EU ACHO …

LIMPAR A CENA?

Remover estátuas não resolve o problema. É preciso mover as ideias

O assassinato de George Floyd, em 25 de maio, por um policial branco em Minneapolis provocou grande comoção. Além dos Estados Unidos, as manifestações de rua contra o racismo espalharam-se mundo afora, em particular em cidades europeias em que as tensões étnico-raciais também existem, herança do passado colonial e da pobreza e desigualdade contemporâneos. Em meio aos protestos, estátuas de personagens históricos que promoveram ou simbolizaram o racismo e o colonialismo foram alvo das ruas em revolta.

Em Richmond, capital da Virgínia, o governador anunciou que retiraria a estátua do general Robert E. Lee depois que ela foi pichada. Lee foi um dos principais comandantes das tropas confederadas durante a Guerra Civil dos Estados Unidos (1861-1865), lutando pelo Sul escravista. A supressão dos símbolos confederados está na agenda pública dos EUA faz tempo.

Em 7 de junho, manifestantes derrubaram e jogaram no Rio Avon a estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século XVII e grande benemérito da cidade de Bristol, na Inglaterra. Nos Estados Unidos, figuras de Cristóvão Colombo foram decapitadas ou pichadas. Em Antuérpia, Bélgica, a estátua de Leopoldo II, rei que liderou a exploração e massacres na África, em fins do século XIX, no chamado Congo Belga, foi alvo de ataques. Acabou recolhida pelo governo da cidade para ser restaurada, e não se pretende colocá-la de volta no lugar em que estava. À luz do conhecimento histórico e dos direitos humanos, e no contexto em que se deram, a supressão desses monumentos dos espaços públicos pode ser considerada um ato de justiça pleno de legitimidade. Mas nem sempre é assim tão pacífico o debate sobre memória, sociedade e patrimônio.

No Brasil, o assassinato de George Floyd e os protestos contra o racismo também repercutiram. Como as cidades brasileiras mantêm em suas ruas estátuas de personagens históricos que, como seus congêneres citados acima, representam sistemas de exploração humana e violência extrema, as discussões sobre a derrubada e ataques às estátuas ganhou espaço. Nas redes sociais, como sempre, encontrava-se de tudo, mas a reflexão de qualidade e respeitosa apareceu. Destaco as colocações de Laurentino Gomes e Cynara Menezes na web e, na televisão fechada, o debate na CNN Brasil entre o jornalista e escritor Oswaldo Faustino e o professor de Direito Constitucional e Internacional Ricardo Macau.

Um argumento defendido foi o de que as estátuas e monumentos controversos deveriam permanecer em exposição, pois registram uma história incômoda e podem ajudar a sociedade a repensá-la. Tirar as estátuas e manter antigas formas de pensar não seria muito transformador no fim das contas. Além disso, em alguns casos, há o valor artístico. E trata-se de patrimônio público. É possível dizer ainda que para alguns indivíduos e grupos o convívio com os monumentos faz com que surjam vínculos afetivos menos com as grandes narrativas e identidades que o monumento pretende expressar e mais com o cotidiano e a vida de cada um. Muita gente nem tem ideia de quem está sendo homenageado, inclusive. Em contraposição, ressaltou-se que a permanência de estátuas e monumentos que exaltam o racismo e a exploração reafirma uma versão da história que não mais se sustenta nem epistemológica nem eticamente. Por isso devem cair, como tem sido comum na história. Outro ponto importante foi a questão sobre a ação direta nas ruas. Ela tem legitimidade ou é preciso valer-se de outras formas para realizar a mudança cultural que parece demorar? E se as ruas forem tomadas por levas de ignorantes e intolerantes? No Brasil atual não tem sido algo raro. Parece que esse receio estava subjacente às análises que pediam uma certa prudência na ação.

As estátuas dos bandeirantes na cidade de São Paulo, em sua versão idealizada pelas classes dominantes no século XX, que colocam em posição subalterna, de uma só vez, indígenas, afrodescendentes e imigrantes, evidentemente foram lembradas. Faz tempo que essa representação foi demolida pela pesquisa histórica e pela crítica, mas as estátuas dos bandeirantes permanecem onde estão. Por que isso acontece? O que fazer com elas? O debate está aberto.

O professor Nabil Bonduki, em sua coluna na Folha de S. Paulo, lembrou que, quando exercia mandato de vereador, em 2001, apresentou um projeto de resolução para suprimir uma “referência ufanista aos bandeirantes e ultrajante aos índios”, que fica no mármore da parede externa da Câmara Municipal paulistana:”…São Paulo, a Vila de Anchieta e Nóbrega, (…) cresceu, expandiu-se à mercê dos aventurosos bandeirantes à busca do ouro, índios e diamantes, e dilatou as fronteiras da pátria”. O projeto foi vetado pela Comissão de Justiça do Legislativo sob o argumento de que uma homenagem do passado não podia ser revista a posteriori.

Em São Paulo, a relação da cidade com seus monumentos, estátuas e nomes de logradouros públicos que fazem referência a fatos e personagens históricos é tensa. A Rua do Rosário, onde ficava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no século XVIII, tornou-se a Rua da Imperatriz na época do Império e, depois, XV de Novembro com a República. A própria igreja foi transferida de lugar no início do século XX, quando a região central foi elitizada. O Elevado Costa e Silva, sobrenome de um dos generais-ditadores, teve o nome alterado em 2016 para João Goulart, ecoando as comissões da verdade que aconteceram em 2014.

O monumento “Heróis da Travessia do Atlântico”, como o próprio site da Prefeitura de São Paulo indica, causou muita polêmica ao longo do tempo. Instalado em 1929 nas margens da Represa de Guarapiranga, foi transferido para a Praça Nossa Senhora do Brasil, área rica da cidade, pelo prefeito Jânio Quadros, quando este voltou a governar São Paulo nos anos 1980. Um movimento de moradores da Zona Sul da capital lutou pelo seu retorno ao lugar original. Foram bem-sucedidos em 2010. O monumento foi alvo de protestos ao longo do tempo, bem como de depredação e furto de suas partes, como geralmente ocorre na cidade com as obras de arte públicas.

Vê-se, então, mais uma vez, como o passado importa para o presente, e como estátuas, monumentos e nomes de logradouros públicos são instrumentos para essa relação acontecer nas cidades. Daí o porquê de serem tão perigosas as propostas obscurantistas que pretendem suprimir o ensino de história ou depredar as instituições públicas que lidam com a memória e o patrimônio. Com as eleições para vereadores e prefeitos a se aproximarem, urge que os candidatos apresentem suas propostas para a área da cultura, da memória e do patrimônio. A crítica às versões falsificadas ou simplificadoras da história faz-se com pesquisa de qualidade e, para isso, arquivos públicos organizados são fundamentais. Bibliotecas, museus e centros culturais auxiliam grupos sociais a dialogar, promovendo os valores democráticos, abrindo espaço para vozes silenciadas, como é o caso da população negra ou indígena. Secretarias de Cultura e conselhos podem ajudar os municípios a tratar a questão da memória de maneira sistémica e transformadora. Para mudar estátuas e ideias que não têm lugar em um mundo justo é preciso que você se movimente. Todos nós.

**JANES JORGE – Professor do Departamento de História da Unifesp

OUTROS OLHARES

A FESTA DAS BICICLETAS

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, quer que os cidadãos possam trabalhar, ir às compras ou passear sem usar carros ou transporte público e sem perder mais do que 15 minutos no percurso. O plano ganhou força após a pandemia

A imagem da Champs-Elysees, a mais famosa avenida de Paris, cheia de bicicletas para lá e para cá — não só aos domingos, mas durante a semana inteira — vem se tornando cada vez mais real. Especialmente depois da reeleição da socialista Anne Hidalgo para o cargo de prefeita, no final de junho. Seu ousado plano, avalizado pelos eleitores, inclui transformar a capital francesa em uma cidade de apenas 15 minutos. É o tempo considerado necessário no deslocamento para ir às compras, trabalhar ou passear. E tudo em cima de uma bicicleta, claro. O que antes era apenas um plano de sustentabilidade para combater o efeito estufa, ganha força agora diante da reabertura econômica no pós-pandemia, com a necessidade de distanciamento social e redução de aglomeração no transporte público.

Em seu primeiro mandato, iniciado em 2014, Anne conseguiu ampliar o número de ciclovias em 1.000 quilômetros, o que já permite atravessar a cidade intercalando trechos às margens do rio Sena, faixas em avenidas largas e também percursos em ruas mais estreitas. Tudo isso, inclusive, se mostrou muito útil durante a greve dos transportes em dezembro, e ganhou ainda mais relevância como solução de mobilidade por causa da Covid-19. Neste período, foram instaladas até mesmo faixas temporárias para as bikes que agora devem se tornar permanentes. Além disso, foi criada uma linha de empréstimo no valor de 400 euros (R$ 2,5 mil) para incentivar a aquisição de bicicletas elétricas, que custam mais de 1.000 euros. Mas Anne quer ir além. Planeja abrir espaços por todas as ruas da cidade, aptas a receber bicicletas, retirando 72% das vagas de estacionamento. Está nos planos ainda a redução da velocidade dos automóveis, ampliando a segurança dos ciclistas. A meta é trocar ruas engarrafadas por uma cidade onde se consegue circular de forma rápida, fácil e segura.

Segundo a cicloativista Renata Falzoni, o que Paris está fazendo é pensar efetivamente na mobilidade de uma grande cidade, onde mais de 60% das pessoas se movimentam de forma ativa, ou seja, a pé, bicicleta ou transporte público. Com o forte compromisso de tornar-se cada vez mais sustentável, vários países da Europa já buscam soluções para o transporte, o que inclui o incentivo ao uso da bicicleta. Depois da disseminação da Covid-19, as bikes ganharam um novo apelo e vem se firmando como a grande alternativa à lotação do transporte público. “Talvez a pandemia traga isso de bom para toda a sociedade”, afirma Falzoni, frisando que São Paulo poderia também levar isso em consideração. “Aqui, toda vez que se pensa em transporte, se concentram no carro, que é usado por uma minoria”, acrescenta.

Ao que tudo indica, a própria sociedade já está começando a se mexer nesse sentido, mesmo sem decisão do poder público. Um site de compra e venda de bicicletas e acessórios para ciclistas, o Semexe, disse recentemente que viu seu faturamento surpreendentemente subir 223% entre março e maio deste ano. A pandemia teria levado muitas pessoas a buscar os produtos como forma de fugir do transporte público e, ao mesmo tempo, praticar exercícios físicos de forma mais segura. A Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike), que reúne empresas e membros da sociedade, lançou até um manifesto pedindo que haja ampliação de ciclovias, redução de impostos sobre bicicletas, além de criar um programa de fortalecimento da economia verde. Talvez seja este o melhor momento, antes de uma eleição municipal, para que gestores percebam que está na hora de mudar o foco na questão da mobilidade, incluindo de vez as bicicletas nos planos de transporte e mobilidade urbana. Seguir o exemplo de Paris pode ser interessante para qualquer grande cidade do mundo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 31 DE JULHO

SUANDO SANGUE NO GETSÊMANI

… E aconteceu que seu suor se tornou como gotas de sangue… (Lucas 22.44b).

Jesus travou a mais sangrenta batalha da humanidade no jardim do Getsêmani. Os horrores do inferno bafejavam a alma do Filho de Deus. Prostrado com o rosto em terra, Jesus orou três vezes, enfrentando uma angústia de morte. Seus discípulos dormiam enquanto Jesus erguia aos céus seu clamor regado de lágrimas. Naquela fatídica noite, as autoridades judaicas tramavam contra Jesus, urdindo planos recheados de mentira e violência, enquanto ele suava sangue no Getsêmani. Capitaneados por Judas Iscariotes, soldados do templo armados até os dentes entraram no jardim para prender Jesus, mas este, consolado pelo anjo e fortalecido pelo Pai, se entregou nas mãos dos pecadores. Foi esbordoado, cuspido e ultrajado, mas caminhou para a cruz como um rei caminha para a coroação. A angústia de Jesus não era por temer o sofrimento físico, mas por saber que, na cruz, assumiria o nosso lugar, carregaria em seu corpo os nossos pecados e seria feito maldição para nos resgatar do pecado e da morte. Jesus não foi à cruz porque Judas o traiu gananciosamente, nem porque os judeus o entregaram invejosamente, nem mesmo porque Pilatos o sentenciou covardemente. Foi à cruz por amor, voluntariamente. A cruz não foi a causa do amor de Deus por nós, mas sua prova mais eloquente!

GESTÃO E CARREIRA

APPS EM XEQUE

A pandemia da covid-19 expõe a fragilidade da relação entre entregadores e plataformas de delivery. Manifestações pressionam por regulamentação

Há quatro anos, quando começou a prestar serviços para aplicativos de delivery, o moto frentista Rosalvo Brito de Fonte, de 42 anos, afirma que ganhava, em média, 1.300 reais por semana, trabalhando diariamente das 7 às 18 horas, com uma pausa no horário do almoço. Porém, desde o início da pandemia da covid-19, o entregador paulista teve de aumentar sua jornada de trabalho – mas passou a ganhar menos. Segundo ele, o motivo foi o bloqueio, sem justificativa, por parte da Loggi, uma das empresas com a qual trabalhava. “Era a que proporcionava a maior renda. Hoje, trabalho até as 23 horas e, mesmo assim, não consigo fazer mais de 800 reais por semana”, diz. Trabalhar mais e ganhar cada vez menos se tornou uma realidade para diversos entregadores de aplicativos durante o surto de coronavírus. Isso porque, embora as medidas de isolamento social tenham elevado a demanda por delivery – de acordo com declarações da Rappi, o número de pedidos aumentou 30% durante a quarentena -, isso não se traduziu em maior renda para os trabalhadores dessas plataformas.

Segundo uma pesquisa da Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), realizada com 298 entregadores das cidades de São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Curitiba, entre os dias 13 e 27 de abril, 59% deles tiveram queda nos ganhos durante a pandemia. O estudo ainda mostrou que 62% dos entregadores passaram a trabalhar mais de nove horas por dia – antes da crise sanitária esse percentual era de 57%.

A combinação dessas questões com o maior risco de contaminação pelo coronavírus – uma vez que as entregas foram classificadas como serviço essencial, mas há reclamações quanto à falta de kits de higiene, como máscaras e álcool em gel – expôs (mais uma vez) a fragilidade da relação entre os trabalhadores de plataformas digitais e as startups de delivery. Como resultado, diversas manifestações de ciclistas e motoqueiros começaram a acontecer país afora. Uma das maiores ocorreu no dia 1 de julho, quando os entregadores de aplicativos corno iFood, Rappi, Uber Eats, Loggi e James Delivery marcaram urna paralisação nacional reivindicando aumento no pagamento das corridas e maior distribuição de equipamentos de proteção individual (EPIs). Houve protestos em cidades como São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Salvador e Recife.

MAIS CORRIDAS E MAIS ACIDENTES

Entre as justificativas para a diminuição do valor pago aos motociclistas, mesmo fazendo mais entregas, está o aumento no número de pessoas desempregadas que recorreram às plataformas para sobreviver durante a crise.

Dados consolidados pela consultoria Análise Econômica mostram que, do total de trabalhadores informais no Brasil, os que prestam serviço para aplicativos de entrega de refeições saltaram de 250.000 pessoas em 2019 para mais de 645.000 em junho de 2020. Um crescimento de, aproximadamente, 158%. De acordo com Franklin Lacerda, diretor da consultoria Análise Econômica, existe um conjunto de fatores que explicam por que essas plataformas se tornaram uma alternativa em meio ao desemprego. “Porém, o principal é que se trata de uma opção que conta com um investimento inicial baixo e é acessível para um grupo cada vez maior”, afirma Franklin.

Embora não existam dados sobre a quantidade de entregadores contaminados e mortos pela covicl-19, uma das consequências do aumento no volume de pedidos e de moto frentistas circulando é visível: mais acidentes. Segundo informações do governo de São Paulo, entre abril e maio de 2020, 39 motoboys morreram durante o trabalho. O número é quase o dobro dos registrados no mesmo período de 2019 e de 2018, quando 21 e 22 vieram a óbito, respectivamente. “O aumento dos acidentes é reflexo da falta de capacitação dos entregadores”, diz Edgar Francisco da Silva, presidente da Associação Brasileira dos Moto frentistas (AMABR). Ele salienta que, embora algumas cidades, como São Paulo, tenham legislações que regulamentam a profissão de moto frentista, com uma série de exigências (como a realização de cursos, autorizações municipais e uso de equipamentos de segurança), os aplicativos vêm cadastrando há algum tempo profissionais que não são regulamentados.

A falta de legislação, seja quanto aos profissionais, seja quanto à relação entre os entregadores e as startups de entrega, é um problema que volta e meia vem à tona desde o surgimento das empresas da chamada gig economy, ou economia dos bicos. As primeiras startups do tipo surgiram com a crise de 2008, nos Estados Unidos e entraram com mais força no mercado brasileiro em 2014. “Os perigos relacionados à pandemia, como o risco de contágio e a falta de assistência por parte das empresas, são apenas problemas mais visíveis de uma relação trabalhista que já nasceu desigual. A lógica dessas plataformas é diminuir o custo da operação e, para isso, elas pressionam a empresa parceira e o entregador, que tem menor poder de negociação”, afirma o economista Wilson Aparecido Costa de Amorim, professor na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP).

E a falta de clareza começa na forma como os entregadores são remunerados pelas plataformas. “Não consigo precisar sequer quanto recebo de cada aplicativo, porque não existe transparência sobre nossos direitos e deveres. Quando os contratos são atualizados, muitos assinam sem sequer ler as regras, porque precisam continuar recebendo pedidos”, explica Edgar, da AMABR.

O OUTRO LADO

Procurada, a Rappi respondeu, em nota, que passou a oferecer seguro de vida e a distribuir, semanalmente, máscaras e álcool em gel para os entregadores. A empresa colombiana também afirmou que disponibilizou um botão para que os trabalhadores notifiquem sintomas da covid-19 e, em caso de confirmação do diagnóstico, recebam orientações. Segundo a nota, a Rappi criou um fundo que apoiará financeiramente os entregadores que tiverem de parar de trabalhar por causa do coronavírus. A startup afirmou também que, entre fevereiro e junho de 2020, a empresa identificou um aumento de 238% no valor médio das gorjetas e que as quantias pagas são integralmente repassadas aos trabalhadores.

Já o iFood, também em nota, afirmou que atendeu quase todas as reivindicações do movimento dos entregadores. Entre as ações, a startup citou que, desde o final de 2019, oferece aos trabalhadores o seguro de acidentes pessoais, cobrindo desde despesas médicas e odontológicas até uma garantia financeira para a família em caso de acidente. A companhia também disse que não houve alteração dos valores pagos pelas entregas durante a pandemia e que a startup se baseia em fatores como distância, cidade e modalidade da entrega para definir os preços. Hoje, segundo a empresa, toda rota tem uma taxa mínima de entrega de 5 reais, porém a média é de 8 ou 9 reais. No próprio aplicativo, ainda de acordo com o iFood, os entregadores podem conferir o valor de cada serviço antes de aceitar o chamado.

O iFood também explicou que destinou mais de 25 milhões de reais a iniciativas voltadas para os ciclistas e moto frentistas e que, desde o início da pandemia, distribuiu mais de 800.000 itens, como máscaras reutilizáveis e álcool em gel. A empresa reconheceu que poderia melhorar a distribuição dos kits de higiene e, por isso, desde o dia 1° de julho paga aos entregadores 30 reais para que adquiram materiais de proteção.

O iFood ainda salientou que disponibilizou gratuitamente um plano de benefícios em serviços de saúde da empresa Avus, aumentou o valor das gorjetas, repassadas integralmente aos entregadores, e, além disso, desenvolveu a modalidade de entrega sem contato.

A startup negou que tenha um sistema de pontuação dos entregadores, reafirmou que possui regras claras de desativação de cadastros e que os processos não são revisados de forma automática. A Loggi e o Uber Eats não quiseram falar com a reportagem.

FALTAM LEIS, SOBRAM EMBATES

As manifestações dos entregadores acontecerem justamente durante a pandemia do coronavírus não é sem razão. Isso porque a crise da covicl-19 evidenciou como nunca as desigualdades e a responsabilidade social das organizações e colocou a manutenção dos negócios em embate direto com a preocupação com as pessoas. “Certamente, ainda há muito o que se discutir sobre a atuação das empresas do setor de tecnologia no Brasil e no mundo. A pandemia da covid-19 apenas acelerou esse processo, por causa da adoção em massa dos aplicativos”, afirma Franklin, da Análise Econômica. É inegável que as plataformas como Uber, Rappi e iFood já mudaram totalmente os hábitos de consumo de milhares de pessoas e vieram para ficar – principalmente por atacarem nichos carentes em eficiência. Para que o setor seja sustentável, trabalhadores e startups terão que se acertar. E talvez só a demanda social ajude a fazer isso, como explica Fábio Mariano Borges, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). “Hoje em dia, a maior parte desses trabalhadores é entendida, juridicamente, como profissionais autônomos e está desassistida pela legislação”, explica. “A pressão da sociedade é fundamental para uma equiparação de direitos entre os entregadores e as empresas.”

QUEM SÃO OS ENTREGADORES

Conheça o perfil e o dia a dia dos trabalhadores que atuam junto às plataformas

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

ESTRANHEZA E COMPAIXÃO

Border é um filme que une conteúdo e diversos gêneros ao mesmo tempo. Apresenta personagens estranhos com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense

O filme implacavelmente expõe o que é o medonho, o terror. Quem atua no roubo e na mutilação de bebês e crianças? Homens ou monstros? Seriam o ódio e o rancor dos que foram excluídos da sociedade e da humanidade, dos que sofrem impiedosamente a falta de respeito, bem como dos que perderam o amor e o reconhecimento, e daqueles que foram e são tratados sem nenhuma compaixão, explorados até a última gota de sangue que engendram o mal? Ou simplesmente, sem motivo algum, a pulsão de destruição surge e toma conta dos homens? Seja como for, por sofrimento e/ou por gosto, não nos enganemos, pois ambos anunciam com imenso gozo destrutivo o fim do mundo, o eterno fim da nossa civilização. Border, a fronteira entre vida e morte, entre amor e destruição, entre bem e mal. O embrião do fim do mundo foi anunciado, não sabemos como exatamente identificar de onde surge o aniquilamento e como sepropaga, mas não podemos negá-1o. É preciso investigar, conhecer o mal e lutar até dizimá-lo.

A protagonista Tina trabalha como policial nas docas de Estocolmo. É guarda de fronteira, tem como atribuição fiscalizar bagagens e passageiros. Sua aparência é estranha, principalmente pelos traços grosseiros, que muitas vezes torna indistinguível a diferenciação entre os gêneros. Atingida por um raio na infância – reza a lenda familiar -, desenvolveu uma espécie de sexto sentido, que a torna capaz de “ler as pessoas”, e de detectar mentiras apenas pelo olhar e pelo olfato – o que sempre representa vantagem na sua profissão. Suas suspeitas se mostram invariavelmente corretas após a investigação.

Até que Tina identifica um criminoso em potencial, mas não consegue achar provas para justificar sua intuição e passa a questionar seu dom, ao mesmo tempo em que fica obcecada pelo suspeito. Ela precisa descobrir qual o segredo de Vore. Inexplicavelmente, ambos possuem características fisionômicas semelhantes e que causam estranheza. A câmera, próxima dos personagens, percorre ângulos incomuns e revela lentamente aspectos um pouco animal dos protagonistas que lembram os extintos neanderthais.

DOLOROSA CAMINHADA

A investigação de Tina resulta em uma jornada, um caminho de descoberta de si mesma, autoconhecimento, e também de Vore. Dolorosa e curiosa caminhada rumo a segredos e verdades – a exemplo do trabalho analítico -, na qual a policial se fortalece no processo de investigação e, ao mesmo tempo, se torna mais empática aos sofrimentos humanos. No interior dessa trama há ainda outra em curso, paralela, da qual Tina é peça fundamental. Trata-se de desvendar uma possível quadrilha de vendedores e/ou abusadores sexuais de crianças e bebés. O prodigioso faro da guarda de fronteiras é recurso fundamental para apanhar os criminosos e descobrir como os crimes são realizados.

Border é um filme que une conteúdo e forma de maneira exemplar. Somos apresentados a   personagens estranhos, quase que deformados, com habilidades animalescas, envolvidos em uma trama de investigação e suspense. Aparentemente, o único prazer de Tina é “farejar” os maus elementos e os segredos que passam pela fiscalização de passageiros e bagagens. Tina parece ser, em muitos momentos, fria, distante e indiferente. Do tipo que cumpre suas obrigações com rigor, mas nada sente. Poderíamos dizer dela o mesmo que Freud disse, há mais de um século, das histéricas “belas indiferentes”. Entretanto, beleza não é a palavra para designar as rudes feições da policial.

No início da trama somos apresentados à sua vida doméstica. Um marido autocentrado, preocupado apenas com seus cachorros e prazeres. A relação entre eles é de falsa intimidade. Nenhuma atração ou sexo. É como se Tina tivesse desistido de querer, desejar, amar, e estivesse conformada com as agressões e solidão a dois. A casa mal cuidada, quase suja, precária, transmite sensação incômoda de abandono e falta de amor. É, por sinal, a mesma sensação que temos quando a câmera a escrutina: abandono. Além da feiura evidente, há estranheza. Faltam peças. Algo não se encaixa. Sobra mistério. Há também o pai, vivendo num asilo, de quem ela cuida com carinho ainda que com certa formalidade.

Ao longo do filme descobrimos que ela foi adotada. E Tina irá também buscar a verdade sobre sua adoção. A mentira sobre seu nascimento e adoção nunca havia sido questionada.

POTENCIAL DE PRAZER

Border narra um o percurso que vai do conformismo desafetado à autonomia e responsabilidade pela própria vida. A transformação da guarda de fronteiras se dá na relação com Vore. Desse encontro sexual e amoroso – do qual ela continua intrigada – surgem amor-próprio, autoconfiança e um saudável questionamento sobre sua origem familiar. Erotismo e paladar se desenvolvem lado a lado. Um mundo novo se revela. Tina parece estar feliz e se sentir livre pela primeira vez. Ela se delicia com as texturas do corpo, com as potencialidades de prazer que a vida erótica proporciona, com a descoberta de novos alimentos e com a integração à natureza, como se voltasse ao habitat natural. Tina desabrocha, apodera-se de seu desejo e dispensa o antigo relacionamento.

O encontro amoroso com um novo parceiro é, antes, um encontro com si mesma. Desse encontro surge o descobrimento de suas capacidades, independência e autonomia. A apropriação erótica do corpo á leva a uma posição mais ativa no mundo. O repertório pessoal da personagem se expande. A repressão afrouxada provoca novos questionamentos. O filme pode ser visto como metáfora do trabalho psicanalítico. Quanto mais nos conhecemos, mais fortes e livres nos tornamos, e também mais capazes de incomodar e de questionar o status quo. Esse é o movimento de Tina que o diretor nos convida a acompanhar de perto com deslumbre e emoção.

Observa-se, também, o movimento natural dos amantes em direção ao isolamento, decorrente da fantasia universal dos apaixonados que subjaz na crença infantil de serem feitos de matéria especial, diferentes dos demais da espécie humana. Feitos um para o outro, somente. A fusão os torna especiais. Os amantes vivem nas bordas da realidade, são únicos. Tal estado de apaixonamento é descrito por Freud ao tratar do narcisismo. Border, qual a fronteira do amor? Quem amamos quando amamos alguém? O amor ao outro é também amor a si mesmo. Border, na paixão, o eu e o outro se confundem.

Sustentar as próprias verdades tem voz e autonomia, percorrer caminho paralelo com a investigação edípica. Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou? Que família é essa? Pertenço ou não pertenço ao meu grupo? Perguntas que crianças e adultos saudáveis se fazem durante a existência sem ter necessariamente respostas. Tina foi adotada e quer respostas sobre suaorigem, sobre as marcas em seu corpo e sobre as diferenças entre ela e sua família, diferenças que antes passavam despercebidas pois eram negadas.

A curiosidade da policial também se dirige ao amante e à estranheza excitante que ela causa. Ele tem muito a ensinar e algo a dizer.

SEGUEIRA PULSIONAL

Haverá uma revelação inquietante e assustadora no fim do filme. O mistério é a emoção que impregna Border do começo ao fim. A presença de Vore potencializa o mistério. Homem feio, transgressor, que vive de acordo com suas próprias regras, muito diferente de Tina. E que a leva às perguntas fundamentais nos relacionamentos: Quem é você/ O que quer de mim? São os eternos questionamentos, ainda que inconscientes, sobre nossos primeiros vínculos de amor. Procuramos desvendar o enigma de nossos pais ou o pensamento sucumbe. Caso a capacidade de pensar e perguntar não seja solapada, o impulso para o conhecimento, a curiosidade da criança pequena sobre seus pais e sobre a sexualidade poderão se transferir por amplos aspectos de sua vida. Ou não, a depender dos processos de familiarização e da dor originada em tais processos. O processo de familiarização, de aculturação a que todos somos submetidos desde o nascimento é sempre estranho, violento e bizarro. Implica em cegueira, renúncia e restrição às forças pulsionais. De fato, nascemos num “hospício” e aprendemos suas regras. Tais regras se assemelham a muitas normas culturais que nos rodeiam. Para uma boa parte dos humanos o mundo parece como dado e não pode ser questionado, é assim e pronto. Alguns percebem o “hospício” dos outros. Sempre é mais fácil ver a loucura das regras familiares e culturais fora de nós. Dessa forma, Tina sofreu, como todos nós, uma espécie de “lavagem cerebral” até se tornar mulher adulta, filha carinhosa e esposa submissa. Tal “lavagem” irremediavelmente, todos sofremos, desde o nascimento, pois em nosso desamparo inicial dependemos inteiramente do outro para nos apresentar à viela e o mundo. Border, na fronteira entre instinto animal e pulsão. Entre ser e não ser.

Em relação à forma, o filme rompe com os tradicionais gêneros cinematográficos por reunir quase todos os gêneros ao mesmo tempo. Drama, tragédia, comédia, suspense, policial, terror, jornada, autoconhecimento, erotismo e sexualidade. São infinitas as possibilidades de leitura, de camadas de sentido sobrepostas, compostas, condensadas e justapostas que o jovem diretor, Ali Abassi, é capaz de produzir em quase todas as cenas. Além da permanente sensação de estranhamento ao transitar entre a fantasias, o realismo fantástico e o realismo sem se fixar em uma categoria. Border, na fronteira dos vários gêneros consagrados pelo cinema.

CATEGORIA INQUALIFICÁVEL

Já assistimos a filmes sobre monstros, sobre frankensteins, vampiros, zumbis, king kongs ou até mesmo filmes com heróis mais disformes e indefesos como O Corcunda de Notre Dame. Border, embora traga ali o de monstruoso e incômodo pela feiura e esquisitice de seus personagens, vai além. Os personagens principais são inqualificáveis, não há categoria para eles, assim como não há categoria para o próprio filme. Não fica difícil estender o mesmo raciocínio para todos nós. Basta olhar de perto, da forma como a câmera faz. Como os psicanalistas fazem diariamente em seus consultórios, para saber que cada ser humano é uma categoria inqualificável, insubstituível, única, singular. Somos mistura, sempre estranha aos outros, de tantas qualidades, características, histórias, dores, detalhes e em constante metamorfose. E Abassi insiste em nos mostrar de perto tais características e suas transformações. Como se apelasse ao público pelo reconhecimento de humanidade naquilo que é quase não humano. E. dessa maneira, provoca um jogo sagaz de identificação e desidentificação no espectador. Viver e ser diferente da norma. Border subverte padrões de comportamento, gênero, biologia e sexualidade em cenas que, algumas vezes, até causam certa aversão.

Ao assistir Border nos permitimos a feiura, vestimos a pele do bizarro e experimentamos como  vivem os que sofrem por preconceitos em nossa sociedade: homossexuais, obesos, transgêneros,  miseráveis, negros, orientais, hermafroditas, refugiados – todos aqueles que são diariamente excluídos e aviltados, para quem não há compaixão. O filme também nos desperta para inquietante questionamento sobre fronteiras. Qual a distância, se é que existe, entre humano e animal? Entre feroz e terno? Homem e mulher? Fronteiras móveis questionam padrões. Border expõe muitas fronteiras pouco delimitadas. O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam, principalmente, sobre nós, os humanos. Essa espécie em cuja fragilidade e ignomínia Border lança luz.

O filme nos leva a perceber que os supostos monstros falam. Principalmente, sobre nós, os humanos.

Tina: eu não vejo razão no mal.

Vore: então, você quer ser humana?

Tina: eu não quero machucar ninguém.

É humano pensar assim?

Essa espécie cuja fragilidade e ignomínia “Border” lança luz. Como se perguntasse, implacavelmente, e com argumentos, o que é o belo? O que é humano? Como e onde encontrar o amor e, afinal, é possível o amor permanecer, resistir, mesmo com tanto sofrimento e brutalidade?  A personagem Tina tem a resposta, e é redentora. Não será possível julgá-la pela aparência o amor é sua maior beleza, como é também o esforço que a humanidade faz, diariamente, para perpetuar a vida.

AUTOACUSAÇÕES

No ensaio O Mal-estar da Civilização, Freud (1929) afirmava que o progresso civilizatório e tecnológico exigia alto preço do indivíduo. Cobrava renunciar à sexualidade e, principalmente, à agressividade – como esforço necessário ao desenvolvimento civilizador. Um dos caminhos apontados para dar continuidade à civilização seria formado pela internalização da força agressiva, voltada para dentro, que agrediria o eu, em forma de autoacusações inconscientes, no lugar de se lançar contra o outro, para fora. O preço a pagar na tentativa de evitar a destruição dos homens e da sociedade, era se tornar refém do sentimento de culpa inconsciente e, portanto, de constante mal-estar, ambos impeditivos da fruição da felicidade.

Freud deixou para os futuros psicanalistas o questionamento relativo aos sofrimentos que surgiriam no futuro pelo fato de a civilização – em constante transformação – impor de maneira permanente ao homem múltiplas coerções pulsionais, estilos de vida e diferentes formas de pensar e adoecer. Embora, ao destacar a pulsão de morte, força destruidora por excelência, o psicanalista tenha se tornado um tanto cético e desalentado. Afinal, civilizações nascem e morrem, em geral, por conta própria, por medidas, ações e escolhas que as mesmas fazem – nem sempre um inimigo é a causada destruição.

 O mal-estar, o sofrimento e a destruição estão presentes em todas as formas de cultura, não apenas na civilização judaico-cristã. Em cada cultura adquirem características peculiares. Na nossa, em função de sua impermanência e movimentação, o mal-estar costuma ser acompanhado por questionamentos. A maior qualidade de nossa cultura é a liberdade de poder questionar seus limites, de interrogar os processos que nos fazem ser como somos, a ponto de expor, até os últimos limites a construção, o absurdo e a farsa que é ser humano.

Border, o filme, ao entrelaçar expressões culturais, sofrimentos individuais, manifestações sociais e produções artísticas, responde de quais maneiras o mal-estar, a força de destruição e o sofrimento estão presentes no homem, nas artes e na sociedade neste início de século XXI. A compaixão pode atravessar as fronteiras e, quem sabe, possibilitar a permanência da nossa civilização. No momento, desconhecemos o desfecho.

LUCIANA SADDI – é escritora e psicanalista, membro efetivo, docente e diretora de Cultura e Comunidade da SBPSP. Mestre em Psicologia Clínica, Coordenadora do Ciclo de Cinema e Psicanálise: “Mal-estar na Civilização e Sofrimentos Contemporâneos”, no Museu da Imagem e do Som (MIS), com apoio da Folha de S. Paulo.