EU ACHO …

O QUE HÁ POR TRÁS DA MÁSCARA

Não espere o futuro chegar para construí-lo à sua maneira

Leio e ouço muitas especulações sobre o futuro que virá. Como será a vida nas cidades, no trabalho, nas escolas, nos restaurantes? Como será o convívio com as pessoas, com a família, amigos e colegas de trabalho?

Quem poderia imaginar que, um dia, em vez de pegarmos a bolsa ou o guarda-chuva para sair de casa, pegaríamos a máscara? Essa indumentária meio estranha, meio esquisita que, de repente, passou a ser essencial como um sapato. O curioso é que as máscaras, na minha opinião, estão fazendo com que as pessoas fiquem menos “mascaradas”. Porque o acessório encobre quase tudo no rosto; menos o olhar, que acaba ganhando destaque. Difícil se deixar enganar por um olhar mais triste, mais alegre, mais preocupado, apaixonado ou deprimido. Os olhos denunciam o amor e a dor, assim como o sofrimento e o medo.

E o maior medo neste momento é de não podermos mais conviver fisicamente com as pessoas: olhar no olho, abraçar, beijar e ficar bem perto de quem gostamos. E aí nos deprimimos: será que vai ser assim para sempre, ou ao menos até inventarem uma vacina contra o coronavírus?

Ainda que o país e o mundo comecem a ensaiar um retorno à normalidade, ninguém tem a resposta segura de como será esse novo tempo. Por outro lado, não acredito que seja hora de ficar imaginando o nosso futuro. É um exercício meio inútil, porque o futuro, tal como o passado, não existe de fato, a não ser em nossa cabeça: o passado na forma de memória, o futuro como projeção. Tudo o que temos, de verdade, é o presente.

Cada um de nós saberá o que fazer quando a vida voltar ao normal. Talvez o segredo para superar a angústia das incertezas seja estar aberto ao que vier, sem expectativas. Independentemente do que nos atinja, precisamos estar cada vez mais fortes, física e espiritualmente. Quando as circunstâncias se apresentam como incontornáveis, como é o caso desta pandemia, as mudanças mais profundas vêm de dentro para fora.

Tenho uma história pessoal de superação que me ensinou muito. Obesa de 120 quilos, fumante inveterada, pouco atenta à saúde, um dia resolvi mudar e comecei a botar em ordem o que me parecia mais visivelmente errado: meu corpo. Foi um tremendo esforço, mas, depois que cuidei da minha saúde, tudo começou a se encaixar e melhorar em todos os planos. Foi como se, combatendo a obesidade e o sedentarismo, eu tivesse criado anticorpos para outros males. O que perdi em peso ganhei em confiança em mim mesma. Emergi desse processo com a certeza de que cada minuto de batalha valeu a pena. Aos 40 anos, comecei a se ruma mulher saudável.

Portanto, não espere um futuro determinado pelos outros. Como cantou Geraldo Vandré – deixando o contexto histórico de lado, porque o que interessa agora é a dimensão pessoal da conclamação: “Quem sabe faz a hora/ não espera acontecer”. Enquanto não conseguirmos alterar as circunstâncias que nos rodeiam, como a proliferação do vírus, inventemos nossas próprias vacinas. Fortalecer nossa imunidade contra outras doenças do corpo, do espírito, da carreira profissional e nas nossas relações de vida.

***LUCILIA DINIZ                     

OUTROS OLHARES

DORMIU, MAS ESTÁ ACORDANDO

O relaxamento da quarentena em Nova York levanta a questão: como conciliara incomparável efervescência da cidade que nunca para com a rotina cercada de cuidados imposta pelo mundo pós-pandemia?

Nenhuma metrópole sentiu tanto o efeito da pandemia quanto Nova York. Acidade que nunca dormia se trancou em casa dia e noite, o fervilhante metrô e os táxis e carros que atravancam as ruas se esvaziaram, os aviões que despejam turistas incessantemente pararam de pousar nos aeroportos, e Manhattan, centro financeiro do mundo, ficou às moscas. Enquanto isso, a epidemia grassava: houve registro de 22.000 mortes entre março e maio, um tétrico recorde mundial. Depois de tanto dissabor, é claro que o primeiro fim de semana de relaxamento da quarentena foi uma festa. Aliás, muitas festas, ao ar livre e com dez pessoas no máximo reunidas, usando máscaras e mantendo a distância posta pela cartilha de combate ao vírus. Ao longo do sábado e do domingo ensolarados, pequenos grupos celebravam aniversários e reencontros no Central Park, em Manhattan, ao som de músicos amadores nos gramados.

Ao entardecer, na frente dos bares (dentro ainda não pode), a animação baixou as máscaras na altura do queixo das pessoas, de modo a brindar o fim do isolamento. Na cidade de maior densidade populacional dos Estados Unidos, cerca de 50 quilômetros de ruas e avenidas foram transformados em calçadões para pedestres, dando um ar de festival à selva de pedras conhecida pelo trânsito frenético e o vaivém de gente apressada. Em alguns pontos, grupos se excederam nas comemorações e levaram um puxão de orelha do governador Andrew Cuomo. “Os casos estão aumentando em 22 estados. Não queremos passar por essa situação deplorável”, disse ele em uma de suas lives habituais, avisando que reimpor o isolamento social em áreas, digamos, rebeldes é “uma possibilidade muito séria”.

Na segunda-feira 8, entre 200.000 e 400.000 pessoas voltaram ao trabalho em Nova York. Os nova-iorquinos ainda estão testando a nova rotina, na qual restaurantes oferecem pratos para entrega na calçada, bares instalaram torneiras de chope e serviços de coquetelaria em um balcão na fachada e as sapatarias colocaram cadeiras do lado de fora para clientes poderem experimentar seus produtos. Apesar das derrapadas – e dos protestos antirracismo, que não cessam e viraram um foco preocupante de possível contaminação -, a população está obedecendo às regras. “Os últimos meses foram muito angustiantes e ninguém quer passar por aquilo de novo”, disse a aniversariante Kelly Sandberg, que, de coroa e tudo, celebrava com amigas no Central Park.

O plano de reabertura de Nova York foi desenhado pelo governo estadual em quatro fases, e cada região progride ou regride no cronograma de acordo com uma série de parâmetros medidos diariamente. Acidade está na fase 1, que autoriza a volta ao trabalho na construção civil, nas fábricas e em toda a cadeia de suprimentos onde não há contato direto com o público. No varejo de rua, o atendimento restrito a balcões na porta de entrada levou muitas lojas a adiar a reabertura, e as vendas das que abriram refletem as limitações. “Poucos clientes querem comprar sem poder entrar, circular pelas araras e experimentar”, admite Mark Sullivan, dono de uma loja de roupas femininas em Manhattan.

Passados os primeiros quinze dias, o governo fará uma reavaliação do número de infecções. Mas, empolgado com o bom anda mento da reabertura, o prefeito Bill de Blasio afirmou na quinta-feira 18 que a cidade já pode avançar para a fase 2 na segunda 22, com a liberação do retorno aos escritórios, salões de beleza, áreas ao ar livre de restaurantes e reabertura de templos religiosos com no máximo 25% de lotação. Para as fases 3 e 4, as normas são menos específicas por enquanto. Prevê-se que na terceira etapa a chamada indústria de hospitalidade – hotéis, restaurantes, bares e academias de ginástica – volte à ativa, com bem menos gente. A última fase contempla os locais de maior concentração, aí incluídos os teatros e cinemas, as escolas e os shopping centers. Os produtores da Broadway estão reembolsando ingressos para espetáculos até 6 de setembro. É certo que muitos assentos terão de ficar vazios, o que deve inflacionar preços – como já acontece com as passagens de avião. Na mesma situação estão as casas de concerto e os museus, entre eles o Metropolitan, que precisou adiar o ano inteiro de festejos que planejara para seus 150 anos, completados em 13 de abril. Quando reabrir, o Met receberá um quinto da média diária de 20.000 visitantes.

Aos poucos, Nova York vai se adaptando à nova realidade. O centenário metrô, célebre pela população de ratos na casa dos milhões e pelo mau cheiro permanente, agora para de madrugada para ser desinfetado com um produto cheiroso à base de limão e cloro, para a agradável surpresa dos ainda poucos passageiros, aos quais funcionários oferecem máscaras descartáveis e frascos de álcool em gel. Difícil vai ser fazer valer o limite de 50% de ocupação nos vagões quando todos os negócios reabrirem. “Por enquanto, não precisamos intervir. Mas não sei como vamos barrar a entrada em trens cheios nas principais estações”, diz o agente John Garrido.

As incertezas sobreo futuro da metrópole são muitas e diversas, mas uma toca na alma da cidade: o que será dos escritórios que ocupam os arranha­ céus nova-iorquinos, em vista da bem­ sucedida experiência de home office em setores-chave, como o financeiro e o de tecnologia?  A Amazon adquiriu em março, por 1 bilhão de dólares, um prédio na Quinta Avenida que, já avisou, só abrirá as portas em 2021 – e para quem quiser sair de casa. O Facebook, locatário de 200.000 metros quadrados em Manhattan pouco antes da pandemia, também liberou a opção de trabalho a distância. A debandada significaria menos gente circulando diariamente pelo centro de Nova York, com um esperado e temido efeito cascata no faturamento dos teatros, restaurantes, casas de show e pequenos negócios que fazem a Grande Maçã brilhar. Seria o fim de Nova York tal qual a conhecemos?

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 01 DE AGOSTO

SOLIDÃO, O VAZIO DA ALMA

Portanto, acolhei-vos uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus (Romanos 15.7).

A população do mundo ultrapassou a fronteira dos sete bilhões de habitantes. Multidões se acotovelam nos grandes centros urbanos, mas a maioria é formada por uma massa sem rosto e sem identidade. Caminham anônimas, blindadas pela solidão. Há muita gente solitária dentro das famílias e até dentro das igrejas. Há mulheres viúvas de maridos vivos, vivendo sozinhas, sem afeto e sem companheirismo. Há filhos abandonados pelos pais. Há idosos esquecidos pelos filhos, precisando de um beijo acalentador. Há pessoas curtindo a dor de viuvez, sentindo uma dolorosa saudade de quem partiu. Há muitos velhos abandonados nos asilos curtindo amarga solidão, assim como há muitos esquecidos nas prisões. O apóstolo Paulo sentiu na pele a dor da solidão. Em sua segunda prisão em Roma, escreveu a segunda carta a Timóteo e pediu que ele fosse vê-lo depressa. Mesmo revestido de forças por Deus a fim de cumprir o ministério e enfrentar o martírio, Paulo precisava de um ombro amigo a seu lado nessa hora dolorosa. Gente precisa de Deus, mas gente também precisa de gente. Nossa família precisa ser um oásis de vida no deserto, o remédio divino para o drama da solidão.

GESTÃO E CARREIRA

DE PATROCINADO A CEO DA MARCA

O ex-tenista Pedro Zannoni assume a operação da Lacoste na América Latina

Em dezembro de 1993, Pedro Zannoni, então um jovem tenista de 17 anos, venceu pelo Brasil o torneio Sunshine Cup, na Flórida, uma espécie de Copa Davis juvenil, disputada entre países. Márcio Carlsson e Gustavo Kuerten faziam parte da equipe. Carlsson não foi muito longe na carreira. Nunca ganhou um título e a posição máxima que alcançou foi a de 1.190 no ranking da Associação dos Tenistas Profissionais. Gustavo Kuerten fez história. Venceu 20 campeonatos, permaneceu 43 semanas como número 1 do mundo e amealhou 14 milhões de dólares em premiações. Zannoni foi o único dos três que não virou tenista profissional. Estudou direito, fez um programa para executivos em Wharton, na Pensilvânia, e seguiu carreira corporativa em marcas esportivas, como Wilson, Puma e Asics.

Na época do campeonato na Flórida, Zannoni tinha o patrocínio da Lacoste. Por voltas do destino, em maio deste ano, quase três décadas depois, ele assumiu o cargo de CEO para a América Latina da mesma Lacoste. Com um detalhe: o então companheiro de equipe Gustavo Kuerten, de quem ficou amigo e com quem disputou jogos de duplas, é embaixador global da marca. ”Ainda não nos falamos, mas está na minha agenda”, afirma Zannoni. Kuerten é peça-chave na comunicação da grife e um elo entre o Brasil e a matriz, a França. Tricampeão de Roland Garros, é uma figura adorada em Paris. Com suas vitórias, foi responsável por um aumento expressivo do interesse dos brasileiros pelo tênis – e consequentemente pelos produtos da Lacoste, que tem no esporte da raquete sua origem.

”O Brasil é o quarto mercado em importância estratégica para a Lacoste, depois da França, dos Estados Unidos e da China”, diz Zannoni. O que não significa share em faturamento, um dado não revelado pela empresa, controlada por um grupo familiar suíço. O executivo chega com a missão de integrar as subsidiárias do Brasil, hoje com Rachel Maia no comando, da Argentina, do Chile e do Uruguai. No ano que vem a região deve incorporar o escritório da Colômbia, que responde hoje ao bloco dos Estados Unidos, e abrir uma representação no Peru. Apesar de o carro-chefe da marca ser a clássica camisa polo, é no segmento de sneakers que está a aposta maior de crescimento local, principalmente entre o público mais jovem.

O desafio, como acontece com todos os segmentos, é a atual crise causada pela pandemia. Duas lojas em outlets devem ser inauguradas em breve, mas apenas porque já estavam previstas antes da propagação do coronavírus. Entre as recentes medidas estão o investimento na plataforma própria de e-commerce, inaugurada há um ano, e novas parcerias com marketplaces. No ano que vem, assim que as condições forem mais favoráveis, a ideia é ter mais lojas em outras capitais brasileiras, além de São Paulo e Rio de Janeiro, no novo conceito global chamado Le Cluh, com uma linguagem visual que simula um estádio de tênis, em que predominam a cor verde e o mobiliário clássico de madeira.

A herança da grife, fundada pelo tenista René Lacoste em 1933, é bastante presente. Basta lembrar que Novak Djokovic, número 1 do mundo, é patrocinado pela Lacoste. Apesar de ter uma linha de performance, a Lacoste quer cada vez mais ser reconhecida como uma marca de moda. Esse reposicionamento ficou marcante a partir de 2010, quando o estilista português Felipe Oliveira Baptista assumiu a direção criativa da maison. Ele sacudiu a poeira de cima do crocodilo, inovou em cores e modelagens e voltou a colocar a Lacoste para desfilar na conceitual Semana de Moda de Paris. Dois anos atrás, Baptista saiu, sendo substituído pela inglesa Louise Trotter, a primeira mulher no cargo de chefe de criação. Em entrevista recente, Trotter revelou o caminho que imagina para a grife: ”Quero fazer a roupa que as pessoas querem usar. Todos desejam viver mais, parecer jovens e transitar com naturalidade entre o trabalho e o dia a dia”.

ENTRE POLOS E SNEAKERS

A presença global da marca do crocodilo

FUNDAÇÃO: 1933

FATURAMENTO: 2,7 BILHÕES

PAÍSES COM OPERAÇÃO: 120

PONTOS DE VENDA PRÓPRIOS: 1.200

COLABORADORES: 10.000

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRESSE – POR QUE ELAS SOFREM MAIS?

Respostas de homens e mulheres ao esgotamento físico e emocional são biologicamente diferentes mesmo no nível celular mais básico. Além de levar em conta os aspectos sociais que as expõem frequentemente a situações de sobrecarga emocional, é preciso considerar as especificidades físicas quando se estudam possibilidades de tratamento dos sintomas de psicopatologias como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade e depressão

Pense na última vez que se sentiu estressado. Sua frequência cardíaca acelerou? A respiração ficou superficial e rápida? Talvez seus músculos tenham se tornado tensos e você, entrado em alerta. O cérebro provoca todas essas mudanças fisiológicas para nos ajudar a sobreviver diante de uma situação potencialmente perigosa. Mas, quando a resposta é ativada de forma contínua e equivocada, pode se tornar perigosa. De fato, inúmeras pesquisas relacionam o estresse constante e descontrolado a diversos problemas de saúde, desde doenças cardíacas e diabetes até depressão e transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Um dado que chama atenção é o fato de mulheres terem probabilidade duas vezes maior, em relação aos homens, de sofrer de distúrbios psiquiátricos relacionados com o estresse, de acordo com análises epidemiológicas. Cientistas têm se perguntado por que isso acontece. Alguns especialistas argumentam que fatores culturais são, em grande parte, responsáveis por esse quadro. As mulheres estão muito mais sujeitas a violências cotidianas das mais variadas ordens, fazem jornadas duplas ou triplas e ainda são subjugadas no ambiente profissional, com salários significativamente menores do que seus pares do sexo masculino. Outro fator a ser considerado nas estatísticas: as mulheres costumam ser mais dispostas do que os homens a procurar ajuda em relação a doenças mentais, o que aumenta as chances de esses casos serem contabilizados. Mas chamam atenção novas evidências surgidas com estudos de animais que sugerem que a biologia também pode desempenhar um papel importante para entendermos esse quadro. Pesquisadores começam a perceber notáveis diferenças na maneira como o cérebro de homens e mulheres reage e se adapta ao estresse.

Esse conhecimento, porém, vem se construindo a passos curtos. Historicamente, cientistas estudaram quase que exclusivamente animais machos – mesmo na hora de investigar distúrbios que pareciam ocorrer mais frequentemente em mulheres. Muitos pesquisadores diziam temer que os hormônios femininos pudessem trazer complicações para os estudos e confundir os dados, criando a necessidade de investigar mais participantes, por um tempo longo e com maior custo. Pesquisas recentes contestam essa linha de raciocínio (dados coletados de fêmeas não variam mais do que de machos), mas a propensão ao masculino na pesquisa com animais persiste. Para resolver a questão, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), que financia grande par- te dos estudos biomédicos do país, tem se empenhado numa nova empreitada. A partir deste ano, a agência exige que os cientistas que realizam pesquisas com animais incluam o gênero como uma variável biológica, estudando tanto os machos quanto as fêmeas. Como resultado, pesquisadores que investigam o estresse crônico têm possibilidade muito maior de entender como isso afeta a saúde de pessoas de ambos os gêneros – um trabalho que poderia levar a tratamentos mais eficazes e específicos (de acordo com o sexo) para os distúrbios psicológicos. De fato, algumas das mais promissoras terapias em fase de pesquisa – como a administração de ocitocina para ansiedade e de cetamina para depressão – parecem ter efeitos muito diferentes entre homens e mulheres.

CÉLULAS SUPERATIVADAS

Os modelos animais que os cientistas usam para explorar os efeitos do esgotamento físico e mental assumem muitas formas. Alguns pesquisadores expõem os roedores a algo estressante (talvez um som) e os condicionam a associar o estímulo a um choque leve por vários dias seguidos. Outros alteram os níveis de substâncias químicas relacionadas com o estresse, como os glicocorticoides ou o fator de liberação de corticotrofina (CRF), no cérebro dos animais por meio da manipulação genética. Independentemente do método, as intervenções parecem produzir reações mais rápidas e mais fortes em cobaias do sexo feminino.

Os processos celulares mais básicos envolvidos na resposta ao estresse diferem entre os gêneros. Por exemplo, a neurocientista Georgia E. Hodes, que trabalha no laboratório do neurocientista Scott Russo, da Escola de Medicina Icahn do Monte Sinai, conduziu recentemente um estudo em que ela e seus colegas provocaram estresse em camundongos machos e fêmeas ao longo de várias semanas. Eles notaram que levou 21 dias para haver aumento nos comportamentos similares ao de depressão e ansiedade em ratos machos, mas apenas seis dias para observar a mesma reação nas fêmeas. Em busca de uma explicação, os pesquisadores investigaram o núcleo accumbens, uma região do cérebro envolvida na busca de atividades gratificantes e prazerosas. Os cientistas acreditam que a interrupção da sinalização neural normal nessa área pode contribuir com a anedonia, a incapacidade de experimentar o prazer, um sintoma comum na depressão e em vários outros transtornos relacionados com o estresse.

Dentro do núcleo accumbens, Hodes identificou diferenças de sexo na regulação de um gene chamado Dnmt3a (ADN metiltransferase 3a). Após um período estressor de seis dias, ele ficou mais pronunciado em ratas. Esse gene codifica uma enzima que altera o DNA de uma célula de tal forma que impede que outros genes sejam lidos e utilizados para produzir proteínas. Para determinar o papel do Dnmt3a no estresse crônico, Hodes removeu o gene do núcleo accumbens das fêmeas. Assim, elas se tornaram mais resistentes e responderam de forma similar aos machos. Os resultados sugerem que as ratas experimentam um aumento da expressão do Dnmt3a após apenas uma curta exposição a eventos estressores, o que então bloqueia outras proteínas que promovem a resistência ao estresse. Curiosamente, os pesquisadores estão desenvolvendo substâncias que inibem enzimas Dnmt para tratar certos tipos de câncer. Cientistas acreditam que drogas semelhantes podem ser úteis no tratamento de distúrbios relacionados com o estresse, particularmente em mulheres.

Alterações na expressão gênica não são as únicas diferenças cerebrais relacionadas com o gênero. Na época do pós-doutorado, minha orientadora, a neurocientista Rita Valentino, do Hospital da Criança da Filadélfia, e eu apontamos distinções associadas com o sexo nos receptores que respondem ao hormônio CRF, que ajuda a iniciar a resposta bioquímica do corpo ao estresse. Embora existam receptores de CRF em muitas áreas neurais, nos concentramos no locus coeruleus, uma estrutura responsável por mudar nossos níveis de excitação: de sonolentos a completamente acordados. Durante um evento estressante, o CRF inunda o locus coeruleus, onde se liga a receptores CRF para manter um animal em alerta máximo. Normalmente, esses recepto- res se acomodam na superfície externa das células do cérebro, à espera de um sinal CRF. Na medida em que os níveis de CRF aumentam, no entanto, os receptores migram da membrana celular para o seu interior, ficando literalmente off-line. Acreditamos que o pro- cesso ajuda a evitar que as células cerebrais fiquem superativadas.

Observamos que em roedores machos os receptores de CRF recuavam para dentro dos neurônios após exposição a um estressor padrão. E também agiam assim em camundongos geneticamente modificados para expressar CRF em excesso. Nas fêmeas, entretanto, os receptores permaneciam na membrana celular, onde ficavam sensíveis aos níveis elevados de CRF. Os resultados sugerem que o CRF pode aumentar a excitação e o estado de alerta de forma mais intensa nas mulheres do que nos homens. Em algumas situações, essa diferença pode ser, na verdade, adaptativa: permanecer totalmente ligado durante uma ocorrência estressante por ser algo positivo. Mas a superativação desse sistema também pode levar a hiperexcitação, um estado que, nos humanos, contribui com a insônia, o prejuízo da concentração e a sensação de sentir-se no limite.

Pacientes com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão podem apresentar altos níveis de CRF e sintomas de hiperexcitação. Cientistas acreditam que, se encontrarem diferenças relacionadas com o gênero como essas nos receptores CRF humanos, estarão um pouco mais perto de explicar por que as mulheres são mais propensas a sofrer de TEPT e depressão. No entanto, pode não ser fácil demonstrar essa variação, já que, na hora de visualizar o cérebro humano, as limitações técnicas dificultam a detecção de alterações moleculares, como a localização do receptor de CRF. Mas temos outras razões para acreditar que, assim como camundongos fêmeas, mulheres podem ter maior sensibilidade ao CRF: injetá-lo na corrente sanguínea aumenta mais a quantidade de hormônios do estresse em mulheres do que em homens.

EXPLOSÃO DE HORMÔNIOS

De onde vêm essas particularidades? Pesquisas recentes apontam para os diferentes complementos de genes com que nascem machos e fêmeas – bem como as explosões hormonais no útero e durante a puberdade, que podem alterar permanentemente o cérebro em desenvolvimento. Além disso, níveis flutuantes de testosterona, estrogênios e progesterona podem modular funções neurais em adultos. Em meu laboratório na Universidade Temple, começamos a estudar o papel que esses hormônios circulantes desempenham na regulação das respostas comportamentais dos roedores a altos níveis de CRF, avaliando o grooming compulsivo (ato de se coçar, lamber ou morder).

Quando um rato lambe a própria pele (grooming) de maneira compulsiva, às vezes a ponto de causar queda de pelos, acreditamos que isso reflita um estado de intensa ansiedade. O comportamento, porém, pode ser uma forma de se acalmar. Observamos que, quando injetávamos CRF em ratos para induzir estresse, as fêmeas se lambiam mais que os machos. Além disso, a intensidade desse comportamento mudava ao longo do cio, que tem um paralelo ao ciclo menstrual humano, mas que dura somente de quatro a cinco dias. Na fase em que os hormônios ovarianos (como estrogênios e progesterona) atingiam o pico, o CRF desencadeava ainda mais o grooming – sugerindo que, de alguma forma, os hormônios amplificam os efeitos do CRF.

Respostas comportamentais como o grooming dependem de muitas regiões neurais. Assim, ao tentar explicar as diferenças entre ratos machos e fêmeas, a pesquisadora Kimberly Wiersielis, que desenvolve estudos em meu laboratório, levantou a hipótese de que o CRF talvez ativasse circuitos diferentes no cérebro de cada indivíduo. Para testar a ideia, ela examinou os cFos em tecidos cerebrais, uma proteína expressa apenas quando as células neurais estão ativadas. Em seguida, comparamos estatisticamente os padrões de estímulo celular. A análise revelou que, independentemente do sexo, o CRF ativou diversas regiões do cérebro, embora com diferentes padrões – e principalmente entre machos e fêmeas durante o cio, quando elas tinham os níveis mais altos de estrogênio e progesterona.

ESPERTAS E SOBRECARREGADAS

Essas diferenças são importantes. Enquanto procuramos melhores medicamentos para tratar distúrbios psiquiátricos relacionadas com o estresse, é vital considerarmos esses aspectos. Até hoje, terapias potenciais são testadas em roedores machos com maior frequência. Mas os mesmos compostos podem ter efeitos muito diferentes nas fêmeas. Por exemplo, o neurocientista Brian Trainor e seu aluno de pós-graduação Michael Q. Steinman, da Universidade da Califórnia em Davis, testaram uma terapia com ocitocina em camundongos de ambos os sexos. O hormônio favorece a ligação social em mamíferos, por isso os cientistas levantaram a hipótese de que administrá-lo pelo nariz das pessoas, na forma de spray, poderia ajudar a reduzir a ansiedade social e a evitação de conflitos, bem como amenizar dificuldades no processamento de sinais sociais, um problema observado com alguma frequência em pacientes com distúrbios psiquiátricos relacionados com o estresse. O grupo de Trainor constatou que a ocitocina intranasal de fato ajudou a reduzir a inquietação em camundongos machos, mas em muitas situações estimulou a ansiedade nas fêmeas. Essa reação deve ser considerada e nos alerta para a necessidade de nos certificarmos de que os sprays de ocitocina não causam efeitos secundários adversos similares nas mulheres.

A cetamina oferece outro exemplo. O medicamento, geralmente utilizado como anestésico, bloqueia o receptor N-metil-D-aspartato (NMDA), uma proteína que pode regular diversos processos, como aspectos da resposta ao estresse. A droga criou muita empolgação como terapia potencial contra a depressão, porque, ao contrário de antidepressivos tradicionais que podem levar semanas para oferecer qualquer benefício, baixas doses de cetamina podem ajudar a reduzir os sintomas rapidamente, em alguns casos, após uma única infusão. Infelizmente, altas quantidades da substância podem induzir delírios, alucinações e uma experiência “fora do corpo” (razão pela qual é também uma droga recreativa bastante popular).

Pesquisadores têm estudado a cetamina em animais machos para desenvolver terapias mais direcionadas contra a depressão. Em 2013, porém, o neurocientista Mohamed Kabbaj e a estudante de pós-graduação Nicole Carrier, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual da Flórida, também testaram a substância em ratas. Eles descobriram que foi necessária menor dose de cetamina para aliviar os sintomas de depressão nas fêmeas e que o motivo não estava relacionado apenas com uma questão de diferenças na massa corporal, mas sim que parecia haver um mecanismo biológico distinto em ação. Se essas mesmas diferenças existirem nos humanos, os cientistas que pesquisam novos fármacos com propriedades semelhantes à cetamina podem ter de desenvolver terapias distintas para homens e mulheres. Atualmente, os cientistas avaliam a segurança e eficácia em longo prazo da substância. Esses estudos podem revelar que, assim como as fêmeas, as mulheres devem receber uma dose menor. Não sabemos por que fêmeas e machos teriam evoluído com diferentes respostas biológicas ao estresse. Uma possibilidade é que uma fêmea que protege seus filhotes, ou mesmo outros indivíduos mais jovens e vulneráveis do grupo, precise manter um estado elevado de alerta e consciência em seu ambiente – ainda que à custa do desgaste físico e mental intenso. Essa “vantagem cognitiva” parece intimamente associada à maior sensibilidade ao estresse, como maior vulnerabilidade à depressão e a transtornos de ansiedade.

À medida que nos comprometemos a incluir fêmeas nas pesquisas, podemos aprender mais não apenas sobre distúrbios que são mais comuns em mulheres, mas também sobre aqueles que são mais frequentemente diagnosticados em homens, como autismo e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Nesse caso, estudar as diferenças neurais do sexo feminino pode revelar fatores que conferem maior solidez. E isso levar ao desenvolvimento de tratamentos mais bem direcionados, de acordo com o sexo.

É cada vez mais evidente que a abordagem tradicional de realizar estudos apenas com animais machos é falha. De fato, nossa antiga confiança em pesquisas de desenvolvimento de drogas com essa premissa pode explicar, pelo menos em parte, por que as mulheres relatam mais reações adversas aos medicamentos do que os homens. Isso também pode ter barrado medicamentos que poderiam ser altamente eficazes para esse público, mas que nunca chegaram ao mercado. Essa situação reflete questões culturais mais amplas, embasadas na opressão, que precisam ser revistas e mudadas com urgência.

OS 12 SINAIS DE ALERTA

O estresse continuado se acumula, enredando a pessoa em uma espécie de círculo vicioso. É   importante ter em mente que a síndrome do esgotamento profissional se desenvolve devagar, à   medida que a relação com a atividade profissional se torna gradativamente marcada pela falta de entusiasmo. Diversos estudos reforçam a ideia de que a síndrome tem três componentes principais: esgotamento físico e mental, sensação de impotência e falta de expectativas (expressa como desânimo e pessimismo). As três características tendem a estar associadas, mas, em muitos casos, experimentar apenas uma delas já representa risco. Para fins didáticos, é possível agrupar os sintomas em estágios, que podem se suceder, se alternar ou ocorrer ao mesmo tempo, até que o quadro de fato se instale:

1. NECESSIDADE DE AUTOAFIRMAÇÃO

Anseio de fazer tudo de forma perfeita, medo excessivo de errar ou ambição exagerada na profissão levam à compulsão por desempenho

2. DEDICAÇÃO INTENSIFICADA

Para fazer jus às expectativas desmedidas, a pessoa intensifica a dedicação e passa a fazer tudo sozinha

3. DESCASO COM AS PRÓPRIAS NECESSIDADES

A vida profissional ocupa quase todo o tempo. A renúncia ao lazer e ao descanso é vista como ato de heroísmo

4. EVITAÇÃO DE CONFLITOS

A pessoa percebe algo errado, mas não enfrenta a situação temendo deflagrar uma crise. Surgem os primeiros problemas físicos

5. REINTERPRETAÇÃO DOS VALORES

Isolamento e negação das próprias necessidades modificam a percepção. Amigos e passatempos são desvalorizados. Autoestima é medida pelo trabalho

6. NEGAÇÃO DE PROBLEMAS

O profissional torna-se intolerante, julga os outros incapazes, exigentes demais ou indisciplinados

7. RECOLHIMENTO

A pessoa se afasta dos outros, parece irritada e sem ânimo

8. MUDANÇAS EVIDENTES DE COMPORTAMENTO

Quem era tão dedicado e ativo revela-se amedrontado, tímido e apático. Atribui a culpa ao mundo, mas sente-se cada vez mais inútil

9. DESPERSONALIZAÇÃO

Desvaloriza a todos e a si próprio, relega necessidades pessoais. Deixa de fazer planos, só pensa no presente e a vida limita-se ao funcionamento mecânico

10. VAZIO INTERIOR

Sensação de vazio interno é cada vez mais forte. Excede-se na vida sexual, na alimentação e no consumo de drogas e álcool

11. DEPRESSÃO

Indiferença, desesperança e exaustão. Sintomas dos estados depressivos podem se manifestar, desde a agitação até a apatia. A vida perde o sentido

12. SÍNDROME DO ESGOTAMENTO PROFISSIONAL

Total colapso físico e psíquico, pensamentos suicidas. É urgente recorrer à ajuda médica e psicológica

PEDÁGIO MAIS CARO PARA AS MULHERES

Elas têm maior probabilidade, em relação aos homens, de serem diagnosticadas com distúrbios psiquiátricos associados com o estresse, com exceção do abuso de substâncias. Essa discrepância pode estar, pelo menos em parte, relacionada com fatores sociais, como a relutância masculina em procurar ajuda, que faz com que homens sejam subdiagnosticados.