A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UM GRITO QUE RESSOA

Diversos são os danos que relacionamentos abusivos causam às vítimas, porém ainda há intervenções a serem feitas. Muitas são afetadas direta e indiretamente por comportamentos destrutivos do companheiro

Relacionamentos amorosos são estruturas complexas e dinâmicas. Espera-se, minimamente, que para a manutenção de uma relação saudável deva existir um cenário de harmonia, sintonia de valores, respeito, companheirismo, lealdade, dentre outras características funcionais. Porém essa instigante estrutura de relação humana pode apresentar disfunções altamente danosas para uma ou ambas as partes: a manifestação da violência, de forma visceral ou subjetiva.

De acordo com Bittar e Nakano (2017), a violência na relação afetiva pode produzir impacto significativo para a vítima, resultando em danos diversos. em curto e em longo prazo, tais como: perturbações emocionais, baixa autoestima, depressão, raiva, ansiedade, ideação suicida, insucesso escolar, consumo de substâncias, disfunções de comportamento alimentar, estresse pós-traumático e comportamentos sexuais de risco. Muitas vezes, o problema se inicia ainda no começo da relação – e a esperança de que o cenário mude é um dos pontos mais difíceis para que o relaciona mento seja finalizado. A expectativa irreal, as ideias irracionais de que o problema está na vítima e as eternas promessas de mudança do agressor perpetuam as cenas de terror.

Segundo Beserri et ai (2016), a violência nas relações de intimidade (VRI) ocorre a partir da adolescência e durante a vida adulta, frequentemente no âmbito do casamento ou da coabitação. A começar no namoro, essa forma de violência é na maioria perpetrada pelo sexo masculino contra o sexo feminino, podendo ainda ocorrer no âmbito de relações de intimidade de pessoas do mesmo sexo, ressaltando que esse tipo de violência é uma pandemia que afeta essencialmente as mulheres e perpassa todos os grupos étnicos, culturais, níveis socioeconômicos ou educativos e tem raízes históricas e culturais. Certamente, as mulheres são afetadas direta e indiretamente por comportamentos destrutivos advindos do(a) companheiro (a) – e a percepção dos sintomas no início pode ser a grande válvula de escape para que outros problemas, ainda mais graves, possam ser manifestados. Os gritos de socorro ocorrem, mas será que sempre são ouvidos?

Além dos fatores objetivos que sustentam a relação amorosa problemática, Dias et ai. (2012) citam que existem duas narrativas românticas:

a) o conto de fadas do príncipe encantado que “venera” a princesa, sustentando crenças que legitimam a violência (e. g., que o melhor da relação supera o pior, que a mulher pode parar a violência se se aproximar do estereótipo da mulher ideal ); e

b) o romance negro, que retrata o homem como naturalmente controlado, e descreve as relações como tipicamente dolorosas para a mulher, naturalizando o seu sofrimento. Indubitavelmente esses dois modelos são manifestações frequentes do imaginário social – crenças disfuncionais de que “pelo amor tudo vale”, “o amor tudo vence”, “não podemos abandonar aquilo que Deus uniu”, todos pensamentos automáticos que relevam profundas feridas cognitivas no indivíduo. Necessitam-se intervenções apropriadas para essas vítimas, tanto de apoio de redes de proteção como do auxílio da justiça e do campo psicológico.

Silva, Coelho e Caponi (2007) debatem que, atualmente, as vítimas de agressores e outras formas de violência podem contar com programas de apoio na resolução de seus problemas familiares, tanto governamentais quanto não governamentais. Pela prática, nesses programas de atendimento à vítima percebe-se que a maioria das queixas (98%) parte de mulheres que são vítimas de alguma forma de violência no interior do espaço doméstico. Fica evidente que a violência doméstica tem se transformado numa forma cada vez mais brutal de agressão contra a mulher, mesmo que esta já possa contar com atendimento especializado. Infelizmente, assim como em outros fenômenos humanos, o tempo é fator essencial para resolução desta problemática, ou seja, não devemos esperar pelo pior para que a intervenção ocorra. Nesse cenário, ninguém deve ser espectador de brutalidades, sejam elas das mais sutis até as mais letais – violência é violência. E atenção, pois ela pode ser silenciosa, sutil, sem marcas físicas. Mas tão perigosa quanto qualquer outro tipo de violência, pois deixa marcas emocionais profundas. A identificação precoce e o tratamento são muito importantes.

IGOR LINS LEMOS – é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento (UFPE), especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada (UPE), terapeuta certificado pela Federação Brasileira de Terapias Cognitivas e psicoterapeuta cognitivo-comportamental. Contato pelo Instagram @igorterapia

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

Uma consideração sobre “A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS”

  1. Adorei o que escrevestes aqui. Particularmente, eu gosto muito dessa parte que você aborda temas ligados à psique.
    Em relação a sua publicação, as mulheres ainda sofrem com uma carga muito negativa em relação a isso . claro, resquícios de uma sociedade patriarcal. Digamos que os mecanismos que deram suporte para essa ascensão feminina, ainda deixam muito a desejar. A idéia de ‘lar feliz ‘ continua sendo da porta pra dentro. A gente sabe que é grande os casos de abusos que mulheres ainda sofrem. E aqui, não falo da mulher que mora na periferia não. Falo da mulher que tem status social. Muitas não denunciam a violência por conta da vergonha. Só no último caso, é que ela toma coragem. E isso quando não vem a óbito.
    Ontem por exemplo, foi uma data simbólica que lembra a Lei Maria da Penha. Assim como, o próprio dever da sociedade e instituições voltarem seus olhos para denunciar essa prática. A questão da violência, a questão dos relacionamentos abusivos (ainda) e algo absurdo, porque apesar da lei, as pessoas devem tomar consciência de que se não houver um equilíbrio, os casos continuarão crescendo, infelizmente.
    Eu acredito eu que levará algum tempo para mudar …essa situação.

    Um abraço!

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