EU ACHO …

É PRECISO PLANEJAR A RETOMADA

Em períodos de crise, deve-se adotar uma atitude pragmática. Por isso, agora mais do que nunca, não há vantagem em se prender a conceitos absolutos de liberalismo ou estatismo

Está mais do que na hora de setores públicos e privados se unirem para elaborar um planejamento estratégico, com vistas a viabilizar uma retomada gradual das atividades produtivas, a partir do momento em que as autoridades sanitárias considerarem mais adequado e seguro. As medidas que têm sido implementadas pelo governo – várias delas sugeridas pela Indústria -, vem ajudando as empresas a suportar o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, incluindo a preservação de grande parte dos empregos. Entretanto, não podemos esperar de braços cruzados a hora da reativação da produção, sob pena de a volta às atividades ocorrer de maneira improvisada.

É necessário que seja elaborado, urgentemente, um plano consistente, que projete cenários e preveja a realização de ações efetivas no pós-pandemia. Como os recursos privados serão limitados, em razão da brusca interrupção de empreendimentos comerciais e industriais, o Estado terá papel fundamental para uma retomada sustentável na economia. Nesse sentido, é urgente facilitar o acesso ao crédito, poisos recursos liberados pelo governo não estão chegando no caixa das empresas. O governo precisa, ainda, sinalizar como pretende criar as condições necessárias para aumentar a produção industrial, que, de acordo com o IBGE, acumulou uma queda de 26% em março e abril. Recente pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que apenas 13% das empresas do setor não sentiram efeitos econômicos negativos da pandemia, enquanto 84% foram prejudicadas.

Para fazer frente a esse desafio, consideramos que as iniciativas governamentais deverão priorizar o reaquecimento do setor de construção civil; a atração de investimentos em infraestrutura, em especial com concessões na área de transportes; a implementação do novo marco legal do saneamento básico, aprovado recentemente pelo Congresso Nacional; e a expansão do setor elétrico. A mobilização das cadeias produtivas desses e de outros setores, no cenário da severa recessão que se anuncia, será essencial para a sobrevivência das empresas e, por consequência, para a preservação de empregos.

Em todas as épocas, sobretudo em períodos de crise, deve-se adotar uma atitude pragmática. Por isso, agora mais do que nunca, não há vantagem em se prender a conceitos absolutos de liberalismo ou estatismo. Sem a participação ativa do Estado, o Brasil e o mundo não conseguirão superar essa grave crise. Em grandes turbulências anteriores, instrumentos e recursos disponibilizados pelos governos foram imprescindíveis para que os países resgatassem o caminho da expansão. Foi assim na Grande Depressão de 1929, quando o governo do presidente americano Franklin Delano Roosevelt implementou o New Deal, ambicioso programa de medidas econômicas e sociais que viabilizou a recuperação da economia dos Estados Unidos e de outras nações afetadas.

Processo semelhante ocorreu durante o caos financeiro iniciado em 2008, que levou bancos centrais dos principais países a injetar trilhões de dólares na economia global para minimizar o tamanho da queda das atividades econômicas. Naquela ocasião, mesmo o governo americano, acostumado a práticas mais liberais, deixou de lado vários tabus econômicos. Com aporte de recursos públicos, salvou da falência diversas instituições financeiras, seguradoras, companhias aéreas e mesmo segmentos da indústria, como o automotivo.

No Brasil, para ajudar o país a enfrentar as consequências econômicas da atual pandemia, governo e Congresso já tomaram duas medidas relevantes. A primeira foi o auxílio de 600 reais mensais para trabalhadores informais ou que perderam o emprego – o que está permitindo que as famílias mais pobres se sustentem. A outra foi o programa que autoriza empresas a fechar acordo com empregados para reduzir a jornada de trabalho, com diminuição proporcional no salário. A iniciativa preserva empregos e dá um alívio temporário ao caixa das empresas.

No atual estágio, a indústria considera que, além da facilitação do acesso ao crédito, é necessário que o governo aja para melhorar as condições de financiamento emergencial para o capital de giro das empresas. Obrigadas a suspender suas atividades em decorrência da pandemia e das restrições ao comércio, as indústrias tiveram uma queda drástica de receitas, que se mostram insuficientes para pagar despesas fixas, elevando a possibilidade de inadimplência. Essas medidas são essenciais para que os recursos cheguem a tempo de evitar a desestruturação maciça do setor produtivo nacional.

O planejamento estratégico para a superação da crise deve prever ainda a retomada da agenda de reformas estruturais, especialmente a tributária, interrompida devido à eclosão da pandemia. Outras prioridades são a reestruturação do setor elétrico, a atualização de normas para o licenciamento ambiental e o aumento de investimentos em tecnologia e inovação. O combate à insegurança jurídica também é crucial para a recuperação dos investimentos, em particular os estrangeiros; a formação de um ambiente mais propício para negócios; e o aumento da competitividade do país com relação a outras economias. Caso não tome essas providências, o Brasil poderá ficar a reboque na nova ordem mundial que, certamente, emergirá no pós-pandemia.

***ROBSON BRAGA DE ANDRADE – empresário, é presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI)

OUTROS OLHARES

CORAÇÕES PARTIDOS

O fechamento de fronteiras impede casais que vivem em países diferentes de se encontrar e dá origem a movimento   pede às autoridades o fim das restrições

A gerente de novos negócios Sabrina Nunes e o engenheiro da tecnologia da informação Pierre-Etienne Gerbet imaginavam que 2020 seria o período mais feliz da vida deles. Depois de quase dois anos de relacionamento a distância – ela vive no Brasil e ele, na França -, decidiram assinar a papelada para, enfim, sacramentar a união. Os novos planos incluíam morar juntos em Paris e iniciar uma jornada repleta de amor e esperança. Tudo mudou com a pandemia do coronavírus, que não só interrompeu o sonho de Sabrina e Pierre como despedaçou os corações de milhares de casais apaixonados. Com as restrições de circulação e o fechamento das fronteiras de diversos países, amantes binacionais que não são oficialmente casados estão impossibilitados de se reencontrar. Dizem que o amor não tem limites, mas, nesse caso, eles se tornaram concretos diante da intransigência das autoridades.

Os relatos de desencontros passaram a ser tão comuns que estimularam a criação de grupos que clamam pela solução do problema. Eles não pedem muito: querem apenas o direito de rever a pessoa amada. No Facebook, 7.300 pessoas fazem parte do movimento Love Is Not Tourism (Amor Não É Turismo), criado em 27 de junho por casais separados pela pandemia e que busca pressionar os governos para liberar as fronteiras. Na União Europeia, quase 17.000 pessoas assinaram um abaixo-assinado on-line. Na Alemanha, são 27.300 apaixonados que querem se reencontrar com a cara-metade.

O país é um dos poucos que demonstraram alguma sensibilidade com o drama dos casais. Em entrevista recente, o ministro do Interior, Horst Seehofer, afirmou ser favorável ao movimento em prol do amor, mas as barreiras ainda não foram eliminadas. Como os impedimentos persistem, o desenvolvedor de games alemão Felix Urbasik resolveu criar o site love is not touirsm.org, que reúne informações sobre a situação em diferentes regiões. A namorada dele mora na Austrália e não consegue viajar para encontrá-lo. “Na visão dos europeus, a Austrália está entre os países mais seguros”, diz Felix. “Mesmo assim, descobrimos que os moradores não podem sair da ilha.”

O movimento ganhou força no início de julho, quando países europeus começaram a abrir fronteiras e divulgar quais residentes de outras nações seriam bem-vindos. Para os brasileiros barrados nas listas por causa do número elevado de contágios pela Covid-19, a situação é obviamente pior. Se uma australiana sofre para embarcar para a Alemanha, uma brasileira que deseja fazer o mesmo encontra obstáculos ainda mais intransponíveis. A campanha em defesa dos casais é incipiente no Brasil – foram colhidas mais de 800 assinaturas até a quarta-feira 15 -, mas não menos relevante para cada coração que está distante de sua grande paixão. “O que estamos passando é uma dor solitária”, diz Sabrina. “Nosso único desejo é estar ao lado da pessoa que amamos.” Há alguns dias, homens e mulheres mobilizados nas redes sociais resolverem endereçar uma carta ao governo brasileiro. “Estamos simplesmente pedindo o direito de estar juntos”, diz um trecho do texto. “Vivemos em um mundo globalizado, com milhares de casais binacionais que são uma família, mas sem ter algo oficial no papel. Nosso pedido é para as fronteiras se abrirem para o amor.”

Gabriela Rodrigues, uma das participantes mais ativas em um grupo no Facebook, compartilhou os telefones dos ministérios da Justiça, Casa Civil, Infraestrutura e do Departamento de Imigração. Em outra postagem, mostrou o passo a passo para criar uma conta no canal do governo federal e explicou como enviar uma mensagem à ouvidoria, além de destacar os principais órgãos que precisam ser acionados: Ministério das Relações Exteriores, Ministério da Justiça e Polícia Federal. Gabriela recebeu o aviso automático de prorrogação de prazo para a resposta das autoridades, sendo a data final até 10 de agosto. “Não há posicionamento”, diz ela.” Não sabemos quando isso vai acabar”. Em comum, todos os amantes demonstram o mesmo desespero pela situação. Eles argumentam que testes poderiam confirmar se estão infectados e até aceitam a ideia de, se preciso, permanecer alguns dias em quarentena no país de destino antes de reverem o parceiro. O que não admitem é ficar apartados em decorrência de entraves burocráticos.

“Para muitas pessoas, a vida de casado começará a distância”, diz o professor de psicologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie de Campinas Marcelo Santos. Para ele, a pandemia desencadeará grandes transformações. “A partir de agora, o virtual estará agregado às relações”, resume. Segundo o psicólogo Thiago de Almeida, especializado em relacionamentos afetivos, há o risco de o distanciamento deixar sequelas. “O amor ocupa um lugar de destaque na vida humana”, afirma. “Por isso mesmo, a separação pode causar ansiedade, depressão e até doenças psicossomáticas.” Enquanto os governos não oferecem uma solução, os amantes fazem o que podem. Sabrina e Pierre avaliam viajar para países que permitiriam que ficassem juntos. “As informações não são claras e já tentamos de tudo”, diz Sabrina. “A ideia é que ele vá para um lugar em que eu possa entrar, pois os brasileiros têm mais restrições que os europeus.” Os dois apaixonados estão dispostos a fazer qualquer tipo de loucura. Que o amor, no fim, vença.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PATA A ALMA

DIA 04 DE AGOSTO

O CORDEIRO ETERNO

Conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo… (1Pedro 1.20a).

Jesus é o Cordeiro santo de Deus. O cordeiro que tira o pecado do mundo. Ele veio ao mundo para morrer, e morrer pelos nossos pecados. Sua morte não foi um acidente, mas uma agenda estabelecida na eternidade. Embora o Calvário tenha ocorrido há mais de dois mil anos, na mente de Deus e nos decretos de Deus aconteceu desde a fundação do mundo. Nossa salvação foi uma iniciativa divina cuja origem recua aos tempos eternos. Quando Deus planejou nossa salvação, não havia ainda céu nem terra. As estrelas ainda não brilhavam no firmamento e o sol ainda não dava a sua claridade. Antes mesmo do princípio, no recôndito da eternidade, Deus já havia colocado o coração em você e determinado que Jesus, o Cordeiro eterno, seria morto em seu lugar, em seu favor. A cruz de Cristo não foi um sinal de derrota, mas de triunfo. Jesus não morreu como mártir, mas como Redentor. Não foi à cruz como uma vítima indefesa nas mãos de seus algozes. Morreu voluntariamente. Entregou-se por você e por mim, desde a eternidade. Glorificou o Pai em sua morte e conquistou para nós eterna redenção. A sua salvação não foi uma decisão de última hora. Já estava planejada na eternidade, foi executada na história e será consumada no último dia. Com amor eterno, Deus amou você e com benignidade ele o atrai.

GESTÃO E CARREIRA

CLUBE DO SONO

Por que acordar às 5 da manhã, nova mania do mundo corporativo, pode trazer frustrações e prejuízos à saúde

Se até pouco tempo atrás era raro conhecer quem adorasse pular da cama às 5 da manhã, o jogo virou depois que madrugadores de plantão proliferaram no mundo corporativo. Entre eles estão o fundador da XP, Guilherme Benchimol, o empresário Abílio Diniz e o fundador da Cacau Show, Alexandre Costa. Chamado de “clube das 5”, esse grupo ganha força no Brasil. Tanto que a ideia de levantar cedo, antes do sol nascer, espalhou-se pelas redes sociais, virou hashtag (#5amclub) e ganhou influenciadores digitais como adeptos. Thiago Nigro, do canal de finanças Primo Rico, Caio Carneiro, autor do livro de negócios Seja Foda! e o ex- nadador Joel Moraes são alguns dos que fazem até lives cedinho.

Mas por que 5 da manhã? Segundo especialistas, esse é um horário intermediário entre 4, cedo demais para descansar o suficiente, e 6, uma hora menos efetiva, pelo fato de que o dia já amanheceu e muita gente está de pé, o que atrapalharia o foco. No livro Clube das 5 da Manhã, o autor e expert em desempenho Robin Sharma afirma que esse é o melhor horário para criar um “estado de fluxo”, sem interrupções de ruídos do ambiente ou da tecnologia. Em outra obra importante para a disseminação dessa ideia, O Milagre da Manhã, o empreendedor e palestrante Hal Elrod defende que acordar cedo faz diferença para quem deseja ser bem-sucedido na vida pessoal e profissional. Isso porque, afirma ele, as primeiras horas da manhã proporcionam um momento de solidão e silêncio propício para cuidar da mente e do corpo.

Mas, embora pesquisas apontem vantagens na rotina matutina, nenhuma delas é específica quanto à necessidade de levantar às 5 horas. Um estudo realizado pelo professor Christoph Randler, da Universidade de Educação em Heidelberg, na Alemanha, com 367 estudantes universitários, mostrou que os alunos matutinos são mais proativos, têm notas mais altas e conseguem melhores oportunidades de trabalho. “Quando se trata de sucesso profissional, as pessoas matutinas têm vantagens”, afirmou o pesquisador à publicação Harvard Business Review. Asanálises não levaram em consideração o momento exato em que os participantes acordavam – o questionário investigou apenas quais eram as horas do dia preferidas deles para realizar suas tarefas e verificou quais deles levantavam sempre no mesmo horário nos dias úteis e nos de descanso. Outra pesquisa, realizada na Universidade Complutense de Madri, com 509 adultos, mostrou que pessoas que fazem suas atividades pela manhã são menos procrastinadoras.

NÃO É REGRA

Embora os fãs da alvorada digam que qualquer um consegue se adaptar à rotina de despertar às 5, especialistas em sono alertam que o hábito não é para todo mundo – e, justamente por isso, traz riscos à saúde. “Se para entrar para o tal clube das 5 da manhã você tiver de sacrificar algumas horas de sono, então simplesmente não valerá a pena”, diz Geraldo Lorenzi, diretor do Laboratório do Sono da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo a Fundação Nacional de Sono dos Estados Unidos, adultos precisam dormir, em média, de sete a nove horas por dia. A quantidade varia de pessoa para pessoa, sendo que existem aquelas que se satisfazem com seis e outras que precisam de dez para descansar de verdade.

Quem não respeita seu relógio biológico pode enfrentar cansaço, ansiedade, depressão, doenças gastrointestinais, perda de concentração, lapsos de memória e redução do tempo de reação. “É consenso no meio acadêmico que as características individuais acerca dos horários de dormir e acordar não são uma mera escolha do indivíduo”, alerta a bióloga Cláudia Moreno, vice-presidente da Associação Brasileira do Sono e professora de fundamentos biológicos da saúde humana e de cronobiologia da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Assim como existe quem produza melhor pela manhã, há quem seja vespertino e se adapte melhor dormindo e acordando mais tarde. E, de acordo com pesquisadores do sono, isso não é uma opção, e sim uma determinação genética. Ou seja, forçar a barra pode ser um grande erro estratégico que, em vez de elevar, derrubará a produtividade. “Se uma pessoa vespertina acordar às 5, vai virar uma fábrica de restrição de sono, porque provavelmente terá dificuldade de dormir mais cedo”, alerta Geraldo, do Laboratório do Sono.

Isso significa que, se você é uma pessoa vespertina se esmerando para madrugar, em tese você está sabotando seu horário mais frutífero. Foi isso que levou a empreendedora Juliana Mazurkievicz, de 37 anos, a abandonar a ideia de se levantar às 5. Formada em agronomia, ela leu o livro O Milagre da Manhã no início de 2019 e decidiu seguir as sugestões do autor para ser mais produtiva. Na época, estava estruturando um negócio próprio de absorventes femininos de tecido e achou que a dinâmica a ajudaria a se organizar melhor. Por dois meses, Juliana tentou acordar antes do sol nascer e seguir o ritual sugerido por Hal Elrod: meditar, visualizar objetivos, fazer exercícios, escrever algo e demonstrar gratidão. No primeiro mês, com muito esforço, ela conseguiu, mas no segundo mês enfrentou dificuldade para manter o ritmo, pois se sentia cansada por abrir mão do sono reparador do início da manhã. “A rigidez não funcionava. Era algo obrigatório, que não trazia leveza ou inspiração para o dia a dia”, diz ela, que vive em Florianópolis (SC). Após constatar isso, a empreendedora decidiu voltar para o horário mais natural, que é acordar às 6h30. Conseguiu manter os hábitos de escrever e agradecer, mas prefere realizar essas atividades antes de dormir, por volta das 22 horas, quando a filha de 5 anos já está dormindo. ”A experiência foi útil, pois me ajudou a aceitar limitações e a encontrar uma rotina adequada.”

Um estudo feito nos Estados Unidos pelos pesquisadores Dorothee Fischer, David Lombardi, Helen Marucci-Wellman e Till Roenneberg analisou os cronotipos, ou seja, a predisposição natural para ser mais ativo durante o dia ou a noite, de mais de 50.000 pessoas. E chegou à conclusão de que não há regras para horários de energia ou de fadiga: a fatia de pessoas vespertinas na população é de um quarto; o outro quarto é composto de indivíduos matutinos; e a metade restante fica no meio-termo, ou seja, não se enquadra nesses extremos e desperta em horários intermediários. A pesquisa também apontou que as pessoas tendem a ficar mais matutinas ao longo da vida. E é aí que mora outro perigo.

Líderes mais velhos do que os demais terão mais facilidade para acordar cedo. “Se não ficar atento, um chefe pode fazer um bando de gente infeliz, porque para ele é fácil pegar no sono às 21 e acordar às 5, mas para outros membros do time, mais jovens, não”, diz Geraldo.

Esse é um dos pontos de alerta do livro O Milagre da Manhã. Embora afirme que cada pessoa deve saber sua quantidade ideal de sono, o autor Hal Elrod diz que o mais importante não é o total de horas dormidas, mas se o repouso é energizante. Já Robin Sharma é categórico sobre a importância de dormir no mínimo 7h30 por dia. Para isso, ele sugere um ritual do sono, que deve começar pontualmente às 19, com o indivíduo desligando aparelhos eletrônicos e fazendo a última refeição do dia, e terminar às 22, direto na cama.

O ex-nadador Joel Moraes, de 39 anos, é um exemplo de que só consegue madrugar quem leva a rotina a sério – muito a sério.

Morador de Santos (SP), ele levanta pontualmente às 5, assim que o despertador toca. Seu primeiro destino é a praia, onde corre por uma hora. De volta à sua casa, Joel toma um banho gelado, faz uma série de afirmações positivas diante do espelho (tais como “manifeste seu talento hoje” e “impacte pessoas”), medita por cinco minutos e faz urna visualização dos objetivos de curto, médio e longo prazo. Depois, toma café da manhã e escreve a lista de tarefas do dia. Às 8, está pronto para começar. Ex-atleta, Joel acordou cedo dos 13 aos 26 anos por causa dos treinos na piscina. Ao encerrar a carreira na natação, no entanto, adotou hábitos noturnos, abandonou os exercícios e passou a acordar cada vez mais tarde. Ganhou 20 quilos e viu a produtividade despencar. Foi quando decidiu dar uma virada e retomar os hábitos da época em que nadava. “Isso ajudou a melhorar meu desempenho, me deu clareza mental e agilidade”, afirma.

Desde 2016, o ex-atleta realiza apresentações ao vivo nas redes sociais às 5 para inspirar os outros a fazer o mesmo. Em uma delas, reuniu mais de 10.000 espectadores que queriam ouvir sobre alta performance.

OUTRO LADO

Para Geraldo, do Laboratório do Sono, um dos aspectos negativos do clube das 5 é que ele valoriza o estado de vigília e reflete o desprezo que a sociedade atual tem pelo descanso. “Dormir, muitas vezes, é visto como perda de tempo, quando na realidade é tão importante para a saúde quanto o alimento e os exercícios físicos”, diz. E não é só isso. O pesquisador Christopher M. Barnes, da Universidade de Washington, que se dedica a estudar os efeitos da falta de sono sobre o trabalho, descobriu que pessoas que dormem pouco são menos éticas no ambiente corporativo e menos hábeis nas relações interpessoais. Em uma das pesquisas, Christopher acompanhou o sono de 40 líderes e 120 trabalhadores por três meses e avaliou a qualidade do relacionamento entre eles. A conclusão? Gestores que dormem pouco são mais impacientes, irritáveis e hostis. “Quando o chefe não está descansado, a equipe paga o preço”, escreveu o estudioso em um artigo de 2018.

Por essas e outras, os profissionais devem avaliar se faz sentido despertar tão cedo. “Um consultor pode incentivar você a acordar nesse horário, contribuindo ou criando um problema para sua vida. Não é algo que se encaixe para todo mundo”, destaca Sigmar Malvezzi, professor de psicologia do trabalho no Instituto de Psicologia da USP. Para ele, se a pessoa não tiver clareza dos objetivos de vida, saltar da cama antes do sol nascer não será garantia de sucesso. “Saber o motivo para levantar nesse horário é fundamental.”

Leni Nunes, professora de liderança e gestão de pessoas na Fundação Dom Cabral, defende que ter uma receita igual para todas as pessoas é algo ultrapassado. Em sua avaliação, o clube das 5 é uma tentativa de destruir a individualidade e vai na contramão do que o mundo do trabalho está vivendo atualmente, com a valorização da autonomia e da diversidade nas empresas. “Hoje, as ações de desenvolvimento pessoal buscam aproveitar pontos fortes em vez de focar os fracos. Não faz sentido dizer que todos os profissionais podem se beneficiar dessa rotina. Quem tentar funcionar contra sua natureza vai fazer um esforço grande para obter um resultado pífio”, diz.

E, para quem não consegue acordar cedo, a boa notícia é que nem todas as personalidades de sucesso são madrugadoras. O cientista Albert Einstein, por exemplo, gostava de dormir dez horas por dia. Jeff Bezos, fundador da Amazon e um dos homens mais ricos do mundo, declarou publicamente que prioriza dormir oito horas por dia para tomar melhores decisões. Uma prova de que mais importante do que acordar supercedo é organizar o dia com sabedoria, realizando atividades no horário em que se sente mais ativo. Afinal, o que vai trazer sucesso é isso – e não o fato de o despertador tocar às 5.

SONO REPARADOR

Estudo da Gallup mostra que o bem-estar aumenta conforme o número de horas dormidas

PÉ NO CHÃO

Confira cinco dicas para acordar (e dormir) mais cedo

1. DEFINA OBJETIVOS

Procure ter clareza de qual é sua motivação para adotar uma nova rotina. Avalie se acordar mais cedo faz sentido para sua vida, deixando de lado a comparação com outras pessoas.

2. RESPEITE AS HORAS DE SONO

Se vai acordar às 5, durma mais cedo também, por volta das 22. Se tem dificuldade de dormir e acordar cedo, talvez esse não seja o melhor caminho para você.

3. ENTENDA SEU RELÓGIO BIOLÓGICO

Para saber de quantas horas diárias de sono você precisa, observe quanto dorme nos dias de descanso. Se seu tempo de sono é mais longo aos fins de semana, isso significa que você está dormindo pouco durante a semana.

4. CRIE UMA ROTINA PARA AS MANHÃS

Hal Elrod, de O Milagre da manhã, propõe as seguintes atividades logo ao acordar: meditar, fazer afirmações positivas, escrever um diário, visualizar objetivos, ler e praticar exercícios físicos. O livro de Robin Sharma sugere uma fórmula chamada de 20/20/20, dividindo uma hora em três partes iguais de movimento, reflexão e atividades de estudo e leitura.

5. PREPARE-SE PARA DORMIR

Tente jantar cedo e estabelecer uma atividade que o ajude a relaxar antes de dormir. Pode ser assistir a uma série, ler um livro ou até mesmo brincar com o filho antes de fazê-lo adormecer. Também é importante desligar eletrônicos no mínimo uma hora antes de dormir.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

NO BALANÇO DAS HORAS

Estudos realizados durante a quarentena mostram que a sensação de passagem do tempo foi completamente alterada durante a pandemia

A ordenação dos segundos, minutos e horas dos dias é uma das grandes invenções da história da humanidade, talvez a mais perene de todas. O primeiro registro de povo que marcou a passagem do tempo é dos babilônios, que viveram na Mesopotâmia entre 1895 a.C. e 539 A.C. Eles construíram o relógio de sol, dividiram o dia em doze partes e depois em 24, constituindo o mesmo sistema utilizado até os dias de hoje. Na primeira concepção de um relógio, o momento em que o Sol ficava na exata posição em que não produzia sombra foi marcado como meio-dia, e então deu-se o restante da distribuição das horas entre manhã, tarde e noite. De volta para o século XXI: a forma de vida existente até o início da pandemia do coronavírus colocava outros elementos do dia a dia para auxiliar nos marcos temporais do cotidiano. Havia a hora de ir à academia, de fazer aula de inglês, a pausa garantida por feriados e fins de semana, a rotina do escritório. Com a paralisação das atividades e pouca diferenciação entre o que pode ser feito em um dia útil e numa folga – situação que se agravou ainda mais para quem perdeu o emprego durante a pandemia -, a percepção sobre a passagem do tempo mudou.

Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido pela Universidade Liverpool John Moores, na Inglaterra, que constatou que 80% dos voluntários sentiram alguma distorção na passagem das horas durante a quarentena no Reino Unido, seja a sensação de os minutos escorrerem pelos dedos, seja a de um dia duro e interminável. De acordo com a principal autora do estudo, Ruth Ogden, “a sensação de a quarentena passar mais devagar do que o normal foi associada a idades mais elevadas e à insatisfação com interações sociais”.  Uma pesquisa semelhante está sendo conduzida no Brasil pela Universidade Federal do ABC. De acordo com o neurocientista e coordenador do Laboratório de Cognição Humana da instituição, André Cravo, a análise teve início em 6 de maio e a ideia é mantê-la após o fim da quarentena, para comparar os períodos. “O que chamamos de percepção do tempo envolve uma série de fenômenos diferentes, como ritmo, emoções e a memória”, afirma. “Não há outros estudos do tipo para termos como base de comparação. Pela primeira vez, vários grupos distintos estão vivenciando a mesma experiência.”

Por mais que a percepção individual sobrea passagem das horas pareça palpável, há obviamente o elemento físico e imutável que rege o mundo, havendo pandemia ou não. Para o professor de filosofia da Universidade de São Paulo (USP) Osvaldo Frota Junior é essencial lembrar da diferença entre os fenômenos. “O tempo físico transcorre de uma maneira independente das pessoas”, diz. “O subjetivo é a construção, aquele que sentimos pelas nossas experiências.” De acordo com a escritora e ensaísta Rosiska Darcy de Oliveira, autor a do livro Reegenharia do Tempo, a mudança brusca impôs a reorganização da vida, que exigiu, por exemplo, a conciliação das atividades do lar, com o cuidar dos filhos e da casa, com o trabalho. “Cada segundo é um recurso não renovável”, afirma. “As pessoas estão expostas à dolorosa convivência com a finitude e isso pode estimular que se valorize o que realmente importa.” Para o neurocientista Cravo, um exemplo é o paradoxo das férias. “Quando elas chegam, passam rápido, porque dá prazer”, diz. “Contudo, na memória, a sensação é que muita coisa aconteceu.” A quarentena não é férias, muito pelo contrário. Mas o tempo em casa durante a pandemia certamente deixará lembranças eternas.

O RELÓGIO NÃO PARA

Confira as principais conclusões do estudo feito pela Universidade Liverpool John Moores