EU ACHO …

ECONOMIA DO CUIDADO

A descoberta do sars-CoV – 2 em janeiro de 2020 criou uma bifurcação no tempo-espaço. Se universos paralelos existem há um em que este vírus não apareceu, e o nosso, em que ele se tomou responsável pela pior pandemia das últimas décadas, quiçá pior do que a chamada gripe espanhola, do início do século passado. Neste Universo em que há vírus, pandemia e um grau brutal de incerteza, uma coisa é certa: a conexão entre medicina e economia é e continuará a ser não apenas muito forte, mas extremamente relevante.

Não foram poucas as vezes em que escrevi neste espaço que não era possível traçar qualquer cenário econômico sem algum entendimento sobre o vírus e a doença que ele provoca. Também escrevi que não havia possibilidade de desenhar políticas públicas adequadas sem esse mesmo entendimento. Hoje, qualquer pessoa que queira opinar, formular, ou gerir as políticas econômicas precisa ou voltar aos estudos – o que para muitos é difícil – ou estar muito próximo de alguém que tenha o conhecimento da área biomédica que lhe falta. No meu caso, e tenho a sorte de conhecer pessoas muito qualificadas nos ramos da medicina, da epidemiologia, da virologia. As horas e os dias que tenho passado estudando têm sido de extrema valia para entender o contexto, a dimensão de nossos erros e imaginar o que podemos vir a enfrentar pela frente. Os desafios serão imensos.

Parte desse desafio será o de colocar o olhar econômico a serviço da medicina e da saúde pública, além, evidentemente, da proteção social. A economia do cuidado que emerge da crise humanitária instaurada pela pandemia requer novos instrumentos de política pública, como a renda básica universal, tema recorrente de artigos meus para este espaço. Contudo, ela precisa também dialogar intensamente com o conhecimento biomédico, e há várias razões para isso.

Começo com a própria natureza do vírus e da doença. Ainda prevalece a ideia de que o sars-CoV-2 é responsável por uma infecção respiratória, de graus variados de severidade. Embora ele já não seja mais comparado ao vírus da gripe, o entendimento de que se trata de uma doença do trato respiratório tem influenciado gestores de política econômica, previsões sobre a retomada do crescimento e medidas para alcançá-la. Por exemplo, ao entender a doença como tal, cria-se uma expectativa excessivamente otimista de que vacinas e tratamentos estão próximos: afinal, sabemos tratar males desse tipo causados por outros agentes infecciosos. Porém, a Covid-19 não é somente uma doença pulmonar. A cada dia que passa somam-se as evidências de que o sars-CoV-2 entra na corrente sanguínea, tornando a Covid-19, antes de tudo, uma doença vascular. Se o vírus corre na circulação, a doença que ele causa é, portanto, sistêmica. Isso a torna mais imprevisível, tanto na apresentação clínica de sintomas quanto em relação à capacidade de desenvolver vacinas e tratamentos eficazes. É partindo dessa incerteza que os cenários de política econômica deveriam ser formulados. É contando com o risco de sequelas reversíveis e não reversíveis associadas a um mal sistêmico que deveria ser avaliado o montante de recursos a serem destinados ao SUS, por exemplo. É também dessa perspectiva que se justifica a discussão sobre a renda básica: não como algo pretensamente utópico, mas como uma medida que pode sustentar dezenas de milhões de pessoas em meio à incerteza e/ou quando algumas delas porventura perderem sua força de trabalho em razão de problemas relacionados à Covid-19.

Nesse cruzamento explícito entre a medicina e a economia há muito que construir e pensar. Qual será o melhor desenho para nosso sistema de saúde? Que programas sociais deveremos priorizar? Quais devem ser as prioridades para o investimento público? Ainda tem sentido insistir na quadra reforma-dívida-déficit-inflação como eixo central das políticas macroeconômicas? Ou é chegada a hora de reorientar esse eixo para a saúde e a proteção social, passando pelo meio ambiente, para que o crescimento futuro seja sustentável, inclusivo e justo? Essas perguntas não podem ser respondidas por meio de equações ou análises econométricas. Essas são questões que envolvem maio r conhecimento científico, empenho em buscar novas soluções para novos problemas e a centralidade do cuidado com as pessoas. Ainda espero ver esse tipo de debate no Brasil, a serviço da população, não de interesses individuais.

***MONICA DE BOLLE – é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade Johns Hopkins

OUTROS OLHARES

MINHA LUTA POR UM REMÉDIO DE 12 MILHÕES

A odisseia de uma mãe para conseguir comprar para a filha, que sofre de uma doença rara, o medicamento mais caro do mundo

A bebê Marina Moraes de Souza Roda, de 1 ano e 11 meses, diagnosticada com AME (atrofia muscular espinhal) – uma doença genética rara, neurodegenerativa e que pode levar à morte antes dos 2 anos de idade – será a primeira criança a receber no Brasil o medicamento mais caro do mundo: US$ 2,125 milhões (cerca de R$ 12 milhões). Marina arrecadou o dinheiro em dez meses por meio de uma campanha nas redes sociais. Além dela, pelo menos outras 24 crianças brasileiras estão em busca de ajuda na internet para angariar fundos para comprar a medicação.

O remédio inacessível é o Zolgensma, do laboratório Novartis. Trata-se da primeira terapia genica do mundo indicada para o tratamento da AME. Os pacientes com a doença nascem sem o gene SMN1, responsável pela produção de uma proteína que alimenta os neurônios motores, que enviam os impulsos elétricos do cérebro para os músculos. Sem essa proteína, ocorre a perda progressiva da função muscular e as consequentes atrofia e paralisação dos músculos, afetando a respiração, a deglutição, a fala e a capacidade de andar. O ineditismo do medicamento, que é aplicado em uma única infusão venosa, é que ele fornece ao paciente uma cópia sintética do gene SMN1, fazendo com que o corpo da criança passe a produzir essa proteína. Ele é indicado para pacientes com até 2 anos de idade – quanto menores as perdas, melhores os resultados.

O Zolgensma foi aprovado nos Estados Unidos em maio do ano passado e aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para ser comercializado no país. O remédio não promete curar a doença, mas estabilizar a progressão dos sintomas. É visto por muitos pais como de grande potencial de cura, por oferecer ao paciente uma cópia do gene ausente. O desafio do fabricante é convencer a classe médica de que os benefícios decorrentes de uma única dose são permanentes.

Uma outra bebê brasileira, Laura Ferreira Albuquerque de Carvalho, hoje com 1 ano e 7 meses, participou dos estudos clínicos da droga. Ela foi a primeira criança do país a receber o remédio, nos Estados Unidos, em março do ano passado, ainda na fase de testes. Um ano e cinco meses depois, Laura não desenvolveu nenhum sintoma da doença e cresce como uma criança normal, sem AME. “Ela conquistou todos os marcos motores de desenvolvimento, como qualquer criança de sua idade. Laura anda, come sozinha, tem força, coisas que uma criança com AME não conseguiria fazer. Oficialmente não posso afirmar, mas tenho certeza de que minha filha está curada”, disse Estefânia Miguel Ferreira, de 40 anos.

Hoje em dia, o único medicamento aprovado para tratamento da AME no Brasil é o Spinraza, da Biogen, também de alto custo e incorporado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no ano passado. Ele é ministrado por meio da aplicação de seis doses no primeiro ano e três doses por ano pelo resto da vida do paciente ao custo aproximado de R$ 145 mil cada dose. O Spinraza atua no gene SMN2, fazendo com que ele aumente a produção da proteína responsável por alimentar os neurônios motores. Também não promete a cura da doença. Há uma terceira medicação, o Risdiplam, da Roche, que é oral e de uso contínuo para o tratamento, mas ainda aguarda aprovação das agências reguladoras nos Estados Unidos e no Brasil.

O mês de agosto é internacionalmente reconhecido pelo combate e pela conscientização da AME, concentrando ações em torno da divulgação, informação e capacitação de profissionais. Por isso, a comunidade de familiares de pacientes com a doença luta para que o dia 8 de agosto seja instituído como Dia Nacional da Pessoa com AME. O projeto de lei já foi aprovado pela Câmara dos Deputados e precisa ainda passar pelo plenário do Senado, antes de ir para sanção presidencial. Os familiares também brigam para que o Ministério da Saúde inclua o exame de diagnóstico da AME no teste do pezinho, a triagem neonatal que existe desde a década de 1970 para diagnosticar precocemente doenças metabólicas, genéticas ou infecciosas.

O exame, fornecido pelo SUS, avalia diagnósticos de fenilcetonúria, hipotireoidismo congênito, anemia falciforme, fibrose cística, hiperplasia adrenal congênita e deficiência de biotinidase. O exame feito por laboratórios particulares chega a pesquisar 20 doenças. Nos Estados Unidos, alguns estados já incluíram a AME no rastreio neonatal. “A AME é uma doença rara e sem cura. A gente trabalha com a ideia de uma triagem neonatal ampliada para que a criança seja diagnosticada antes de os sintomas aparecerem. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico e iniciado o tratamento, maiores as chances de a doença nunca se manifestar”, explicou Suhellen Oliveira da Silva, mãe de dois meninos com AME e presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Portadores de Doenças Neuromusculares.

No relato das páginas a seguir, Talita Roda, mãe de Marina, conta o caminho percorrido até conseguir comprar a medicação mais cara do mundo e fala sobre a esperança de ver a filha curada depois da aplicação, que aconteceu na sexta-feira 7 de agosto.

Minha filha, Marina, nasceu com AME (Atrofia Muscular Espinhal), uma doença genética rara, neurodegenerativa e que pode levar à morte ou dependência total de aparelhos antes dos 2 anos de idade.

Nossa história começou em setembro de 2017, quando eu e o Renato nos casamos. Já morávamos juntos havia dois anos e queríamos muito ser pais. No dia 31 de dezembro do mesmo ano descobri que estava grávida. A alegria foi tanta que eu e ele imediatamente escolhemos os nomes: Marina se fosse menina, Miguel se fosse menino. Minha gravidez foi maravilhosa, absolutamente normal, sem nenhuma intercorrência. No dia 1º de setembro de 2018, Marina nasceu pesando 4 quilos e medindo 51 centímetros. Uma bebê linda e saudável.

Fomos vivendo nossa vida completamente normal como pais de primeira viagem. Marina estava se desenvolvendo bem e dentro dos padrões esperados. Até então, eu nunca tinha ouvido falar da AME. Meu primeiro contato com a doença foi no dia 11 de dezembro, quando vi uma publicação com a foto de um bebê traqueostomizado que havia sido diagnosticado com AME. Os pais estavam com uma campanha para conseguir dinheiro para comprar a medicação necessária para estacionar a doença [Spinraza, que na época ainda não era fornecido pelo SUS e custava R$2 milhões]. Aquilo mexeu muito comigo, fiquei muito abalada, fui pesquisar sobre a doença e fiz então minha primeira doação em campanhas de internet.

A partir dali passei a observar mais a Marina, mas ela estava se desenvolvendo bem. Em fevereiro, fui visitar o bebê de uma amiga, que estava com 2 meses. Quando peguei ele no colo imediatamente senti diferença. Ele já tinha o corpo durinho, já mantinha os ombrinhos alinhados. Marina tinha 5 meses e era toda molinha, não conseguia sentar sem apoio nem rolar com a barriga para baixo. Nitidamente havia uma diferença de tônus muscular entre os dois e fiquei com aquilo na cabeça.

Aos 6 meses dela voltei a trabalhar, e Marina começou a ir a uma escolinha. Ela era a bebê mais quietinha, mas achava que era por ser a mais nova do berçário. Pouco tempo depois, com 7 meses, ela teve um resfriado, com febre e muita secreção. Fiquei desesperada, fomos para o hospital e ela estava com pneumonia. Tivemos alta e fomos tratar em casa. Mas eu percebi que a respiração dela estava mais ofegante. Filmei e mandei para a pediatra, que recomendou que voltássemos ao hospital. A saturação dela estava em 89% e ficamos internadas. Até então, nem passava pela minha cabeça que poderia ser AME.

Durante a internação, comecei a reparar que os movimentos da Marina estavam regredindo. Quando faziam manobras para aspirar secreção, ela não reagia, não tinha força para tossir. De novo, fiquei com aquilo na cabeça. Algo não estava normal. No dia em que o hospital pretendia dar alta, pedi para fazerem um exame físico e clínico nela. A fisioterapeuta começou a fazer uns testes, e Marina não respondia. Não conseguia apoiar os bracinhos no cotovelo, não segurava a cabeça, não rolava e só chorava. Ali eu pensei: Marina tem AME.

Pedi para a médica solicitar um exame de AME, mas ela não queria, alegando que essa doença não era a primeira opção de diagnóstico. Trata-se de um exame de DNA que mostra se a criança tem ou não o gene SMN1, que é o responsável por produzir as proteínas que alimentam os neurônios motores. São esses neurônios que levam os sinais do cérebro até os músculos. A criança com AME nasce sem esse gene e, por causa disso, os neurônios vão morrendo progressivamente. Depois de eu muito insistir, no dia seguinte decidiram fazer o exame, mas o resultado demoraria 30 dias. Foi angustiante esperar, pois cada dia a mais é um dia a menos.

Mesmo sem diagnóstico formal, iniciamos fisioterapia motora e respiratória na Marina. O resultado saiu no dia 5 de maio de 2019. Eu estava no trabalho, meu marido estava na rua e entrou em uma igreja quando liguei avisando que leria o resultado. Quando abri, fiquei desesperada: o laudo indicava que Marina não tinha o gene SMN1 e possuía apenas duas cópias do gene SMN2 – uma espécie de gene backup, que na ausência do SMN1 produz cerca de 10 a 25% da proteína necessária para manter os neurônios motores vivos. Fiquei com raiva, revoltada. Joguei tudo no chão, comecei a chorar. Me levaram para o ambulatório da empresa, tomei alguns calmantes até meu marido chegar para me buscar. Quando cheguei em casa não conseguia pegar a Marina no colo, não conseguia ficar em lugar nenhum. Era como se tivessem me tirado do mundo. Só conseguia pensar que, sem tratamento, o prognóstico era 2 anos de idade e que a AME é a doença genética que mais mata bebês no mundo. Meu foco naquele momento era como conseguir o Spinraza, que era a única medicação aprovada no Brasil para tratamento da doença. Ele é um medicamento que tem de ser aplicado pelo resto da vida da criança e atua no gene SMN2, fazendo com que ele produza mais proteínas para alimentar os neurônios motores. Um mês depois do diagnóstico, Marina recebeu a primeira dose do Spinraza. Nesse meio-tempo, soubemos da aprovação do Zolgensma nos Estados Unidos e ficamos doidos. Essa é uma medicação revolucionária, uma terapia gênica, que devolve para o corpo uma cópia sintética do gene SMN1. Mas ele custa US$ 2,125 milhões, na época cerca de R$ 9 milhões. Como conseguir esse dinheiro em tão pouco tempo?

Ficamos num dilema: abrir ou não abrir uma campanha? Tínhamos medo da exposição de nossa filha e de sermos julgados o tempo todo, mas decidimos ir à luta, pois quedamos o melhor para ela. Criamos o perfil @cureamarina e no dia 4 de agosto abrimos oficialmente nossa campanha no estádio do Corinthians. Era uma partida entre Corinthians e Palmeiras, entramos em campo com a Marina e com os jogadores, com faixas e camisetas da campanha. Ali começamos a ganhar mais seguidores, mas fechamos o ano com cerca de R$ 800 mil, um valor muito aquém do que precisaríamos.

Eu postava fotos da Marina feliz, bem vestida, sorrindo, comendo. Por isso eu era frequentemente atacada, com seguidores dizendo que havia crianças que precisavam mais, que Marina nem tinha a doença, me perguntavam por que eu não vendia o carro e o apartamento. Por várias vezes pensei em desistir da campanha. Mas na madrugada do dia 25 de dezembro eu sonhei que a Marina estava recebendo o Zolgensma. Dali em diante eu tive a certeza de que ia dar certo e que eu precisava continuar lutando.

Mudamos a estratégia das publicações e mostramos a realidade do dia a dia da Marina com a doença. Fizemos várias ações, pedágios, rifas, sorteios. E assim os seguidores foram aumentando e as doações também. De repente a campanha ganhou proporções muito grandes e conquistamos nosso primeiro R$ 1 milhão no dia 9 de janeiro. Vários artistas começaram a compartilhar a campanha, mas a grande virada aconteceu quando o DJ Alok publicou um vídeo da Marina nas redes sociais e disse ”Força, guerreira”. Foi impressionante, conquistamos mais de 20 mil seguidores e R$ 89 mil em um único dia.

Fizemos nosso segundo milhão em fevereiro, quando alcançamos 70 mil seguidores. Em março, conseguimos chegar aos R$ 4 milhões. Aí veio a pandemia do coronavírus, o dólar disparou, e o remédio que custava RS 9 milhões passou a custar R$ 12 milhões. Estávamos correndo contra o tempo, mas eu não podia desanimar. No dia 25 de junho alcançamos R$ 12,3 milhões, a quantidade necessária para a compra do remédio e encerramos oficialmente a campanha. Eu chorei muito, queria agradecer a cada pessoa que nos ajudou.

Mas nem tudo estava resolvido, ainda havia a questão dos impostos de importação – 4% de imposto federal e 18% estadual, que juntos somavam quase R$ 2,5 milhões. O Hospital Albert Einstein assumiu o caso da Marina e iniciou os trâmites para a compra. No dia 8 de julho, conseguimos a isenção do imposto federal. Pagamos a medicação no dia 28 de julho. O remédio saiu dos Estados Unidos no sábado, dia 1º de agosto, e chegou ao Brasil no dia 3 – um ano depois de tornarmos a história da Marina pública. Na noite do dia 5, quarta-feira, foi autorizada a isenção do imposto estadual. Nós internamos a Marina na quinta-feira 6. A infusão estava prevista para sexta-feira e demoraria cerca de 60 minutos.

Embora o Zolgensma não prometa a cura da doença, eu, como mãe, acredito na cura de minha filha. Eu sonho que um dia Marina possa viver sem nenhuma limitação, que ela possa ter o que quiser, que cresça e tenha as mesmas oportunidades de toda criança da idade dela. Sonho em ver Marina dando seus primeiros passos, andando sozinha. Estamos muito felizes e sou eternamente grata por cada doação recebida de amigos e desconhecidos. Faríamos tudo de novo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 20 DE AGOSTO

ANTÍDOTO CONTRA O PECADO

De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra (Salmos 19.9).

Dwight Moody escreveu na primeira página da sua Bíblia a seguinte frase: “A Palavra de Deus manterá você longe do pecado, ou o pecado manterá você longe da Palavra de Deus”. O mundo à nossa volta está cheio de poluição sonora, visual e moral. As propostas para capitularmos ao pecado são cada vez mais agressivas e sedutoras. Parece que a nossa geração está perdendo completamente o pudor. Aquilo que outrora nos corava de vergonha agora desfila garbosamente na passarela da vida. Nossa geração aplaude o vício e escarnece da virtude. Nesse ambiente tão hostil à santidade, de que maneira um jovem pode guardar puro o seu caminho? Como pode ser casto numa geração que zomba da pureza? Como pode ser íntegro numa geração que vê os líderes da nação locupletando-se do alheio? Como pode constituir um casamento sólido numa geração que avilta os absolutos morais que regem a família? A resposta é clara e categórica: Observando-o segundo a tua palavra. A Palavra de Deus é o antídoto contra o pecado.  Quando a examinamos, ela nos perscruta. Quando a obedecemos, ela nos limpa. A Palavra de Deus oferece um caminho seguro no meio de tantos descaminhos. Oferece a verdade eterna no meio de tanto relativismo. Oferece paz verdadeira no meio de tanto desespero. A Palavra é o antídoto contra o pecado e, ao mesmo tempo, o néctar mais doce para nossa alma!

GESTÃO E CARREIRA

NO TOPO DA LISTA

A área de saúde e segurança no trabalho ganhou muita relevância durante a pandemia do coronavírus e deve continuar importante nos próximos meses. Entenda por quê

Ao se instalar no Brasil, no início de março, a pandemia do coronavírus impactou a forma como empresas de todos os portes e setores fazem a gestão da saúde e da segurança de seus empregados. Com a crise da covid-19 as áreas de recursos humanos, saúde e segurança no trabalho, tecnologia e cibersegurança  tiveram de se reunir em comitês e tomar rápidas decisões para garantir um objetivo importante: manter os funcionários em segurança, prevenir o contágio e, assim, garantir a continuidade e a sobrevivência do negócio.

“Na pandemia, o papel da área técnica é subsidiar os gestores da empresa com informações como o mapeamento dos grupos de risco e fazer ações preventivas, com o objetivo de fazer seus trabalhadores terem o melhor nível de proteção ao lidar com o risco”, afirma João Silvestre da Silva Junior, especialista em saúde do trabalho e professor de medicina do trabalho no Centro Universitário São Camilo.

Em muitas empresas, a equipe de saúde e segurança integrou comitês de crise, subsidiando os executivos de alto escalão com dados relevantes. “Ficou evidente quanto o planejamento é importante. É preciso lidar com as informações, ter estratégias para situações de emergência e melhorar a comunicação sobre saúde com os funcionários. Palestra uma vez por ano não resolve”, diz o professor.

Na visão dos profissionais de medicina do trabalho, a pandemia terá um lado positivo para as empresas, que entenderão que precisam integrar melhor a saúde dos empregados às suas políticas e práticas. Embora historicamente, em momentos de crise, a área seja uma das que perdem investimentos, há a aposta para que seja diferente a partir de agora. “Acredito que a saúde do trabalhador deve ser parte dos valores da empresa e, nesse sentido, a área tende a se tornar alvo de investimento. E as empresas olharão com mais atenção e estarão mais bem preparadas para o incerto”, diz João.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Em um primeiro momento, além de se mobilizar em comitês, os profissionais de saúde do trabalho traçaram um plano de prevenção de contágio para que a companhia não fosse foco de contaminação dos trabalhadores. Entre as medidas iniciais estava a conscientização para etiqueta respiratória (não tossir nem espirrar nas mãos, cobrir sempre nariz e boca com o braço, lavar as mãos com frequência e deixar o sabão por mais tempo, etc.) Além disso, o time de infraestrutura foi demandado com a necessidade de ter álcool em gel disponível, limpar áreas de uso comum com maior frequência, manter os espaços ventilados e evitar compartilhamento de ferramentas.  

O segundo passo, na oficialização do isolamento social, foi colocar em home office os profissionais que tinham essa possibilidade. Para os que precisam atuar presencialmente, medidas de distanciamento físico e proteção com máscaras e luvas foram instituídas, além da reorganização da jornada para diminuir o fluxo de pessoas trabalhando ao mesmo tempo.

Hoje, virou rotina em muitas empresas a avaliação de temperatura corporal e, em algumas, a medição de oxigênio no sangue para monitorar a saúde dos empregados logo na chegada ao trabalho e buscar ativamente pessoas que possam ser vetores da doença.

A possibilidade de teleatendimento médico também tem sido uma boa ferramenta para acompanhar do estado de saúde dos funcionários. Há também preocupação com a ergonomia de quem está trabalhando remotamente. “Algumas empresas têm conseguido enviar o técnico do trabalho para verificar se o profissional tem uma estação física e alinhá-lo em relação às questões ergonômicas”, explica João Silvestre.

Todas essas são medidas preventivas que fazem a diferença não só na saúde física dos funcionários, mas também no engajamento. Quanto mais presente a empresa estiver, maior será a sensação dos empregados de que estão sendo bem cuidados.

Apostando nisso, a CPFL Energia, empresa de capital chinês que distribui energia para mais de 687 municípios em quatro estados brasileiros, criou uma pesquisa diária de saúde para quem está trabalhando remotamente – aproximadamente 36% dos 14.000 funcionários. As perguntas chegam aos empregados assim que eles ligam o computador, antes de fazer o login. “A pesquisa vai mapeando o estado de saúde das pessoas. Os dados são monitorados por nossa equipe de saúde e acompanhados no comitê de crises, formado pelos vice-presidentes e pelo presidente”, afirma Rodrigo Ronzella, diretor de RH da CPFL, mostrando que a área de saúde da companhia ganhou notoriedade. A empresa teve menos de dez casos de funcionários contaminados, mas Rodrigo garante que não houve contaminação entre colegas.

Por prestar um serviço essencial, a empresa tem um plano de contingência para continuidade do negócio, colocado em prática em 11 de março. A primeira ´reocupação foi com os centros de operação da distribuição, em Campinas (SP), Jundiai (SP) e São Leopoldo (RS), que monitoram e mantém o fornecimento de energia para os consumidores. É preciso que técnicos continuem frequentando fisicamente o local e, para haver mais distanciamento, a empresa restringiu o número de funcionários por vez no local. Foram criadas novas salas e em campinas, por exemplo, a ocupação diminuiu de 30 pessoas ao mesmo tempo para dez. Os cuidados continuam para os eletricistas que trabalham nas ruas. Além de medição de temperatura dos funcionários na chegada à empresa, os carros da operação possuem kits com álcool em gel, máscaras, viseiras e luvas. E a proximidade com os times de campo foi reforçada: na intranet e no aplicativo de comunicação interna há uma área voltada para tirar dúvidas sobre a covid-19 e existem dois grupos de WhatsApp focados no assunto. “Informações por áudio têm feito bastante sucesso entre nossos eletricistas”, afirma Rodrigo.

DADOS PROTEGIDOS

Além das questões de saúde, a segurança digital dos funcionários deve ser zelada pelas empresas. Com tantos computadores acessando dados corporativos remotamente no home office, ampliaram-se exponencialmente as portas de entrada para hackers – ainda mais no Brasil. Uma análise da empresa de cibersegurança Prevailion apontou o país como um dos que mais sofreram com ataques cibernéticos durante a pandemia.

“O Brasil ainda não tem uma política de privacidade. Portanto, a falta de maturidade para a questão de segurança da informação fica evidente para os oportunistas, tornando-nos alvos”, afirma Denis Riviello, líder de cibersegurança da Compugraf, empresa de segurança da informação.

Some-se a isso o fato de que as pessoas estão buscando mais informações on line durante a quarentena, e o resultado é o crescimento da vulnerabilidade dos sistemas. “Os plushings, que consistem em tentativas de fraude por meio de e-mails falsos, aumentaram até 50% em trêsmeses, segundo dados da MacAfee”, diz Denis. Para proteger digitalmente os empregados, as empresas trabalharam na liberação da rede privada virtual (VPN), na sigla em inglês), ampliaram seus links de acesso e reforçaram os ambientes com proteções de criptografia ou nuvem. Mas, para dar certo, a TI precisa de apoio do RH. “O trabalho de conscientização para a cibersegurança é fundamental”, diz o especialista.

Por isso que, na Asyellas Farma, multinacional japonesa do setor farmacêutico com 150 funcionários no Brasil, as áreas de recursos humanos e tecnologia trabalham juntas para alinhar todas as questões envolvendo segurança e saúde.

Desde março, 100% do time está em home office e todo mundo usa o mesmo modelo de computador – do presidente ao jovem aprendiz. As máquinas são criptografadas, os funcionários fazem treinamentos obrigatórios de segurança da informação e a empresa bloqueou alguns aplicativos que demonstraram insegurança. TI e RH conversam para criar ações de engajamento e lançar novidades.

“Conseguimos desengavetar muitos projetos e antecipar sua implementação por causa do cenário”, diz Luis Balbino, gerente de TI. Um deles diz respeito a uma atividade-chave da companhia: a visita da área comercial aos consultórios médicos para apresentar novos medicamentos. Os representantes de vendas foram treinados para conduzir visitas virtuais via Skype. “Havia certa resistência antes, mas hoje está funcionando muito bem”, explica Luis.

A tecnologia também tem sido usada para aumentar o senso de pertencimento e cuidar da saúde dísica e mental na Astellas Farma. Às segundas e quartas-feiras, o dia começa com alongamento virtual, e, às terças e quintas, com meditação guiada. Às sextas-feiras, fica disponível uma sala de vídeos para quem quiser participar de um happy hour com os colegas  às 13 horas – o fim do expediente é mais cedo, pois a companhia adota short Friday. E todos os dias os empregados podem se conectar em uma para um café on line. A média de adesão às iniciativas é de 40 a 70 funcionários. “As pessoas sentiam falta do convívio e dos momentos de pausa”, diz Lais Mastantuono, diretora de RH da farmacêutica. E a tecnologia chegou ao plano de saúde, que agora conta com telemedicina para todos. “Falar sobre saúde é um caminho sem volta, que não sairá de nossa agenda”, afirma a executiva.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

O SOCIÁVEL E O ERMITÃO PODEM SE REDESCOBRIR

Segundo especialista, mudanças abruptas causadas pela pandemia são um incentivo à reflexão tanto para perfis sociáveis como para os introspectivos

É incrível o que uma situação inusitada faz com a vida das pessoas. Vivemos um tempo delicado, que ainda não tem termo. Mudanças abruptas afetam a personalidade das pessoas e, se aproveitadas, podem ajudar a refletir. Transformados, sairemos todos, não há como ser diferente. Mas e quando pensamos em alguns perfis em particular? Talvez você se veja em um deles.

Você se considera um ermitão (ou uma ermitã), aquela pessoa que adora ficar em sua caverna? O lobo solitário que evita companhia e não gosta de visitar nem de receber? Ou será mais do tipo que é super amistoso, tem facilidade em fazer amigos e, embora possa até morar sozinho/a, gosta de sair, de ir a uma balada ou estar em uma conversa de bar? Em qual você se encaixa melhor? Se é que se encaixa em algum desses perfis.

Em tempos de pandemia, é difícil conviver e é difícil não conviver. A questão é a privação da vontade. Após a infância e a adolescência, provavelmente, você nunca mais precisou obedecer a alguém ou a uma entidade, senão por razões legais, como a um chefe ou à legislação em vigor. E, ainda assim, vamos lembrar que você foi aculturado para aceitar que essas são as regras de sua vida. Neste momento, porém, sobreveio uma regra nova que pegou todo mundo de um dia para o outro.

Quando eu era uma jovem estudante, era bem capaz que minha professora de português, ao me ver escrever isso, dissesse: “Menina, não se diz ‘todo mundo’. Isso é galicismo, é o que acontece quando nossa língua em­presta uma expressão do francês. Aqui, não dizemos ‘todo mundo’, mas ‘toda gente’. Acontece que, sem nenhum galicismo, todo mundo está, compulsoriamente, em recesso … em casa. Todo o mundo.

A notícia veio como uma grande surpresa, atordoou um pouco, mas, afinal, era por um breve tempo.

Eu, por exemplo, refugiei-me no campo, em meu cantinho ideal de repouso, por uma semana, dez dias, quem sabe! Tão crente disso que nada mais carreguei além do computador e do celular. Nem uma roupa um pouquinho mais formal, nem sequer uma peça de inverno. Quando imaginaria que teria reuniões de trabalho on-line ou seria convidada a participar de lives?

Cada um de nós descobriu novas demandas, teve que enfrentar novos desafios e começou a não achar graça nenhuma no que estava acontecendo. A restrição na liberdade de ir e vir, a impossibilidade de estar em seu local de trabalho, a adaptação ao home office, a perda do contato direto com parentes, amigos e colegas. Definitivamente, uma situação de “quem está fora não entra; quem está dentro não sai”. Mas, e os eremitas, eles e elas? E os mais sociáveis, os social butterflies?

Os primeiros, em sua eleita solidão, na companhia dos livros, da TV, do computador ou de uma boa música, começaram a sentir-se solitários. A impossibilidade de tomar um café na padaria, de ir à banca comprar um jornal e de cumprimentar uma ou outra pessoa. Mesmo o cumprimento ao porteiro do prédio, com quem cruzavam diariamente, virou algo importante. Essas ações nunca tinham parecido a eles como convívio social e, provavelmente, nunca imaginaram que lhes fariam falta. Começaram a falar sobre isso, a comunicar sua solidão e a dizer quão sozinhos se sentiam.

Quanto aos outros e outras, os social butterflies? E aí? Essa é uma expressão em voga na atualidade. Refere-se àquelas pessoas bastante relacionadas, cheias de amigos, de que falamos. Falar em social butterflies faz lembrar, também, os descomprometidos, os solteiros. Muitos moram sozinhos, cumprem seus compromissos, mas consideram a noite uma criança.

À medida que o tempo vai passando, o indivíduo muito ativo socialmente sente que não é o mesmo, mas a travessia não é serena. Ele pode tentar, por exemplo, ser o meninão de meia-idade até que, ou pelo autoconhecimento ou pelo cansaço, vai mudando o rumo e o ritmo. Frequentemente, essa insistência tem a ver com a dificuldade de aceitar que as coisas mudaram e ele também. Na fase mais tranquila, o bar passa a ser ponto de convergência. Lá, sempre tem um amigo a esperar. E onde a conversa rola solta e, não raras vezes, se fecham negócios.

Os casados e as casadas também conseguem manter esse tipo de convivência. É comum ver grupos de amigas jantando, com o assunto ligado aos interesses.

Engraçado como somos movidos pelo tempo. Nas mesas de mulheres entre 30 e 40 e poucos anos, é frequente o assunto girar em torno de filhos, trocas de experiências, mas também muita risada e bobagem adolescente, o que só faz bem, reabastece e rejuvenesce. Nas mesas dos rapazes, a descontração costuma ser a mesma. E agora que tudo isso está temporariamente suspenso? Bate uma tristeza, uma nostalgia, uma saudade de tanta coisa boa. Quanta dor!

Este é o momento pelo qual o mundo passa. Para os lobos solitários, os insaciáveis sociais e toda a gama de pessoas que permeia esses dois polos, só há um recurso: abrigar-se no recôndito de seu lar.

Felizes os que podem fazer isso, ou porque têm o abrigo ou porque não precisam ir às ruas para cuidar de nossa sobrevivência. A esses últimos somos eternos devedores.

O ermitão pode usar sua solidão para perceber que não é um solitário, que isso não lhe basta. Ele precisa dos outros e é a existência dos outros que lhe permite poder estar só. Talvez, na privação da ida à padaria e à banca de jornal e do cumprimento do porteiro, ele possa entrar um pouco nas redes sociais, em um grupo de amigos de verdade, não apenas virtuais, perguntar como estão e contar como se sente.

O social butterfly talvez possa aproveitar esse afastamento social forçado, esse exílio das ruas, para aprender a entrar em contato consigo mesmo e descobrir facetas nunca antes imaginadas. É um tempo difícil? É, é um tempo difícil. Mas que bom quando se pode aproveitar da melhor maneira possível o que se tem para refletir, para repensar. O lobo solitário poder imaginar-se vivendo em relação. E o que vive em companhia dos outros boa parte do tempo poder descobrir-se como boa companhia de si mesmo sem necessidade de se ver cercado por tantas vozes e ruídos. E, ambos, poderem redescobrir a beleza e a importância da família, do estar com os outros e de estar sozinho, cada coisa a seu tempo e em seu lugar.

Horas de grande dor e de grande privação costumam ser bons alertas para tudo de que se precisa, e bússolas em direção à busca de ajuda.

Vale lembrar que nem sempre os solitários vivem em solidão, abandonados pelos demais. Da mesma forma que há muita gente no meio da multidão sentindo-se sozinha.

Quem sabe, passados os efeitos deste vendaval devastador, no trabalho de rescaldo, cada qual possa se descobrir transformado, reciclado e renovado.

Afinal, embora já seja chavão, não há grande possibilidade de que, uma vez retirada a máscara, algum de nós seja o mesmo quando o vendaval passar.

Dizem os especialistas que a tempestade está passando. A abertura vai se dando gradativamente. Pessoas saindo para trabalhar, estabelecimentos abrindo. Tudo com muita cautela. Neste momento, no entanto, qualquer que seja nosso perfil de personalidade é fundamental atender às recomendações dos especialistas e dar nossa própria contribuição para que o vendaval passe de vez: guardar rigor com a higiene das mãos, usar máscara e manter o distanciamento social.

Bom regresso a todos nós!

***VERÔNICA CEZAR­FERREIRA é advogada e psicóloga. Psicoterapeuta, perita e consultora psicojurídica.