EU ACHO …

O VÍRUS DO PRECONCEITO

O discurso do ódio e da intolerância, base para o sectarismo nas sociedades, se dissemina junto com a pandemia, distorcendo a própria história. É urgente criar mecanismos para coibir isso

Libelos de que a covid-19 seria causada por um “vírus chinês” ou que Israel e os judeus estariam espalhando o Sars-CoV-2 pelo mundo aparecem, com indesejável frequência, em posts e falsas notícias em vários países, muitas vezes associados a chavões clássicos, como “isso tudo está acontecendo por causa dos interesses dos Rothschild ou de George Soros”, que seriam donos de laboratórios, prontos para tirar proveito da crise, produzindo remédios e vacinas. A única reação que esses ataques não provocam é surpresa.

A intolerância de toda natureza e contra vários povos acompanha a história da humanidade. Nem seria preciso lembrar, por exemplo, das atrocidades cometidas contra os judeus ao longo dos tempos, quase sempre sem punição e que, justamente pela impunidade, culminaram na maior de todas elas – o Holocausto: 6 milhões de inocentes, ao lado de outras minorias, foram exterminados no coração da Europa, em pleno século XX. Pessoas que nada fizeram para ter esse destino, além de ter nascido em uma determinada família ou localidade. Em decorrência dessas circunstâncias, as comunidades judaicas ao redor do mundo tornaram-se especialistas em ser alvo do discurso do ódio e das fake news. Hoje, está bem claro que esse tipo de praga que grassa no ambiente virtual causa imensos danos, não raramente desaguando em violência física na vida real.

O principal condutor dessas correntes são as plataformas de comunicação digitais. Turbinadas por exércitos de robôs e protegidas pelo anonimato, as redes sociais aglutinaram, revigoraram e empoderaram os extremistas de forma inédita e com elevado grau de eficiência. O racismo e qualquer espécie de sectarismo encontraram na tecnologia um motor. Alguns ataques contra sinagogas e mesquitas, com dezenas de mortes, tiveram seu início com transmissões ao vivo, nas redes. Há anos se fala disso, sem que a intolerância tenha sido efetivamente freada. Em razão do curso dos acontecimentos, é necessário que as redes sociais sejam capazes de evitar a propagação do ódio, com suas terríveis consequências. É uma tarefa árdua, mas inescapável. Empresas como Twitter e Facebook, entre outras, já alcançaram capacidade financeira e grau de maturidade tecnológica suficientes para restringir, por meio de inteligência artificial, conteúdos discriminatórios, como faz o YouTube no combate à violência extrema e à pornografia infantil.

E que não se diga que coibir a intolerância, através dos mecanismos que a disseminam, seja censura. Não queremos combater a diversidade de ideias. Mas é preciso lembrar que a liberdade de expressão, conquista democrática inscrita na Constituição de 1988, não se confunde com o discurso do ódio ou com a pregação da violência, como já vem decidindo há anos o Supremo Tribunal Federal. O rádio e o cinema eram as novas tecnologias nos anos 1930, e os nazistas exploraram esses meios com eficiência letal. O poder das redes neste século XXI é muitas vezes maior que o daquelas plataformas. Atuam praticamente sem controle social, diferentemente do que ocorre com as mídias tradicionais.

Mesmo antes de o novo coronavírus se tornar o último pretexto para comportamentos racistas, ataques de ódio já vinham crescendo neste planeta polarizado. Lideranças judaicas e de outras religiões, em todo o mundo, têm se esforçado em denunciar e combater essa ressurgente onda de intolerância, em que a realidade se desenrola sob uma óptica maniqueísta e distorcida. Mas muitos não querem ver, não querem ouvir, ocupados que estão em estigmatizar adversários.

É frustrante observar como atores políticos, especialmente em nosso país, usam e abusam de comparações equivocadas com as perseguições da época do nazismo, apenas para conquistar posições em disputas, sem nenhuma relação com o que tragicamente ocorreu na Europa no século passado. Isso é feito por políticos de todo espectro, seja o ex-presidente Lula, que em 2014 comparou adversários políticos a nazistas, seja o ministro da Educação, Abraham Weintraub, que viu absurdas semelhanças entre uma decisão do STF e as perseguições da chamada “Noite dos Cristais”. Não há relação possível. A começar pelo fato evidente deque vivemos em um estado democrático de direito, no qual as liberdades e garantias estão asseguradas, e prosseguindo pela evidência de que não há nada hoje entre nós daquela perseguição – étnica ou nacional – vigente no regime hitlerista. Assistimos à vulgarização de um evento único em suas características que, reforço, não deve se prestar a instrumento de luta política. Deixem os judeus fora disso.

Não cabe à Conib tomar partido no cenário político atual ou em qualquer outro momento, mas sim defender valores e princípios. Não temos partido, mas certamente temos lado. E o nosso lado é aquele onde prevalecem o respeito às diferenças, o pluralismo, a democracia e os direitos humanos. Fazer parte de uma minoria no século XXI não é fácil. E está ficando mais complicado. Da extrema esquerda à extrema direita, passando pelo extremismo islâmico, intolerantes de todos os matizes sentem-se cada vez mais à vontade para atacar grupos minoritários. Essa luta contra a intolerância e a propagação do ódio não está circunscrita às religiões. O assassinato de George Floyd, em Minneapolis, mostra quanto o racismo contra os negros ainda está presente na sociedade americana. Como vítimas preferenciais também do preconceito e da violência racista, temos a obrigação de lutar pela promoção do entendimento e pelo firme combate ao ódio e à intolerância.

**FERNANDO LOTTENBERG é advogado e presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib).

OUTROS OLHARES

DE OLHOS BEM PUXADOS

A maquiagem chamada de foxy eyes (olhos de raposa), que alonga os olhos com traços fortes, faz sucesso, mas vira alvo de crítica nas redes sociais

Mesmo em tempo de rostos cobertos por máscaras, a maquiagem (fora o batom, claro) não perde espaço entre as mulheres. E, por razões evidentes, as mais criativas são as que destacam os olhos. Nenhuma tem feito mais sucesso nas redes sociais do que a chamada de Foxy eyes, ou olhos de raposa. Trata-se de alongar a expressão com a combinação elaborada de traços desenhados com sombra, delineador e cílios postiços.

O modismo é uma versão repaginada do antigo efeito “gatinho”, marca registrada da atriz francesa Brigitte Bardot na década de 60. Há pouco tempo, a americana Bella Hadid, eleita “modelo do ano” pela premiação Model of the Year Awards, ressurgiu com traços semelhantes, mas bem mais carregados e sensuais, e o estilo renasceu ruidosamente. Mas, como nada hoje é apenas prazeroso, veio junto uma acalorada discussão.                                                           

Nas últimas semanas, o efeito passou a ser alvo de críticas de grupos de mulheres orientais, que denunciaram uma suposta “apropriação cultural”. Ou seja: o foxy eyes estaria utilizando traços raciais, como os olhos puxados, para angariar likes em fotos. Polêmicas dessa ordem são comuns. Denúncias semelhantes foram direcionadas recentemente a mulheres brancas que usavam turbante ou tranças enraizadas, que remetem à cultura africana.

E, no entanto, nunca é tarde para lembrar, a aplicação de delineadores para alongar os olhos nasceu como uma prática absolutamente funcional nos tempos de Cleópatra, rainha do Egito, compartilhada por ambos os sexos, como modo de proteção dos raios solares. Diz o professor de história da moda na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), João Braga: “Divulgar belezas diferentes, independentemente da raça, não deve ser discriminado, mas celebrado”. Viva a diversidade.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 28 DE JULHO

LAR, DOCE LAR

Tua esposa, no interior de tua casa, será como a videira frutífera; teus filhos, como rebentos da oliveira, à roda da tua mesa (Salmos 128.3).

O lar foi planejado por Deus para ser um lugar de abrigo, uma fonte no ermo, um oásis no deserto, um pomar de frutos deliciosos para saciar nossa fome de afeto. No lar, encontramos intimidade e somos amados não por causa de nossas virtudes, mas apesar de nossos defeitos. No lar, nós nos despimos das nossas vaidades e, apesar das nossas cicatrizes emocionais, somos aceitos e perdoados. O lar é tanto um campo de treinamento como uma clínica de recuperação. É no território da família que travamos as maiores batalhas e é nessa arena que somos carregados nos braços quando tombamos por um golpe da vida. O lar é a nossa cidade de refúgio, para onde corremos quando somos acossados pelo inimigo de sangue. No lar, encontramos uma mesa posta, uma cama quentinha, um abraço carinhoso e um sorriso acolhedor. No lar, refazemos as nossas forças para a caminhada da vida e é ali também que levantamos nossa voz para chorar. No lar, celebramos a alegria do nascimento e choramos de saudade na hora da morte. No lar, nascemos, crescemos e morremos. O lar é nossa casa, nosso chão, nossa herança. O lar pode ser rico ou pobre, mas é o melhor lugar do mundo para viver, quando nele trescala o perfume do amor.

GESTÃO E CARREIRA

ESCOLHAS DIFÍCEIS

Com demissões e reduções salariais abruptas, brasileiros são obrigados a tomar decisões duras para lidar com a nova realidade financeira

Thais Gonçalves Galli, de 32 anos, trabalha como coordenadora de eventos em um hotel da capital paulista. Com o segmento completamente parado por causa do coronavírus, ela recebeu em abril a notícia de que teria o contrato suspenso por dois meses. O salário caiu pela metade. Seu noivo, Marcelo Nogueira Batista, de 37 anos, que trabalha como supervisor de banquetes em outro hotel, teve o mesmo destino. De uma hora para outra, o casal – que tem um financiamento imobiliário – se viu obrigado a baixar drasticamente o padrão de vida.

O revés vivido pelos dois profissionais ilustra a realidade de milhões de brasileiros. Nos últimos três meses, segundo o IBGE, 4,9 milhões de postos de trabalho formais e informais foram fechados no país. Além disso, só em abril, mais de 2,5 milhões de pessoas tiveram seus contratos suspensos ou salários diminuídos. A situação é crítica. De acordo com levantamento do Instituto Locomotiva, especializado em pesquisas, 51% dos entrevistados já tiveram queda efetiva na renda desde que a doença se instalou no país, em meados de março. O estudo mostra também que 53% ainda esperam ter os rendimentos familiares prejudicados e que apenas 6% devem manter o mesmo patamar financeiro de antes da crise de covid-19.

Como ninguém consegue prever com exatidão quanto tempo a paralisia econômica vai durar, especialistas dizem que as decisões financeiras devem ser duras e enérgicas. “No desespero, é comum não querer enfrentar o problema para evitar angústia. Só que, neste momento, é muito importante levantar todos os gastos e dívidas imaginando o pior cenário”, diz Flávia Ávila, especialista em economia comportamental e fundadora da consultoria InBehavior Lab.

Ainda que a renda seja suficiente para pagar todas as contas, é primordial fazer um diagnóstico minucioso das finanças. O primeiro passo para isso é enumerar em uma planilha – ou no papel, se preferir – despesas fixas, variáveis e compromissos futuros. Com o mapeamento em mãos, comece a analisar o que pode ser excluído de sua vida sem prejuízo, priorizando as escolhas domésticas, mais fáceis.

Questione-se: será que preciso ligar a máquina de lavar roupas cinco vezes por semana? Meu banho pode ficar mais curto? As luzes estão sendo apagadas como deveriam nesta quarentena? “O supermercado é outro ponto de atenção. Pesquise por itens mais baratos e que tragam o mesmo benefício da marca líder. Faça todas as substituições possíveis”, diz Marco Harbich, planejador financeiro da Planejar – Associação Brasileira de Planejadores Financeiros.

Depois passe para aquilo que não é essencial. Negocie descontos e carências, sobretudo em serviços interrompidos na quarentena, como academia e transporte escolar, e barganhe soluções em planos de internet, TV e celular. Foi o que fizeram os noivos Thais e Marcelo. Assim que soube que teria o contrato suspenso, ela entrou em contato com a TV por assinatura em busca de algum alívio. “Expliquei que tive uma redução de salário e precisava negociar. Consegui reduzir a mensalidade de 205 para 170 reais, sem sofrer alterações no pacote.” Outra iniciativa foi conversar com a operadora de telefonia celular em busca de um plano mais econômico. ”A empresa fez uma contraproposta para aumentar a velocidade da internet mantendo o valor. Aceitamos, porque precisávamos de uma conexão melhor.” O casal também dispensou a faxineira e eliminou a compra de itens supérfluos, como vinhos.

Complicado mesmo, segundo a coordenadora de eventos, foi decidir o que fazer com o financiamento imobiliário, a dívida mais alta que possuem. Após negociação, o banco acabou suspendendo o pagamento das parcelas por quatro meses, que será retomado só em agosto. Com as medidas, os dois reduziram os gastos mensais em 3.000 reais. Arthur Igreja, especialista em finanças e professor convidado na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, ressalta que, antes de cortar, vale buscar negociações para minimizar os impactos na qualidade de vida. As instituições, diz ele, estão abertas a isso. “Mudanças drásticas de padrão podem levar à depressão. Não saia cortando tudo desesperadamente logo de cara sem fazer uma avaliação de sua condição. Demonstre interesse em honrar a dívida e dialogue. O fornecedor tem interesse em receber.”

Agora, se você possui empréstimos e financiamentos, há dois caminhos: negociar uma pausa provisória no pagamento das parcelas – grandes bancos, como Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú e Santander passaram a oferecer essa opção a quem está com as contas em dia – ou barateá-las. Verifique se o contrato tem como indexador a taxa básica de juros, Selic, hoje no menor patamar: 3% ao ano. “Se a dívida foi contratada quando a Selic estava em 10%, por exemplo, você consegue um bom argumento para renegociar os juros. Mas isso o banco nunca irá fazer; é o cliente que precisa correr atrás”, afirma Arthur Igreja.

DEVO, NÃO NEGO, PAGO QUANDO PUDER

Se após tomar essas iniciativas ainda assim a receita familiar for insuficiente, contas essenciais, como água, luz, gás, internet e até mesmo o aluguel, podem ser deixadas em segundo plano. O corte de serviços e despejos estão proibidos durante a pandemia. Além disso, a Associação Nacional dos Bureaus de Crédito (ANBC), representante de Serasa, SPC Brasil e outros birôs de crédito, prorrogou de 10 para 45 dias o prazo para o devedor ter o nome negativado. Mas lembre-se de que as dívidas não serão extintas. Por isso, qualquer sobra deve ir para saná-las, priorizando as maiores.

Agora, se não há perspectiva de entrada de receita em breve, a opção é tomar dinheiro emprestado. Nesse caso, por mais difícil que seja, tente primeiro com familiares e amigos ­ apresentando, claro, um plano de pagamento com sugestão de taxa de juros. “Recomendo a busca por alguém próximo, porque se uma pessoa sem renda pedir uma linha de crédito mais barata precisará informar ao banco que está sem renda e, consequentemente, não terá o valor aprovado. E a tendência desse cliente será contratar o que já está disponível, como cheque especial e cartão de crédito [que registram taxas de juros anuais de 132% e 259%, respectivamente].”

A empreendedora Juliana Luiz, de 44 anos, proprietária da JLS, microempresa que organiza eventos culturais de dança e música na cidade de Cubatão (SP), sabe bem disso. Depois que a pandemia paralisou as atividades culturais, o faturamento de seu negócio caiu a zero. Para enfrentar o dilema, ela precisou recorrer aos parentes. Como mora com a mãe e dois irmãos, conversou com eles sobre o que poderia ser feito. Sua reserva financeira deve durar até agosto e não será suficiente para arcar com todos os custos. Hoje, ela paga internet, supermercado e a diarista. Paralelamente, arca com contas particulares, como plano de saúde, seguro do carro e cartão de crédito. “Até as coisas normalizarem, não vou ajudar nas despesas da casa. Como minha mãe é pensionista, decidiu arcar com minha parte por enquanto”, diz Juliana. “Só vou continuar honrando minhas contas pessoais porque tive esse respaldo. Mas sei que nem todos têm a mesma oportunidade.” Se não houver outra saída, Luciana Ikedo, assessora de investimentos, orienta buscar modalidades de crédito mais baratas. Se você perdeu o emprego, mas outro membro da família não, conversem para entender quem pode tomar o empréstimo mais vantajoso, como o consignado ou aqueles que solicitam garantias reais, como antecipação de décimo terceiro, restituição de imposto de renda ou bens como imóvel e carro. Se você possui alguma gordura financeira para queimar, não saia pagando todas as dívidas com esse dinheiro. “Existe a tendência de querer usar a reserva para liquidar todos os compromissos de uma vez. Mas essa não é uma boa escolha. Estamos dirigindo em uma estrada com neblina. Não está claro se daqui a dois ou três meses será preciso usar esse recurso”, alerta Luciana. A orientação é manter o valor que será usado no mês na conta- corrente e dividir a quantia restante entre aplicações com liquidez, como Tesouro Selic, título da dívida do governo indexado à taxa básica de juros, e Fundo DI, que tem a maior parte dos ativos atrelada aos títulos federais. “Mantenha o investimento e faça o resgate à medida que for necessário. E anote o valor que deve a si mesmo para repor a reserva de emergência quando possível.”

MENTE BLINDADA

Nesse processo, é preciso cuidar do psicológico. A neuropsicóloga Adriana Foz, autora do livro Frustração: Como Treinar Suas Competências Emocionais para Enfrentar os Desafios da Vida Pessoal e Profissional, explica que oscilações emocionais prejudicam – e muito – a tornada de decisão. Para enfrentar dificuldades e acalmar a mente diante da inviabilidade de pagar as contas e fazer novas compras, procure se reorganizar com aquilo que já tem. “Dar soluções diferentes para as mesmas situações é um exercício bacana para a mente e para a saúde mental. É uma forma de treinar o cérebro para deixá-lo mais fortalecido.” Outra dica para evitar que o desespero reine é forçar pensamentos positivos, relembrando as conquistas que teve e os desafios que superou. Pode parecer bobagem, mas esse tipo de atitude mental gera confiança, equilíbrio e a certeza de que, apesar de os tempos serem complexos, sobreviveremos a eles.

CUIDADO COM AS PROMOÇÕES

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que o impacto na renda e o medo do desemprego levaram 77% dos consumidores a reduzir a compra de diversos itens durante a pandemia. Ou seja, de cada quatro brasileiros, três reduziram gastos. Isso tem levado marcas a fazer promoções online agressivas. Mesmo que sua renda não tenha sido afetada, especialistas recomendam fugir das tentações, que podem ser ainda maiores no isolamento. Quando estamos em casa, começamos a notar várias coisas que não temos e gostaríamos de ter: um liquidificador novo, uma batedeira mais potente. São necessidades que podem parecer urgentes, mas não são. “Administrar o desejo de consumo é essencial, porque não existe clareza sobre quando haverá retomada da atividade econômica”, diz a assessora de investimentos Luciana lkedo. Marco Harbich, da Planejar, recomenda a metodologia dos “Ps”: “Preciso? Posso?”. Primeiro, reflita se realmente necessita do produto e, depois, se o orçamento permite comprá-lo com tranquilidade. Essas duas indagações são essenciais para fazer escolhas de consumo.

PLANO DE CONTINGÊNCIA

1 – Se ficou sem salário e não possui reservas, busque maneiras rápidas de reduzir despesas do dia a dia e priorize itens básicos, como alimentos e medicamentos. Contas consideradas essenciais, como luz, água e gás, podem ser suspensas.

2 – Se tiver reservas financeiras, tente preservá-las ao máximo. Nada de sair por aí quitando todas as pendências (como as parcelas do financiamento do carro e do imóvel), porque você não sabe se precisará do dinheiro nos próximos meses.                                                                                            

3 -Antes de cortar serviços como internet, tv a cabo e celular, negocie com os fornecedores. você pode conseguir descontos sem optar pelo cancelamento. Por outro lado, se ficou sem renda, cancele supérfluos.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

A SÍNDROME DO CORAÇÃO PARTIDO

A doença é causada sobretudo pelo estresse, potencializado atualmente pela Covid. Coloca em alto risco o funcionamento cardíaco e pode matar

que se vive sob o pavor e o estresse do novo coronavírus. “Grandes tragédias, como a Covid-19, causam estresse e dele decorre graves problemas no coração”, diz o cardiologista Sergio Timerman, do Instituto do Coração de São Paulo e integrante da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Nessa enfermidade os sintomas são os mesmos do infarto agudo — dores no peito e muita dificuldade para respirar —, só que acrescidos de uma inflamação do ventrículo esquerdo do coração, o que dá ao órgão o formato da armadilha citada no início desse texto. “A diferença é que essa síndrome não causa obstrução das artérias, mas, sim, uma alteração no músculo do coração”, diz Timerman.

A situação de exacerbado estresse induz a produção demasiada de substâncias estimulantes no organismo, sobretudo a adrenalina, que leva tal órgão a trabalhar mais rapidamente e com maior vigor. Até aí tudo bem, não fosse o fato de que tal rapidez e tal energia ocorrem em excesso. Esse é o mecanismo biológico que enquadra uma pessoa no diagnóstico de Síndrome do Coração Partido. “As cotecolaminas, hormônios que estão presentes em nosso organismo, são imprescindíveis para o funcionamento do mecanismo biológico que, diante de uma adversidade, nos leva a lutar ou a fugir”, diz Antônio Eduardo Pesadro, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein.

De volta ao estudo da americana Cleveland Clinic, foram analisados 1.914 pacientes por cinco momentos diferentes e durante dois meses. Desmontou-se um mito: aquele de que a enfermidade ocorria sobretudo em mulheres no período pós-menopausa. No Brasil, estima-se que quatorze milhões de pessoas sofram de males cardíacos, traduzindo-se em 30% de todas as mortes no País — são 30 mil óbitos por ano. Esse é o principal motivo que levou a Sociedade Brasileia de Cardiologia a iniciar um estudo de quantos episódios de Coração Partido estão incluídos nesses trágicos números.

EXAME ESPECÍFICO

O médico assistente do Instituto do Coração Roque Marcos Savioli, doutor em Cardiologia pela USP, conta que, em um de seus plantões, atendeu uma senhora de 80 anos em situação de emergência cardíaca. Ele só descobriu que se tratava de um caso de Síndrome do Coração Partido ao realizar um cateterismo: “Nos outros exames, a situação da paciente estava normal. Só depois do cateterismo vimos a imagem de Takotsubo”. Na verdade, há tantas doenças ao todo, que existe um esforço internacional para melhor compreendê-las. Tanto é assim, que o Centro Nacional de Pesquisa Médica em Cardiologia da Rússia juntou pesquisadores americanos e europeus e realizaram uma videoconferência sobre esse vasto universo médico. Um dos temas priorizados foi justamente a Síndrome do Coração Partido.