EU ACHO …

O VENTO SOPRA CONTRA OS MONOPÓLIOS DIGITAIS

A aprovação, pelo Senado, de um novo projeto de lei cuja pretensão é deter a disseminação de notícias falsas pôs em debate a regulação dos meios digitais no Brasil. Ao mesmo tempo, o Facebook enfrenta nos Estados Unidos um boicote histórico de mais de 800 anunciantes, incluindo gigantes como Unilever, Starbucks, Ford, Coca-Cola e Adidas. É possível até debater a eficácia do boicote ou o conteúdo da nova lei brasileira. É indiscutível, contudo, que o vento hoje sopra contra os monopólios digitais, Facebook, Google e Amazon. O melhor a que podem almejar, aqui e lá fora, é a manutenção do statu quo – algo não apenas longe de garantido, mas a cada dia menos provável. Entre os vários protagonistas dessa virada de ânimos, destaca-se o investidor do Vale do Silício Roger McNamee. Mentor de Mark Zuckerberg no início do Facebook, ele manteve uma visão idílica dos riscos representados pelos monopólios digitais até o plebiscito do Brexit e a eleição de Donald Trump, em 2016. De lá para cá, converteu-se num dos críticos mais eloquentes e eficazes de Zuckerberg.

“Não percebi que a ambição de Zuck não tinha limite. Não me dei conta de que seu foco no software como solução para todo problema o cegaria para o custo humano do sucesso descomunal do Facebook”, escreve McNamee em Zucked, relato pessoal instigante de sua conversão de aliado em inimigo de Zuckerberg. No livro, ele explica como as mesmas características responsáveis pelo sucesso da empresa também a tornaram perigosa. “Quando usuários prestam atenção, o Facebook chama isso de ‘engajamento’, mas o objetivo é a mudança de comportamento que torna os anúncios mais valiosos”, afirma. “Os incentivos econômicos levam a empresa a se alinhar – com frequência de modo inconsciente – com extremistas e autoritários, em detrimento da democracia no mundo todo.” Não é coincidência, portanto, que Zuckerberg tenha se aproximado tanto de Trump recentemente, nem que tenha adotado uma atitude benevolente em relação a políticos.

Como investidor, McNamee não tem nada contra o sucesso financeiro, nem contra um produto que atinja bilhões de pessoas. Ao contrário. “A Coca-Cola serve 1,9 bilhão de bebidas por dia em 200 países”, diz. “Mas a Coca­Cola não influencia eleições, nem incentiva o discurso de ódio que leva à violência.” A atitude do Facebook, a cada momento que vieram a público violações de privacidade ou de manipulação política, sempre foi a mesma: primeiro negar e, apenas diante de fatos incontornáveis, desculpar-se. Depois, promover mudanças perfunctórias que, na prática, pouco efeito têm. Nas palavras da pesquisadora Zeynep Tufekci, Zuckerberg vive, desde os bancos de Harvard, uma “turnê de catorze anos de pedidos de desculpas”. Os usuários não abandonam plataformas como Facebook, Instagram ou WhatsApp porque são úteis e convenientes. Não imaginam que podem ser “vítimas de manipulação, violação de dados ou interferência eleitoral”. É por isso que McNamee não vê outra solução que não seja a regulação mais dura, possivelmente nos moldes da que vem sendo adotada na União Europeia.

Como alguém com décadas de experiência avaliando startups digitais, ele não se deixa intimidar pela aparente complexidade técnica que cerca o tema, em geral apenas um pretexto alegado pelos monopólios para que tudo fique como está. “Uma vez que você supere os chavões, a tecnologia não é particularmente complicada em comparação com outras indústrias reguladas pelo Congresso, como saúde ou finanças.” Nem se furta a apontar a questão essencial que deveria nortear toda regulação: “O problema é que o Facebook é na verdade uma empresa de mídia. Exerce julgamento editorial de muitas formas, inclusive por meio de seus algoritmos”.

A mesma lógica vale para YouTube, Twitter e tantos outros que se apresentam como meros intermediários de informação. “Chegará o dia em que o mundo reconhecerá que o valor que os usuários recebem da revolução dominada pelas redes sociais escondeu um desastre absoluto para a democracia, a saúde pública, a privacidade e a economia.”

***HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

UM PROBLEMA DE GENTE GRANDE

A aprovação no Brasil do uso de um remédio emagrecedor para jovens estimula a discussão sobre o aumento estrondoso da obesidade em crianças e adolescentes, condição que foi reforçada com o prolongado confinamento obrigatório da quarentena

Em uma decisão pioneira no mundo, o Brasil autorizou o uso de um medicamento emagrecedor para adolescentes. O aval, concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no início do mês, liberou a liraglutida, do laboratório dinamarquês Novo Nordisk, para meninas e meninos a partir de 12 anos. Até então, a permissão era dada apenas a adultos. Nos Estados Unidos, a aprovação está prevista para sair até o fim deste ano. O remédio, com pouquíssimos efeitos colaterais, age no sistema da saciedade e da fome do organismo, reduzindo em especial o desejo por alimentos gordurosos e ultracalóricos. O estudo que embasou a autorização, publicado na prestigiosa revista científica New England Journal of Medicine, mostrou que a droga diminui em até 10% o peso ao longo de um ano. É taxa aparentemente baixa a olhos leigos, mas foi motivo de celebração pela comunidade médica. “É a notícia mais impactante no tratamento de jovens obesos dos últimos anos”, diz Eduardo Rauen, professor de nutrologia da pós-graduação do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, e médico do esporte. Os profissionais de saúde dispunham apenas de uma outra substância para essa faixa etária, o orlistate, que atua no intestino, mas com um efeito adverso que restringe a administração sobretudo entre a garotada: diarreia.

A possibilidade de atacar a obesidade infanto juvenil com um fármaco restrito a pais e avós é realmente um marco. Poucas condições de saúde se tornaram tão dramáticas recentemente. Levantamento da Imperial College, em Londres, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, revelou que nos últimos cinquenta anos o índice de crescimento do problema em crianças e adolescentes saltou globalmente em 1.027% – o dobro em relação aos adultos.

No Brasil, hoje 15% das crianças e adolescentes acima de 5 anos de idade estão obesos. Na década de 70 eram apenas 3%.

A liraglutida tem uma história marcante na farmacologia. Ela nasceu em 2009, para o controle de diabetes do tipo 2. Com o tempo, porém, notou-se que os doentes emagreciam, com poucos danos colaterais. O efeito provocou uma corrida mundial às farmácias. No entanto, a ala mais conservadora da medicina rechaçou o excessivo uso (utilização não oficial) da droga. Em 2012, porém, um artigo na British Medical Journal comprovou a ação tão desejada dos consumidores. Quatro anos depois, ela foi finalmente aprovada para a perda de quilos entre adultos. O composto imita uma substância natural do organismo, o GLP-1, o principal hormônio associado à sensação de saciedade e ao mecanismo de produção de insulina. O GLP-1 é sintetizado toda vez que o alimento chega à porção final do intestino delgado. Nesse momento, o hormônio ativa as células cerebrais de fastio e da fome e reduz os movimentos intestinais de contração, prolongando a satisfação alimentar. Mas, como o GLP-1 da liraglutida não depende da chegada de comida ao intestino, ele atinge concentrações na corrente sanguínea muito maiores do que a do hormônio natural – e dura mais no organismo, provendo o emagrecimento. O remédio é injetável e deve ser administrado diariamente. Por agir de maneira muito semelhante ao comportamento natural do organismo, a liraglutida também muda a forma como os pacientes se relacionam com a comida. A diferença surge já no segundo dia de tratamento. O apetite é reduzido no mínimo dois terços. Diz a endocrinologista Claudia Cozer Kalil, coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtornos Alimentares do Hospital Sírio-Libanês, de São Paulo: ”A obesidade se tornou uma epidemia entre os jovens”. O claro vilão: a má alimentação. E por má alimentação entende-se não necessariamente grandes porções, mas excesso de produtos processados. Os meses de quarentena parecem ter piorado a situação. No início, as famílias se entusiasmaram com a oportunidade da convivência doméstica, despendendo horas a fio em torno da elaboração de pratos gostosos, naturais. Não durou muito, e a facilidade da comida industrializada entrou nos lares, naturalmente. Estima-se que 50% dos adolescentes que ficaram em confinamento ao longo de quatro meses ganharam peso, não só pela redução na atividade física, mas principalmente por se alimentar mal.

No final da infância e na adolescência vive-se um paradoxo metabólico em relação ao emagrecimento. Em tese, fazer com que um corpo em pleno vigor da puberdade perca peso seria como ir contra a natureza. “O apetite do jovem, que tem o crescimento acelerado, é maior que o do adulto e o de uma criança”, diz o endocrinologista Antônio Carlos Nascimento, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. A título de comparação, um menino de 1,70 metro aos 16 anos de idade tem de consumir de 40% a 50% mais calorias do que um homem de 40 anos com a mesma altura. Come-se por vontade, para sustentar o corpo e as atividades diárias, mas também por necessidade. Nesse desenho, a facilidade de acesso a determinados tipos de alimentos engrossou o caldo do descontrole, e o que pedia apenas atenção agora exige muito cuidado – especialmente, insista-se, com a meninada.

Parte da indústria começou a trilhar um novo caminho para se livrar do papel de algoz. Pesquisa mundial conduzida pela Deloitte, empresa especializada em consultorias e auditorias, mostrou que nove em cada dez companhias de alimentação introduziram em 2017 ao menos um produto formulado ou reformulado para se tornar mais saudável – com menos sal, gordura ou açúcar. Outro levantamento, do instituto Euromonitor, identificou globalmente uma expansão anual de 1,8% do mercado de comida industrializada saudável, ante 1,5% do lote tradicional, banhado de conservantes e similares. No Brasil o naco não para de crescer – chegou, em 2018, a 10,7% do total de vendas do setor, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos. Mas há muito a ser feito ainda. As vendas de alimentos industrializados cresceram 25% no mundo entre 2017 e 2019. A tendência se reflete nos fast-foods, com alta mundial de 30%.

É impossível, no entanto, excluir da balança os responsáveis pela escolha (ou no mínimo pelo pagamento) da comida da criança e do adolescente: os pais. Cerca de 70% da ingestão calórica de um garoto ou uma garota de até 12 anos acontece sob os domínios da família. O mesmo ocorre com metade dos que estão mais próximo dos 18 anos. O ritual de reunir a família em torno de uma mesa na hora das refeições seria, por si só, saudável. Pesquisadores da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, comprovaram que crianças e adolescentes que se sentam à mesa com os adultos têm uma alimentação mais equilibrada e menos risco de travar guerras contra a balança. O trabalho, conduzido com 183.000 garotas e garotos de até 17 anos, constatou que três refeições por semana em família reduzem os índices de obesidade – houve diminuição de 12% no sobrepeso. Mas esse mundo ideal inexiste em grande parte das residências. Pais ocupados ou exaustos inúmeras vezes oferecem aos filhos macarrão instantâneo, nuggets de frango congelados e sucos de caixinha. Houve o breve interregno dos primeiros dias de quarentena, mas já passou. E, agora, retoma-se a linha evolutiva da história contada pelo que vai à boca – e que a propaganda alimentou.

Nos anos 1950, as diversas formas de empacotamento, revolução recém-nascida, permitiram o planejamento de um cardápio inteiro à base de produtos – enlatados, desidratados, congelados. Naquele tempo de inovações aceleradas, era comum a ode ao consumo de calorias nos lares. Criança robusta era sinônimo de criança saudável. Acreditava-se que, com um estoque generoso de gordura, ela dispunha também de uma grande reserva de energia, o que a protegeria contra as doenças. As empresas anunciavam seus produtos repletos de açúcar como se fossem um néctar. Bebês apareciam tomando refrigerante. Na década de 60, a associação da indústria do açúcar dos EUA lançou campanhas exibindo o produto como regulador de apetite. Não é mais assim, mas a cultura da comida, digamos, fácil, é atávica e pressupõe esforço enorme para ser vencida.

A obesidade infantil, filha dessa postura desregrada, se não for tratada, é um gatilho para doenças crônicas e graves. Adultos com obesidade desde a infância vivem até dez anos menos em relação aos que mantiveram a linha. “Sob o ponto de vista fisiológico, se fosse escolher a pior fase da vida para ser obeso eu diria que é na adolescência”, diz o nutrólogo Rauen. Um dos principais motivos: o número de células adiposas, que retêm gordura, conhecidas como adipócitos, é geralmente definido até os 20 anos. Depois dessa idade, nada é capaz de diminuir a quantidade de adipócitos, nem o mais drástico regime alimentar. Vale o sábio conselho que virou mantra entre os bons endocrinologistas: “A melhor forma de emagrecer é nunca engordar”. Cuidemos das crianças e adolescentes.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 18 DE AGOSTO

REFORMA E REAVIVAMENTO

… Aviva a tua obra, ó Senhor, no decorrer dos anos… (Habacuque 3.2b).

Vejo com tristeza aqueles que tolamente abandonam a sã doutrina para buscar experiências arrebatadoras. Onde falta a semente da Palavra, não se vê o fruto da verdadeira piedade. Não é a experiência que conduz à verdade, mas a verdade é que deságua na experiência. A vida decorre da doutrina, e não a doutrina da vida. Precisamos de uma igreja que seja ortodoxa sem deixar de ser ortoprática. Os que se desviaram da Palavra em busca de experiências precisam de uma nova reforma, e os que se desviaram da piedade e ainda conservam sua ortodoxia precisam de um reavivamento. Ainda anseio ver uma igreja doutrinariamente fiel, e ao mesmo tempo amável e acolhedora para com os que se aproximam. Uma igreja que ensine doutrina com zelo, mas adore a Deus com fervor. Uma igreja que pregue a verdade, mas viva em amor. Uma igreja em que a proclamação não esteja na contramão da comunhão. Ainda anseio ver uma igreja que seja fonte para ossedentos, oásis para os cansados, refúgio para os aflitos, lugar de vida para os que cambaleiam na sombra da morte. Anseio ver uma igreja que viva para a glória de Deus, que honre seu Salvador, que seja cheia do Espírito Santo, que adore a Deus com entusiasmo, que pregue a Palavra com fidelidade e acolha as pessoas com efusiva alegria e redobrado amor.

GESTÃO E CARREIRA

FINANÇAS PARA TODO MUNDO

O Brasil tem 61 milhões de inadimplentes – e metade deles nem sequer sabe quanto ganha. Para mudar esse cenário, grupos especializados em oferecer educação financeira para minorias começam a se popularizar no país

Essa disparidade pode ser justificada por diversas razões, mas, sobretudo, ela tem suas raízes na desigualdade de renda gritante do país. Por aqui, por exemplo, o rendimento médio mensal ele 1% dos mais ricos foi quase 34 vezes maior do que o da metade mais pobre, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2018.

Ainda de acordo com o IBGE, no mesmo período cerca de 16 milhões de famílias viviam com renda per capita mensal de aproximadamente 413 reais. E, se você pertencer a uma minoria, sofrerá ainda mais. De 2012 a 2018, as mulheres ganharam, em média, 21% menos do que os homens; as pessoas pardas e pretas receberam rendimentos 26% e 27% mais baixos, respectivamente, em relação aos brancos. Diante de salários tão desiguais, é óbvio que a capacidade de cada grupo de guardar dinheiro e aplicar suas economias também será diferente. “Essa parcela da população muitas vezes precisa escolher entre poupar e pagar as contas, já que fazer os dois é quase impossível,” diz Dagoberto José Fonseca, professor no Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

A esse cenário sorna-se o fato, já conhecido, de que a população brasileira, no geral, tem pouca familiaridade com educação financeira. Segundo dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, 53% das pessoas desconhecem a própria renda. Outros tantos (52%) não sabem, por exemplo, quantas parcelas de compras realizadas no crediário ainda falta pagar. “O Brasil tem uma grande deficiência na educação básica, principalmente em matemática. Essa situação torna os grupos vulneráveis mais suscetíveis a empréstimos predatórios, como é o caso do cheque especial”, explica Eduardo Estellita, consultor de diversidade e professor na Casa do Saber, instituição que promove aulas e palestras sobre vários temas em São Paulo.

O BÊ-Á-BÁ DO DINHEIRO

Foi pensando em ajudar esse público que Nathália Rodrigues de Oliveira, de 21 anos, criou, em 2018, o canal Finanças com a Nath, focado em ensinar educação financeira a pessoas de baixa renda. A ideia surgiu quando a estudante, que atualmente cursa o último ano da faculdade de administração, começou a ter aulas de matemática financeira e a entender como funcionam os processos de financiamento e a amortização de dívidas, por exemplo. “Eu queria que outras pessoas também aprendessem o significado desses termos. Hoje, elas fazem empréstimos e não sabem como os juros são cobrados”, afirma.

Antes ele colocar a ideia em prática, Nathália pesquisou outros canais na web e descobriu que havia poucas iniciativas semelhantes à sua. “Os conteúdos eram, até então, para classes mais altas, que têm um poder aquisitivo mais elevado. Ensinavam coisas como poupar 1.000 reais por mês ou os melhores investimentos para o próximo ano. Isso sem considerar que os brasileiros não sabem questões simples, como a diferença entre crédito e débito”, diz a digital influencer.

Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, Nathália chega a passar 5 horas no transporte público para fazer estágio em uma consultoria financeira, e entende bem a realidade de seus seguidores.

“Quando tive meu primeiro cheque especial, também não sabia como ele funcionava. Chegava o final do mês, eu ficava sem dinheiro e acabava usando o limite, acreditando que aquilo fosse meu”, afirma.

Desde janeiro de 2019, quando estreou no YouTube, a estudante gravou dezenas de vídeos explicando o que são ações, dando dicas de como sair do vermelho ganhando pouco e como controlar o cartão de crédito. Hoje, são 65.000 inscritos no YouTube e 62.000 seguidores no Instagram, além de algumas parcerias com companhias como Twitter e Sebrae. Com tanto sucesso, Nathália já tem planos mais ousados. “Quero adquirir bagagem para transformar o projeto numa empresa”, diz.

Embora de forma tímida, assim como Nathália, outros grupos e movimentos que levam educação financeira para minorias começam a se popularizar. Tais iniciativas visam ajudar as pessoas a entender os mecanismos relacionados ao dinheiro para que possam, com isso, tomar decisões mais conscientes – o que, num cenário de 61 milhões de brasileiros inadimplentes, é algo cada vez mais urgente. “Diante da escolha entre pagar o gás e o cartão de crédito, quem não teve educação financeira vai preferir o primeiro, sem saber que as taxas de juro do cartão serão mais altas. Por isso o papel desses grupos é bastante relevante”, afirma Eduardo, da Casa do Saber.

DA QUEBRADA PARA A BOLSA DE VALORES

Quem também embarcou nesse nicho foi Gabriela Chaves, de 25 anos. Negra e moradora de Taboão da Serra, em São Paulo, em 2018 a jovem largou o emprego na bolsa de valores, corno analista de produtos, e fundou a NoFront, iniciativa que oferece cursos de educação financeira para pessoas negras e de baixa renda. ”A falta de conhecimento, inclusive, é algo benéfico para as instituições financeiras, uma vez que parte da população lucra muito com isso”, diz Gabriela.

Gabriela percebeu que, além de o conteúdo ser muitas vezes voltado para as classes A e B, a forma como era apresentado, com diversos termos técnicos, também afastava as pessoas do mundo das finanças. Por isso, resolveu desenvolver uma metodologia de ensino que usasse como base a discografia do grupo de rap paulista Racionais MC’s. “Foi a dissonância entre esses dois mundos que fez com que eu quisesse uma forma de dialogar mais de perto com a realidade da população negra”, explica Gabriela. No primeiro ano do curso, a NoFront recebeu 500 inscritos e, em 2019, esse número pulou para 1.500 alunos.

Em junho do ano passado, após a entrada do sócio Rodrigo Dias, cientista da computação e planejador financeiro, a consultoria também passou a oferecer as aulas por meio de uma plataforma online, com valor de 197 reais – o custo é o mesmo para quem opta pelo curso presencial. Porém, para não perder o viés acessível, há a possibilidade de participar da iniciativa por meio de bolsas. ”Para cada aluno pagante, oferecemos o curso gratuito para desempregados, mães solos e LGBTQI+. Todas as turmas têm pelo menos 30% de bolsistas”, afirma Gabriela. Parte do lucro da NoFront é usada para bancar os gastos pessoais de Gabriela e o restante é reinvestido na plataforma. “Meu propósito, entretanto, não é só lucrar financeiramente, mas também retribuir o ganho para a sociedade. Por isso, fazemos formações gratuitas em comunidades quilombolas, por exemplo”, diz a economista.

A pedagoga Marisa Cândida Paulino, de 51 anos, e o filho Pedro Luiz da Cruz, estudante, de 17 anos, foram alunos do primeiro curso da NoFront em 2018. Moradora do bairro Vila Nova Cachoeirinha, extremo da zona norte de São Paulo, Marisa admite que, antes de participar da iniciativa, sabia pouco sobre o mundo dos investimentos. “Eu já tinha alguns cuidados com meu dinheiro, mas deixava o que sobrava na conta­ corrente. Não via além disso, não me enxergava como investidora”, afirma. O pontapé inicial para fazer aplicações foi no começo de 2019, depois de ter o carro roubado. “Percebi que, com a indenização que recebi, não conseguiria comprar um carro zero e calculei que seria mais barato andar de táxi”, diz Marisa. Como o automóvel havia sido adquirido em um consórcio, a pedagoga destinou cerca de um terço do dinheiro para quitar as parcelas que faltavam e o restante aplicou em fundos de renda fixa. “Hoje o investimento já rendeu o equivalente ao valor total pago pela seguradora”, diz. Por causa das orientações recebidas na NoFront, Marisa criou o hábito de pagar as contas à vista e de calcular melhor seus gastos, lições que possibilitaram a realização de alguns projetos pessoais. “Foi com o curso que aprendi a estabelecer metas de curto e longo prazo”, afirma. Em 2019, por exemplo, ela economizou cerca de 10% por mês de seu salário como aposentada e professora de educação infantil. Com isso, pôde arcar com duas viagens à Bahia e pagou parte das despesas de um curso de intercâmbio para o filho. Pedro vai viajar para Cape Town, na África do Sul, em março deste ano, onde passará 50 dias. “Embora ele tenha ganhado uma bolsa, estou custeando a estadia, a passagem e os custos de passaporte”, diz. A pedagoga, inclusive, vai ficar 15 dias com o filho na cidade africana.

Realizar projetos como os que Marisa e Pedro conseguiram é uma conquista significativa, principalmente para as classes mais baixas. “Quando se tem menos dinheiro, as escolhas são mais complexas”, diz Eduardo, da Casa do Saber. Ele relembra que, geralmente, os mais pobres moram longe dos centros urbanos e, portanto, desembolsam mais com transporte para o trabalho e lazer, por exemplo. “Ir ao cinema no fim de semana pode sair mais caro do que apenas o preço da entrada porque você precisa incluir o tempo de trajeto e o custo de transporte nessa conta”, afirma. Nesse contexto, planejar-se para realizar viagens internacionais é uma realidade quase impossível.

INVESTIMENTO NÃO TEM GÊNERO

No caso das mulheres, além dos salários desiguais, as dificuldades em pensar nas finanças têm origens ainda em décadas passadas. Até os anos 60, por exemplo, as cidadãs brasileiras não tinham direito nem a um CPF, o que impedia que abrissem contas em banco e as afastava do mundo dos investimentos. Isso explica o fato de que, embora grande parte dos lares seja chefiada por mulheres, elas representem apenas 30% das investidoras no país.

Pensando nisso, em outubro de 2018, duas funcionárias da corretora Easynvest deram início ao movimento Nós, Mulheres Investidoras. A ideia do projeto surgiu ainda em 2017, quando Giselle Mendes, da área de projetos e eventos, e Naya Lobo, de marketing, sugeriram a contratação de influenciadoras, como a jornalista Natália Arcuri, para produzir conteúdo sobre investimentos. “A partir daí, notamos uma aderência muito grande do público feminino e percebemos que esse era um nicho em que tínhamos atuado pouco. Por isso decidimos apostar em um movimento exclusivo para elas”, explica Giselle.

Além de um blog, um podcast e um e-book sobre educação financeira para mulheres, o grupo organizou, no ano passado, um workshop só para o público feminino. O piloto teve duração de quatro dias e contou com 12 participantes, com idades entre 25 e 60 anos. “Começamos falando sobre as crenças limitadoras, mas também abordamos planejamento e até mesmo o passo a passo para a abertura de uma conta em uma corretora”, afirma Giselle.

Para 2020, o objetivo é ampliar o workshop para o público em geral e trazer embaixadoras para o movimento que tratem de temas como entretenimento e lifestyle. Mesmo recente, o trabalho do Nós, Mulheres Investidoras começa a aparecer. No Facebook a comunidade já tem 2.500 participantes e o número de mulheres ativas na base de clientes da Easynvest cresceu de 26%, em 2017, para 39%, em 2020. “Nosso foco não é só tornar a mulher investidora, mas contribuir para que ela entenda que pode tomar sozinha as rédeas da vida financeira e da vida pessoal”, conclui Giselle. Que no futuro iniciativas como essas se multipliquem e diversifiquem o perfil dos investidores brasileiros.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

DOSES A MAIS

Consumo de álcool cresceu durante a pandemia

O aumento dos níveis de ansiedade durante a pandemia também elevou o consumo de álcool. De acordo com um estudo realizado em parceria pela Fiocruz, UFMG e Unicamp, 18% dos brasileiros estão bebendo mais desde o início da crise. Na ausência de projetos públicos de apoio, a sociedade vem se mobilizando com algumas notáveis ações. É o caso do Coletivo Alcoolismo Feminino, organizado em grupos de WhatsApp exclusivos para mulheres. Segundo a fundadora, Graziella Santoro, o projeto foi criado logo antes da quarentena, mas a sua real efetividade foi confirmada durante a crise. “Com o agravamento da pandemia, a procura do Coletivo pelo Instagram cresceu muito”, diz Graziella. “Todos os membros alegam ter aumentado o consumo de álcool na quarentena.” O mesmo comportamento, aliás, é observado em outros países. Nos Estados Unidos, as vendas de bebidas alcoólicas cresceram cerca de 55% no confinamento. Beber eventualmente pode ser bom, mas o exagero é sempre nocivo.