EU ACHO …

POR QUE DERRUBAR ESTÁTUAS

Nos Estados Unidos, estátuas de generais derrubadas e quadros de políticos depositados no lixo. Na Bélgica, monumentos ao Rei Leopoldo II desfigurados com golpes de martelo e tinta vermelha. Na Inglaterra, esculturas de homens de negócios do século XVIII desmanteladas e jogadas em rios. Em Praga, uma imagem gigante de Winston Churchill pichada com a frase “Era racista” e, em Paris, a estátua em frente ao Parlamento de Jean-Baptiste Colbert, autor do “Código Noir”, que governava a vida dos escravos nas colônias francesas, também danificada.

Em quase todo o ocidente, os protestos liderados pelo movimento Vidas Negras Importam têm fomentado toda uma campanha de acerto de contas com a história. As heranças de escravismo, colonialismo e racismo são todas alvos da reavaliação exigida pelos manifestantes, um processo abrangente que inclui não apenas a demolição de símbolos do passado mas principalmente uma nova visão do decorrido.

E no Brasil? Parece que os desdobramentos têm sido lentos e hesitantes. Não vejo ainda no país o mesmo fervor, apesar de uma população enorme de negros e pardos discriminados e a mais longa história de escravidão do ocidente. Por que essa relutância? Tem a ver com a extraordinária complexidade da história brasileira? Ou será que um autoexame seria tão dilacerante que o país não aguentaria? No exemplo americano, alguns casos são fáceis de resolver. Os generais sulistas secessionistas que lutaram para defender a escravidão na Guerra Civil, como Robert E. Lee e Stonewall Jackson? Traíram nosso país e não mereciam nenhum monumento. E os ideólogos da escravidão, como o senador John Calboun, e líderes do governo rebelde, como Jefferson Davis? Também não são dignos de homenagens. A Alemanha, por acaso, ainda tem estátuas enaltecendo Hitler? Mas também precisamos perguntar qual o objetivo desse movimento. Sua finalidade é uma reavaliação do passado fiel aos fatos, para que possamos entender melhor o que aconteceu e por quê? Ou ele prefere borrar da história personagens e incidentes considerados vergonhosos ou funestos, como Stálin fez com Trótski quando mandou apagar o rival de todas as fotos e pinturas da Revolução Bolchevique?

Tenho acompanhado o debate incipiente no Brasil sobre a estátua do bandeirante Borba Gato, e confesso que fico perplexo. Por que ele e só ele? Não foi o maior nem o pior dos bandeirantes que escravizaram indígenas e atacaram quilombos. Sim, a estátua é feia para caramba. Mas por que ninguém está reclamando o fim de homenagens a Raposo Tavares, por exemplo, ou Domingos Jorge Velho ou Miguel Sutil?

A esse respeito, li com grande interesse os comentários de Laurentino Gomes sobre a questão Borba Gato e concordo com ele – até certo ponto. Sim, “estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico” e “devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”. Mas como? Basta colocar uma breve placa explicativa? Ou as estátuas devem ser consignadas aos cantinhos empoeirados dos museus, com explicações mais detalhadas?

E como vai lidar o Brasil com os vários duques, marqueses, condes e barões que compraram, venderam ou herdaram escravos durante o Império?

E é mais complicado ainda o caso do Barão de Guaraciaba, rico fazendeiro negro, amigo da Princesa Isabel – e dono de mil escravos, também negros. É por essa mistura complicada de fatos que os positivistas, abolicionistas todos, criaram o culto a Tiradentes quando nasceu a República, numa tentativa de encontrar um herói não manchado pelo escravismo.

Nos Estados Unidos, já estamos presenciando alguns excessos de zelo. Monumentos enaltecendo o general Ulysses Grant, comandante das tropas que derrotaram os escravocratas, e líderes do movimento abolicionista foram derrubados na Califórnia e em Wisconsin. Tem até um jovem ativista negro que exige demolir todas as estátuas que retratam Jesus Cristo como “um branco europeu”. Claro que Donald Trump, grande defensor dos generais escravocratas, pegou a “ameaça” como bandeira de campanha.

Vejo que faço uma grande quantidade de perguntas e ofereço poucas respostas. Isso reflete minhas próprias dúvidas e incertezas. Como cidadão, quero fazer justiça a uma causa justa e, como jornalista e escritor, quero respeitar todos os fatos da história. Duas perguntas finais: os pecados de nossos próceres sempre pesam mais do que seus feitos? E quem tem o direito de decidir?

**LARRY ROHTER – é jornalista e escritor, ex- correspondente do New York Times no Brasil e autor de Rondon, uma biografia

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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