A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

MENTES INSTÁVEIS

A impulsividade típica da adolescência pode ser explicada pela fraca integração de áreas cerebrais responsáveis pelo planejamento cognitivo

Costumamos culpar os jovens por situações que talvez pudessem ser facilmente evitadas – como acidentes de carro nas madrugadas. Nesses casos, quase sempre há indícios de uso de álcool ou outras drogas pelos motoristas. Pesquisas neurocientíficas recentes, entretanto, sugerem que a preocupação dos adultos não se deve apenas à suposta falta de responsabilidade dos mais novos. Estudos mostram que quando adolescentes executam certas tarefas, seu córtex pré-frontal – região cerebral que participa das tomadas de decisão – trabalha de forma mais intensa do que a mesma estrutura no cérebro mais maduro diante de circunstâncias idênticas. Além disso, outras áreas do sistema nervoso, que costumam auxiliar nesses momentos, mostram-se menos ativas durante a puberdade. Quando confrontados com situações desafiadoras, os adolescentes parecem menos hábeis em avaliar os fatores em jogo e reagir de forma apropriada.

Compreender as capacidades e limitações do cérebro ao longo dos diversos estágios do desenvolvimento é essencial na avaliação psicológica e na educação. Ironicamente, embora a adolescência, e mais especificamente a puberdade, seja reconhecida como uma fase importante, a mente e o cérebro dos jovens foram bem menos estudados do que de crianças e de adultos. Com o avanço das pesquisas, no entanto, vem ficando cada vez mais claro que a habilidade neural de um adolescente não é igual à de uma pessoa mais velha, embora muitas vezes ele se comporte como adulto. Os processos fisiológicos por trás do controle cognitivo do comportamento ainda não estão totalmente maduros. Se somarmos ainda os estímulos estressores, abundantes nas grandes cidades, fica mais fácil explicar por que tantos acidentes ocorrem com pessoas nessa faixa etária.

Uma das características mais marcantes do cérebro adolescente está no funcionamento do córtex pré-frontal, responsável pelas funções executivas que atuam no comportamento voluntário e planejado. É o que apontaram as pesquisas da psicóloga Beatriz Luna, diretora do Laboratório de Desenvolvimento Neurocognitivo da Universidade de Pittsburgh. Com ressonância magnética funcional (fMRI) e testes psicológicos que mobilizam funções visuais e motoras, Luna escaneou o cérebro de adolescentes e adultos enquanto eles olhavam luzes aleatórias piscando na tela do computador. Duas situações foram avaliadas: quando os indivíduos tentavam se concentrar rapidamente no novo foco de luz e quando a instrução era evitar olhá-lo diretamente.

EXÓGENO E ENDÓGENO

A pesquisadora observou que, para realizar a mesma tarefa, o córtex pré-frontal dos mais jovens foi mais solicitado do que o dos adultos. “A extensão dessa região mobilizada pelos adolescentes é similar à que os adultos usam para realizar tarefas bem mais complexas”, explica Luna. Segundo ela, o uso excessivo do córtex pré-frontal pode induzir ao erro, especialmente em situações mais difíceis ou de maior risco.

Especialistas em psicologia cognitiva distinguem dois tipos de controle do comportamento: exógeno e endógeno. O primeiro é reflexo, uma resposta “automática ” a estímulos externos, como as luzes que aparecem na tela. O controle endógeno é voluntário e resulta do propósito de, por exemplo, esforçar-se para não olhar os pontos de luz. No córtex pré-frontal maduro predomina o controle endógeno do comportamento. Para o cérebro adolescente é mais difícil anular deliberadamente a reação exógena.

Luna e outros pesquisadores afirmam que, embora os adolescentes possam eventualmente manifestar o controle cognitivo na tomada de decisão, o poder endógeno ainda está em amadurecimento. “Testes visuais e motores exigem que o córtex pré-frontal coordene as atividades do resto do cérebro. O que a fMRI nos mostrou foi que na fase intermediária entre a infância e a vida adulta é com um o uso dessa região de forma exacerbada, enquanto os adultos acionam também outras áreas, distribuindo melhor a carga de trabalho”, explica. Assim, se algo inesperado ocorre em uma situação já estressante, o adolescente tende a esgotar os recursos do córtex pré-frontal. A sobrecarga cognitiva acaba prejudicando as funções executivas e, consequentemente, a capacidade de planejar e fazer escolhas. Isso talvez explique por que os adolescentes se comportam de forma impulsiva. “Para o adulto é bem mais fácil inibir respostas equivocadas, manter a compostura e não ceder às tentações”, diz a pesquisadora.

RECRUTANDO NEURÔNIOS

A maturação das habilidades executivas só ocorre no fim da adolescência, isto é, pouco depois dos 20 anos. Além disso, outras funções cognitivas estão em desenvolvimento durante a puberdade, como a memória de trabalho, que auxilia na orientação do comportamento voluntário. As imagens em fMRI obtidas por Luna indicam que os adolescentes não são capazes de mobilizar com eficiência as áreas que contribuem para o funcionamento da memória de trabalho.

Susan F. Tapert, da Universidade da Califórnia em San Diego, também observou fraca integração de algumas funções cerebrais durante a puberdade. Ela investigou a memória de trabalho espacial em indivíduos no início (12 a 14 anos) e no final (15 a 17 anos) da adolescência com fMRI. “Os mais velhos apresentaram um número menor de áreas ativadas enquanto realizavam tarefas, e usaram mais o córtex parietal inferior que os participantes mais jovens”, explica Tapert. Ela acredita que os voluntários com mais de 14 anos utilizaram menos neurônios e empregaram estratégias diferentes das dos mais jovens. As áreas ativadas sugerem que eles resolveram a tarefa por meio de estratégia verbal, em vez de por tentativa e erro.

Ao longo da adolescência, o cérebro passa a mobilizar mais regiões e distribuir certas tarefas a áreas especializadas, reduzindo assim o esforço cerebral necessário para chegar ao mesmo desempenho. “Fui surpreendida com a magnitude da mudança observada nesse intervalo relativamente pequeno”, diz a psicóloga. Adolescentes mais novos podem ter bom desempenho em testes de memória de trabalho espacial, mas precisam recrutar mais neurônios. Também são menos capazes de realizar tarefas adicionais se estiverem previamente estressados. Segundo Tapert, só no final da adolescência a memória de trabalho espacial é distribuída de forma eficiente entre as diferentes regiões cerebrais.

PROCESSO DE DEPURAÇÃO

As técnicas de imageamento cerebral apoiam a hipótese de que o cérebro adolescente, sobretudo as áreas envolvidas na tomada de decisão e no controle do comportamento, passa por alterações físicas significativas. O pesquisador Jay N. Giedd, do setor de psiquiatria infantil do Instituto Nacional de Saúde Mental, Estados Unidos, demonstrou que o córtex pré-frontal dorso lateral, importante para o controle da impulsividade, sofre uma poda sináptica sistemática, isto é, a eliminação de conexões desnecessárias entre os neurônios – o resultado é a transmissão mais eficiente dos sinais neurais.

A maioria dos pesquisadores admite que essa “depuração” neuronal seja um mecanismo fundamental de maturação do sistema nervoso, assim como o depósito adicional de mielina, que promove o isolamento elétrico dos axônios que enviam sinais de um neurônio a outro. As duas alterações aprimoram o funcionamento cerebral. Enquanto a depuração sináptica aumenta a eficácia de operações locais, a mielinização acelera a transmissão neural. A consequência é o aumento da capacidade do córtex pré-frontal de impor comportamentos voluntários planejados, aponta Luna.

Um dos estudos recentes conduzidos por Giedd acompanhou o desenvolvimento cerebral de 307 crianças e adolescentes por meio de fMRI e testes neuropsicológicos. “Foi surpreendente descobrir que o tamanho do cérebro não muda muito depois dos 6 anos. Ele se torna mais espesso, mas já tem cerca de 90% do tamanho adulto. Sua dimensão geral é estável durante a adolescência, mas seus componentes mudam de forma e tamanho”, explica. As imagens revelaram alterações nas conexões entre os neurônios que participam dos processos de tomada de decisão, julgamento e controle da impulsividade, bem como das projeções do córtex pré-frontal para outras regiões. As pesquisas mais recentes sugerem que o córtex pré-frontal continua a amadurecer até os 20 anos. “É impressionante que essas mudanças durem tanto tempo”, comenta Giedd.

Nem todos os especialistas, porém, estão de acordo com a ideia de que a impulsividade adolescente seja explicada apenas pela neurobiologia. Um deles é Robert Epstein, da Universidade da Califórnia em San Diego e fundador do Centro de Estudos Comportamentais de Cambridge. Indignado, ele não acredita que o cérebro adolescente seja diferente do adulto. “Isso não existe. É uma farsa coordenada pelas indústrias farmacêuticas que financiam pesquisas.”

Para desmascarar o suposto mito segundo o qual o desenvolvimento cerebral estaria na origem dos problemas comportamentais do adolescente, Epstein cita o livro Blaming the brain, de 1998, de Elliot Valenstein, da Universidade de Michigan. Para o autor, certos neurocientistas são influenciados pelos grandes laboratórios farmacêuticos, os quais teriam interesse em “culpar” o cérebro, porque isso abriria caminho para que os médicos prescrevessem mais drogas psicoativas. (Vale lembrar que nenhuma pesquisa apresentada neste artigo foi financiada pela indústria farmacêutica).

Outro argumento de Epstein – mais convincente – é que os estudos que indicam alterações físicas no cérebro adolescente tendem a analisar apenas a sociedade ocidental. Segundo ele, algumas raras pesquisas em países em desenvolvimento ou em países orientais mostram que seus adolescentes não se comportam como os americanos, por exemplo. “No plano multicultural não há nada que se assemelhe a um cérebro adolescente”, afirma. Epstein gosta de citar o livro Adolescence an Antropological inquiry, de 1991, dos antropólogos Alice Schlegel, da Universidade do Arizona, e Herbert Bany, da Universidade de Pittsburgh. Eles estudaram adolescentes de 186 culturas pré-industriais e descobriram que em 60% delas não há sequer um termo que identifique esse período da vida. Além disso, a maioria dos jovens observados passavam a maior parte do tempo entre adultos e não segregados com seus próprios pares. O estudo mostrou que não havia comportamento anti social em metade das culturas analisadas, e, mesmo quando havia, sua manifestação era moderada. Baseado em pesquisas como essa, Epstein considera “equivocado culpar o cérebro por tudo o que há de ruim em nós, pois a influência ambiental sobre o comportamento é tremenda. Vivemos numa sociedade na qual as crianças vivem distantes dos adultos e, portanto, aprendem umas com as outras. Isso gera problemas”, argumenta. Segundo ele, nas sociedades em que a transição da adolescência para a vida adulta é suave, a suposta angústia ou revolta adolescente simplesmente não é observada.

CÉREBRO PRONTO?

Luna não concorda com a opinião de Epstein, mas a considera interessante e respeitável. “Seus experimentos controlam as diferenças culturais e estudam o funcionamento cerebral por meio de estímulos emocionalmente neutros e não de decisões comportamentais socialmente relevantes”, diz a pesquisadora. Em relação à influência do meio, ela afirma que as imagens de fMRI mostra m que o cérebro é um sistema vulnerável e, em situações estressantes, o adolescente tem mais dificuldade de se controlar do que o adulto. Segundo a psicóloga, o cérebro adolescente não estaria totalmente “pronto” – o que é bom, pois permite que ele se desenvolva de forma mais compatível com seu meio. “Estamos tentando compreender a relação cérebro-meio. Não que o cérebro adolescente seja diferente dos outros, o que existe é um continum, afirma. Para isso, foi formulada uma experiência que confrontasse estímulos internos e externos e os cientistas pudessem, assim, estudar como as respostas são inibidas em situações contraditórias.

“O teste visual e motor é difícil, pois todo o cérebro é acionado para prestar atenção aos estímulos visuais”, diz Luna. Para não olhar as luzes é preciso que o córtex se comunique com as regiões sub corticais, gerando uma resposta endógena (“Não vou olhar as luzes”) que suplanta a resposta reflexa e exógena (“Olhe a luz”). Como é mais difícil para o adolescente realizar tarefas que exigem controle voluntário, ele está mais exposto a decisões equivocadas. Em situações com poucas exigências concorrentes, ele de fato se comporta como o adulto. Nas culturas pré-industriais, esse é o meio mais comum e, assim, o adolescente não manifesta condutas arriscadas. Mas isso não quer dizer que seu cérebro não esteja sendo depurado, ou melhor, que não exista algo único em relação à adolescência.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.