende médicos na geração de demanda e início de tratamento). Com tudo isso, a empresa registrou, em 2019, R$ 43 bilhões transacionados e 1 milhão de usuários. “Usamos machine learning e Inteligência Artificial para análise de dados e direcionamento dos esforços dos nossos clientes”, afirmou Mario Souza, gerente de soluções da InterPlayers.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

OS CÓDIGOS DA MEMÓRIA

Em meio a debates a respeito de como as recordações são armazenadas, duas teorias científicas rivais destacam-se. Uma sugere que cada conceito, pessoa ou coisa de nossa experiência diária está associado a um neurônio específico. A outra hipótese afirma que recordações são distribuídas por milhões de neurônios. Vários experimentos recentes revelam, porém, que pequenos conjuntos de células cerebrais são responsáveis pela decodificação mnêmica

Certa vez, o brilhante neurocirurgião russo Akakhi Akakhievitch recebeu em seu consultório um paciente que dizia querer se esquecer da mãe, autoritária e cruel. Determinado a atender ao pedido, abriu o cérebro do rapaz e, um a um, retirou vários milhares de neurônios – todos relacionados à memória da mãe. Quando o paciente acordou da anestesia, todas as lembranças dela, boas e más, haviam desaparecido. Eufórico com o sucesso, Akakhievitch voltou sua atenção para o empreendimento seguinte: a procura de células ligadas à memória de “avó”.

É claro que se trata de uma ficção. Há 50 anos, o falecido neurocientista Jerry Lettvin (este sim de verdade) contou a história para uma multidão de estudantes do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), para ilustrar a ideia provocativa de que apenas 18 mil neurônios poderiam formar a base de qualquer experiência consciente, pensamento ou lembrança de uma pessoa ou objeto ao nosso redor. Lettvin nunca provou ou refutou sua hipótese audaciosa e, por mais de 40 anos, cientistas debatem, em geral em tom de brincadeira, a ideia de “células avó”.

O conceito de neurônios que armazenam lembranças de forma tão específica remete ao filósofo e psicólogo William James, que, no final do século 19, concebeu a noção de “células pontifícias”, às quais nossa consciência estaria conectada. Mas essa tese contraria a visão dominante de que percepções específicas são possíveis graças à atividade coletiva de muitos milhões, ou até bilhões, de células nervosas – que o ganhador do Nobel Charles Sherrington denominou “democracia de um milhão”, em 1940. Nesse caso, a atividade de qualquer célula nervosa individual é insignificante; apenas a colaboração de populações numerosas de neurônios cria significado.

Neurocientistas continuam a discutir se são precisos relativamente poucos neurônios, da ordem de milhares (ou menos), para servirem como repositórios de determinado conceito, ou se são necessárias centenas de milhões distribuídos amplamente por todo o cérebro. Tentativas para resolver essa discussão estão levando a um novo entendimento do funcionamento da memória e do pensamento consciente.

Há alguns anos, juntamente com Gabriel Kreiman, agora membro do corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade Harvard, e Leila Reddy, atualmente cientista do Centro de Pesquisas do Cérebro e da Cognição em Toulouse, França, realizamos experimentos que levaram à descoberta de um neurônio no hipocampo de um paciente, região do cérebro conhecida por seu envolvimento em processamento de memória, que reagiu de modo muito evidente a diferentes fotografias da atriz Jennifer Aniston, mas não a dezenas de outras atrizes, celebridades, lugares e animais. Em outro paciente, um neurônio no hipocampo se iluminou ao ver imagens da atriz Halle Berry e até mesmo diante do nome dela escrito na tela do computador, mas não reagiu a nada mais. Outro neurônio disparou seletivamente para imagens de Oprah Winfrey e para seu nome escrito na tela e falado por uma voz sintetizada por computador. Outro, ainda, reagiu às imagens de Luke Skywalker e a seu nome escrito e falado etc.

COISAS DA VOVÓ

Esse tipo de observação é possível pelo registro direto da atividade de neurônios individuais. Outras técnicas mais comuns, como a ressonância magnética funcional, podem identificar atividade em todo o cérebro quando um voluntário executa determinada tarefa. Mas, embora essa técnica possa rastrear o consumo geral de energia de basicamente alguns milhões de células, não consegue identificar pequenos grupos de neurônios, muito menos células individuais. Para gravar impulsos elétricos emitidos por neurônios individuais, é preciso implantar no cérebro microeletrodos mais finos que um fio de cabelo humano. Essa técnica não é tão usada quanto o imageamento funcional, e apenas circunstâncias especiais garantem a implantação desses eletrodos em humanos.

Uma dessas raras circunstâncias ocorre em tratamento de pacientes epilépticos. Quando as convulsões não podem ser controladas com medicação, esses pacientes podem ser candidatos à cirurgia corretiva. A equipe médica examina evidências clínicas que possam identificar o foco epiléptico, a área onde as convulsões começam e que potencialmente pode ser removida cirurgicamente para curar o paciente. Inicialmente essa avaliação envolve procedimentos não invasivos, como imagens do cérebro, consideração das evidências clínicas e o estudo da atividade elétrica patológica com gravações de EEG feitas no couro cabeludo do paciente: diversas descargas epilépticas que ocorrem ao mesmo tempo. Quando não é possível determinar com precisão a localização do foco epiléptico por esses métodos, neurocirurgiões podem implantar eletrodos profundos dentro do crânio para monitorar continuamente a atividade cerebral durante vários dias no hospital e depois analisar as convulsões observadas.

Às vezes, cientistas pedem que pacientes se voluntariem para estudos de pesquisa durante o período de monitoramento, em que várias tarefas cognitivas são realizadas enquanto se registra a atividade do cérebro. Na Universidade da Califórnia (UCLA) em Los Angeles, desenvolvemos uma técnica singular para registros dentro do crânio usando eletrodos flexíveis com fios minúsculos; a tecnologia foi desenvolvida por um de nós (Fried), que dirige o Programa de Cirurgia da Epilepsia na UCLA, com outros cientistas do mundo todo, inclusive os do grupo de Koch, no Instituto de Tecnologia da Califórnia, e outros do laboratório de Quian Quiroga, na Universidade de Leicester, na Inglaterra. Essa técnica oferece uma oportunidade extraordinária de gravar diretamente de neurônios individuais durante dias, com o paciente acordado, e oferece a possibilidade de estudar o disparo de neurônios durante várias tarefas, monitorando a conversa incessante que ocorre enquanto pacientes olham para imagens em um laptop, recordam lembranças ou desempenham outras tarefas. É assim que descobrimos os neurônios Jennifer Aniston e sem querer reavivamos o debate inflamado pela parábola de Lettvin.

As células nervosas, como o neurônio Jennifer Aniston, seriam as células-avó debatidas há tanto tempo? Para respondermos a essa questão temos de ser mais precisos sobre o que entendemos por esse conceito. Uma forma radical de pensar sobre a hipótese da célula-avó é que apenas um neurônio responde a um conceito, mas, se pudéssemos encontrar um único neurônio que disparasse por Jennifer Aniston, isso sugeriria que deve haver mais – a chance de encontrar um, e apenas um, entre bilhões é ínfima. Além disso, se apenas um único neurônio fosse responsável pelo conceito integral de uma pessoa como Jennifer Aniston, e se fosse danificado ou destruído por doença ou acidente, todos os vestígios de Jennifer Aniston desapareceriam da memória, uma perspectiva extremamente improvável.

BILHÕES DE NEURÔNIOS

Uma definição menos radical de células-avó postula que muitos neurônios, em vez de um só, respondam a um único conceito. Essa hipótese é plausível, mas muito difícil, se não impossível de demonstrar. Não podemos tentar todos os conceitos possíveis para provar que o neurônio é acionado apenas por Jennifer Aniston. Na verdade, o oposto costuma ser verdadeiro: costumamos encontrar neurônios que respondam a mais de um conceito. Assim, se um neurônio dispara apenas para uma pessoa durante um experimento, não podemos descartar que também poderia ter disparado para alguns outros estímulos que, por acaso, não mostramos.

No dia seguinte, ao encontrarmos o neurônio Jennifer Aniston, por exemplo, repetimos a experiência, agora com muito mais fotos relacionadas a ela, e descobrimos que o neurônio também disparava com Lisa Kudrow, colega na série de televisão Friends, que catapultou ambas para a fama. O neurônio que respondeu a Luke Skywalker também disparou para Yoda, outro Jedi de Star wars. E ainda outro neurônio disparou para dois jogadores de basquete, sem contar um para um dos autores deste artigo e outros colegas que interagiram com o paciente na UCLA.

Mesmo assim, ainda se pode argumentar que esses neurônios são células-avó que respondem a conceitos mais amplos, ou seja, a duas mulheres loiras de Friends, a Jedi de Star wars, a jogadores de basquete, ou a cientistas que fazem experiências com o paciente. Essa definição expandida transforma a discussão sobre se esses neurônios devem ser considerados células- avó em uma questão semântica.

Mas vamos deixar a semântica de lado no momento e nos concentrarmos em alguns aspectos críticos desses chamados neurônios Jennifer Aniston. Primeiro, descobrimos que as respostas de cada célula são bastante seletivas – cada uma dispara para uma pequena fração de imagens de celebridades, políticos, parentes, marcos e assim por diante, apresentados ao paciente. Segundo, cada célula responde a várias representações de determinada pessoa ou local, independente- mente de características visuais especificas da imagem usada. Na verdade, uma célula dispara de forma semelhante em resposta a diferentes imagens da mesma pessoa e até mesmo a seu nome escrito ou falado. É como se em seus padrões de disparo o neurônio nos dissesse: “Sei que é a Jennifer Aniston, e não importa como você a apresente para mim, seja com vestido vermelho, de perfil, como um nome escrito, ou mesmo quando você diz o nome dela em voz alta”. O neurônio, então, parece responder ao conceito – para qualquer representação de qualquer coisa em si. Assim, esses neurônios podem ser mais adequadamente chamados de células-conceito, em vez de células-avó. Células-conceito podem disparar para mais de um conceito, mas, se fizerem isso, os conceitos tenderão a estar relacionados.

IMAGENS EM MOVIMENTO

Para entender a forma como um pequeno número de células se liga a um conceito particular, como Jennifer Aniston, ajuda saber algo sobre os complexos processos do cérebro para capturar e armazenar imagens de uma miríade de objetos e pessoas que se encontram no mundo ao nosso redor. Primeiro a informação coletada pelos olhos segue – através do nervo óptico, deixando o globo ocular – até o córtex visual primário na parte de trás da cabeça. Lá neurônios disparam em resposta a uma pequena porção dos detalhes minúsculos que compõem uma imagem, como se cada um fosse iluminado como um pixel de uma imagem digital, ou como se fossem os pontos coloridos em uma pintura pontilhista do francês Georges Seurat.

Não basta um neurônio para dizer se o detalhe é parte de um rosto, de uma xícara de chá ou da Torre Eiffel. Cada célula faz parte de um conjunto, uma combinação que gera uma imagem composta apresentada, digamos, no quadro Uma tarde de domingo na ilha de Grande Jatte. Se a imagem muda ligeiramente, alguns detalhes podem variar, e o disparo do conjunto correspondente de neurônios também se altera.

O cérebro precisa processar informações sensoriais para captar mais que uma fotografia – deve reconhecer um objeto e integrá-lo ao que já é conhecido. A partir do córtex visual primário, a ativação neuronal desencadeada por uma imagem se move por várias regiões corticais em direção a áreas mais frontais. Neurônios individuais nessas áreas visuais superiores respondem a rostos ou objetos inteiros, e não a detalhes locais. Apenas um desses neurônios superiores pode nos dizer que a imagem é um rosto, e não a Torre Eiffel. Se variarmos ligeiramente a imagem, movê-la ou alterarmos a iluminação sobre ela, ela mudará alguns aspectos, mas esses neurônios não se importam muito com pequenas diferenças em detalhes, e seu disparo permanecerá mais ou menos o mesmo, propriedade conhecida como invariância visual.

Neurônios em áreas visuais de alto nível enviam suas informações para o lobo temporal medial – o hipocampo e o córtex circundante –, envolvido em funções de memória e onde encontramos os neurônios Jennifer Aniston. As respostas de neurônios no hipocampo são muito mais específicas que no córtex visual superior. Cada um desses neurônios responde a uma pessoa em particular ou, mais precisamente, ao conceito dessa pessoa: não só ao rosto e outras facetas da aparência, mas também a atributos intimamente associados, como o nome da pessoa. Em nossa pesquisa, tentamos explorar quantos neurônios individuais disparam para representar determinado conceito. Tivemos de perguntar se é apenas um, dezenas, milhares ou talvez milhões. Ou seja, como a representação de conceitos é “dispersa”? É evidente que não podemos medir esse número diretamente porque não podemos registrar a atividade de todos os neurônios em determinada área. Usando métodos estatísticos, Stephen Waydo, na época aluno de doutorado de um de nós (Koch), no Caltech, estimou que determinado conceito aciona o disparo de não mais que cerca de 1 milhão de neurônios, entre os cerca de 1 bilhão no lobo temporal medial. Mas, como usamos imagens de coisas familiares aos pacientes de nossa pesquisa, e que por isso mesmo tendem a provocar mais respostas, esse número deve ser tomado rigorosamente como um limite superior; com o número de células representando um conceito, pode ser dez ou cem vezes menor, talvez próximo à suposição de Lettvin de 18 mil neurônios por conceito.

Contrariamente a esse argumento, um motivo para pensar que o cérebro não codifica conceitos esparsamente, mas os distribui por grandes populações de neurônios, é que podemos não ter neurônios suficientes para representar todos os conceitos possíveis e suas variações. Será que temos um armazenamento grande o suficiente de células cerebrais para retratar vovó sorrindo, tecendo, tomando chá ou esperando no ponto de ônibus, assim como a rainha da Inglaterra cumprimentando a multidão, Luke Skywalker quando criança em Tatooine ou combatendo Darth Vader etc.?

Para respondermos a essa pergunta, devemos primeiro considerar que, de fato, uma pessoa comum não se lembra de mais de 10 mil conceitos, e isso não é muito em comparação ao bilhão de células nervosas que formam o lobo temporal medial. Além disso, temos bons motivos para pensar que os conceitos podem ser codificados e armazenados de forma muito eficiente, de modo esparso. Neurônios no lobo temporal medial simplesmente não se importam com diferentes instâncias do mesmo conceito – não parece relevante que Luke esteja sentado ou em pé, só é considerado se um estímulo tem algo relacionado a Luke. Eles disparam pelo conceito em si sem considerar como é apresentado. Tornando o conceito mais abstrato – o disparo para todas as instâncias de Luke –, reduz a informação que um neurônio precisa codificar e permite que ele se torne altamente seletivo, respondendo a Luke, mas não a Jennifer.

Estudos de simulação por Waydo destacam ainda mais esse ponto de vista. Apoiando-se em um modelo detalhado do processamento visual, ele construiu uma rede neural baseada em software que aprendeu a reconhecer muitas fotos não rotuladas de aviões, carros, motos e rostos humanos. O software fez isso sem supervisão de um professor. Não lhe foi dito “este é um avião e aquilo um carro”. Ele teve de descobrir esses conceitos, usando a suposição de que a imensa variedade de imagens possíveis está, na realidade, baseada em um pequeno número de pessoas ou coisas e que cada um é representado por um pequeno subconjunto de neurônios, assim como encontramos no lobo temporal medial. Ao incorporar essa representação esparsa na simulação de software, a rede aprendeu a distinguir as mesmas pessoas ou objetos, mesmo quando mostrados de formas diferentes, um achado semelhante às nossas observações das gravações do cérebro humano.

Nossa pesquisa está intimamente relacionada à questão de como o cérebro interpreta o mundo exterior e traduz percepções em memórias. Considere o famoso caso de 1953 do paciente H. M., que sofria de epilepsia de difícil controle. Numa abordagem desesperada para tentar cessar seus ataques, um neurocirurgião retirou o hipocampo e as regiões adjacentes dos dois lados do cérebro. Após a cirurgia, H. M. seria capaz de reconhecer pessoas e objetos e se lembrar de eventos que conhecia antes da cirurgia, mas o resultado inesperado foi que ele não conseguiu mais reter lembranças novas por muito tempo. Sem o hipocampo, tudo o que se passava com ele rapidamente caía no esquecimento. O filme Amnésia, de 2000, gira em torno de um personagem que tem condição neurológica semelhante.

O caso de H. M. demonstra que o hipocampo e o lobo temporal medial, em gera dispensáveis à percepção, são críticos par a transformação de memórias de curto prazo (fatos que retemos por curto tempo) em memórias de longo prazo (coisas lembradas por horas, dias ou anos). Alinhados com essa evidência, argumentamos que as células-conceito residentes nessas áreas são essenciais para traduzir o que está em nossa consciência – tudo o que é desencadeado por estímulos sensoriais ou recordações internas – em memórias de longo prazo, que serão posteriormente armazenadas em outras áreas do córtex cerebral. Acreditamos que o neurônio Jennifer Aniston que encontramos não era necessário para o paciente reconhecer a atriz ou se lembrar de quem ela era, mas fundamental para trazer Aniston à consciência par forjar novos laços e memórias relacionados a ela, como mais tarde lembrar-se de ter visto seu filme.

Nosso cérebro pode usar um pequeno número de células-conceito para representar muitas facetas de uma coisa como um conceito singular: uma representação esparsa e invariável. O funcionamento de células-conceito percorre um longo caminho para explicar como lembramos as coisas: recordamos Jennifer ou Luke em todas as formas, em vez de nos lembrarmos de cada poro do rosto deles. Não precisamos (nem queremos) lembrar cada detalhe do que ocorre conosco.

CHEIRO, FORMA E COR

O que é importante é compreender a essência de determinadas situações que envolvam pessoas e conceitos relevantes para nós, em vez de lembrar uma infinidade avassaladora de detalhes sem sentido. Se encontramos alguém que conhecemos em um bar, é mais importante lembrar alguns eventos marcantes nesse encontro do que o que exatamente a pessoa estava vestindo, cada palavra pronunciada ou como eram os outros desconhecidos que curtiam o bar. Células-conceito tendem a disparar para coisas pessoalmente relevantes porque normalmente nos lembramos de eventos que envolvem pessoas e coisas que nos são familiares e não investimos em fazer lembranças de coisas sem relevância particular.

As memórias são muito mais que conceitos isolados únicos. Uma memória de Jennifer Aniston envolve uma série de eventos dos quais ela – ou sua personagem em Friends nessa questão – é parte. A lembrança total de um episódio único de memória exige conexões entre conceitos diferentes, mas associados: Jennifer Aniston ligada ao conceito de você sentado no sofá enquanto toma sorvete e assiste a Friends.

Se dois conceitos estão relacionados, alguns dos neurônios que codificam um conceito também podem disparar para outro. Essa hipótese cria explicação fisiológica de como os neurônios do cérebro codificam associações. A tendência de as células dispararem para conceitos relacionados pode ser a base da criação de memórias episódicas (como a sequência específica de eventos durante o encontro no bar) ou o fluxo de consciência, movimentando-se espontaneamente de um conceito a outro. Vemos Jennifer Aniston e essa percepção evoca a memória da televisão, do sofá e do sorvete – conceitos relacionados que fundamentam a lembrança de assistir a um episódio de Friends. Um processo semelhante pode criar também ligações entre aspectos da mesma noção armazenadas em diferentes áreas corticais, reunindo o cheiro, a forma, a cor e a textura da rosa – ou a aparência e a voz de Jennifer.

Devido a vantagens óbvias de armazenamento de memórias de alto nível como conceitos abstratos, podemos perguntar também por que a representação desses conceitos tem de ser esparsamente distribuída no lobo temporal medial. Uma resposta é fornecida por estudos de modelagem, mostrando consistentemente que as representações esparsas são necessárias para a criação de associações rápidas.

Os detalhes técnicos são complexos, mas a ideia geral é bastante simples. Imagine uma representação distribuída – em oposição à representação esparsa – para a pessoa que encontramos no café, com os neurônios codificando cada característica mínima dessa pessoa. Imagine outra representação distribuída para o bar em si. Fazer uma conexão entre a pessoa e o café exigiria a criação de ligações entre os diferentes detalhes que representam cada conceito, mas sem misturá-los com outros, porque o bar se parece com uma livraria confortável, e nosso amigo se parece com alguém que conhecemos.

A criação dessas associações com redes distribuídas é muito lenta e leva à mistura de memórias. O estabelecimento dessas ligações com essas redes esparsas, pelo contrário, é fácil e rápido. Exige apenas algumas associações entre os grupos de células que representam cada conceito, fazendo com que alguns neurônios comecem a disparar para os dois conceitos. Outra vantagem de uma representação esparsa é que algo novo pode ser adicionado sem afetar profundamente tudo o mais na rede. Essa separação é muito mais difícil de conseguir com redes distribuí- das, em que a adição de um novo conceito desloca limites para toda a rede.

Células-conceito conectam a percepção à memória, produzem uma representação abstrata e esparsa de conhecimento semântico – pessoas, lugares, objetos, todos os conceitos significativos que compõem nossos mundos individuais. Formam os blocos de construção para as memórias de fatos e acontecimentos de nossa vida. Seu eficiente esquema de codificação permite que nossa mente deixe de lado inúmeros detalhes sem importância e extraia significados que podem ser usados para fazer novas associações e memórias, codificando o que é essencial reter de nossas experiências.

Células-conceito não são completamente iguais às células-avó concebidas por Lettvin, mas podem ser uma importante base física de aptidões cognitivas humanas, os componentes do hardware do pensamento e da memória.