OUTROS OLHARES

 CANCELADOS

O boicote nas redes sociais oscila entre uma estratégia legítima e o linchamento virtual

Houve um tempo em que escritores de prestígio e acadêmicos com talento para escrever definiam o discurso das massas. Em artigos, eles articulavam o bom senso – ou não – e a partir dali cada leitor escolhia as opiniões com as quais se alinhava. Se ele discordava ou simplesmente considerava que poderia acrescentar algo ao debate, escrevia uma carta que demorava dias para chegar e, quando chegava, poderia ser lida ou não. E receber ou não uma resposta. Por décadas, assim funcionou o circuito da chamada opinião pública, mas os tempos mudaram. Hoje basta um clique. E bem mais do que seguir e comentar sobre o que se lê, se assiste e se escuta nas redes sociais, o usuário pretende ser ouvido ou simplesmente “cancelar” o que considera questionável ou ofensivo.

Eis a questão. Ao lado do poder de ser escutado, internautas perceberam que podem replicar no mundo virtual uma velha e conhecida prática do mundo real: o boicote. Mas quando a cultura do cancelamento é uma arma legítima de represália e quando ela deixa de ser protesto e se transforma em linchamento virtual?

No processo histórico da cultura, muitos dos limites que definem o certo e o errado estão esmaecidos, confusos ou ambíguos. Cristina Cypriano, psicanalista e doutora em sociologia, avalia que nesse contexto passamos a conviver com normas sociais emergentes e culturas muito jovens que passam a estabelecer novos limites que, ainda que não estejam bem solidificados, estão em constante processo de construção. E isso acontece tanto na vida real quanto no mundo virtual. “Devemos levar em consideração os novos movimentos sociais que são pautados em relação à vida íntima e pessoal. Nesse lugar, o cancelamento aparece contra tudo aquilo ou todos aqueles que ultrapassam certos pontos traçados por essas culturas jovens e novos movimentos sociais. A cultura do cancelamento torna-se necessária, portanto, como demarcação e reafirmação de limites.” Mas, como todo processo de regulação, a linha que separa o protesto legítimo do autoritarismo e da negação ao diálogo é tênue. O psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo Christian Dunker pontua que há um uso um tanto quanto exagerado do cancelamento, mas isso não significa que ele deva ser invalidado. “Há que se distinguir o cancelamento, ato político e estrategicamente bem-posto, do cancelamento autocrático, que produz a sensação de moralismo. Toda vez que cancelo simplesmente porque ‘eu não faria assim’, pressupondo que o outro deva agir exatamente como eu ajo, eu estou indo contra a inclusão, a universalização do diálogo. E, ainda mais grave, ao me retirar do debate, o cancelado pode se beneficiar e criar um ambiente ainda mais tóxico, machista, violento e, portanto, aumentar a coerência identitária do seu grupo, o que seria péssimo.”

Da influencer Gabriela Pugliese, que furou a quarentena para dar uma festa para amigos, à atriz Thaila Ayala, que chamou sua marca de roupas de “Vírus” em meio à pandemia. Do youtuber Felipe Neto, após críticas ao governo Jair Bolsonaro, à escritora J.K. Rowling, acusada de transfobia após publicar o texto “Criando um mundo pós-Covid-19 mais igual para as pessoas que menstruam”. A lista não é pequena e nenhum dos citados ficou indiferente aos reflexos dos cancelamentos a que foram submetidos – de perda de contratos a seguidores em queda.

A historiadora Lilia Schwarcz, reconhecidamente uma das intelectuais mais influentes do País, dedicada ao estudo do preconceito e do racialismo no Brasil, viu-se no centro de debates, críticas e cancelamentos após publicar na Folha de São Paulo o artigo “Filme de Beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha”. Dias depois, Schwarcz faria um mea-culpa nas redes sociais. “Errei e peço desculpas aos feminismos negros e aos movimentos negros com os quais desenvolvi, julgo eu, uma relação como aliada da causa antir­racista”, escreveu no Twitter.

A antropóloga social Izabel Accioly acredita que o cancelamento é importante para que os indivíduos sejam responsabilizados pelo que fazem e falam nas redes sociais, sobretudo quando se é uma pessoa pública, mas destaca que as críticas devem ser qualificadas e não se limitarem a seguir um comportamento de manada. “Como influenciador, você não pode achar que seu comportamento não é formador de opinião. No caso da Lilia, você a está cancelando porque viu um Twitter que dizia que ela era racista, ou você a está criticando porque leu o artigo e viu que ela critica uma imagem afrofuturista que ela nem sequer conhece? Então, veja bem, são duas críticas distintas. Uma é violenta e rasa, a outra está associada a argumentos.”

Embora haja uma dependência entre si, os especialistas destacam que a cultura do cancelamento e do linchamento virtual pressupõe comportamentos distintos. “Enquanto o cancelamento diz respeito à demarcação de limites e desautorização, o linchamento virtual dá um passo em direção à destruição, aniquilação do indivíduo”, avalia Cypriano. Nos Estados Unidos, a tentativa de cancelar o cancelamento tem ganhado fôlego, sobretudo entre os movimentos de direita. Enquanto acadêmicos famosos assinaram a carta da Harper’s Magazine que ataca a cultura do cancelamento, o New York Times publicou o artigo “10 teses sobre cultura do cancelamento”, assinado por Ross Douthat. Nele, o escritor diz que aqueles que têm mais a temer o fenômeno geralmente reverberam o reacionarismo da era Trump. “Os liberais ou centristas que temem o zelo da esquerda pelo cancelamento precisam identificar os lugares em que acham que as novas normas de esquerda não são apenas censuradoras demais, mas simplesmente erradas, e aí travar a batalha, tanto no conteúdo quanto no princípio liberal”, sugere o texto.

Apesar das polêmicas que a cultura do cancelamento têm provocado, tanto no Brasil quanto no exterior, Christian Dunker se diz otimista diante do fenômeno. “Nenhuma transformação acontece sem engasgos ou recuos. Como vamos criar uma cultura na internet, completamente nova, sem que apareçam em algum momento transgressões, barreiras, barbáries, excessos? É próprio do novo. É assim que acontece na vida e é assim que acontece na arte.”

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.