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UMA QUESTÃO DE PELE

Numa cidade histórica do interior dos Estados Unidos, um tatuador tenta apagar um passado cheio de racismo

Até há poucas semanas, a Electric Pair O’Dice era apenas mais um estúdio de tatuagem em Fredericksburg, no estado da Virgínia, a uma hora de carro de Washington. Isso mudou em junho, quando Jeremiah Hirsch, o dono do lugar, decidiu fazer uma campanha que batizou de “Apague o Ódio”. Inspirado pelos protestos provocados pela morte de George Floyd, homem negro vítima da brutalidade policial em Minneapolis no final de maio, Hirsch anunciou que cobriria, de graça, a tatuagem de qualquer pessoa que estivesse arrependida de ter colocado na pele símbolos de intolerância racial. “Não queremos que ninguém seja assombrado por seu passado”, diz a campanha.

Intolerância é um dos componentes da história de Fredericksburg. A cidade foi cenário de uma das batalhas cruciais da Guerra Civil Americana, que colocou em campos opostos no século XIX os abolicionistas do Norte e os escravocratas do Sul. O Norte ganhou, mas a veneração da bandeira dos estados derrotados, os confederados, persistiu em várias partes do Sul do país, em estados como Virgínia e Mississipi. “Estamos tentando ajudar as pessoas a olhar para dentro e entender o que esses símbolos significam”, disse Hirsch. Entre aqueles que já pediram para sua tatuagem ser transformada, havia gente com suásticas e o símbolo da SS, mas cerca de 80% exibiam símbolos da Confederação.

Esse foi o caso de Padraig-Eoin Dalrymple, que tinha uma bandeira confederada no braço e agora exibe no lugar os punhos fechados do movimento Vidas Negras Importam e uma bandeira do arco-íris. Órfão de mãe e com o pai preso, ele passou por um orfanato antes de ser adotado por um policial. “Quando eu fiz a tatuagem da bandeira confederada, não sabia nada. Minha família biológica era racista. Meu pai, meu ídolo, era racista. No orfanato, o ambiente também era racista. Esse ambiente deixa marcas em você”, disse.

Dalrymple cresceu ouvindo que os símbolos confederados não eram de ódio, mas uma herança cultural. “Nossos estados estão lutando por nossos direitos”, me diziam.” A ficha de Dalrymple só caiu quando ele foi visitar a casa de um amigo e viu a bandeira pendurada na parede ao lado de um símbolo da suástica nazista. Foi aí que ele pensou que havia um problema. “Se os neonazistas achavam que a Confederação tinha uma ideologia similar à deles, então, eu estava do lado errado”, contou.

Morador da cidade de Norfolk e se dizendo sem dinheiro para refazer a tatuagem da bandeira confederada, Dalrymple dirigiu 230 quilômetros até Fredericksburg quando ouviu falar da campanha do estúdio de Hirsch. Apesar de resolvida a questão da tatuagem, motivo de angústia e culpa, Dalrymple mantém algumas características que sempre o acompanharam. Ele acredita que, para superar o racismo, “protestos pacíficos não vão funcionar”. Cita soluções extremas para problemas extremos. Acredita que não é errado brigar, no caso de estar “lutando pela sobrevivência”. Em resumo, crê, firmemente, que o caminho é a violência.

Para quem trabalha com grupos supremacistas, o que está acontecendo com ele é um processo comum. O gerente da organização não governamental Vida após o ódio, Brad Galloway, contou que a “desradicalização” exige mudanças que vão além da remoção de tatuagens. “As pessoas se voltam muito facilmente para a violência”, disse Galloway, que foi membro do grupo neo­nazista Volksfront. “Independentemente do lado em que esteja, o que o extremismo quer é a incerteza. Eles querem o medo, uma sociedade dividida.”

Não há evidências de que o número de supremacistas brancos tenha diminuído após as manifestações pela morte de Floyd. Levantamentos anteriores aos protestos davam conta de uma elevação da radicalização. Pelos cálculos do Southern Poverty Law Center, o número de grupos de nacionalistas brancos cresceu 55% desde que o presidente Donald Trump chegou ao poder, há quase quatro anos. Já o Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e de Respostas ao Terrorismo da Universidade de Maryland afirma que existem hoje nos Estados Unidos 977 grupos de extremistas de direita. Entre os de direita, 65% se dedicam à ideologia do supremacismo branco.

Pelo menos na questão dos monumentos, os protestos contra o racismo desde o final de maio conseguiram algumas vitórias palpáveis. Urna delas ocorreu justamente próximo ao estúdio de tatuagem que abre esta reportagem. A remoção do Bloco do leilão de escravos, um pedestal de pedra na esquina das ruas William e Charles, no centro de Fredericksburg, era discutida pela Câmara Municipal havia quase 100 anos.

Quando manifestantes contra o racismo passaram a se reunir no local no mês passado, o debate ganhou nova força. Foi decidida, então, a remoção da peça para um dos museus da cidade. “O símbolo da segregação e da dor que foram impostos a meu povo não precisa ser lembrado nas ruas públicas da cidade”, disse o pastor Hashmel Turner, que propôs a retirada do bloco em 2005, quando era vereador na cidade. “Estou grato que ele tenha deixado as ruas de Fredericksburg”, completou.

Nos Estados Unidos e em várias outras partes do mundo, o tema da remoção de estátuas e monumentos segue sendo polêmico. Wornie Reed, professor de sociologia e estudos africanos da universidade Virgínia Tech, defende uma posição que tem muitos seguidores. “Estou disposto a sair de casa agora e apoiar qualquer pessoa que queira ter um símbolo desses em suas propriedades”, disse Reed. “Mas penso ser totalmente inapropriado expor algo que evoque a escravidão em lugares públicos”, completou o professor.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.