EU ACHO …

O NOVO NORMAL

É urgente que empresas e investidores ampliem suas responsabilidades com a sociedade. É a mentalidade pós-covid-19

A crise provocada pela pandemia da covid-19 escancarou a desigualdade e evidenciou um sistema econômico que privilegia poucos. O princípio de valorizar o retorno financeiro para o acionista acima de outros stakeholders – a força motriz do capitalismo global – não considera o bem comum na equação. A concentração de renda crescente custa caro para o todo. O que se viu é que boa parte das empresas, e também da população, não estava preparada para enfrentar este momento. Na periferia, as condições são perversas. Num mundo socialmente mais justo e economicamente mais igualitário, essas condições poderiam ser evitadas. O cenário de crise aponta a importância de conduzir os negócios de outra forma.

Nos últimos dois meses, assistimos a uma farte sensibilização por parte das empresas brasileiras para apoiar os mais vulneráveis – talvez a maior mobilização de recursos privados jamais vista no Brasil, um país que, historicamente, não tem cultura de doação. Vimos a construção de hospitais de campanha em tempo recorde, doações maciças de cestas básicas, suprimentos hospitalares e inúmeras organizações do terceiro setor recebendo os mais diversos recursos.

Embora essencial e muito bem-vindo, todo esse esforço pode ser insuficiente perante o que está por vir. Um estudo feito pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro concluiu que a economia do país poderá encolher até 11º/o em um cenário pessimista se ações mitigatórias não forem realizadas a tempo. Ainda, os principais impactos serão sentidos no desemprego e no agravamento da desigualdade social, com maior prejuízo no comércio, na construção civil e nas indústrias extrativistas e de transformação. Somados, esses setores poderão alcançar uma perda de até 14,7 milhões de vagas no mercado de trabalho, sendo ainda mais intensa em setores com mais informalidade e salários mais baixos.

Apesar de essas iniciativas imediatas estarem certamente amenizando o sofrimento de milhares de pessoas em todo o país no curto prazo, é preciso jogar luz sobre as questões estruturais do nosso modelo de desenvolvimento. Se não pensarmos e agirmos de maneira diferente, enfrentaremos as próximas crises com os mesmos desafios e tenho a convicção de que se repetirão com frequência, considerando a crescente escassez de recursos naturais, aumento dos efeitos das emissões de carbono, ampliação das desigualdades e má distribuição de riqueza e renda. Olhando de maneira realista para os dados que a ciência apresenta, a crise da covid-19 pode ser mero ensaio do choque estrutural e civilizatório que enfrentaremos.

Diante de tantas evidências expostas por uma crise global sem precedentes, fica claro que é preciso repensar o modelo atual de capitalismo e endereçar as principais questões de nosso sistema econômico. Não adianta a economia voltar a crescer com um número grande de empregos informais, por exemplo. Se boa parte das empresas pagasse seus funcionários de maneira adequada e cumprisse as leis trabalhistas, de forma que eles conseguissem ter reservas, hoje estaríamos em uma situação completamente distinta.

Já passou da hora de as empresas adotarem um modelo de governança que privilegie todos os seus stakeholders, não apenas o acionista e o curto prazo. Empresas que mantêm boas relações com seus funcionários e consumidores, que têm cadeias de suprimento sólidas e alto padrão de governança geram maior valor no longo prazo. Como exemplo, as Empresas B- que adotam os mais altos padrões de práticas ambientais, sociais e de governança -tendem a ser muito mais resilientes durante as crises, algo que foi provado na crise de 2008 e já tem sido testemunhado no momento atual.

No entanto, a mudança do sistema só será possível se for além da atuação individual das empresas. É crucial o papel do governo para garantir um bom ambiente para que o setor privado opere no longo prazo, com políticas públicas que incentivem as boas práticas. E, mais do que nunca, o mercado financeiro deve assumir um compromisso firme e participativo para a construção de uma nova economia, principalmente considerando que o setor é o maior interessado em manter a estabilidade do sistema. Portanto, implementar uma estrutura para alocação do capital que inclua aspectos de governança focados em sustentabilidade será essencial para acelerar essa transição.

Há um evidente progresso no reconhecimento da importância dos fatores ambientais, sociais e de governança (ESG). Ainda assim, muitos investidores precisam integrar esses princípios a seus processos de investimentos ou se envolver com as causas das empresas em que investem. Agora é hora de encorajar as empresas investidas a priorizar seus trabalhadores e comunidades assim como priorizam a relação com o acionista. É urgente que empresas e mercado financeiro ampliem suas responsabilidades para com a sociedade. Não se trata apenas de pagar impostos e gerar valor para o acionista. Essa mentalidade é pré-covid-19. Se as empresas não passarem a considerar a sério e de maneira equânime todos os stakeholders em suas decisões, certamente teremos aprendido muito pouco com este momento. A crise de 2008 deixou poucos aprendizados. Em um piscar de olhos o desequilíbrio econômico e o aumento da desigualdade voltaram a dar as cartas. Agora, mais uma oportunidade desperdiçada de evoluir nos fará ainda mais falta ali na frente.

FRANCINE LEMOS – é Diretora executiva do Sistema B Brasil

OUTROS OLHARES

A VOLTA DOS ANOS 90

A influência nostálgica de três décadas atrás – um período de vastas transformações mundiais e imensa variedade estética – ganhou força durante a quarentena

A década de 90 talvez seja uma das mais injustiçadas da história. Embora tenha sido palco de eventos extraordinários, ela não é lembrada com a mesma paixão concedida a outros períodos. Os anos 1960 têm uma aura de magia inquestionável, atrelada à luta pelos direitos civis e ao movimento hippie. Nos anos 1980, foi a cultura pop, na voz de Michael Jackson e na de Madonna, que construiu a sua merecida fama. Os anos 2000, com o surgimento das redes sociais, levam o devido crédito pela maneira como mudaram a sociedade. Os anos 1990, contudo, foram injustamente diminuídos por não ter uma única marca registrada, mas isso não reduz o seu valor. De certa forma, houve, naquele tempo, uma grande e apimentada salada em diversos campos. Em 1991, deu-se a última sessão do Soviete Supremo, marco do fim da União Soviética. Três anos depois, em 1994, o presidente Itamar Franco daria a largada para o Plano Real. Na cultura, a onda grunge conquistaria uma legião de fãs e, na ciência, a clonagem da ovelha Dolly abriria inimagináveis frentes na genética. Agora, com a onda nostálgica que ganhou força na pandemia, os 90 estão de volta – um justo resgate para um período marcado por gran­des transformações.

A moda é o carro-chefe do revival. Kim Kardashian e Grazi Massafera, por exemplo, têm mais em comum do que os milhões de fãs nas redes sociais. Ambas incorporaram a moda de três décadas atrás. A celebridade americana abraçou as marcantes criações de Jean-Paul Gaultier e trouxe para seu guarda-roupa várias peças com tela estampada, ou printed mesh. Por sua vez, Grazi foi vista em diversas ocasiões com uma pochete da Givenchy pendurada no ombro. Peça de gosto controverso bastante difundida no século passado, ela renasceu depois que Karl Lagerfield, o ex-todo-poderoso da Chanel, levou a bolsinha para a passarela. Com a adesão de celebridades e influenciadoras, agora pode ser encontrada tanto nas lojas de artigos de luxo quanto nas redes varejistas de moda.

O mesmo movimento nostálgico inspirou outros itens do guarda-roupa. É o caso da calça baggy, das presilhas e fru-frus e das bandanas – peça que era obrigatória no visual do casal Britney Spears e Justin Timberlake -, além dos lenços, resgatados por grifes como Dior e Missoni. Os pés não foram excluídos do movimento revival. A marca Steve Madden relançou os tamancos com salto plataforma e tiras largas que viraram febre nos anos 90. Para a especialista em semiótica da Universidade de São Paulo Clotilde Perez, o resgate do passado tem a ver com as incertezas sobre o futuro. “Se o presente está insuportável, buscamos conforto nas referências já conhecidas”, diz.

Revisitar o passado tem sido relevante (e lucrativo) para as redes de varejo. As marcas dão destaque às linhas de licenciamento, que já respondem por uma parcela significativa das vendas. Na Renner, as licenças de séries, ícones e cartoons que fizeram sucesso nas TVs da década de 90 incluem Mortal Kombat, Beavis and Butt­Head, MTV, Friends, Guns N’Roses e Nirvana, entre outros. Já a rede de lojas C&A, além das produções internacionais, adicionou recentemente numa coleção, feita em parceria com a Ambev, peças inspiradas na campanha Pipoca com Guaraná, da Antarctica, uma das referências da publicidade nos anos 90. A indústria da moda, de fato, mergulhou na onda nostálgica.

“Começamos estudando quais eram os hábitos e para quais fins aquela moda era usada”, explica Fernanda Feijó, diretora de estilo da Lojas Renner. “Em seguida, transportamos essa indumentária para os tempos atuais e percebemos ali quais são as características que cabem para os dias de hoje.” O apelo saudosista tem aderência porque a moda é, historicamente, uma forma de conexão com outras épocas – arrasta-se para o presente todo um pacote de ideias, sensações e produtos, como ocorre com os 90, ou apenas meros detalhes, como as miçangas do tempo de flower plower sessentista e setentista que retornaram de outro jeito. “Busca-se alguma conexão com parte do passado, por causa da pandemia”, afirma Mariana Moraes, gerente sênior de marketing da C&A.

Os anos 90 também foram marcados por grandes mudanças na tecnologia. Se hoje em dia o que se vê na indústria é uma disputa voltada para novas funções para os displays dos smartphones e atribuições alinhadas ao que o 5G pode oferecer, naquele tempo as demandas dos consumidores eram outras. Os dispositivos móveis funcionavam apenas para chamadas telefônicas. Em 1996 chegava ao mercado o Nokia 9000 Communicator, o primeiro celular com acesso à internet – mas só para quem vivia na Finlândia, país de origem da marca. A Motorola teve como uma das alavancas de vendas o Startac, lançado em 1996 e que tinha como atrativo o design clamshell (ou concha). O modelo evoluiu para o V3, base para o novo Razr, smartphone com tela dobrável que aportou no mercado brasileiro em fevereiro passado.

No Brasil, a década de 90 teve dois fatos marcantes. Em 1992, Fernando Collor de Mello, envolvido em denúncias de corrupção, renunciou à Presidência. Em 1994 entrava em vigor o Plano Real. No mesmo período, o Brasil ouvia sem parar hits como O Canto da Cidade, de Daniela Mercury, e Borbulhas de Amor, de Fagner. A década, contudo, foi bem mais eclética na área musical, com sucessos dos Mamonas Assassinas, bandas de grunge, grupos de Axé, o avanço do sertanejo e o surgimento de vários representantes do pagode – ritmo retomado hoje em dia com a projeção de nomes como Ferrugem e Dilsinho.

Assim como na música, os anos 90 inspiram recriações também no cinema e na TV. Recentemente, Larry Houston, diretor da série animada X-Men, admitiu estar em negociação com a Disney, dona da Marvel, para novas produções com Wolverine e companhia. Também faz parte das apostas da onda revival a nova versão da série Anos Incríveis, sucesso na década de 90. A produção, protagonizada por uma família dos anos 60, ganhará no remake atores negros, uma adequação importante em uma época marcada pelas discussões raciais.

Essa homenagem aos anos 90 e a busca por segurança, por aquilo que conhecemos e nos conforta, vem se desdobrando até em negócios que promoveram uma ruptura em seus setores. A tentativa de resgatar lembranças singelas do passado levou, por exemplo, a inovadora Airbnb a colocar em sua plataforma o anúncio do aluguel, por uma noite, da última loja Blockbuster nos Estados Unidos. Ela fica em Bend, no Oregon, e está decorada com todos os adereços que fizeram a fama da rede, além de sofás- cama para que os interessados se acomodem para ver clássicos do cinema dos anos 90. Ou seja: se vir alguém de pochete e calça baggy por aí comentando filmes e séries do passado, saiba que quem está fora de moda é você.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 21 DE AGOSTO

A CEIA DO SENHOR, A MESA DA COMUNHÃO

Tomai, comei; isto é o meu corpo (Mateus 26.26b).

Jesus celebrava a Páscoa na companhia dos discípulos. Estava ainda com eles à mesa, quando tomou um pão e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai, comei; isto é o meu corpo. A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados (v. 26-28). A Ceia do Senhor substituiu a Páscoa judaica. Aquilo que era sombra deu lugar à realidade. Não há mais necessidade de levar um cordeiro ao altar, pois Cristo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não há mais necessidade de aspergir o sangue de um cordeiro nas vergas das portas, pois, pela fé, nos apropriamos do sangue de Cristo, que nos purifica de todo o pecado. Cristo é o nosso Cordeiro pascal. Para ele apontaram os patriarcas e profetas. Ele foi a esperança dos nossos pais e o conteúdo da pregação dos apóstolos. Cristo é o Cordeiro imaculado de Deus, o Pão vivo que desceu do céu. Ele é a verdadeira Páscoa, a nossa Páscoa. Precisamos agora nos apropriar dele. Só os que comem do seu corpo e bebem do seu sangue têm parte com ele. A apropriação de Cristo se dá pela fé. Não existe uma mudança de substância nos elementos da Ceia. O pão continua pão e o vinho continua vinho, mas pela fé nos apropriamos de Cristo e dele nos alimentamos. A Ceia é a mesa da comunhão!

GESTÃO E CARREIRA

CONFERÊNCIA DE PANTUFA

Para driblar a pandemia e a crise, empresas de eventos apostam pesado no digital – sem esquecer do networking

O convidado chega ao evento, faz o cadastro e confere as opções da programação e as salas disponíveis. Começa a caminhar pelos corredores, se detém em um dos estandes para dar uma olhada nas novidades do mercado, mas opta pela plenária, no auditório principal. Responde a um quiz divertido e a vários daqueles aborrecidos questionários de avaliação. No fim do painel, consegue alguns minutos para um bate-papo privado com um palestrante. Segue para o aguardado momento do networking, quando, além de trocar contatos, adiciona alguns nomes a suas redes sociais.

Tudo isso acontece sem o convidado da feira ou da conferência ter saído de casa nem trocado o chinelo ou a pantufa por um sapato. É a nova realidade (virtual) do setor de eventos corporativos, obrigado pela pandemia a acelerar seu processo de digitalização. Em meados de março, ainda atônito com a série de cancelamentos diante do isolamento social, o setor teve de correr para fechar parcerias com novos fornecedores digitais.

No começo, o desafio era gigante. Não bastava organizar quadradinhos numa tela com interlocutores entediados esperando sua vez de falar, como acontece em reuniões corporativas que usam plataformas como o Zoom. Essa configuração até faz parte dos congressos virtuais, mas, para tornar um evento corporativo atraente na internet, é preciso ir muito além.

As empresas estão investindo em estúdios, cenários virtuais e até holografia para tentar reproduzir – na medida do possível, claro – a experiência do olho no olho. “Se eu falar para o convidado que ele vai participar de uma live, é uma decepção. Mas, se eu enviar óculos 3D para a casa dele e prometer que vai poder se sentir caminhando pelo evento, tocar e até comprar um produto em exposição, é completamente diferente”, disse Luciano Moura Martins, sócio proprietário da Casa Petra, tradicional local de festas em São Paulo que, desde março, opera um estúdio de transmissão on-line de eventos.

Converter um evento do mundo off-line em virtual é quase um outro tipo de negócio. Esqueça gastos com estacionamento, montagem de estandes e seguranças. Isso tudo sai da conta. Mas novos gastos se tornam imprescindíveis, como os com estúdios de streaming, designers de ambientes virtuais com estandes 3D, servidores de internet etc. Um orçamento pode ir de R$ 15 mil a R$ 1,5 milhão, dizem profissionais do setor. Depende do gosto e do bolso do freguês.

Embora não revele o valor total da conta, a corretora XP Investimentos admite que investiu alto para manter no calendário seu maior evento anual, o XP Expert, com palestras de grandes nomes internacionais. A partir de um estúdio em São Paulo, apresentadores interagiram com a plateia em chats e apresentaram videoconferências de personalidades como a ativista paquistanesa Malaia Yousafzai, o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair e o astro do basquete Earvin “Magic” Johnson para 5 milhões de pessoas na segunda semana de julho.

O público recorde foi consequência da decisão de tornar o evento gratuito – até o ano passado, a empresa cobrava por uma cadeira no auditório – e imitar a estrutura de um programa de entretenimento, com direito a cenários virtuais e vinhetas. Em salas virtuais, os palestrantes podiam interagir com parte do público. Entre as ações dos patrocinadores, houve até mimos reservados a clientes da XP. Alguns receberam refeição em casa para acompanhar os eventos ou vouchers de serviços. O desafio, segundo o responsável pelo evento na XP, Guilherme Kolberg, era “conseguir encantar à distância”, especialmente após a profusão de lives na internet desde março.

Já na convenção anual de uma grande marca de cosméticos, os 600 promotores de veadas participantes receberam em casa uma mala lacrada com amostras de produtos de beleza e um kit com petiscos e bebidas para participarem do happy hour virtual no encerramento, embalado pela live simultânea de um DJ. Para manter o clima do evento e não perder o fator surpresa, os convidados só podiam abrir a mala com a senha gerada no dia do evento, contou Marina Valente Ferreira, sócia da agência de eventos Gaia, contratada para a organização.

Os eventos internos, com transmissão exclusiva para um grupo de funcionários de uma empresa, também começaram a inovar e viraram mais um mercado para artistas, que têm priorizado transmissões na internet neste período de teatros e casas de shows fechados. Com chapéu de palha e cenário virtual enfeitado com bandeirinhas, 500 corretores de planos de saúde da Amil participaram de uma festa junina virtual animada pelo show do cantor Daniel.

Os convidados foram estimulados a postar fotos e vídeos em suas redes sociais, marcando o evento, e protagonizaram mais de 1.000 interações em uma sala de chat. Esse tipo de estatística faz parte dos critérios usados para medir o sucesso de um evento, o que explica o esforço dos organizadores para manter a audiência estável. Ferramentas de interação como games, quizzes, pesquisas, concursos e sorteios fazem parte do menu para prender a atenção. Federações de indústrias, como a do Rio Grande do Sul, também estão indo pelo mesmo caminho puramente digital.

“No evento físico, a partir do momento em que o participante retira o crachá na recepção, conseguimos ter mais controle. Tem o momento da plenária, a hora do coffee break. Com o participante em casa, disputamos com o cachorro, com o filho, com a campainha”, disse Fabiana Trevisan, diretora de operações da MD Live Play, empresa de eventos. “O conteúdo e o dinamismo têm de ser muito mais bem pensados. Qualquer escorregadinha, o participante vai embora.”

A Franchising Live Run, uma versão digital de uma corrida de rua que ia para seu segundo ano quando chegou a pandemia, atraiu 150 corredores. Às 8 horas da manhã do dia previsto, todos os corredores “largaram” ao mesmo tempo. Alguns trotando ao redor da sala, outros em esteiras ergométricas e mais os que preferiram correr na rua. De um estúdio em São Paulo, um apresentador conversava ao vivo com os participantes, todos com o celular, que, depois de enviarem seus tempos de corrida, receberam medalhas e certificados em casa. A ideia foi inspirada num evento similar nos Estados Unidos e viabilizada com patrocinadores. A adesão foi alta e resultou em R$ 25 mil doados para ONGs.

À medida que várias formas são testadas, algumas vão se firmando como tendência. Uma delas é a inspiração em programas de TV. Gabriel Temponi, diretor de marketing da Sympla, uma das maiores plataformas de gestão e venda de ingressos e suporte a eventos, disse que são comuns as transmissões centralizadas em um estúdio e conectadas virtualmente com praças menores, como já acontece nos telejornais quando o âncora chama um repórter de outra cidade. “É como fazer um programa, só que toda a programação é alinhada com os patrocinadores”, disse Temponi.

Com a popularização desse formato, produtores com experiência em TV viram a procura aumentar. “As agências estão sentindo necessidade de contratar pessoas como diretor de palco e diretor artístico para a condução dos eventos, com experiência em corte de câmeras e ângulos”, contou Rosângela Gonçalves, executiva da Hoffmann, uma empresa de eventos com presença no Rio de Janeiro e em São Paulo. Responsável pela cenografia nos últimos shows do cantor Luan Santana, a Chroma Garden teve de contratar novos profissionais para atender à demanda. Segundo o diretor executivo da empresa, Shawendy Cescbi, a complexidade de um evento digital demanda ao menos 60 dias para a entrega de um projeto.

Algumas empresas têm optado por um modelo híbrido. O festival cervejeiro Mondial de La Biere, que acontece no Rio, foi adiado de setembro para novembro. As palestras serão virtuais, mas a organização garante que a degustação será feita, mesmo que em casa. A Associação Brasileira de Agências de Viagens planeja um evento que una o virtual e o presencial em setembro, o Abav Collab.

Mesmo com todo esse processo de adaptação, Doreni Caramori Júnior, presidente da associação das empresas do setor, conhecida pela sigla Abrape, questiona o motivo de pavilhões e casas de evento terem sido deixados para trás nos processos de flexibilização da quarentena desenvolvidos por prefeituras. “Ninguém consegue me convencer o motivo de feiras não terem os mesmos protocolos de um shopping. E para as palestras, os mesmos para cultos de igrejas ou um restaurante”, reclamou.

O tombo do setor foi gigante. Entre 2013 e o ano passado, o crescimento médio anual foi de 6,5%. Somente em 2019, as mais de 60 mil empresas da cadeia faturaram RS 209,2 bilhões. Com a pandemia, metade dos eventos programados para 2020 foi cancelada, adiada ou está em situação incerta. Com isso, o segmento, que empregava em torno de 1,8 milhão de profissionais diretos e terceirizados, perdeu 240 mil vagas só até abril. A previsão é que esse número cresça até o final do ano.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O COMPORTAMENTO SOCIAL DO NARCISISTA

O transtorno de pers0nalidade narcisista causa dificuldades em diferentes áreas da vida, sobretudo em relacionamentos de trabalho e amor

A admiração é ponto- chave para que possamos começar o entendimento do transtorno de personalidade narcisista. Na vida adulta, essas dificuldades acabam atingindo a área escolar e até financeira do sujeito, porque ele não consegue se adaptar a nenhum ambiente de trabalho, já que se considera melhor que todos os outros e receber ordens e trabalhar em grupo é impossível para ele.

Geralmente os narcisistas são pessoas infelizes e desapontadas quando não recebem ou não percebem a supervalorização vinda do outro, de fora. Exatamente assim – o narcisista precisa que tudo seja supervalorizado nele, mas essa valorização exagerada precisa vir de fora, já que ele não tem autoestima nem amor próprio capazes de elaborar algum autoconhecimento. Aqui, o ponto central passa a ser: o que tanto falta na personalidade narcisista? Ao narcisista faz falta sentir falta da perfeição do outro a ele.

Os sinais de que estamos diante de um transtorno começam quando, em tempos de relacionamentos iniciais, o sujeito começa a reclamar de todo e qualquer parceiro ou parceira. Para ele, todos têm defeitos e esses defeitos são superpercebidos e valorizados pelo narciso a ponto de ele negar qualquer possibilidade de aceitação daquilo que vê. Em contrapartida, o narciso precisa de um outro que o valorize por demais, que reconheça nele uma perfeição e, como tal, sendo ele o perfeito, nada precisa fazer para mover o relacionamento. Assim, segue o narciso esperando ser super bem tratado enquanto o outro o serve ininterruptamente. O problema é que a personalidade narcisista não se satisfaz. Há um buraco nessa personalidade que nunca se preenche. Pelo contrário, quanto mais recebe mais se alarga a cratera na alma. E tudo isso começa a ser percebido com sintomas que podem ser a falta de empatia por tudo e todos. O narciso não percebe o outro e não se compadece com o outro. Ele ainda tem um senso exagerado de sua importância e capacidade. Sua sensação de direitos é excessiva e com isso ele exige constantemente, mas exige aquilo que o outro dificilmente conseguirá atender.

A manipulação do outro é presente na vida do narcisista e é recheada de menosprezo por aquilo que o outro faz. Humilham e acabam com parceiros, amigos, familiares porque sua capacidade de reconhecer e de se compadecer com o outro é nula, e ao final da elaboração desse quadro podemos se perceber arrogância, inveja, críticas destrutivas e vaidade absoluta para tudo. Assim está desenhado o quadro de transtorno de personalidade narcisista.

Após chegar a essa condição, o narciso se torna uma pessoa muito impaciente com qualquer dimensão da vida. Além disso, os problemas interpessoais se agravam e o estresse, juntamente com dificuldades emocionais e de comportamento, já aparece. Quer dizer, aqui já podemos perceber o tamanho do comprometimento mental a que um transtorno da natureza leva o sujeito.

Muitas vezes, um quadro depressivo ou ansioso não é compreendido como sendo fruto de uma personalidade narcísica. Por isso é sempre importante um processo terapêutico amplo para que se possa localizar com segurança, a origem do problema. Depressão e ansiedade são quadros que podem ser causados por infinitas causas e condições, porém, quando eles surgem de uma personalidade como essa, faz-se mais que urgente tratar primeiro a causa e não os sintomas.

Problemas de saúde física, uso de drogas e álcool, assim como pensamentos suicidas e automutilação também podem aparecer durante o quadro acentuado de transtorno de personalidade narcísica, mas é importante uma boa avaliação para que se descarte qualquer possibilidade de erro diagnóstico.

Hoje a neurociência, juntamente com a Psicanálise e a Psicologia, em suas diferentes orientações, tem quase como unanimidade que o tratamento para esse transtorno tem mais sucesso quando feito por uma equipe multidisciplinar, pois o que causa essa condição é uma multiplicidade de fatores que vão desde condições genéticas até mesmo neurobiológicas e de meio ambiente. O desencontro na educação dos filhos pode contribuir para o desenvolvimento do quadro.

Aqui faz muito sentido esclarecer que filhos elogiados demais ou excessivamente criticados podem ser candidatos ao transtorno. Além disso, crianças que sofreram na infância algum tipo de abuso e maus-tratos de igual forma se tornam mais preponderantes ao quadro. Crianças admiradas e elogiadas, sem feedback verdadeiros, também costumam ter problemas com o narcisismo. Mas o que mais nos assusta é o fato de que as crianças que recebem cuidados inconsistentes dos pais, cuidados que podem ser aqueles não confiáveis, imprevisíveis e não salutares, têm total chance de chegar à vida adulta apresentando características de transtorno de personalidade narcisista.

Esses cuidados se referem aos valores que muitas famílias já possuem e que não são vistos como maléficos a um desenvolvimento típico. Pais e mães devem atentar para não patrocinar comportamentos estereotipados, do tipo cabelo bonito é assim, cabelo feio é assim. Tudo que for ensinado de forma maniqueísta pode causar na criança a impressão de que o mundo dela, alimentado pelos pais, é o  único correto e, dessa forma, a criança segue crescendo como se a diferença fosse inferior e menos valorizada por ela. Com isso, o que ela traz é supervalorizado, entretanto o que o outro traz nada significa. Essa prática pode ser o início de um comportamento que vai fazer muito mal a uma pessoa na vida adulta, caso não seja tratada.

PROF. DR. GERALDO PEÇANHA DE ALMEIDA – é psicanalista, educador e escritor. Autor de mais de 70 livros, dentre eles, Em Busca da Paz Interior, No Coração da Mente Livre, Meditações para Começar o Dia e Felicidade Sempre Viva. Fundador e diretor do Projeto Coração de Pólen – Centro de Tratamento, Estudo e Pesquisa na Área de Saúde Mental, em Curitiba.