EU ACHO …

POR QUE TANTA GENTE BOA INSISTE EM NEGAR OS FATOS

A comunidade científica ficou perplexa com a reabertura prematura das atividades econômicas em pleno avanço da pandemia. Não deveria. Asteorias estapafúrdias em torno do novo coronavírus, os poderes milagrosos da cloroquina, a defesa de uma certa “estratégia sueca” – cujos próprios autores reconhecem ter dado errado – seduzem não apenas Jair Bolsonaro, Donald Trump e acólitos, mas também prefeitos, governadores, empresários, banqueiros e gente de perfil intelectual bem mais sofisticado.

Do papel humano no aquecimento global às vacinas, da pandemia à economia, da política à religião, o negacionismo se espraia como uma praga a minar o conhecimento e a política. Entender suas raízes e mecanismos é um desafio essencial para preservar o planeta, a vida e a civilização.

Não se trata de problema novo. Em 1927, a revista médica britânica The Lancet já publicava editorial contra a crença de que “a vacinação é uma fraude gigantesca perpetuada apenas para garantir lucros”. Absurdos como o terraplanismo ou o criacionismo têm mais chance de prosperar em sociedades ignorantes. Caso do Brasil ou dos Estados Unidos, onde mais da metade da população ignora que a Terra leva um ano para orbitar o Sol e quase três quartos contestam a evolução das espécies pela seleção natural. Mas não é um problema restrito aos pouco cultivados. Os mais empedernidos negacionistas de que a atividade humana seja responsável pelas mudanças no clima são cientificamente letrados, têm acesso a informação de qualidade, entendem os mecanismos climáticos e defendem suas teses por meio de raciocínios embasados em gráficos precisos e conhecimentos avançados de astrofísica ou geofísica. São tudo, menos ignorantes. “A negação é um problema humano, não apenas um problema dos pouco instruídos ou pouco sofisticados”, escreve o filósofo Adrian Bardon em The truth about denial (A verdade sobre a negação). Trata-se, nas palavras dele, de uma “resolução emocionalmente satisfatória da dissonância entre como gostaríamos que o mundo fosse e a forma como ele de fato se apresenta”.

Bardon inventaria os debates contemporâneos sobre o tema não só na ciência. Navega pela política e pela economia (onde por vezes derrapa). Não se furta a explorar (com rara competência) o terreno minado da religião. Apresenta o significado preciso do negacionismo e ensina sua relação com parentes próximos, como dissonância cognitiva, raciocínio motivado, pensamento desiderativo, viés de confirmação ou ideologia. Negação não é mentira. É uma mentira com sabor de verdade, uma falsidade que satisfaz aos instintos – aquilo que o comediante Stephen Colbert definiu como “verdadice” (“truthiness”). “A negação envolve a rejeição (ou adoção) motivada emocionalmente de uma afirmação factual, mesmo diante de fortes evidências contrárias”, diz Bardon. “O negacionismo é um a expansão, uma intensificação da negação. Na raiz, ambos são apenas um subconjunto das formas como os humanos desenvolveram a linguagem para enganar os outros ou a si mesmos.” E pratos cheios para manipulação política e campanhas de desinformação.

Nem o conhecimento dos fatos nem a capacidade intelectual nos vacinam contra o negacionismo. “Nossa capacidade de raciocínio motivado diante de evidência contrária é impressionante”, diz Bardon. “É conveniente, reconfortante e ocasionalmente até útil, mas também solapa nossa capacidade de enfrentar questões urgentes de política pública, portanto obstrui o caminho de mudanças sociais, políticas e econômicas.” É o que vemos no enfrentamento do aquecimento global ou da pandemia. Nem as calotas polares nem o coronavírus dão a mínima para nós. Bardon tenta, no final, levantar estratégias para enfrentar o negacionismo científico. Discutíveis, é verdade, mas até por isso cientistas fariam bem em ouvi-lo.

**HELIO GUROVITZ

OUTROS OLHARES

A CIÊNCIA PODE NOS SALVAR

A humanidade deseja se livrar do coronavírus, mas até agora não há um remédio que acabe com a doença. Dezenas de vacinas estão sendo testadas no mundo e todas só ficarão prontas no final do ano. Uma delas, porém, feita nos Estados Unidos, está mais avançada e pessoas já ficaram imunes à Covid-19.

O desafio global para a produção de uma vacina contra a Covid-19, se coloca como prioridade. A primeira notícia positiva nesse sentido vem dos EUA, onde a empresa de biotecnologia Moderna divulgou que está realizando testes preliminares em seres humanos de uma vacina que pode imunizar as pessoas contra a doença. A empresa recebeu US$ 580 milhões do governo do EUA porque Donald Trump, que quer assegurar que 300 milhões de doses sejam disponibilizadas para os americanos. O método da pesquisa consiste em levar informação de RNAm (RNA mensageiro) da Covid-19 para dentro das células e induzir o próprio organismo a produzir uma defesa. Oito dos quarenta e cinco voluntários que participaram do estudo, apresentaram anticorpos. Para Akira Homma, assessor científico da Bio-Manguinho/Fiocruz, a pesquisa é confiável, mas deve ser vista com cautela, pois está prevista a realização de estudos ainda nas fases dois e três, com maior número de voluntários. “Eles estão utilizando o processo de “fast track”, ou seja, processo acelerado de desenvolvimento tecnológico”. A possibilidade de termos uma arma segura e eficaz contra a pandemia pode reduzir o número de mortes pela pandemia.

TESTE GENÉTICO

No Brasil, também há estudos em desenvolvimento, alguns em parcerias com instituições do exterior. “Como os países desenvolvidos estão investindo mais teremos uma vacina pronta primeiramente lá fora”, afirma Homma. O País também enfrenta dificuldades para saber quem está de fato contaminado. O atual sistema demora 14 dias, após a infecção, para apresentar os resultados. Uma iniciativa positiva foi desenvolvida pelo Hospital Albert Einstein, de São Paulo. Ele produziu o primeiro teste do mundo de diagnóstico para coronavírus, baseado em Sequenciamento de Nova Geração. Esse exame permite a realização simultânea de até 1536 amostras, volume 16 vezes maior do que o possível por processamento na análise pelo método RT-PCR convencional. Com esse novo teste, é possível identificar a presença do vírus desde o primeiro dia de infecção.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

Na corrida para a obtenção da vacina contra o Sars-Cov-2, há 115 pesquisas relevantes ao redor do mundo, entre elas de oito a dez com promissoras chances de sucesso. Já realizam testes em humanos a Universidade de Oxford, em conjunto com a Astra Zeneca, a chinesa CanSino Biologics, com o apoio do governo chinês e caminha para a segunda etapa de testes com maior número de participantes a russa Biocard, que recebeu US$ 20 milhões do governo daquele país. O obstáculo que está posto para que os países pobres recebam o produto futuramente é a Proteção à Propriedade Intelectual, já que a possibilidade de lucro pela descoberta é incomensurável. Com a intenção de se antecipar à obtenção da vaciana, a OMS criou uma resolução na qual determina que um eventual imunisante contra o coronavírus seja considerada um bem público mundial. Somente a descoberta de uma vacina de forma mais rápida pode permitir que a humanidade sobreviva.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 29 DE JULHO

TEMPO DE RECOMEÇAR

Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o SENHOR se lembrara do seu povo, dando-lhe pão (Rute 1.6).

Rute, a moabita que se tornou bisavó do rei Davi e membro da linhagem do Messias, tem uma dramática, porém belíssima história. Casou-se com Malom, filho de Elimeleque e Noemi, para em seguida ficar viúva e sem filhos. Em vez de retornar a seu povo e seus deuses em Moabe, decidiu recomeçar sua vida, seguindo Noemi, sua sogra, para Belém. Não que Noemi tivesse alguma vantagem a lhe apresentar; ao contrário, Noemi era estrangeira, idosa, viúva, pobre e desamparada. Rute teve de aprender a lidar com as perdas. Agora, porém, aprenderá a lidar com o recomeço. Para isso, dispõe-se a amar sua sogra incondicionalmente. Também toma a decisão de confiar seu futuro às mãos do Deus de Israel. Rute agiu com coragem e humildade. Deus providenciou para ela um marido nobre, um lar feliz e um filho promissor. De sua descendência nasceram reis e o próprio Filho de Deus. O cenário cinzento das perdas foi transformado num horizonte multicolorido de conquistas maravilhosas. Tudo isso, porque Rute se dispôs a recomeçar. É tempo de você também deixar o passado no passado e colocar os pés na estrada da esperança. A crise não durará para sempre. A dor que assola sua alma passará, e um tempo de refrigério virá sobre sua vida. Não levante monumento à sua dor; olhe para frente, olhe para cima, olhe para Deus, e saiba que ele também pode conduzir sua vida em triunfo.

GESTÃO E CARREIRA

AS GERAÇÕES E O FUTURO DO TRABALHO

O aumento da expectativa de vida dos brasileiros e as mudanças no mercado tornam urgente o debate sobre a inclusão etária

À medida que o debate sobre diversidade e inclusão amadurece, novos temas surgem na lista de preocupações do meio empresarial. Em 2020, devemos testemunhar o avanço de algumas pautas diretamente relacionadas aos desafios enfrentados por nossa sociedade: a questão geracional e as discussões sobre o futuro do trabalho.

São ambos assuntos urgentes e que dialogam diretamente com as necessidades do país. Estão, porém, cada um a seu modo, cercados de desinformação e de um oba-oba pouco crítico, que dificulta o aprofundamento da conversa.

Vejamos o exemplo do tópico “gerações”. Durante muito tempo, o mercado dizia ter interesse pela temática, mas, na verdade, demonstrava quase uma obsessão apenas pelos millennials. A geração que cresceu nos anos 2000 foi o xodó das empresas, que só agora começam a perceber a extensão do desafio que temos pela frente.

Numa ponta da pirâmide etária, pensando nos jovens entre 18 e 24 anos, o desemprego passa dos 24% e a precarização do trabalho avança. No outro extremo, entre aqueles com mais de 50, predomina o preconceito contra quem tem mais experiência – sem falar no aumento da expectativa de vida e no impacto da reforma da Previdência sobre os planos dos mais velhos.

No meio disso tudo, está o ritmo acelerado de mudanças nos modelos de produção. Estudos apontam que um terço das ocupações poderá ser substituído por robôs até 2030. Otimistas dizem que, no lugar desses trabalhos, haverá outros mais qualificados – mas a realidade brasileira teima em confrontar essa visão.

Afinal, num país que patina nos rankings de educação e cujo governo parece incapaz de enfrentar os desafios estruturais nessa área, quem terá a qualificação necessária para os empregos que virão? Na prática, para ficar em apenas um exemplo, o que se observa é o aumento do desemprego entre pessoas que, por falta de opção, historicamente desempenharam funções operacionais e agora se veem substituídas pela automação. Futuro do trabalho para quem? Como se vê, são discussões importantes e que merecem mais atenção. Por isso, estamos lançando uma iniciativa institucional e sem fins lucrativos para endereçar esses e outros temas. Trata-se do Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho, que vem sendo gestado há quase um ano e que ganhou as ruas no início de maio.

A iniciativa, pioneira na América Latina, nasce com o apoio de Itaú, Grupo Boticário, EDP, PwC e Chubb, mas pretende articular todo o meio empresarial brasileiro em torno de uma agenda que contemple encaminhamentos para alguns dos dilemas mencionados anteriormente.

O Fórum de Gerações e Futuro do Trabalho pretende ser um espaço de produção de conhecimento, troca de experiências e protagonismo das empresas para o debate sobre diversidade e inclusão. Quer trazer sua companhia para o grupo? Escreva para mim no e-mail abaixo e terei prazer em compartilhar mais informações.

RICARDO SALES – é sócio da consultoria Mais Diversidade, professor na Fundação Dom Cabral e pesquisador na Universidade de São Paulo

ricardo@maisdiversidade.com.br

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

BARIÁTRICA – CIRURGIA ALTERA CÉREBRO, MAS NÃO APLACA ANGÚSTIA

Relação com o alimento pode sofrer mudanças no nível neurológico, mas, se conflito que leva à compulsão não for tratado, sintomas aparecem de outras maneiras. Muitas vezes, surgem ou se agravam quadros psiquiátricos como ansiedade, compulsão e depressão – apesar do corpo magro tão almejado

Muita gente deve ter se olhado no espelho hoje e pensado que emagrecer (ainda que à custa de uma cirurgia bariátrica) seria uma excelente solução para terminar de vez com a luta contra a balança – e, talvez, ajudasse a resolver problemas emocionais e de autoestima. De fato, existe uma cultura forte que associa padrões físicos de magreza considerados “ideais” a felicidade e sucesso. Em junho de 2016, várias organizações internacionais voltadas para o estudo da diabetes ratificaram novas orientações, bastante provocativas, sugerindo que os clínicos deveriam considerar a cirurgia bariátrica para um leque mais amplo de diabéticos, passando a incluir aqueles com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30 – e não somente aqueles com IMC igual ou superior a 40. A base para essa argumentação está em pesquisas: estudos mostram que a cirurgia para perda de peso ajuda os pacientes a alcançar níveis de glicose no sangue melhores do que daqueles que emagrecem com mudança de dieta e exercícios físicos. Um estudo recente realizado com ratos sugere que a eficácia da cirurgia bariátrica pode estar associada, pelo menos em parte, às mudanças que provoca no cérebro.

Segundo artigo publicado no International Journal of Obesity, a cirurgia bariátrica deflagra a hiperativação de uma rota neural que parte dos neurônios sensitivos do estômago no tronco encefálico, passa pelo núcleo parabraquial lateral (uma área no mesencéfalo que recebe informações sensoriais do corpo) e então chega à amígdala, que funciona como o centro cerebral do processamento da emoção e medo. Os ratos obesos foram submetidos a um processo chamado derivação gástrica em Y-de-Roux, em que os cirurgiões removem a maior parte do estômago, deixando somente uma pequena bolsa conectada ao intestino delgado. Pouco depois da cirurgia, quando os ratos passaram a ingerir porções mais reduzidas, mostrando preferência por alimentos menos gordurosos, os cientistas detectaram uma ativação crescente nessa rota neural. Foi detectado também que os animais começaram a secretar níveis mais elevados de hormônios de saciedade. Padrões comportamentais e hormonais semelhantes são encontrados em seres humanos após a cirurgia bariátrica, sugerindo que as alterações no cérebro possam ser semelhantes. Os autores do estudo reconhecem, porém, que observar esse circuito por meio de imageamento cerebral é difícil e podem ocorrer distorções por causa da falta de resolução. Segundo o neurocientista Hans-Rudolf Berthoud, do Centro Pennington de Pesquisas Biomédicas da Universidade do Estado da Louisiana (LSU), principal autor do estudo, a alteração da atividade cerebral é provavelmente causada pelo contato inédito e repentino do alimento não digerido (em vez da mistura pré-digerida que costuma vir do estômago) ao atingir o intestino delgado. “Basicamente, esses pacientes têm de reaprender a se alimentar; estavam acostumados a ingerir grandes porções de alimento e isso proporcionava sensação que lhes parecia agradável, mas, se o fizerem após a cirurgia, isso vai causar desconforto”, diz Berthoud. As áreas cerebrais que se o tornaram hiperativas pela cirurgia provavelmente refletem esse feedback negativo, que é uma ferramenta poderosa de aprendizado.

“Em poucas semanas, a rota pela qual passava o alimento não era mais hiperativa nos ratos, talvez indicando que o cérebro havia recrutado outros processos para sustentar a ingestão reduzida”, diz Berthoud. Segundo ele, essa constatação provavelmente constitui somente uma peça do quebra-cabeça. Estudos passados sugerem que a cirurgia bariátrica afeta também o sistema de recompensas do cérebro, tornando os alimentos gordurosos menos agradáveis. Uma questão que permanece é por que pessoas que passaram pela cirurgia bariátrica têm o metabolismo mais acelerado, em comparação com as que fizeram mudança de hábitos e do estilo de vida com o objetivo de perder peso. Em um estudo divulgado no começo do ano passado, pesquisadores constataram que os competidores de um programa de televisão americano, The Biggest Loser, ainda apresentavam um metabolismo letárgico seis anos após a enorme perda de peso. Estudos semelhantes mostram que grande parte dos pacientes bariátricos alcança um metabolismo estável e normalizado no prazo de um ano – mas não todos. Além disso, especialistas alertam para os riscos e efeitos colaterais da cirurgia bariátrica.

Psicólogos e psiquiatras chamam atenção para uma questão complexa: mais que um quadro em si, muitas vezes a alimentação desregrada ou compulsiva – bem como a obesidade decorrente desses comportamentos – na realidade é um sintoma que pode estar vinculado a transtornos como depressão e ansiedade. O problema é que, quando se vê o excesso de peso como um fenômeno que se esgota em si mesmo, se deixa de lado o fato de que essa situação está intimamente associada a processos psíquicos que envolvem relações consigo mesmo e com os outros, afetos, experiências e até traumas. E o tratamento, obviamente, não pode se restringir a uma cirurgia tão delicada. E talvez o mais importante: se a angústia que está por trás do sintoma não for resolvida, ele tende a reaparecer, ainda que se manifeste de outra forma.

Várias pesquisas realizadas nos últimos dez anos revelam que grande parte dos pacientes que se submetem à cirurgia bariátrica apresenta comportamentos compulsivos, depressão e chegam mesmo a cometer suicídio, ainda que tenham alcançado o corpo magro que tanto almejaram.

Uma pesquisa desenvolvida com esses pacientes do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que grande parte das pessoas apresentou melhora efetiva das condições clínicas e funcionais, como menos risco de morrer por doenças cardiovasculares (em 56% dos casos), câncer (60%) e diabetes (até 92%). Considerando que, segundo estimativas da literatura científica internacional, em 2030, de cada três pessoas de países ocidentais, uma será obesa, a importância da cirurgia bariátrica não pode ser desprezada. Apesar disso, as complicações psicológicas devem ser levadas em conta.

Hoje, médicos reconhecem que há grande risco de que quadros psiquiátricos que já existiam se agravem ou até mesmo apareçam novas patologias após a cirurgia. “Sabemos que muitas pessoas utilizam o alimento como forma de aliviar a tensão e quando não podem fazer isso recorrem a outros comportamentos de forma patológica, como sexo, consumo de álcool e drogas, jogo e compras”, diz o psiquiatra Paulo Sallet, do Hospital das Clínicas de São Paulo. Segundo ele, em muitos casos, esses novos sintomas resultam de fatores como necessidade de adaptação psicossocial à nova condição e de alterações psíquicas decorrentes de déficit nutricional. Ele explica que alguns são mais susceptíveis a processos específicos deflagrados pela cirurgia, como a produção de neuropeptídios, que efeitos anoréxicos, por exemplo, e ao invés de comer de forma compulsiva, o paciente passa a evitar o alimento.

“Estimamos com base na literatura médica que mais de 90% das pessoas que se submetem à cirurgia bariátrica se beneficiem do procedimento, mas há um percentual de indivíduos, em geral pessoas que já apresentavam algum quadro psiquiátrico, que enfrentam problemas mais graves após a operação”, afirma Sallet. Segundo ele, nesse grupo o índice de suicídio pode ser de quatro a oito vezes maior que o da população em geral. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) orienta que as pessoas que desejam se submeter a cirurgia não apenas façam os exames pré-operatórios, que incluem avaliação nutricional, cardiológica e endocrinológica, mas também sejam submetidas a uma avaliação psicológica. Embora não seja obrigatório, o acompanhamento psicológico anterior e posterior é de grande importância.

ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO NO TRATAMENTO BARIÁTRICO*

Do ponto de vista orgânico, a obesidade pode ser definida como alteração de processos biológicos (envolvendo basicamente genética e metabolismo) em interação com fatores psíquicos e ambientais, cujo resultado é o aumento do peso sob a forma de acúmulo de gordura. A maioria dos pacientes obesos tem uma longa história de tratamentos anteriores, com reduções de peso seguidas de reaquisição. Tais resultados parecem decorrer do enfoque excessivo na consequência (o peso), em detrimento do tratamento e modificação de suas causas.

Outro aspecto característico é a interrupção precoce dos tratamentos. Em diversos países, as técnicas bariátricas e cirúrgicas têm apresentado bons resultados em termos de redução de peso, melhora da qualidade de vida e satisfação global dos pacientes.

Isso se deve não somente a que tais procedimentos reduzem a ingestão calórica sem o desconforto de uma privação alimentar excessiva por parte do paciente, mas também ao fato de que a maioria dos centros aborda o tratamento de uma forma multidisciplinar.

Grande parte dos pacientes obesos apresenta transtornos alimentares caracterizados pela compulsão alimentar relacionada à ansiedade e estados de humor depressivo. Sabe-se que tais pessoas tendem a “adaptar” seu padrão de alimentação compulsivo após os tratamentos bariátricos (por exemplo, “beliscando” carboidratos continuamente, ingerindo grandes quantidades de alimentos líquidos hipercalóricos etc.), o que acaba comprometendo os resultados. Sabe-se também que a (em geral drástica) mudança na forma e imagem corporais que se segue a tais procedimentos traz consigo a emergência de conflitos psicológicos e necessidades de adaptação à nova condição. Em linhas gerais, esses são os motivos pelos quais a avaliação e o acompanhamento psiquiátricos são importantes no tratamento da obesidade.

Na prática, o acompanhamento psiquiátrico ou psicológico do paciente obeso que se submete ao tratamento bariátrico segue uma abordagem multidisciplinar, um modelo que envolve profissionais de diferentes áreas e tem sido empregado nos diversos centros de referência para tratamento da obesidade em todo o mundo. A função do psiquiatra começa com uma avaliação inicial do paciente com indicações clínicas para o tratamento cirúrgico da obesidade. Nessa avaliação são explorados não só os aspectos relacionados com a história de vida (história da obesidade, o sofrimento físico e psíquico a ela relacionado, história de problemas psíquicos prévios etc.), como também uma série de aspectos pertinentes ao tratamento proposto, tais como:

1. Grau de motivação para cumprir os cuidados necessários

2. Tomada de consciência de estar se engajando em um projeto em longo prazo

3. Riscos envolvidos

4. Adesão do paciente a atividades físicas regulares e ao programa adequado de alimentação

5. Expectativas do paciente em termos de resultado estético e controle do peso etc.

São fundamentais a identificação e o tratamento de problemas que possam interferir de modo negativo no resultado do tratamento. Condições psiquiátricas como abuso de álcool ou outras drogas, transtornos psicóticos (doenças em que podem ocorrer crises que causem prejuízo grave na apreciação realista dos fatos), transtornos de humor (depressões e/ou euforia) ou ansiedade e, sobretudo, alterações do comportamento alimentar são particularmente importantes e necessitam de uma avaliação criteriosa, que por vezes pode até contraindicar a intervenção cirúrgica naquele momento.  A ideia não é “selecionar” pacientes que possam ou não ser operados, mas identificar e tratar problemas com potencial interferência negativa no processo.

É importante não passar a ideia de que o paciente tenha algum perfil psicológico ou clínico típico da obesidade e deva ser tratado de modo homogêneo. Entretanto, as pesquisas e a experiência clínica demonstram que as pessoas com obesidade apresentam diferentes graus de sofrimento psíquico decorrente do seu padecimento.

Em geral, sofrem discriminação e preconceito de diversos matizes, que por sua vez podem ser introjetados ao longo da vida, deixando marcas profundas.

Para uma avaliação mais objetiva e economia de tempo, podem ser utilizados questionários a que o paciente pode responder em casa. Esse material é um instrumento de avaliação diagnóstica, de grande ajuda no planejamento terapêutico para cada paciente, como de resto também fornece informações importantes para o tratamento desses problemas com base científica. O acompanhamento psiquiátrico ao longo do tratamento depende, em parte, dessa avaliação inicial. É compreensível que a presença de condições psiquiátricas que possam comprometer aspectos de ordem prática (atividade física e adequação à dieta) ou o bem-estar psicossocial requeiram acompanhamento com consultas mais constantes, eventualmente com o uso concomitante de medicamentos e de psicoterapia para o aprofundamento das questões psíquicas e comportamentais.

(*) Informações fornecidas pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica

REAPRENDENDO A VIVER

A psicóloga Marlene Monteiro da Silva, coordenadora do curso de transtornos alimentares e obesidade do Hospital das Clínicas (HC), compara o período pós-operatório dos pacientes às fases de desenvolvimento psicossexual na infância, segundo o modelo proposto por Sigmund Freud. “Nos três primeiros meses podemos fazer um paralelo com a fase oral: assim como acontece com o bebê, a maior preocupação da pessoa nesse momento é com a comida; o paciente só pode alimentar-se de sopas e papinhas, em geral fica emocionalmente regredido, alguns choram com muita frequência, e sente-se dependente.”

A partir do quarto mês há uma espécie de “retorno” à fase anal, a pessoa começa a descobrir novas maneiras de encarar o próprio corpo e se relacionar com ele. Nesse momento, alguns chegam a ter 20 quilos a menos e sentem-se mais expostos. O paciente depara-se com uma agressividade da qual nem sempre se dá conta, tem medo da mudança de identidade e já não há a possibilidade de recorrer à comida para aliviar as angústias.

“Por volta do sétimo mês, começa o que pode ser visto como um paralelo com a fase pré-genital, uma espécie de adolescência emocional”, compara. Com o corpo bastante modificado, 50 ou 70 quilos a menos, muitos desses pacientes passam a querer aproveitar tudo, muitas vezes de forma inconsequente. É nesse momento que correm o risco de se tornar alcoólatras, dependentes de drogas, viver relações promíscuas e se colocar em situações de risco. Em geral, os casos de bulimia e anorexia costumam aparecer depois de dez meses, segundo a psicóloga.

“Algo que agrava a situação é tentar ‘esquecer’ que ainda é preciso fazer cirurgias plásticas, negam cortes e cicatrizes tanto físicas quanto emocionais. Se as pessoas não derem atenção à “feridas emocionais” que precisam ser cuidadas, é possível que depois de dois ou três anos após a intervenção, estejam sujeitas ao aumento das compulsões, depressão ou ao risco de voltar a engordar, mesmo com o estômago reduzido. “Não se pode ignorar que, muitas vezes, é um desafio assumir o papel de adulto, retornar ao trabalho, se haver com os desejos (tanto os próprios quanto os dos outros) e mudanças na vida sexual e afetiva”, diz Silva. “Aí as pessoas se dão conta de que o problema não era só o excesso de peso, de que há sempre faltas e que é preciso conviver com elas.” Justamente pela complexidade dos fenômenos psíquicos envolvidos são tão importantes a avaliação psicológica antes da cirurgia e o acompanhamento depois dela.