EU ACHO …

AS MAIORES VÍTIMAS

A pandemia vai dobrar o número de famintos e levar a uma explosão dos excluídos do mundo

A pandemia expôs e intensificou profundas desigualdades no mundo todo, e a verdadeira extensão do problema ainda não está clara, segundo um novo e importante relatório. A crise nos países mais pobres ameaça escalar para uma catástrofe conforme aumentam a perda de empregos e a insegurança alimentar. “Os impactos econômicos, sociais e políticos apenas começam a se revelar”, descreve o relatório – Building Back with Justice: Dismantling lnequalities After Covid-19″ (“Reconstruir com Justiça: Derrubando as Desigualdades Depois da Covid·19”), da Christian Aid, a ser publicado no fim deste mês.

Sem uma ajuda urgente, o número de seres humanos que enfrentam a fome aguda poderá dobrar para 250 milhões em 2020. Alguns países têm enfrentado grandes aumentos no custo da alimentação. Em algumas partes do Afeganistão, por exemplo, os preços do trigo subiram 20%. Na Índia, 80 milhões de trabalhadores migrantes perderam o emprego nas cidades, deixando-os famintos e sem teto, e suas famílias sem remessas de dinheiro cruciais.

Os tratamentos de saúde rotineiros, como imunização e obstetrícia, foram gravemente interrompidos. “Em muitos países, a interrupção do atendimento de saúde não ligado ao coronavírus poderá causar mais mortes que o próprio vírus”, aponta o relatório. Asprecauções contra a Covid-19; como lavar as mãos com frequência, são mais problemáticas em países com saneamento insuficiente. Segundo o estudo, 3 bilhões de indivíduos – cerca de 40% da população global – não têm acesso a instalações básicas para lavar as mãos em casa. Na Etiópia e na República Democrática do Congo, o segundo e o quarto países mais populosos da África, menos de 10% dos habitantes podem lavar as mãos em casa.

Nove em cada dez estudantes em todo o mundo perderam parte de sua educação. Muitos – especialmente as meninas – nos países mais pobres nunca voltarão a estudar. “A experiência da epidemia de Ebola no Oeste da África mostra que o fechamento das escolas leva a índices mais altos de abandono permanente dos estudos por meninas e um aumento no trabalho infantil, negligência, abuso sexual, gravidez na adolescência e casamento precoce.” O relatório acrescenta: “Há crescente evidência de que as mulheres estão suportando o maior peso social e econômico durante a crise”.

As mulheres fazem a maior parte do trabalho de assistência social e de saúde, e tendem a atuar nas funções menos remuneradas nesses setores. Elas têm maior propensão a trabalhar na economia informal, enfrentar uma carga de trabalho maior em casa e ficar mais expostas à violência em momentos de crise econômica.

O relatório salienta o contraste no modo como os países mais ricos mobilizaram enormes quantias para apoiar suas economias com a reação nos países mais pobres sufocados por uma enorme dívida. Alemanha e Itália gastaram mais de 25% do PIB na estabilização econômica, enquanto os africanos Malaui, Quênia e República Democrática do Congo aplicaram menos de 1%.

Os repagamentos da dívida dos países mais pobres foram suspensos de 1° de maio até o fim deste ano, mas a Christian Aid solicita um “cancelamento abrangente por 12 meses do principal da dívida e juros de 76 países de baixa renda”. O cancelamento da dívida, segundo a instituição, “poderá ser uma das maneiras mais rápidas de liberar recursos para alguns países mais afetados pela pandemia e seus impactos econômicos”. A Christian Aid também quer ver a redução dos abusos fiscais e evasão fiscal, e a adoção de impostos sobre a riqueza. Por exemplo, na Índia, um imposto de 4% sobre as 953 famílias ultra ricas poderia levantar pouco mais de 1% do PIB, permitindo que o governo duplicasse seu orçamento de saúde, diz o documento.

A pandemia precisa de ação coordenada nos níveis global, nacional e local, mas a reação foi “mais caracterizada pela concorrência do que pela colaboração”. A ONU e algumas instituições financeiras internacionais foram postas de lado, com os governos dando prioridade às respostas nacionais. A recuperação da crise deve ser verde e sustentável, diz o relatório. “O nível de desafio não deve ser subestimado. A crise também demonstrou, no entanto, que os governos podem intervir decisivamente quando a escala de uma emergência é clara e o público apoia a ação. O objetivo deve ser desacoplar o crescimento das emissões de gases de efeito estufa, reduzir as emissões globais pela metade até 2030 e ser livres de carbono em 2050”.

No prefácio do relatório, Jayati Ghosh, um importante economista do desenvolvimento, diz que visão e ambição são necessárias para evitar a catástrofe e “permitir uma recuperação global de base ampla e equitativa, que transforme radicalmente nossas relações econômicas e sociai e se concentre nos seres humanos e no planeta”.

***HARRIETE SHERWOOD

OUTROS OLHARES

UMA QUESTÃO DE PELE

Numa cidade histórica do interior dos Estados Unidos, um tatuador tenta apagar um passado cheio de racismo

Até há poucas semanas, a Electric Pair O’Dice era apenas mais um estúdio de tatuagem em Fredericksburg, no estado da Virgínia, a uma hora de carro de Washington. Isso mudou em junho, quando Jeremiah Hirsch, o dono do lugar, decidiu fazer uma campanha que batizou de “Apague o Ódio”. Inspirado pelos protestos provocados pela morte de George Floyd, homem negro vítima da brutalidade policial em Minneapolis no final de maio, Hirsch anunciou que cobriria, de graça, a tatuagem de qualquer pessoa que estivesse arrependida de ter colocado na pele símbolos de intolerância racial. “Não queremos que ninguém seja assombrado por seu passado”, diz a campanha.

Intolerância é um dos componentes da história de Fredericksburg. A cidade foi cenário de uma das batalhas cruciais da Guerra Civil Americana, que colocou em campos opostos no século XIX os abolicionistas do Norte e os escravocratas do Sul. O Norte ganhou, mas a veneração da bandeira dos estados derrotados, os confederados, persistiu em várias partes do Sul do país, em estados como Virgínia e Mississipi. “Estamos tentando ajudar as pessoas a olhar para dentro e entender o que esses símbolos significam”, disse Hirsch. Entre aqueles que já pediram para sua tatuagem ser transformada, havia gente com suásticas e o símbolo da SS, mas cerca de 80% exibiam símbolos da Confederação.

Esse foi o caso de Padraig-Eoin Dalrymple, que tinha uma bandeira confederada no braço e agora exibe no lugar os punhos fechados do movimento Vidas Negras Importam e uma bandeira do arco-íris. Órfão de mãe e com o pai preso, ele passou por um orfanato antes de ser adotado por um policial. “Quando eu fiz a tatuagem da bandeira confederada, não sabia nada. Minha família biológica era racista. Meu pai, meu ídolo, era racista. No orfanato, o ambiente também era racista. Esse ambiente deixa marcas em você”, disse.

Dalrymple cresceu ouvindo que os símbolos confederados não eram de ódio, mas uma herança cultural. “Nossos estados estão lutando por nossos direitos”, me diziam.” A ficha de Dalrymple só caiu quando ele foi visitar a casa de um amigo e viu a bandeira pendurada na parede ao lado de um símbolo da suástica nazista. Foi aí que ele pensou que havia um problema. “Se os neonazistas achavam que a Confederação tinha uma ideologia similar à deles, então, eu estava do lado errado”, contou.

Morador da cidade de Norfolk e se dizendo sem dinheiro para refazer a tatuagem da bandeira confederada, Dalrymple dirigiu 230 quilômetros até Fredericksburg quando ouviu falar da campanha do estúdio de Hirsch. Apesar de resolvida a questão da tatuagem, motivo de angústia e culpa, Dalrymple mantém algumas características que sempre o acompanharam. Ele acredita que, para superar o racismo, “protestos pacíficos não vão funcionar”. Cita soluções extremas para problemas extremos. Acredita que não é errado brigar, no caso de estar “lutando pela sobrevivência”. Em resumo, crê, firmemente, que o caminho é a violência.

Para quem trabalha com grupos supremacistas, o que está acontecendo com ele é um processo comum. O gerente da organização não governamental Vida após o ódio, Brad Galloway, contou que a “desradicalização” exige mudanças que vão além da remoção de tatuagens. “As pessoas se voltam muito facilmente para a violência”, disse Galloway, que foi membro do grupo neo­nazista Volksfront. “Independentemente do lado em que esteja, o que o extremismo quer é a incerteza. Eles querem o medo, uma sociedade dividida.”

Não há evidências de que o número de supremacistas brancos tenha diminuído após as manifestações pela morte de Floyd. Levantamentos anteriores aos protestos davam conta de uma elevação da radicalização. Pelos cálculos do Southern Poverty Law Center, o número de grupos de nacionalistas brancos cresceu 55% desde que o presidente Donald Trump chegou ao poder, há quase quatro anos. Já o Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e de Respostas ao Terrorismo da Universidade de Maryland afirma que existem hoje nos Estados Unidos 977 grupos de extremistas de direita. Entre os de direita, 65% se dedicam à ideologia do supremacismo branco.

Pelo menos na questão dos monumentos, os protestos contra o racismo desde o final de maio conseguiram algumas vitórias palpáveis. Urna delas ocorreu justamente próximo ao estúdio de tatuagem que abre esta reportagem. A remoção do Bloco do leilão de escravos, um pedestal de pedra na esquina das ruas William e Charles, no centro de Fredericksburg, era discutida pela Câmara Municipal havia quase 100 anos.

Quando manifestantes contra o racismo passaram a se reunir no local no mês passado, o debate ganhou nova força. Foi decidida, então, a remoção da peça para um dos museus da cidade. “O símbolo da segregação e da dor que foram impostos a meu povo não precisa ser lembrado nas ruas públicas da cidade”, disse o pastor Hashmel Turner, que propôs a retirada do bloco em 2005, quando era vereador na cidade. “Estou grato que ele tenha deixado as ruas de Fredericksburg”, completou.

Nos Estados Unidos e em várias outras partes do mundo, o tema da remoção de estátuas e monumentos segue sendo polêmico. Wornie Reed, professor de sociologia e estudos africanos da universidade Virgínia Tech, defende uma posição que tem muitos seguidores. “Estou disposto a sair de casa agora e apoiar qualquer pessoa que queira ter um símbolo desses em suas propriedades”, disse Reed. “Mas penso ser totalmente inapropriado expor algo que evoque a escravidão em lugares públicos”, completou o professor.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 25 DE AGOSTO

O SEGREDO DA VIDA ABUNDANTE

… eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância (João 10.10b).

O diabo é um enganador: promete liberdade e escraviza; promete prazer e aflige; promete vida e mata. Jesus, porém, veio para nos dar vida, e vida em abundância. A vida que Cristo oferece é maiúscula e superlativa. Diferentemente do ladrão que veio para roubar, matar e destruir, Jesus veio para que experimentássemos uma alegria permanente, uma paz duradoura e uma felicidade eterna. Certa feita, durante a Festa dos Tabernáculos, Jesus se levantou em Jerusalém e bradou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água vida (7.37,38). A verdadeira felicidade está em conhecer Jesus, experimentá-lo e fruí-lo. Não se trata de um conhecimento apenas teórico. Não é apenas um assentimento intelectual. Jesus é a água da vida. Precisamos beber dessa água. Quem bebe dessa água nunca mais tem sede. Crer em Jesus, como diz a Escritura, é uma experiência maravilhosa. Dentro de nós brota uma fonte para a vida eterna. Rios de água viva começam a jorrar do nosso interior e aí, sim, experimentamos uma felicidade pura, abundante, eterna. Embora o céu seja uma realidade a ser desfrutada no porvir, as alegrias da vida eterna começam aqui e agora.

GESTÃO E CARREIRA

VOCÊ AJUDA O PLANETA, ELE AJUDA SEU CAIXA

Empresas preocupadas com causas socioambientais encontram clientes dispostos a pagar até um pouco mais caro por seus produtos, pois se preocupam com processos produtivos mais justos

No fim de 2019, a rainha dos baixinhos causou polêmica nas redes sociais. Xuxa postou em seu Instagram contra o peru de Natal, e a audiência não perdoou. A celebridade declarou que está na dieta vegana e já atua na proteção aos animais há algum tempo. Além da ação direta com instituições específicas, uma das marcas que levaram seu rosto por alguns anos, a Monange, não realiza testes em animais, apesar de estar abaixo do guarda-chuva da Coty, que possui alguns processos que vão na contramão dessas ações. Fato é que existem muitas maneiras de as empresas atuarem em seus processos e condução do produto, trazendo menores impactos ao meio ambiente, que tem cobrado cada dia mais o cuidado de sua população.

A boa notícia é que investir na sustentabilidade ambiental tem sido também lucrativo. Primeiro porque existe um público que se interessa em pagar um pouco mais por produtos que tenham esse viés. Uma pesquisa realizada pela Union + Webster, de acordo com a Agência Sistema FIEP, aponta que 87% da população brasileira prefere comprar produtos e serviços de empresas sustentáveis e que 70% dos entrevistados não se importam em pagar a mais por isso. Além disso, empreendimentos com essa preocupação têm sido mais bem avaliados por investidores. Por fim, adotar medidas que auxiliam na diminuição de uso de água e energia elétrica no seu negócio, por exemplo, pode trazer uma boa economia para o seu caixa mensalmente.

A série de documentários Desserviço ao Consumidor, disponível na Netflix, possui um episódio que mostra a atual situação relacionada ao plástico, por exemplo, ressaltando que 380 milhões de toneladas do material são produzidas anualmente em todo o planeta. Um dos pontos mais dramáticos da situação é o fato de a reciclagem do produto não ser exatamente da maneira imaginada: hoje, estima-se que apenas 9% de todo plástico já produzido foi reciclado. Isso porque, por mais que haja a separação do lixo, nem todo tipo de plástico produzido pode de fato ser reaproveitado – além disso, a biodegradação demora algumas centenas de anos para acontecer e as matérias-primas para sua fabricação podem ser tóxicas ao ser humano. Por isso, a melhor solução e, de fato, substituir por outros materiais.

PEQUENOS PASSOS

Em São Paulo, uma pequena vitória aconteceu com a lei que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico na cidade. Isso quer dizer que eles não apenas não podem ser usados em bares e restaurantes como também não podem ser vendidos em supermercados. A lei entra em vigor em 1° de janeiro de 2021.  “A escolha de matéria­ prima pode ser facilmente alterada. de preferência para materiais naturais, reciclados, biodegradáveis ou uma combinação desses. No caso do setor em que atuo, é possível mudar isso até em empresas que estão sempre em busca de custos mais baixos, pois existem poliéster e poliamida biodegradáveis e reciclados”, diz a sócia-fundadora da Pantys, Emily Ewell.

Segundo ela, há muitas opções para os fornecedores e cada vez mais inovações, como os novos fios naturais, que podem trazer funcionalidades diferentes e interessantes para fazer mais produtos sustentáveis. Sua empresa é a primeira marca de calcinhas absorventes do Brasil que substitui completamente o uso de absorventes descartáveis, reduzindo, assim, até 500 unidades que seriam descartadas em um ano.

Outro documentário que mostra como a indústria pode impactar o planeta é o Explicando – O Futuro da carne. Ele ensina o quanto o consumo da proteína animal auxiliou no desenvolvimento humano em determinado momento. Porém, quando o consumo excessivo passou a se instalar no mundo, a pecuária passou a exigir espaço físico e quantidades de água que podem se tomar insustentáveis em pouco tempo. Com isso, já existem pesquisas e empresas focadas em desenvolver proteínas substitutas, inclusive em sabor, para quem não quer abrir mão do gosto de um bom churrasco. Porém, o ponto principal a ser trabalhado é o marketing desses produtos que ainda não parecem ter muita aderência do público.

Mas, além de ideias inesperadas que possam trazer novas possibilidades futuras, o que é possível a sua – pequena – empresa fazer hoje para manter o planeta a salvo? “Pelo que percebemos com a nossa experiência, a diferença entre o valor de matérias-primas mais sustentáveis para as menos não é tão grande. “Talvez você apenas tenha que repensar a parte de design, pois os processos e resultados mudam um pouco, mesmo assim é possível fazer o produto”, considera Emily.

A empresária diz que os consumidores, atualmente, valorizam mais os materiais sustentáveis, por isso, a preferência deles tem um impacto muito grande na experiência. Então, a escolha acaba valendo a pena e o custo fica ainda menor. “Nós, por exemplo, oferecemos produtos com decomposição máxima de três anos (tecidos normais levam até 50 anos para se decompor), além de terem uma durabilidade de até dois anos de uso”, acrescenta.

O último tópico citado é um contra­ponto à conhecida obsolescência programada – elaborada em 1932, ela traz produtos criados justamente para não durarem muito tempo e gerarem maior lucro por provocarem a necessidade de uma nova compra em um período menor. Uma das vitórias para o meio ambiente neste sentido veio à tona no fim de 2019, segundo o jornal Le Monde. O Senado francês aprovou uma emenda obrigando fabricantes a oferecerem aos consumidores informações simplificadas sobre a reparabilidade dos equipamentos elétricos e eletrônicos, para que a vida útil deles seja prolongada.

COMO EU FAÇO DAR CERTO?

Na visão de Emily, a primeira coisa a se pensar é a matéria-prima, tanto do produto final quanto da embalagem e até dos materiais usados no próprio escritório – se você está usando papel reciclável ou reciclado, por exemplo. O segundo ponto é a escolha de fornecedores. “Precisamos olhar todos os processos de quem fabrica a matéria-prima que compramos. Na Pantys, trabalhamos com fornecedores de tecidos que fazem reuso de água no processo de fabricação, olhamos o tipo de tingimento que eles utili­zam, para garantir que usam combinações químicas que não eliminam toxinas no meio ambiente. Depois, vem o espaço físico. Medimos todo o consumo de água e energia, estabelecemos metas para melhorar isso ao longo do ano e montamos um plano para reduzir nosso consumo de qualquer recurso em todo o nosso processo interno”, mostra.

O último ponto é o contato com o consumidor final. “Se for possível, é legal recolher o produto depois de utilizado. No nosso caso, nós conseguimos fazê-lo reciclável, o que permite que ele seja descartado normalmente”, explica Emily. Nesse contexto, divulgar a empresa como sustentável sem entender bem o que você está vendendo e a maneira que está conduzindo a produção pode ser um tiro no pé.

A Euro Colchões também abraçou a ideia do consumo consciente e está lançando a linha EcoMind, com tecidos de fibras recicladas de alta performance. Eles são fabricados com garrafas PET coletadas a 50 quilômetros da costa de países ou áreas sem sistemas formais de reciclagem. “As empresas precisam escutar o consumidor, estar atentas aos novos hábitos de consumo, avaliar como querem se relacionar com os consumidores. A jornada rumo a um futuro sustentável é longa, mas essencial e necessária, e precisa começar já”, afirma o CEO da empresa, Maurício Aballo.

Quando o assunto é o consumo consciente e a contribuição para a preservação do nosso planeta, qualquer empresa que estiver engajada na sua visão, já com essa mudança de mindset, será reconhecida posteriormente pelo consumidor como uma empresa que não quer só vender, quer também se responsabilizar pela preservação do nosso planeta. Além disso, é preciso repensar o descarte dos produtos fabris.

Outro exemplo de quem usou a tecnologia a favor do seu negócio é a Fix it, que faz impressões em 3D com foco em soluções ortopédicas, neurológicas e reumatológicas biodegradáveis. Ela trabalha ainda com modelo de franquias e já existe em Recife, Caruaru, Natal e Chapecó. O projeto é recente, já que antes a empresa trabalhava produzindo em tamanhos genéricos e vendendo diretamente ao público final ou clinicas e hospitais. O produto é feito de filamento de PLA, um plástico termo moldável e biodegradável composto de bagaço da cana-de-açúcar, milho e beterraba, com design que se adapta à anatomia do corpo.

Atualmente, estão também focados em minimizar o tempo que se leva para produzir uma solução da Fix it, reduzindo assim o consumo de energia elétrica. E de acordo com os valores da empresa, estão implementando sustentabilidade em tudo que envolve as soluções, da fabricação até o uso pelo paciente. “Os maus hábitos da indústria em relação ao meio ambiente incluem não se preocupar com o desperdício, utilizando bastante água em seu processo ou matéria-prima de fontes não renováveis. Assim como quando não há preocupação com o design do seu produto após o uso – acredito que, elencando esses entraves da indústria tradicional, na minha opinião, são os mais fáceis de mudar”, conclui o CCO e cofundador da Fix it, Felipe Neves, formado em fisioterapia e pós-graduado em neurogerontologia.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DE BEM COM A VIDA

Alegria fortalece o corpo e a mente, além de nos preparar para melhor enfrentar tempos de crise

Há 80 anos, Cecilia O ‘Payne fez seus votos perpétuos na congregação das Irmãs Pobres de Nossa Senhora em Milwaukee, Estados Unidos. Na ocasião, a madre superiora lhe pediu que escrevesse um breve relato sobre a própria vida, incluindo fatos decisivos da infância e dos tempos de escola, bem como experiências de natureza religiosa que tivessem contribuído para levá-la ao convento.

Décadas depois, o relato de Cecilia foi publicado, juntamente com as anotações de outras noviças que haviam ingressado na congregação na mesma época. Três psicólogos da Universidade de Kentucky decidiram examinar o material. Eles realizaram, na ocasião, um amplo estudo sobre envelhecimento e mal de Alzheimer. Os psicólogos David Snowdon, Wallace Friesen e Deborah Danner avaliaram 178 relatos autobiográficos, a fim de definir seu “teor emocional” com base em manifestações de felicidade, interesse, amor e esperança. O que observaram foi notável: aparentemente, as freiras alegres viveram até dez anos mais que as que pouco enxergavam o lado bom de sua existência terrena.

Há muito tempo cientistas notaram que, em geral, as pessoas que se sentem bem vivem mais. Essa descoberta, porém, suscita mais perguntas que respostas. Como pode a confiança no futuro ajudar no prolongamento da expectativa de vida? É possível que bons sentimentos vividos hoje tenham consequências de tão longo prazo? E, se é assim, como encarar as emoções positivas: são uma questão de destino ou podem ser geradas deliberadamente?

Uma nova disciplina, a “psicologia positiva”, começa a dar as primeiras respostas a essas perguntas. Fundada há duas décadas, é fruto da iniciativa de Martin E. P. Seligman, então presidente da Associação Americana de Psicologia (APA). Como muitos psicólogos, ele dedicou boa parte de sua carreira de pesquisador ao estudo das doenças mentais. No que se refere à busca de uma cura para transtornos psíquicos, progressos significativos foram feitos nos últimos 60 anos. Por outro lado, a psicologia produziu poucos métodos capazes de ajudar as pessoas a alcançar maior plenitude pessoal. Seligman queria corrigir esse desequilíbrio e com a ajuda do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, da Universidade de Chicago, recomendou aos pesquisadores que se dedicassem à investigação daquilo que “faz a vida valer a pena”.

Há diversas razões para os sentimentos considerados positivos terem sido alvo de pouca atenção no passado. Em primeiro lugar, essas emoções são mais difíceis de investigar que seus equivalentes negativos. Alegria, prazer e satisfação não se distinguem entre si com tanta nitidez quanto irritação, tristeza e medo. Assim, a ciência diferencia apenas um punhado de bons sentimentos: para cada emoção positiva identificada existem três ou quatro negativas.

Também nossas possibilidades de expressão corporal revelam-se mais bem compartimentadas quando se trata de emoções que causam desconforto. No mundo todo, qualquer pessoa é capaz de distinguir com precisão uma expressão raivosa ou triste ou amedrontada. No polo oposto, toda expressão espontânea de contentamento – seja ela de júbilo, vitória ou bem­ aventurança – apresenta sempre os mesmos atributos: os cantos da boca se alçam e os músculos em torno dos olhos contraem-se involuntariamente, fazendo com que as maçãs do rosto se elevem e pequenas rugas surjam ao redor dos olhos.

PROBLEMAS ANCESTRAIS

A distribuição desigual de recursos atinge até o sistema nervoso autônomo, que comanda órgãos internos, vasos sanguíneos e glândulas. Há 30 anos, os psicólogos Paul Ekman e Wallace Friesen, da Universidade da Califórnia em São Francisco, e Robert Levenson, da Universidade de Indiana, demonstraram que irritação, medo e tristeza provocam reações mensuráveis do corpo, o que não se verifica em relação a diversas emoções prazerosas.

Por fim, também a metodologia de investigação representa um problema. Com frequência, cientistas tentaram abordar a questão dos bons sentimentos valendo-se de modelos desenvolvidos para seus congêneres negativos. Estes trazem consigo o impulso para que se aja de determinada maneira: a irritação gera a necessidade do ataque, o medo compele à fuga, o nojo produz o desejo de vomitar. É claro que nem sempre obedecemos às cegas a tais impulsos; ainda assim, a margem de manobra no tocante à ação se estreita num instante. Quem sente medo não apenas pensa na fuga: também seu corpo se prepara para essa ação, elevando tanto a frequência cardíaca como a pressão arterial.

Vistas dessa maneira, as emoções desconfortáveis nada mais são do que soluções eficazes para problemas recorrentes com que já se debatiam nossos ancestrais. Emoções positivas, no entanto, não se deixam explicar com tanta facilidade. Do ponto de vista evolutivo, alegria, prazer e gratidão parecem ter sido de pouca utilidade na garantia da sobrevivência. Terão representado alguma vantagem na nossa capacidade de adaptação ou apenas sinalizariam ausência de perigo?

A influência que estados de ânimo positivos exercem sobre pensamento e comportamento admite investigação psicológica. Em um de nossos experimentos, mostramos trechos curtos de filmes às pessoas, com o intuito de induzi-las a determinado estado emocional. Um bando de pinguins brincalhões gingando no gelo gerou alegria; pacíficas cenas da Natureza, serenidade. O medo foi suscitado com imagens de alturas vertiginosas, e a tristeza, mediante cenas de morte e de funerais. As imagens-controle mostravam um velho e aborrecido protetor de tela de computador.

Imediatamente após essa peque na sessão de cinema, testamos a capacidade dos participantes de entreter novos pensamentos. Para tanto, mostramos a eles um conjunto de três figuras geométricase perguntam os qual de dois outros conjuntos mais se parecia com o primeiro. Não se tratava de obter uma resposta cerra ou errada: em um caso, as figuras se assemelhavam em sua configuração geral; em outro, no detalhe. Esse “exame de vista” mostrava, porém, se uma pessoa percebia, antes, a impressão geral ou se, ao contrário, se concentrava nos detalhes. Os resultados revelaram que os bem-humorados tenderam a se orientar pela forma global – sinal de pensamento mais abrangente. Os mal-humorados, ou neutros, se concentraram nos detalhes.

MAIS QUE TALENTO

Efeitos semelhantes foram observados pela psicóloga Alice lsen, da Universidade Cornell, em Nova York. A fim de mensurar o efeito dos sentimentos positivos sobre a criatividade, ela usou o teste das “associações remotas” do psicólogo Sarnoff Mednick. A tarefa dos participantes consistia em, diante de três palavras, encontrar uma quarta que apresentasse nexo temático com as anteriores. Se, por exemplo, as palavras são “humor”, “quadro” e “noite”, a resposta correta é “negro”. Antigamente esse teste era empregado para determinar diferenças individuais de criatividade. Isen, no entanto, aplicou-o apenas a pessoas consideradas bem-humoradas. As mais contentes foram as que demonstraram melhor capacidade associativa. Criatividade, portanto, não é só questão de talento, mas também de humor apropriado.

Em outros experimentos, a psicóloga investigou se a capacidade diagnóstica de um médico dependia de sua disposição emocional. Ela deu a alguns médicos um saquinho de doces e pediu que pensassem em voz alta enquanto examinavam o caso de um paciente com um problema no fígado. Comparados aos demais, os médicos premiados com doces não apenas avaliaram com mais rapidez os diferentes dados, como demonstraram menor tendência a se fixar em um único pensamento, revelando-se dispostos a descartar conclusões precipitadas. Outro experimento semelhante mostrou que mediadores bem­ humorados saíram-se melhor no encaminhamento de negociações complexas. Conclusão: o pensamento das pessoas que se sentem bem é mais criativo, mais flexível, mais abrangente e mais aberto.

Assim como as emoções positivas dão origem a novas ideias e novas possibilidades de ação, elas podem conduzir também a mudanças profundas e duradouras.

Quando as crianças riem em plena folia ou os adultos se divertem jogando futebol, sua motivação pode ser meramente hedonista; mas o fato é que, ao fazê-lo, estão construindo recursos físicos, intelectuais e sociais: o movimento faz bem à saúde, as estratégias de jogo contribuem para a capacidade de solucionar problemas, a camaradagem fortalece laços sociais. Estudos mostram que algo semelhante acontece também com macacos, ratos e esquilos.

Testamos também a relação entre resistência psíquica e alegria de viver. Solicitamos aos participantes dessa experiência que descrevessem seu estado emocional e sua visão do futuro. Entrevistamos o mesmo grupo de pessoas seis meses depois. Nesse meio tempo, as torres gêmeas do World Trade Center vieram abaixo. Como era de esperar, quase todos estavam abatidos na segunda entrevista e mais da metade foi diagnosticada com depressão. No entanto, aqueles nos quais havíamos identificado, no início do ano, maior capacidade de resistência seguiram nutrindo alguns sentimentos positivos, mesmo depois do 11 de Setembro. A gratidão foi o mais mencionado. Os otimistas disseram, por exemplo, ter constatado que “a maioria das pessoas neste mundo é boa”. O ânimo manifestado diante da vida claramente os havia protegido da depressão.

Encontramos, enfim, uma maneira de medir o efeito fisiológico provocado pelas emoções positivas. Era plausível supor que sentimentos bons modificassem a reação do organismo ao stress. Isso fica muito evidente no sistema nervoso autônomo e na circulação cardiovascular.

DE CORAÇÃO ABERTO

Em um de nossos experimentos, submetemos os participantes a uma situação de pressão, comunicando-lhes que teriam exatamente um minuto para preparar um discurso, que seria registrado em vídeo e avaliado pelos demais participantes. O prazo curtíssimo para o cumprimento da tarefa gerou angústia e elevou a frequência cardíaca e a pressão arterial. Logo em seguida, mostramos a cada um deles um de quatro filmes: dois deles estimulavam sentimentos positivos – diversão e contentamento -, ao passo que o terceiro pouco os afetava e o quarto causava tristeza. Enquanto assistiam ao filme, acompanhamos os indicadores de stress.

Nos indivíduos que assistiram a um dos filmes alegres, o nível de stress retornou ao inicial com mais rapidez que nas pessoas que viram o filme neutro. E os que só podiam se entristecer com o quarto filme foram os que precisaram de mais tempo para se recuperar do susto. Fica evidente que os sentimentos positivos exerceram influência benéfica no sistema cardiovascular. Contudo, são ainda em grande parte desconhecidos os mecanismos cognitivos e fisiológicos por trás desses processos. Tampouco nossa pergunta inicial encontra­ se respondida: de que forma os sentimentos positivos promovem a longevidade? Está claro que fazem mais que produzir mero bem-estar momentâneo. Sua atuação moderadora em situações estressantes sugere que eles poderiam, a longo prazo, reduzir o dano causado ao sistema cardiovascular pelos sentimentos negativos. A isso vem se somar, no entanto, outro fenômeno: quem está contente hoje já está a caminho de ser igualmente mais feliz no futuro.

Junto com o psicólogo Thomas Joiner, da Universidade do Estado da Flórida, examinamos se o ânimo positivo e o pensamento mais abrangente estimulam ou mesmo fortalecem um ao outro. Com o auxílio de testes-padrão feito com intervalo de cinco semanas, comparamos o estado de ânimo e a postura mental de 138 estudantes universitários. O resultado foi que a disposição positiva na primeira etapa redundou, na segunda, num incremento desse mesmo estado de ânimo e em maior abrangência de pensamento. Do mesmo modo, mas em sentido inverso, o pensamento mais abrangente na primeira etapa incrementou tanto o ânimo positivo como a abrangência de pensamento na segunda. Ou seja, pessoas em geral bem-humoradas evidentemente se deixam levar com mais facilidade numa contínua espiral ascendente.

Sentimentos positivos não modificam apenas o indivíduo: atuam de forma contagiosa. Boas ações geram contentamento, porque podemos nos orgulhar delas, embora muitas vezes praticá-las seja uma forma de fugir das próprias dores e fazer ao outro o que gostaríamos que fizessem para nós. O fato é que os que receberam ajuda sentem-se agradecidos, e mesmo “espectadores” casuais se alegraram. Numa reação em cadeia, os sentimentos positivos conduzem a uma postura mental abrangente e à solicitude, o que, por sua vez, desencadeia mais emoções positivas.

Isso mostra que necessitamos de métodos que nos permitam experimentar sentimentos positivos com mais frequência. Decerto, o humor e o riso parecem oferecer o caminho mais curto; em tempos difíceis, todavia, é mais fácil falar do que fazer. Meu conselho é que procuremos a felicidade em todas as situações da vida. Quem deseja descobrir algo de bom num mundo complexo e, em parte, opressivo, precisa apelar para as próprias forças e para as de seus semelhantes. Afinal, o mais poderoso aliado no caminho para a maturidade e a força interior é nossa consciência.

ALEGRIA FAZ PENSAR MELHOR

Experimentar sentimentos positivos abre o pensamento das pessoas. Um “exame de vista” (à esquerda) que opõe a percepção de conjunto àquela do detalhe solicita que escolhamos qual das figuras abaixo mais se assemelha à de cima. O bem-humorado tende a se orientar pela impressão geral e a escolher os triângulos – prova de um pensamento mais abrangente. Da mesma forma. pessoas com estado de ânimo positivo conseguem bons resultados no teste de “associações remotas” de Mednick (à direita). Evidentemente, sentimentos positivos ampliam nosso horizonte mental e nos permitem solucionar problemas com mais rapidez.

UM FILME ALEGRE CONTRA O STRESS

Sentimentos positivos ajudam as pessoas a se acalmar com mais rapidez em situações estressantes? Afim de examinar essa hipótese, ligamos aparelhos medidores de pressão, frequência cardíaca e irrigação sanguínea da mão em nossos voluntários. Depois, demos a eles um minuto para que fizessem um discurso a ser gravado em vídeo e avaliado. Como era de esperar, as medições registradas dispararam. Mas, logo em seguida, ligamos um videocassete para mostrar a cada um deles um filme divertido, tranquilo, neutro ou triste. Ao mesmo tempo, comunicamos a todos que o discurso solicitado não era para valer. Em todos os voluntários, os valores medidos retornaram ao ponto de partida. Contudo, naqueles que assistiram aos filmes agradáveis, esse retorno à normalidade se deu de forma bem mais rápida.