EU ACHO …

LIMPAR A CENA?

Remover estátuas não resolve o problema. É preciso mover as ideias

O assassinato de George Floyd, em 25 de maio, por um policial branco em Minneapolis provocou grande comoção. Além dos Estados Unidos, as manifestações de rua contra o racismo espalharam-se mundo afora, em particular em cidades europeias em que as tensões étnico-raciais também existem, herança do passado colonial e da pobreza e desigualdade contemporâneos. Em meio aos protestos, estátuas de personagens históricos que promoveram ou simbolizaram o racismo e o colonialismo foram alvo das ruas em revolta.

Em Richmond, capital da Virgínia, o governador anunciou que retiraria a estátua do general Robert E. Lee depois que ela foi pichada. Lee foi um dos principais comandantes das tropas confederadas durante a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), lutando pelo Sul escravista. A supressão dos símbolos confederados está na agenda pública dos EUA faz tempo.

Em 7 de junho, manifestantes derrubaram e jogaram no Rio Avon a estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século XVII e grande benemérito da cidade de Bristol, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, figuras de Cristóvão Colombo foram decapitadas ou pichadas. Em Antuérpia, Bélgica, a estátua de Leopoldo II, rei que liderou a exploração e massacres na África, em fins do século XIX, no chamado Congo Belga, foi alvo de ataques. Acabou recolhida pelo governo da cidade para ser restaurada, e não se pretende colocá-la de volta no lugar em que estava. À luz do conhecimento histórico e dos direitos humanos, e no contexto em que se deram, a supressão desses monumentos dos espaços públicos pode ser considerada um ato de justiça pleno de legitimidade. Mas nem sempre é assim tão pacífico o debate sobre memória, sociedade e patrimônio.

No Brasil, o assassinato de George Floyd e os protestos contra o racismo também repercutiram. Como as cidades brasileiras mantêm em suas ruas estátuas de personagens históricos que, como seus congêneres citados acima, representam sistemas de exploração humana e violência extrema, as discussões sobre a derrubada e ataques às estátuas ganhou espaço. Nas redes sociais, como sempre, encontrava-se de tudo, mas a reflexão de qualidade e respeitosa apareceu. Destaco as colocações de Laurentino Gomes e Cynara Menezes na web e, na televisão fechada, o debate na CNN Brasil entre o jornalista e escritor Oswaldo Faustino e o professor de Direito Constitucional e Internacional Ricardo Macau.

Um argumento defendido foi o de que as estátuas e monumentos controversos deveriam permanecer em exposição, pois registram uma história incômoda e podem ajudar a sociedade a repensá-la. Tirar as estátuas e manter antigas formas de pensar não seria muito transformador no fim das contas. Além disso, em alguns casos, há o valor artístico. E trata-se de patrimônio público. É possível dizer ainda que para alguns indivíduos e grupos o convívio com os monumentos faz com que surjam vínculos afetivos menos com as grandes narrativas e identidades que o monumento pretende expressar e mais com o cotidiano e a vida de cada um. Muita gente nem tem ideia de quem está sendo homenageado, inclusive. Em contraposição, ressaltou-se que a permanência de estátuas e monumentos que exaltam o racismo e a exploração reafirma uma versão da história que não mais se sustenta nem epistemológica nem eticamente. Por isso devem cair, como tem sido comum na história. Outro ponto importante foi a questão sobre a ação direta nas ruas. Ela tem legitimidade ou é preciso valer-se de outras formas para realizar a mudança cultural que parece demorar? E se as ruas forem tomadas por levas de ignorantes e intolerantes? No Brasil atual não tem sido algo raro. Parece que esse receio estava subjacente às análises que pediam uma certa prudência na ação.

As estátuas dos bandeirantes na cidade de São Paulo, em sua versão idealizada pelas classes dominantes no século XX, que colocam em posição subalterna, de uma só vez, indígenas, afrodescendentes e imigrantes, evidentemente foram lembradas. Faz tempo que essa representação foi demolida pela pesquisa histórica e pela crítica, mas as estátuas dos bandeirantes permanecem onde estão. Por que isso acontece? O que fazer com elas? O debate está aberto.

O professor Nabil Bonduki, em sua coluna na Folha de S. Paulo, lembrou que, quando exercia mandato de vereador, em 2001, apresentou um projeto de resolução para suprimir uma “referência ufanista aos bandeirantes e ultrajante aos índios”, que fica no mármore da parede externa da Câmara Municipal paulistana:”…São Paulo, a Vila de Anchieta e Nóbrega, (…) cresceu, expandiu-se à mercê dos aventurosos bandeirantes à busca do ouro, índios e diamantes, e dilatou as fronteiras da pátria”. O projeto foi vetado pela Comissão de Justiça do Legislativo sob o argumento de que uma homenagem do passado não podia ser revista a posteriori.

Em São Paulo, a relação da cidade com seus monumentos, estátuas e nomes de logradouros públicos que fazem referência a fatos e personagens históricos é tensa. A Rua do Rosário, onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no século XVIII, tornou-se a Rua da Imperatriz na época do Império e, depois, XV de Novembro com a República. A própria igreja foi transferida de lugar no início do século XX, quando a região central foi elitizada. O Elevado Costa e Silva, sobrenome de um dos generais-ditadores, teve o nome alterado em 2016 para João Goulart, ecoando as comissões da verdade que aconteceram em 2014.

O monumento “Heróis da Travessia do Atlântico”, como o próprio site da Prefeitura de São Paulo indica, causou muita polêmica ao longo do tempo. Instalado em 1929 nas margens da Represa de Guarapiranga, foi transferido para a Praça Nossa Senhora do Brasil, área rica da cidade, pelo prefeito Jânio Quadros, quando este voltou a governar São Paulo nos anos 1980. Um movimento de moradores da Zona Sul da capital lutou pelo seu retorno ao lugar original. Foram bem-sucedidos em 2010. O monumento foi alvo de protestos ao longo do tempo, bem como de depredação e furto de suas partes, como geralmente ocorre na cidade com as obras de arte públicas.

Vê-se, então, mais uma vez, como o passado importa para o presente, e como estátuas, monumentos e nomes de logradouros públicos são instrumentos para essa relação acontecer nas cidades. Daí o porquê de serem tão perigosas as propostas obscurantistas que pretendem suprimir o ensino de história ou depredar as instituições públicas que lidam com a memória e o patrimônio. Com as eleições para vereadores e prefeitos a se aproximarem, urge que os candidatos apresentem suas propostas para a área da cultura, da memória e do patrimônio. A crítica às versões falsificadas ou simplificadoras da história faz-se com pesquisa de qualidade e, para isso, arquivos públicos organizados são fundamentais. Bibliotecas, museus e centros culturais auxiliam grupos sociais a dialogar, promovendo os valores democráticos, abrindo espaço para vozes silenciadas, como é o caso da população negra ou indígena. Secretarias de Cultura e conselhos podem ajudar os municípios a tratar a questão da memória de maneira sistémica e transformadora. Para mudar estátuas e ideias que não têm lugar em um mundo justo é preciso que você se movimente. Todos nós.

**JANES JORGE – Professor do Departamento de História da Unifesp

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.

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