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BOMBA-RELÓGIO

A destruição de postos de trabalho empurra milhões de brasileiros para a informalidade e o desalento, potencial ambiente de convulsão

Vanessa Cristina Teixeira dos Santos, de 38 anos, é atriz, dubladora, percussionista e cantora lírica, mezzo soprano. Com apoio do projeto Sonora Brasil, do Sesc, tinha uma turnê musical programada para estados do Norte e Nordeste de março a dezembro, pelo grupo Líricas Negras. O avanço do coronavírus no Brasil, hoje o epicentro da pandemia global, levou ao cancelamento das apresentações. Da noite para o dia, a artista viu todas as portas se fecharem. “Eu também toco na banda do Ilú Obá de Min e faço parte do Grupo Saracura, que promove humanização hospitalar por meio da música. Tudo está suspenso. Neste último caso, devido ao risco de exposição ao vírus, só devemos voltar quando houver uma vacina disponível”, lamenta Negravat, como é conhecida no meio artístico. Após três angustiantes meses, ela conseguiu vencer a burocracia e ter acesso ao auxílio emergencial pago pelo governo. O valor é, porém, insuficiente para quitar as despesas básicas, como aluguel e alimentação.

“Foi quando eu pensei: bom, tenho uma scooter, amo pilotar, posso trabalhar com isso. Consegui fechar parcerias com empresas para fazer entregas particulares, de roupas a produtos de artesanato”, conta. Bastaram três semanas no novo ofício, pelas ruas de São Paulo, para sentir o peso da instabilidade. “Em alguns dias tem bastante trabalho. Em outros não aparece nada. Ainda assim, fujo dos aplicativos, pois sei a exploração a que meus colegas estão submetidos”, afirma. “Por ser mulher, negra, lésbica e, além de tudo, cantora lírica, há tempos tenho essa postura de resistência. É preciso vencer a barreira das grandes empresas que dominam o mercado.”

Negravat sabe que o setor cultural será o último a reabrir. Por isso, não tem esperança de encontrar trabalho no seu ramo até o fim do ano, nem perde mais tempo procurando algo. Assim, mesmo se fosse entrevistada por um pesquisador do IBGE, dificilmente entraria na estatística oficial de desemprego aberto. O instituto considera desempregado apenas quem está desocupado e procurou trabalho nos 30 dias anteriores à semana em que os dados foram coletados. Por conta desse critério, o “faz-tudo” Igor Luís Víctor da Silva, de 40 anos, também ficaria fora. Desde que perdeu o emprego no setor administrativo de uma transportadora em novembro de 2017, curiosamente o mesmo mês em que a reforma trabalhista de Michel Temer entrou em vigor, ele nunca mais encontrou emprego na sua área. Sobrevive de bicos.

Foi a necessidade que o obrigou a desenvolver múltiplos talentos. Quem o vê com as mãos sujas de graxa na oficina de um amigo, no Bairro do Limão, Zona Norte da capital paulista, não imagina que o trabalhador encarnou o papel de garçom de buffet, auxiliar de cozinha, churrasqueira de festas e faxineiro. Todos trabalhos informais, sem direitos nem benefícios. O único emprego com carteira assinada que conseguiu nos últimos dois anos foi como repositor de mercadorias em um supermercado. Durou pouco. “Fiquei 43 dias no serviço. Aí veio a pandemia e fui incluído na primeira leva de demitidos.” A mulher, diarista, também perdeu a maior parte de sua renda. De todos os clientes, fixos ou eventuais, apenas um se dispôs a manter os pagamentos. Trata-se de instituição religiosa, que também tem oferecido cestas básicas à família em apuros. “Tenho dois filhos, não posso depender apenas do auxílio emergencial. Minha caçula, de 11 anos, está estudando em casa, a distância. Não dá nem para cancelar a internet para aliviar o orçamento.”

A perspectiva é desoladora. Por causa da dificuldade de realizar as entrevistas em meio à pandemia, o IBGE adiou a divulgação dos dados do desemprego em junho, que seriam revelados na quarta-feira 29. A última pesquisa apontava uma taxa de desocupação de 12,9% no trimestre encerrado em maio, ou 12,7 milhões de brasileiros, com o fechamento de 7,8 milhões de postos de trabalho em relação ao trimestre anterior. Os especialistas alertam, porém, que o indicador está subestimado, pelo gigantesco número de desalentados, brasileiros que querem trabalhar, mas desistiram de procurar emprego.

Com o fim do distanciamento social e do auxílio emergencial, o desemprego deve alcançar ao menos 16% da população, projetam diferentes analistas. Em entrevista, o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, reconheceu que a taxa de desocupação deve ter um repique em setembro. “O desemprego já aumentou, os dados é que não mostram isso”, admitiu. “Muitas pessoas que perderam o emprego estão classificadas hoje como população fora da força de trabalho, pela metodologia do IBGE. Elas não o procuram porque sabem que não adianta. Tão logo reabra a economia, o desemprego vai dar um pulo.”

O mercado de trabalho deteriora-se de forma acelerada. Entre o início de maio e a primeira semana de julho, o Brasil perdeu 2,1 milhões de ocupações, segundo a Pnad Covid-19, pesquisa do IBGE para mensurar os impactos da pandemia na economia e na saúde. Com isso, o nível de ocupação chegou ao menor índice da série histórica. Apenas 48,1% dos brasileiros em idade para trabalhar estão efetivamente ocupados. Da população fora da força de trabalho, 19,4 milhões gostariam de trabalhar, mas não o fizeram por causa da pandemia ou por não encontrarem uma ocupação onde moram. A taxa de informalidade foi estimada pelo instituto em 34,2%.

“Hoje, temos quase 131 milhões de desempregados. Se somar o contingente daqueles que desejam trabalhar, mas não estão procurando emprego no momento, estamos falando de mais de 30 milhões de brasileiros”, observa o economista José Dari Krein, professor da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho. “É uma situação sem precedentes. Em 2015 e 2016, o PIB despencou 7,2%, e nunca recuperamos os postos de trabalho perdidos. De lá para cá, a melhora foi inexpressiva. E a pandemia contribuiu para desorganizar ainda mais o mercado de trabalho.”

O economista lembra que foram celebrados mais de 15 milhões de acordos de redução salarial ou suspensão da jornada de trabalho por conta da MP 936, cuja prorrogação não está nos planos do governo. “Muitas empresas suspenderam o contrato porque era mais barato do que demitir. Quando o benefício perder a validade, teremos uma onda de demissões. Isso, se a empresa não falir sem pagar os funcionários”, afirma Krein. Não bastasse, o ministro da Economia, Paulo Guedes, parece apostar todas as fichas em uma flexibilização ainda maior da legislação trabalhista. Nos planos do governo figura até a liberação de contratos por hora, sem recolhimento de FGTS nem do INSS. “Em toda crise, é o mesmo discurso: ‘Quer emprego? Então é preciso ter uma relação de trabalho próxima da informalidade’. Só que, do ponto de vista prático, olhando para a história brasileira, essa promessa nunca foi cumprida. Onde estão os 6 milhões de empregos prometidos por Temer e Henrique Meirelles?”

De fato, as reformas tocadas desde a deposição de Dilma Rousseff não foram capazes de alavancar a economia. Após a recessão de 2015 e 2016, o PIB cresceu mero 1% ao ano até 2019. No trimestre encerrado em novembro de 2017, quando a reforma trabalhista de Temer e Meirelles entrou em vigor, a taxa de desocupação era de 12%. Em janeiro de 2020, quando o coronavírus não passava de uma ameaça distante, o desemprego alcançava 11,2% da população. A diferença corresponde a cerca de 700 mil postos de trabalho, oito vezes menos que o prometido.

“Claro que não dá para atribuir o desempenho da economia somente às mudanças na legislação trabalhista, mas ela contribuiu para o PIB raquítico. O consumo das famílias, para citar um exemplo, caiu bastante, devido à queda na renda do trabalhador e até em função dos contratos precários, que dificultam o acesso ao crédito”, observa Krein. “O que gera emprego é crescimento. Se o empresário não tiver confiança de que haverá demanda, ele diminui a produção e dispensa mão de obra. A redução de direitos trabalhistas apenas precariza o trabalho.”

Aos poucos, os “empreendedores”, como a mídia costuma tratar trabalhadores empurrados para a informalidade, se dão conta do engodo. No sábado 25, os entregadores de aplicativos fizeram a segunda paralisação nacional da categoria por melhores condições de trabalho, embora as empresas de tecnologia os considerem apenas usuários das plataformas, e não empregados – uma farsa com o beneplácito do Judiciário. A insatisfação é tanta que um grupo tenta construir uma cooperativa no Rio de Janeiro para garantir aos trabalhadores direitos essenciais, como descanso semanal ou auxílio em caso de afastamentos por acidentes ou problemas de saúde.

Eduarda Alberto, de 24 anos, é uma das idealizadoras do projeto. Bartender até o início da quarentena, ela passou a fazer entregas com sua moto. “Na época, meu namorado estava parando de trabalhar para os apps, cansado da exploração. Então, desde o início, tentei correr por fora”, diz a jovem integrante do grupo Entregadores Antifascistas, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O maior desafio para viabilizar a cooperativa é justamente o desenvolvimento de um aplicativo para gerenciar os pedidos de entrega.

O grupo pretende apropriar-se da tecnologia desenvolvida pela CoopCycle, uma federação que reúne 30 cooperativas de entregadores na Europa e no Canadá. “Precisamos fazer adaptações. Por causa da topografia, os europeus atuam mais com bicicletas, o que é inviável aqui. Precisamos traduzir tudo para o português e adequar o sistema de pagamentos”, explica. Alheio ao drama do desemprego, Jair Bolsonaro tenta empurrar a fatura da crise para os estados e municípios que adotaram medidas de distanciamento social na esperança de conter o avanço do coronavírus. Em ofício encaminhado ao presidente na segunda-feira 27, o governador do Maranhão, Flávio Dino, propôs a criação de um Pacto Nacional pelo Emprego, a ser debatido com entidades empresariais e sindicais. Bolsonaro reagiu com deboche. “Tem governador agora que quer que eu faça um pacto pelo emprego. Mas ele continua com o estado dele fechado”, disse o ex- capitão durante conversa com seus seguidores na saída do Palácio da Alvorada.

Em abril, um grupo de economistas liderado por Esther Dweck, professora da UFRJ, projetou os impactos econômicos da pandemia. A equipe trabalhou com três cenários. O primeiro previa uma crise em V, com rápida recuperação da atividade econômica, após um período eficaz de isolamento social. O cenário de referência, por sua vez, vislumbrava uma reabilitação em U, com retomada lenta após um período prolongado de distanciamento social. Por fim, o cenário pessimista previa uma recuperação em L ou U prolongada, marcada por vagarosa retomada da atividade econômica a partir de 2021, após o fracasso das medidas sanitárias. “Estamos atualizando os dados, mas não temos observado mudanças significativas nas projeções”, diz Dweck. “Apenas descartamos o cenário otimista, porque ele é irreal.”

Neste caso, o Brasil deve perder de 8,2 milhões a 14,7 milhões de postos de trabalho em 2020. “Não há sinalização alguma de que o governo vai tomar medidas efetivas para estimular o crescimento da economia e, ao mesmo tempo, a pandemia induz a mudanças tecnológicas, em favor de uma maior automação do trabalho. A combinação desses dois fatores é explosiva para o mercado de trabalho”, lamenta Dweck. “Desde o início da pandemia, Bolsonaro tenta explorar a suposta dicotomia entre economia e medidas sanitárias, quando, na verdade, os países que fizeram uma quarentena mais séria conseguiram conter o avanço do vírus e retomaram as atividades econômicas de forma segura.” Epicentro global da pandemia, o Brasil acumula mais de 100 mil mortos e 3,2 milhões de infectados pelo coronavírus. Números oficiais e claramente subnotificados, convém sempre reforçar.

ENQUANTO ISSO…

…bilionários brasileiros ficam mais ricos na crise

A crise provocada pela pandemia do caronavírus inspira as mais sombrias previsões. Para o Banco Mundial, ela provocará a maior recessão desde a Segunda Guerra. O Fundo Monetário Internacional vislumbra a maior debacle desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. A OCDE, por sua vez, prevê a maior contração global em tempos de paz dos últimos cem anos, “com consequências sombrias e duradouras para as pessoas, empresas e governos”. A grande maioria da população brasileira sente na pele os impactos na perda de renda e trabalho, mas 42 compatriotas têm motivos de sobra para celebrar. Incluídos na lista de bilionários da Forbes, eles acrescentaram 34 bilhões de dólares às próprias fortunas entre março e julho deste ano, segundo a Oxfam.

Os dados constam no relatório “Quem Paga a Conta? – Taxar a Riqueza para Enfrentar a Crise da Covid-19 na América Latina e Caribe”, divulgado pela ONG na segunda-feira 27. Desde o início da quarentena, o continente ganhou um novo bilionário a cada duas semanas, “enquanto se estima que até 52 milhões de pessoas se tornarão pobres e 40 milhões perderão seus empregos neste ano”. Ao expor o contraste entre a bonança dos bilionários e o desamparo dos mais pobres, as principais vítimas do desemprego e também do coronavírus, a Oxfam alerta para a necessidade de uma reforma tributária capaz de desconcentrar renda no País.

“Entre a pífia proposta apresentada pelo governo federal e os discursos de lideranças do Congresso, que defendem uma reforma tributária voltada para a simplificação e a melhora do ambiente para investimento, a maioria da população é escanteada mais uma vez”, lamenta Kátia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. “É como se a maioria da população não tivesse o direito a uma vida digna.” De fato, o abismo social só se aprofunda.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.