EU ACHO …

QUANDO A PANDEMIA NOS DEIXA SOZINHOS, ANSIOSOS E DEPRIMIDOS

Estamos em uma crise dupla, de saúde física e mental. Mas existem formas de evitar o colapso

Por quase 30 anos – a maior parte da minha vida adulta – eu lutei contra a depressão e a ansiedade. Apesar de nunca me sentir sozinho em tais aflições cotidianas – o segredo de família que todos compartilham -, agora eu descubro que tenho mais colegas de sofrimento do que jamais pude imaginar.

Em uma questão de semanas, os sintomas familiares da doença mental se tornaram uma realidade universal. Uma nova pesquisa da Kaiser Family Foundation observou que quase metade dos entrevistados disse que sua sanidade está sendo afetada pela pandemia do novo coronavírus. Praticamente todo mundo que eu conheço foi catapultado para diferentes graus de angústia, pânico, desesperança e medo paralisante. Se você disser “Estou tão aterrorizado que mal consigo dormir”, as pessoas podem responder “Quem, em sã consciência, não está?”.

Mas essa resposta pode nos levar a perder a dimensão da perigosa crise secundária que se desdobra ao lado daquela mais óbvia: uma escalada de doenças mentais, no curto e no longo prazo, que pode durar décadas depois do fim da pandemia. Enquanto todo mundo relata estar sentindo depressão e ansiedade, problemas mentais raros, de ordem médica, podem passar despercebidos.

Enquanto governos nacionais e locais (alguns preocupantemente mais lentos do que outros) reagiram à propagação do coronavírus de formas objetivas, o reconhecimento dos riscos à saúde mental tem sido superficial. O governador de Nova York, Andrew Cuomo, que até agora recrutou mais de 8 mil profissionais de saúde mental para ajudar os nova-iorquinos em apuros, é uma honrosa exceção.

O governo da China mandou psicólogos e psiquiatras para a cidade de Wuhan, durante o primeiro estágio de quarentena. Nenhuma medida comparável foi tomada até agora pelo governo americano.

A diferença de postura em relação aos dois tipos de saúde – física e mental – é coerente com a atual falta de consideração da nossa sociedade com a estabilidade psicológica. Os convênios não oferecem a real paridade de cobertura, e o tratamento para desordens de comportamento é geralmente considerado um luxo. Mas estamos em uma dupla crise de saúde física e mental, e aqueles enfrentando desafios psiquiátricos merecem tanto reconhecimento quanto tratamento.

As ramificações da pandemia na saúde mental foram identificadas há muito tempo, mas sistematicamente ignoradas pelo governo. Um estudo após o surto de H1N1 em 2013 disse: “Porque as pandemias são tragédias singulares e não incluem locais de congregação para suporte e recuperação prolongados, elas exigem estratégias de resposta especificas para garantir as necessidades comportamentais de saúde de crianças e famílias. Os planos de combate a pandemias devem contemplar essas necessidades”. Outro estudo afirmou: “Embora as informações para os aspectos médicos das epidemias estejam cada vez mais disponíveis, há pouca orientação para os centros de saúde sobre como gerenciar os aspectos psicológicos de desastres em larga escala, que podem envolver um surto de vítimas psicológicas”.

Existem mais ou menos quatro respostas à crise do coronavírus e ao seu consequente isolamento social. Algumas pessoas aceitam tudo com tranquilidade e contam com uma base de inabalável estabilidade psíquica. Outros são os preocupados, que precisam apenas de um pouco de primeiros socorros psicológicos. Um terceiro grupo, que ainda não experimentou esses distúrbios, está sendo catapultado para eles. Por fim, muitos que já saíram de um transtorno depressivo maior tiveram sua condição exacerbada, desenvolvendo o que os médicos chamam de “depressão dupla”, na qual um transtorno depressivo persistente é sobreposto por um episódio de dor insuportável.

O isolamento social gera pelo menos tanto aumento de casos de doença mental quanto o medo do próprio vírus. Julianne Holt-Lunstad, psicóloga, descobriu que o isolamento social é duas vezes mais prejudicial à saúde física de uma pessoa do que a obesidade. O confinamento solitário nos sistemas prisionais causa ataques de pânico e alucinações, entre outros sintomas. O isolamento pode até tornar as pessoas mais vulneráveis à doença que se tenta prevenir: os pesquisadores determinaram que “o sistema imunológico de uma pessoa solitária responde diferentemente ao combate aos vírus, aumentando a probabilidade de desenvolver uma doença”.

A crença de que as coisas não estão bem é razoável; a crença de que nada voltará a ficar bem parece indicar uma condição clínica. Um ajuste gradual à nossa circunstância incomum é a trajetória apropriada; a sensação de que a cada dia isso se torna mais insuportável é patológica. Existe a mais fina das membranas entre a ansiedade sensível e a irracional, em uma espiral. Eu sei que tenho as duas, mas tentar separá-las é como desfazer o nó górdio.

Temos dois gatilhos para a doença mental na crise atual: tristeza, quando tememos por nossas vidas, e estresse, quando nossos apegos emocionais diminuem como resultado do isolamento social. Como país, não tomamos as medidas adequadas para lidar com nenhuma dessas crises, e falhamos especialmente na segunda.

A propagação do vírus não pode ser atenuada por enquanto, mas o medo antecipado que ele instiga pode ser atenuado pelas tradicionais formas de intensificar os medicamentos e o contato com os terapeutas. Buscar tais apoios não é uma fraqueza ou um fracasso. Faça o que for preciso para não ter um colapso. É muito mais fácil prevenir do que reparar, e temos boas ferramentas para evitar a sobrecarga psíquica.

O isolamento também tem remédios. As confraternizações com Zoom e FaceTime não servem adequadamente para muitas pessoas. Devemos observar caso a caso quando os benefícios para a saúde mental de ver alguém que você ama (mesmo fora e a um metro e meio de distância) são maiores que os perigos que um encontro pessoal pode trazer para a saúde.

O medo do contágio levou as pessoas a um comportamento que agrava a depressão e a ansiedade e, portanto, pode levar ao suicídio – aumentando a mortalidade da covid-19 entre as pessoas que nem a têm. Pessoas solitárias podem sucumbir à “privação de contato” e precisam ser abraçadas. Tiffany Field, diretora do Instituto de Pesquisa de Toque da Miller School of Medicine da Universidade de Miami, afirma que a privação de toque exacerba a depressão e enfraquece o sistema imunológico; o toque positivo estimula o nervo vago e reduz o cortisol, um hormônio do estresse que pode prejudicar a resposta imune. Deveríamos descobrir quando e como as pessoas privadas de contato podem obter o contato físico necessário, com a maior segurança possível. Não será completamente seguro – mas a privação também não o é. Se a pessoa está morrendo de vontade de tocar, toque, por mais regulamentado que seja. Torna-se um remédio necessário. Não é caro nem complicado.

Essas são as maneiras de transcender a patologia. Como alguém que já tinha depressão e ansiedade, eu não queria encarar um curso intensivo de empatia, mas já tive um. Sinto-me singularmente bem posicionado para confortar aqueles que estão em seu primeiro mergulho na depressão, e diariamente alcanço aqueles que precisam de contato, psicológico ou físico. Tornou-se um chamado para mim.

Eu posso ajudá-los a avaliar o que é patológico e remediável. Conheço esses becos indesejáveis – e os caminhos de saída deles – como a palma da minha mão. Não é que um antidepressivo vai deixar as pessoas sem medo desse vírus misterioso e terrível, nem que um único abraço vai atenuar a profunda solidão. Mas podem ajudar.

Outro dia, nosso filho, em idade de quinta série, disse trêmulo: “Quanto tempo vai levar para eu ver meus amigos novamente? O que vamos fazer se eles cancelarem o acampamento?”. E então ele perguntou, mais trêmulo: “E se você e papai morrerem? 0 que vai acontecer comigo?”. Ele estava mostrando algumas das minhas tendências depressivas ou estava apenas assustado e triste? Ele saiu rapidamente e não voltou ao assunto, embora eu tenha deixado claro que ele pode. É meu projeto de galvanização manter uma cara boa diante dele. Ser forçado a negar a depressão pode ser uma tirania social perigosa, mas a escolha de derrotar os sinais externos em alguém mais vulnerável me motiva. Em parte, por causa dele, ajustei meus remédios e estou em contato com meu terapeuta, e me empenho em abraçá-lo e abraçar meu marido, sabendo que nós três salvamos um ao outro.

Faço uma caminhada diária na natureza com meu filho e nosso cachorro. Às vezes, ele e eu pulamos num trampolim, que, apesar de dar um tranco nas costas, é imensamente reconfortante. Meu marido, meu filho e eu nos juntamos para assistir a um filme todas as noites; meu marido também está lendo obsessivamente livros sobre epidemias, da peste negra à pandemia de gripe espanhola, e aprendendo português pela internet. Todos nós encontramos conforto de maneira curiosa.

As autoridades continuam dizendo que a covid-19 passará como a gripe para a maioria das pessoas que a contraem, mas é mais provável que seja fatal para as pessoas mais velhas e para as pessoas com complicações prévias. O grupo de risco deve, no entanto, incluir a depressão gerada por medo, solidão ou tristeza. Devemos reconhecer que, para uma grande parte das pessoas, a medicação não é uma indulgência e o contato físico não é um luxo. Para muitos de nós, o protocolo de álcool em gel e máscaras inadequadas não é nada, comparados à tarefa diária de desinfetar a própria mente.

*Este artigo foi publicado originalmente no Jornal americano The New York Times

***ANDREW SOLOMON – Professor de psicologia clínica na Columbia University Medical Center e autor de Longe da Árvore, O Demônio do Meio-Dia e Lugares Distantes.

OUTROS OLHARES

ANTIVIRAL E FASHION

Fabricantes lançam roupas que seriam imunes à contaminação pelo coronavírus. A tendência ganhou tração e deve levar a uma nova era de inovação no setor

O tão esperado novo normal ganhou uma faceta mais estilosa. Como forma de oferecer proteção contra a Covid-19, algumas marcas de roupa lançaram nos últimos dias tecidos que, segundo garantem, são capazes de neutralizar o novo coronavírus. Por ser um dos países com maior incidência da doença, o Brasil tem recebido ampla oferta de peças supostamente imunes. Na maioria dos casos, o tecido é comprado da empresa suíça HeiQ, que alega que o material utilizado na confecção foi exaustivamente testado por cientistas. Entre as empresas brasileiras que fizeram negócio com a HeiQ está a multinacional Vicunha, que nos próximos dias apresentará ao mercado seus jeans antivirais e antibacterianos. “Nosso objetivo é atender aos anseios do novo consumidor em um mundo em transformação”, afirma German Alejandro, diretor de marketing e vendas da Vicunha. Outro caso é o da marca catarinense Malwee, que lançou há algumas semanas camisetas e máscaras também teoricamente à prova do coronavírus.

Desde que os primeiros casos surgiram na China, diversas empresas largaram em uma corrida para desenvolver produtos capazes de bloquear a ação do vírus. Criada em 2004 por estudantes de iniciação científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Nanox especializou-se em nanotecnologia e usou sua experiência na área para criar um tecido feito a partir de micropartículas de prata. Segundo a empresa, isso é suficiente para eliminar, em três minutos, quase 100% do vírus da Covid-19 que entrar em contato com a roupa. Uma das maiores indústrias químicas do mundo, a Rhodia desenvolveu no Brasil um fio de poliamida que, conforme assegura a companhia, possui propriedades antivirais e antibacterianas. A substância pode ser aplicada em vestimentas e bancos de veículos, na forma de capas protetoras. A Rhodia diz que a tecnologia é também uma forma de tornar o transporte público mais seguro, pelo menos enquanto não sair uma vacina. Fabricado no Brasil, o tecido já está sendo exportado para a Itália, além de ser vendido para algumas marcas nacionais. Entre os clientes da Rhodia está a Lupo, gigante nacional de moda íntima que produziu 2 milhões de máscaras feitas com o fio de poliamida.

Não foram apenas os fabricantes de jeans e camisetas convencionais – os chamados modelos básicos – que aderiram ao movimento. A marca brasileira fashion J. Boggo+ lançou uma coleção inteira de vestidos, túnicas, calças e blusas feita com tecidos antivirais. Nos Estados Unidos, a grife Vollebak confeccionou jaquetas revestidas com um tipo de cobre que, de acordo com pesquisas feitas pela empresa, mata vírus e bactérias. Grandes varejistas brasileiras como Riachuelo e Renner estão atentas a esse novo mercado e não descartam investir em linhas próprias de peças que seriam capazes de aniquilar a Covid-19 e outros vírus, embora não forneçam informações sobre o tema. Segundo especialistas, a tendência veio para ficar e a busca por inovações nessa área deverá ser uma obsessão das empresas a partir de agora. Diante da tecnologia necessária para a produção dessas peças, é de imaginar que o preço das roupas seja salgado. Não é ocaso. As camisetas vendidas pela Malwee custam 49,90 reais, o mesmo de um modelo convencional. Há uma explicação para isso. Os baixos valores se devem ao desgaste rápido das roupas. Em todas as peças antivirais, os componentes químicos presentes nas vestimentas, responsáveis por torná-las aparentemente imunes ao coronavírus, são enfraquecidos cada vez que a peça vai para a lavadora. Na maioria dos casos, a propriedade antiviral das roupas só é garantida até a trigésima lavagem, o que reduz bastante a vida útil das peças. Outro aspecto que merece atenção especial dos consumidores diz respeito à serventia das roupas no combate a doenças. Elas entregam o que prometem? “Tecidos antivirais são, sim, eficazes “, afirma João Prats, infectologista do Hospital Beneficência Portuguesa. “No entanto, não sabemos se esses modelos são realmente úteis no caso do coronavírus. De forma geral, a Covid-19 dura pouco tempo em tecidos e é raro que roupas sejam grandes fontes de contaminação.” Os consumidores parecem confiar nas alegações das empresas. Apenas 72 horas após o lançamento da linha antiviral, todas as 40.000 máscaras da Malwee desapareceram dos estoques. Pelo visto, não vai demorar muito para as peças antivirais entrarem definitivamente na moda.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 26 DE JULHO

TRIUNFO CONSTANTE

Graças, porém, a Deus que em Cristo sempre nos conduz em triunfo… (2Coríntios 2.14a).

A vida cristã é uma carreira triunfante, mesmo constituindo-se em uma jornada por caminhos crivados de espinhos. Podemos ter um otimismo indestrutível não em virtude das facilidades da peregrinação, mas apesar das agruras da caminhada. Não porque pisamos em tapetes aveludados, mas apesar de cruzarmos desertos causticantes. Nosso entusiasmo não provém das circunstâncias, mas do Deus que controla as circunstâncias. Nosso sucesso não vem de nós mesmos, vem de Deus. Não vem de dentro, vem de cima. Não é fruto da autoajuda, mas da ajuda do alto. É Deus quem nos conduz em triunfo. E isso não por causa de nossos dons e talentos, mas pelo triunfo de Cristo. Todas as bênçãos que temos, nós as recebemos de Deus por meio de Cristo. Não é uma questão de mérito, mas uma expressão de graça. Triunfamos não porque somos fortes, mas apesar de sermos fracos. Não porque somos sábios, mas apesar de sermos limitados. Não porque somos ricos, mas apesar de sermos pobres. O triunfo não é conquista, é dádiva. Não o recebemos como prêmio, mas como presente imerecido. Na verdade, tudo provém de Deus, para que toda a glória seja dada a ele. Deus, e não o homem, é a origem de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o agente de todas as coisas. Deus, e não o homem, é o fim de todas as coisas. Porque de Deus, por meio de Deus e para de Deus são todas as coisas. A Deus, pois, seja a glória pelos séculos dos séculos!

GESTÃO E CARREIRA

A FEBRE DAS MARMITAS

Para economizar ou se alimentar melhor, as pessoas estão consumindo comidas prontas saudáveis. Tocar um negócio nesse segmento exige mais do que que preparar uma refeição bem temperada

Os brasileiros que não têm oportunidade de cozinhar e que, ao mesmo tempo, estão em busca de pratos mais saudáveis a um preço acessível têm enxergado na compra de marmitas caseiras uma alternativa para o dia a dia. Esse mercado ganhou mais espaço nos últimos cinco anos. A explicação vem da crise econômica que deixou mais de 12 milhões de pessoas sem emprego. “Muita gente parou de consumir refeições em restaurantes e recorreu às tradicionais marmitas, que, em geral, são mais baratas. Foi quando vimos brotar vários negócios, principalmente de microempreendedores individuais, os MEIs”, explica Karyna Muniz, consultora do Sebrae São Paulo. Dados do Ministério da Economia apontam que o número de empresários do ramo de alimentação para consumo domiciliar (o que inclui os marmiteiros) cresceu muito nos últimos anos. Em 2014, eram 102.100. Em 2020, são 247.700 – um salto de 142%.

MAIS DO QUE BOM TEMPERO

Em geral, a necessidade de urna renda imediata é o que atrai empreendedores para esse ramo. Embora à primeira vista possa parecer um segmento fácil de atuar, já que muita gente começa a preparar as refeições na cozinha de casa, há diversas normas sanitárias a serem seguidas. A resolução federal da Anvisa RDC 216, de 1999, que trata sobre as Boas Práticas para Serviços de Alimentação, é uma das mais importantes. O documento recomenda, por exemplo, que a área onde serão produzidas as marmitas seja segregada do restante da residência – não é uma lei, mas uma sugestão para quem quer se profissionalizar no setor. “Qualquer um pode começar a empreender dentro de casa, mas, quando a gente fala de transformação de insumos que serão ingeridos por humanos, deve-se seguir mais à risca as legislações, mesmo que seja no ambiente doméstico”, diz Karyna. É fundamental saber, especialmente, a forma correta de manusear e armazenar os alimentos. A especialista do Sebrae explica, por exemplo, que para congelar um alimento de forma segura é preciso submetê-lo a uma temperatura de, no máximo, 12 graus negativos, o que não é garantido por um freezer doméstico. O que aparenta ser um mero detalhe pode tornar a refeição imprópria para o consumo e, como consequência, desencadear problemas de saúde entre os clientes – e sérios prejuízos para o empreendedor. “Ele pode responder legalmente e criminalmente se algum consumidor tiver urna intoxicação alimentar”, explica. Por isso a profissionalização do segmento é tão necessária. Para o empreendedor que tem uma verba disponível, vale a pena investir, desde já, na adequação de um espaço exclusivo para o preparo dos pratos. Será necessário desembolsar, em média, 30.000 reais. A adequação deve incluir colocação de piso antiderrapante; bancada de inox; pia exclusiva para lavar as mãos; instalação de telas nas janelas para evitar a entrada de insetos; lixeiras com pedal; além de aparelhos eletrodomésticos que  devem ser usados exclusivamente para o preparo dos pratos que serão comercializados  (como freezer, fogão, geladeira e forno). “Atendendo a esses requisitos, o empresário terá mais chances de evitar a incidência de contaminação cruzada e a proliferação de bactérias”, diz Karyna.

Se não tiver verba suficiente para montar uma estrutura conforme manda a lei, o empreendedor pode recorrer às cozinhas compartilhadas, como é o caso da Oficina na Mesa e do Hub Foodservice, localizados em São Paulo e que funcionam como uma espécie de coworking voltado para o ramo de alimentação. “O usuário paga por hora para usar equipamentos industriais próprios para a produção de pratos em maior escala”, diz Karyna. Depois de escolher o local é importante definir um cardápio semanal para comprar com inteligência os ingredientes que serão usados no preparo das marmitas.

CAMINHO DAS PEDRAS

Muitos se assustam com isso, mas formalizar o negócio traz vantagens. Quando se torna uma pessoa jurídica, o empreendedor tem acesso a benefícios como a possibilidade de barganhar preços menores na compra de ingredientes. “Sem CNPJ, ele vai ter de comprar insumos no varejo, que são mais caros do que os vendidos por distribuidores ou atacados, que só vendem para empresas”, diz a especialista do Sebrae. Para quem acabou de abrir o próprio negócio, a orientação é se cadastrar como Microempreendedor Individual no Portal do Empreendedor. A modalidade é indicada para empresas que faturam até 81.000 reais por ano e têm até um empregado.

Além disso, para quem es tá começando, a dica é receber os pedidos com pelo menos 24 horas de antecedência e, com isso, evitar entregar as marmitas com atraso. Quanto ao armazenamento, é imprescindível que as refeições sejam colocadas em embalagens certificadas. Outra orientação refere-se ao cadastro em aplicativos de entrega. O empreendedor que, logo de cara, opta pelo app para comercializar os pratos, pode acabar se enrolando com a demanda. “Não dá para saber a quantidade de pedidos que serão feitos, e ele poderá não dar conta. O ideal, portanto, é migrar para as plataformas só depois de ter uma produção estruturada”, acrescenta Karyna. No começo, a orientação é usar o próprio carro para fazer a entrega ou oferecer ao cliente a opção de retirar o pedido no local.

COMO SE DESTACAR

Quem quer empreender no ramo de marmitas deve encontrar um diferencial competitivo – só assim o negócio irá parar de pé. Para isso, é fundamental entender que existem dois grandes guarda-chuvas nesse mercado. O primeiro deles inclui a produção de pratos tradicionais. “Nesse caso, o principal apelo é oferecer uma refeição que tenha preço acessível e que contenha elementos de comfortfood, ou seja, com gosto de comida de casa, como a mãe da gente fazia”, explica Sérgio Molinari, sócio da Food Consulting, consultoria especializada em alimentação.

Foi justamente pensando em atender às necessidades dessas pessoas que o publicitário Nelson Andreatta, de 39 anos, fundou, em 2018, a Eats For You, plataforma que conecta pessoas que gostam de cozinhar a consumidores que estão à procura de uma refeição caseira para almoçar. A ideia surgiu em 2016 quando o empreendedor, que ainda administrava sua agência de publicidade e propaganda em Cuiabá, em Mato Grosso, se cansou das opções de refeições oferecidas ao redor do escritório. “Um dia tivemos uma reunião que terminou próximo ao horário do almoço e meu sócio perguntou onde iríamos comer. Me lembrei de todos os restaurantes da redondeza e não tive vontade de ir a nenhum deles. O que eu queria era uma comida caseira”, diz Nelson.

Ao olhar pela janela do escritório, imaginou quantas pessoas estavam em casa, naquele momento, preparando o próprio almoço. Assim, vislumbrou a oportunidade de lançar sua startup. O empreendedor e sua sócia, Ester Scheffer, investiram 150.000 reais de capital próprio para desenvolver a plataforma, que demorou cerca de um ano para ficar pronta. “O objetivo era formar uma rede de conexão de cozinheiros e cozinheiras, levando a produção de refeições a uma escala industrial, mas de forma artesanal, além de proporcionar geração de renda para essas pessoas”, explica Nelson. Porém, em vez de Cuiabá, o destino escolhido para operar o negócio foi São Paulo. “Quando chegamos à conclusão de que a ideia era original, precisávamos marcar território e ir para um grande mercado.”

Mas para driblar o atraso na entrega na hora do almoço, que é comum – seja pelo excesso de pedidos, seja pelo trânsito intenso dos centros urbanos -, o empresário optou por um novo modelo. Em vez do tradicional delivery, estabeleceu pontos para o cliente retirar pessoalmente sua comida: foodbikes que armazenam as refeições. Ao todo, são 17 espalhadas por bairros localizados nas cidades de São Paulo, Barueri (SP), e Curitiba (PR). Funciona assim: o consumidor compra as refeições por meio do aplicativo e retira seu pedido no ponto mais próximo. “Como as pessoas têm 1 hora de intervalo, se o motoboy atrasa, o cliente pode ficar sem tempo para fazer a refeição”, diz Nelson.

Mas esse modelo teve de ser revisto durante a pandemia de coronavírus, que fez com que as cidades implementassem o isolamento social e as empresas adotassem o home office. Sem os pontos de retirada, as vendas da Eats For You chegaram a zero, e a alternativa foi aderir ao delivery – algo que deve ser mantido quando a crise passar. A startup também está incentivando clientes e empresas a doar marmitas para instituições que atendem moradores de rua – mais uma forma de manter a renda dos cozinheiros da plataforma. “Muita gente depende do nosso trabalho. Era um compromisso moral manter a engrenagem funcionando”, diz Nelson. A empresa não quis revelar o faturamento, mas cresceu 205% em 2019 e emprega, atualmente, 20 funcionários diretos. Em 2019, a Eats For You anunciou uma rodada de investimentos no valor de 767.500 reais, com a participação dos fundos Bossa Nova Investimentos – que já havia investido na plataforma anteriormente – e GVAngels, grupo de investidores-anjo formado por ex-alunos da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A rodada de investimentos segue aberta e, até o fim do primeiro trimestre de 2020, a startup recebeu 1,5 milhão de reais.

A BUSCA POR UM NICHO

Além das comidas caseiras, outro nicho de atuação é o de pratos especializados, que se fortalece pela vontade dos clientes de consumir opções orgânicas e saudáveis. Nesse caso, de acordo com Sérgio, da Food Consulting, o chamariz é o benefício proporcionado pela comida. Em geral, o cliente que opta por esse tipo de cardápio está disposto a pagar mais. O especialista orienta o pequeno empreendedor a se abrigar nesse espaço e fugir da guerra de preços – uma vez que o mercado mais acessível já foi conquistado por grandes empresas, que conseguem produzir em larga escala e, portanto, reduzir o valor para o consumidor final. “Com o passar do tempo, se o pequeno empreendedor não tiver nenhum diferencial além do preço, como um produto bacana, uma embalagem bem tratada ou uma entrega especial, ele será esmagado por forças maiores”, explica. Por isso, a dica do especialista é ficar de olho em nichos para atuar.

Foi justamente o que fez a nutricionista Fernanda Casstillo Amparo, de 38 anos, que vende marmitas saudáveis para empresas e hospitais. A paulista, que é diabética, sempre levou para o hospital em que trabalhava a própria refeição, preparada pela mãe, Maria Margherita do Amparo. O cheiro da comida caseira aguçava a vontade dos colegas, o que fez Fernanda enxergar uma oportunidade. Como ela não queria abandonar o emprego estável, convenceu a mãe (até então dona de casa) a preparar refeições para ser vendidas aos colegas do hospital. Em 2016, nasceu a Naturale Marmitaria. “Ao ver meus pais envelhecendo, comecei a pensar em ter uma empresa familiar para complementar a renda, pois uma hora eles iriam depender somente de aposentadoria”, diz Fernanda.

Paralelamente ao trabalho no hospital, Fernanda se inscreveu como MEI e foi estudar finanças e marketing para aprender mais sobre a jornada empreendedora. Com o boca a boca e a distribuição de panfletos em estabelecimentos comerciais, as vendas se intensificaram. Um ano e meio depois, a cozinha da casa dos pais não era mais suficiente para atender aos pedidos. Em 2018, Fernanda usou parte do dinheiro da venda de um apartamento para reformar o salão de festas no fundo da residência e montou uma nova cozinha. A reforma, que custou cerca de 20.000 reais, incluiu a troca de pisos e azulejos, além da compra de utensílios como freezer, fogão industrial e coifa. Foi nessa época que Fernanda – que até então atuava com a venda de marmitas para pessoas físicas – decidiu ampliar seu foco de atuação. Além de atender o público em geral, a Naturale passou a oferecer refeições para o segmento corporativo. A estratégia ajudou a enfrentar a alta concorrência que o segmento ganhou nos últimos anos. O faturamento mensal saltou de 25.000 (em 2018) para 80.000 reais. Com seu negócio a pleno vapor, Fernanda pediu, em abril de 2019, um afastamento não remunerado do hospital em que era concursada. “Os últimos dois anos foram de crise, e muita gente começou a trabalhar com marmita. Foi quando decidimos nos reinventar e atender esse nicho de pessoas jurídicas.” A Naturale, que tem atualmente dez funcionários, vende, em média, 8.000 marmitas por mês. O preço varia de 16 a 23 reais. E a empresa tem contrato assinado com sete companhias, com prazos de prestação de serviço que variam entre um e três anos. Com a covid-19, que colocou muitos funcionários em home office, Fernanda inovou: disponibilizou vouchers para que os funcionários de seus clientes pudessem pedir as refeições de casa.

PEQUENOS PRODUTORES

A Liv Up, startup que vende pratos congelados, saladas, snacks e sucos, tenta se diferenciar pelo uso dos ingredientes: as matérias-primas das marmitinhas são orgânicas e fornecidas por pequenos produtores rurais. A plataforma, lançada em 2016, surgiu de uma insatisfação dos sócios Victor Santos e Henrique Castellani, ambos com 31 anos, que tinham dificuldade para encontrar alimentos saudáveis, práticos e com preços acessíveis no dia a dia de trabalho. Os dois atuavam no mercado financeiro e não tinham relação nenhuma com o universo da gastronomia. Porém, o fato de Henrique ser de uma família de pequenos produtores ajudou a dupla a dar o pontapé inicial no negócio. “Começamos a pesquisar sobre tecnologias que poderiam auxiliar a garantir essa entrega de comidas práticas, saudáveis e saborosas, até que conhecemos a técnica de ultracongelamento com a qual trabalhamos e que é um de nossos diferenciais hoje”, reitera Victor. Do planejamento à abertura das portas foram quatro meses. O investimento inicial no projeto foi de aproximadamente 1 milhão de reais (300.000 reais em economias próprias e o restante formado por aportes feitos por amigos e parentes). Atualmente, 25 produtores familiares de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina abastecem a Liv Up com alimentos orgânicos. “Os diferentes locais nos ajudam a contornar questões como sazonal idade e clima.” A empresa, que opera em 40 cidades e tem mais de 500 funcionários, chega a vender cerca de 300.000 refeições por mês. Embora não divulgue o faturamento, a startup estima triplicar de tamanho até o fim de 2020. O resultado deve ser impulsionado, principalmente, pelas novas unidades de negócios inauguradas no início do ano: o Liv Up station, para atender o mercado corporativo, e a cloud kitchen, um serviço de delivery especializado em saladas.

MARGEM APERTADA

Veja qual é a porcentagem do faturamento que deve ser reinvestida na empresa

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

UMA DROGA CHAMADA PAIXÃO

Avanços das neurociências e da psicologia nos ajudam a compreender os mecanismos biológicos do amor

Quem já se apaixonou sabe: quando vivemos essa experiência nos transformamos. O amor é capaz de nos levar ao desespero ou ao êxtase. E talvez até à guerra, se considerarmos a história do rapto de Helena e à campanha contra Tróia. Hoje, graças aos progressos das neurociências e da psicologia comportamental, começamos a compreender as bases biológicas profundas e os mecanismos subjacentes ao que se passa em nós quando experimentamos sentimentos de paixão, afeto ou contentamento. As descobertas revelam algumas pequenas surpresas. Examinados do ponto de vista biológico, muitos dos véus românticos que recobrem o fenômeno do amor desprendem-se facilmente. No entanto, um permanece: o do desejo sexual. Quando buscam sua origem, os cientistas logo esbarram numa série de enigmas. Por que desejamos uma pessoa específica? A que se deve o fato de sentirmos paixão ou desejo?

Em primeiro lugar, há que se fazer uma observação. Existe uma diferença fundamental entre o prazer por alguma coisa e o prazer em alguma coisa – ou seja, entre as sensações que temos quando almejamos algo e o que sentimos ao obtê-lo. Especialistas diferenciam aqui o prazer ou desejo apetitivo (por algo) do consumado (em algo). Além disso, desejo e amor não constituem um fim em si mesmos: têm metas biológicas palpáveis e concretas.

O prazer sexual não se desenvolveu visando a satisfação pessoal, mas para encorajar a reprodução. Tampouco as sensações profundas comumente etiquetadas como “amor” podem negar seu pano de fundo biológico: auxiliam no estabelecimento e na manutenção de um vínculo entre parceiros. Esses mecanismos são comandados por estruturas cerebrais particulares e por neurotransmissores. Prazer e amor são, portanto, essencialmente produzidos no cérebro e determinam nosso comportamento em função de um objetivo.

Quando se trata de considerar quem nos desperta a libido, um aspecto fundamental se impõe: orientação sexual depende em primeiro lugar da nossa própria sexualidade. O interesse por uma pessoa não se define apenas pelas características do corpo do outro, mas principalmente por aspectos psíquicos e cerebrais de quem sente a atração. Fundamental importância têm aí os hormônios, e sobretudo os sexuais. Muito antes da puberdade, eles encaminham o desenvolvimento não apenas de nossos órgãos genitais, mas também de partes do cérebro rumo ao masculino ou feminino.

Antes mesmo do nascimento, começam a atuar. Num feto geneticamente masculino, pequenas quantidades do hormônio sexual testosterona chegam ao cérebro no último terço da gravidez, influenciando seu desenvolvimento. Receptores sensíveis a esses hormônios sexuais encontram-se em numerosas regiões cerebrais. Pela determinação do sexo respondem sobretudo receptores hormonais situados no hipotálamo. Quando a testosterona exerce sua influência durante a fase pré-natal crítica, o cérebro será masculino. Na ausência desse hormônio, feminino.

Curiosamente, porém, não é a testosterona em si que surte efeito nesse processo: antes, ela é transformada em estrogênio, em geral conhecido pelos leigos como o hormônio sexual feminino. Fetos geneticamente femininos se protegem dessa ação específica do estrogênio auxiliados pela alfafetoproteína. Durante o desenvolvimento do cérebro, a testosterona interfere num processo natural fazendo com que células nervosas supérfluas sejam descartadas. Graças a essa interferência, morrem menos neurônios, razão pela qual a área frontal do hipotálamo dos mamíferos de sexo masculino é bem maior e mais rica em neurônios. Nos humanos, porém, essa diferença é menor do que, por exemplo, nas ratazanas.

PREFERÊNCIA SEXUAL

O hipotálamo é de especial importância na orientação e no comportamento sexual. Isso se evidencia no fato de as células nervosas do hipotálamo anterior exibirem intensa atividade quando um animal macho se aproxima de um parceiro sexual ou quando copula. Se essa região estiver lesada, o comportamento sexual dos machos no tocante à cópula será prejudicado, ainda que mantenham o interesse em fêmeas.

Certas experiências durante a gravidez também podem influenciar a orientação sexual dos descendentes. Dentre elas, sobretudo o stress parece desempenhar papel importante. Se uma ratazana em gestação for exposta a stress, o cérebro de seus rebentos machos terá em média menos características masculinas.

Além disso, eles apresentarão com frequência orientação homossexual e exibirão comportamento mais maternal. O motivo é que, por causa do stress, a testosterona se apresentou cedo demais no cérebro. Os descendentes “feminilizados” nem sempre são homossexuais: se criados com fêmeas sexualmente ativas, em geral desenvolvem orientação heterossexual. Isso mostra de forma clara que o comportamento sexual não pode ser explicado apenas pelos hormônios. Ao contrário: fatores hereditários, influências hormonais e experiências individuais e a interação com os outros membros do grupo atuam aí em estreita vinculação.

Como pode, porém, o stress atuar sobre cérebros masculinos, preferência sexual e conservação da espécie? Para a sociobiologia, sob condições de vida difíceis, a feminilização dos cérebros reduziria a taxa de natalidade em uma comunidade, o que possibilitaria oferecer cuidado maior aos raros descendentes.

Essa explicação bem poderia se aplicar aos seres humanos, que têm comportamento sexual em parte desvinculado da meta da reprodução e voltado à obtenção do prazer. Pesquisas realizadas até agora com humanos confirmam as descobertas oriundas dos modelos animais. Também no nosso caso o hipotálamo anterior desempenha papel decisivo no tocante à preferência sexual. Os homossexuais do sexo masculino possuem menos neurônios nessa região do cérebro que os heterossexuais, exibindo, sob esse aspecto, uma estrutura cerebral mais aparentada à feminina. Além disso, também nos seres humanos o stress pré-natal parece conduzir com mais frequência descendentes do sexo masculino à orientação homossexual. Até o momento, no entanto, os conhecimentos adquiridos em relação ao ser humano são escassos e, em boa parte, indiretos. Não admira que suscitem controvérsia – ou mesmo completa rejeição, baseada no argumento de que, nesse âmbito, os resultados de experiências com animais não seriam transferíveis à esfera humana.

Entre tanto, admite-se cada vez mais que existem bases biológicas na preferência por um parceiro de mesmo sexo ou do sexo oposto. Está claro que a formação individual do cérebro desempenha papel tão importante quanto a educação ou a sociedade, e a definição do caminho a trilhar parece ocorrer nos primeiros estágios do desenvolvimento.

DO FLERTE À CÓPULA

Sexo e desejo decerto não são tudo na vida. Para a maioria dos seres humanos, a qualidade do relacionamento com o parceiro possui, no mínimo, importância equivalente. De resto, a atração sexual e o vínculo com o parceiro atendem ao mesmo propósito biológico: assegurar a reprodução da espécie. Um rápido exame de nossos parentes mais próximos nos mostra a multiplicidade de relacionamentos possíveis. Os orangotangos, por exemplo, só se unem para a fecundação e vivem o resto do tempo como eremitas, os gibões são monogâmicos, os gorilas formam haréns e os chimpanzés vivem trocando de parceiro. Entre humanos, encontramos todas essas variações, embora a tendência à monogamia seja predominante. A variedade de tipos de relacionamento aponta para o fato de que o vínculo com o parceiro está sujeito a fortes influências culturais e sociais.

Bases biológicas da monogamia foram encontradas em pequenos roedores que vivem nas pradarias dos Estados Unidos. Estritamente monogâmicos, esses animais preocupam-se bastante com seus descendentes. Mas seus vizinhos que habitam as Montanhas Rochosas, ao contrário, trocam de parceiro com frequência e logo abandonam a prole à própria sorte. A semelhança física e genética entre essas duas espécies é muito grande. Mas dois hormônios presentes no hipotálamo, a vasopressina e a oxitocina, revelam diferenças notáveis entre elas. O roedor monogâmico tem no cérebro um número bem maior de receptores para aqueles hormônios que seu parente promíscuo.

Em geral, a concentração sanguínea desses hormônios aumenta claramente durante a cópula, de acordo com o sexo do animal: nos machos, sobe o nível de vasopressina; nas fêmeas, o de oxitocina. Também nos humanos esses dois hormônios parecem importantes na estimulação sexual, na ereção e na capacidade de orgasmo. Nos homens, o nível de vasopressina no sangue aumenta durante a expectativa sexual, e o de oxitocina, durante o orgasmo. Na mulher, acreditam alguns pesquisadores, a vasopressina reduziria o desejo sexual, e a oxitocina desempenharia seu papel tanto durante a fase do flerte quanto da cópula. Contudo, essas são apenas transposições de resultados experimentais obtidos com animais. As normas sociais, a educação, as expectativas podem prevalecer sobre a influência exercida por um hormônio específico.

Mas e quanto ao vínculo entre os parceiros? De fato, no caso dos roedores, os dois hormônios desempenham papéis importantes também nesse âmbito. O macho das pradarias, de cérebro rico em vasopressina, apresenta vínculo mais forte com sua parceira e se preocupa mais com a prole, ao passo que, nas fêmeas, é antes a oxitocina que estimula o cuidado com a cria. É de supor que o nível hormonal elevado durante o acasalamento ajude a fortalecer o vínculo entre parceiros. Também entre humanos a vasopressina e a oxitocina parecem ter, ao menos em parte, as mesmas funções. Considerando-se o amor como vínculo entre parceiros, teríamos dado aí um primeiro passo para a compreensão biológica desse fenômeno.

Como se articulam, então, o amor e as funções cerebrais? Existem centros de prazer ou neurotransmissores da felicidade? Nesse contexto, o ano de 1954 representa um marco para a pesquisa. Nesse ano, os neurocientistas americanos James Olds e Peter Milner implantaram no cérebro de ratos pequenos eletrodos que transmitiam estímulos elétricos. Os animais gostaram tanto que se detinham constantemente nos lugares em que os cientistas realizavam a estimulação.

Além disso, aprenderam por conta própria a pressionar uma alavanca que lhes proporcionava tais estímulos. O resultado foi que passaram a se estimular milhares de vezes por hora, negligenciando até mesmo suas necessidades naturais – um comportamento que lembra a forte dependência de drogas ou, em certo sentido, o de um ser humano muito apaixonado. A suposição óbvia a que isso conduziu foi que o estímulo elétrico ativava no cérebro um centro de recompensa ou mesmo de prazer.

Muitas regiões do cérebro são sensíveis à estimulação elétrica, mas apenas em poucas áreas o estímulo conduziu os animais ao excesso, o que se verificou sobretudo na lateral do hipotálamo. Não se encontrou aí o suposto centro do prazer: na verdade, a estimulação instigava também feixes de nervos que percorriam toda a região estimulada. Logo um sistema de células nervosas ocupou o centro das atenções – um sistema que se origina no mesencéfalo, percorre a lateral do hipotálamo e abastece com o neurotransmissor dopamina grande parte do prosencéfalo.

Com isso, aumentou o interesse dos cientistas nas funções desempenhadas pela dopamina, que os pesquisadores viam, em parte, como uma espécie de sinal de prazer. Basearam essa conclusão na observação de que sua atividade aumenta quando da prática de todo tipo de ação vinculada a sensações agradáveis-seja quando os animais se autoestimulam com a eletricidade, quando ingerem comida saborosa, quando da copulação ou estão sob a influência de drogas, corno a cocaína, a anfetamina, a heroína ou a nicotina.

Assim como aprendem a se autoestimular, os animais descobrem corno administrar por conta própria essas substâncias, sobretudo quando são injetadas diretamente no sistema de células dopaminérgicas do cérebro. Se esse sistema é experimentalmente desativado, recompensas elétricas, químicas ou naturais deixam de surtir efeito – corno se não existissem sensações de prazer pelas quais os animais seguem repetindo determinada tarefa. Não está claro, porém, se os ratos são de fato capazes de experimentar o prazer na forma como nós o concebemos. Ainda que sejam, isso significaria dizer que os pesquisadores encontraram um centro do prazer, bem como neurotransmissores do prazer? Não é bem assim. Na verdade, a estimulação elétrica do hipotálamo lateral conduz a uma continuada atividade das vias nervosas e simula, assim, antes o prazer – apetitivo – por alguma coisa do que o prazer – consumado – na obtenção do que se queria. Além disso, a dopamina faz com que, já durante as fases de expectativa e de preparação, o organismo oriente seu comportamento para as metas almejadas, aprendendo a utilizar novas informações que prenunciam a viabilidade de alcançá-las.

ORGASMO POR ELETRODOS?

A implantação de eletrodos no cérebro de humanos só é admitida quando da necessidade de intervenção médica, razão pela qual são poucas as pesquisas existentes nessa área. Pacientes que sofreram estimulação elétrica do hipotálamo lateral relatam “sensações difíceis de descrever, como se algo de interessante e excitante fosse acontecer”. Sensações agradáveis verificaram-se também na estimulação de outras regiões do cérebro, como, por exemplo, do septo lateral. As experiências vividas nesses casos foram descritas como um prazer semelhante ao orgasmo. Se um paciente podia se autoestimular nessa região, ele o fazia em grande medida, sem, contudo, atingir o orgasmo de fato.

ATÉ A LOUCURA

Nos últimos anos, com o auxílio dos métodos de diagnóstico por imagem, como a tomografia nuclear ou por emissão de pósitrons, cientistas puderam verificar reações em seres humanos e expandir muitos dos conhecimentos adquiridos em experiências com animais. O estudo dessas imagens identificou uma série de regiões cerebrais que, diante de emoções diversas, revelam intensa atividade. Uma mesma estrutura cerebral pode, no entanto, ser estimulada tanto por sensações agradáveis como por sentimentos indesejados, como o medo. A existência de centros específicos de prazer não pôde até o momento ser comprovada de modo inequívoco.

Experiências com pessoas sexualmente excitadas mediante a contemplação de imagens ou cenas eróticas ou pornográficas revelam fortes mudanças de atividade em diversos pontos do cérebro, especialmente em sua extremidade anterior. O padrão dessas mudanças de atividade é bastante semelhante em mulheres e homens. É de supor que os cérebros masculino e feminino processem sensações de prazer de forma parecida.

Os estímulos e situ ações capazes de provocar em nós sensações de prazer são bastante diversos e variados: um pôr-do-sol, a presença da pessoa amada, o prêmio da loteria, uma boa refeição, sexo ou drogas. Isso propõe tarefas difíceis a nosso cérebro: devemos reconhecer e avaliar as diversas situações, talvez associá-las a alguma lembrança e, então, reagir – com ações, por exemplo. As demandas ao cérebro podem ser, portanto, bastante diferenciadas. Seria de esperar, pois, que também as mudanças de atividade nas diversas áreas do cérebro apresentassem forte diferenciação de um caso a outro. Mas certas regiões cerebrais permanecem ativas durante as situações emocionais mais variadas, o que significa que respondem pelo processamento de sensações de todo tipo.

Aos olhos dos psiquiatras, os tormentos mentais experimentados pelos amantes se aproximam do transtorno obsessivo. Os pensamentos dos apaixonados costumam ser incessantemente dirigidos para o mesmo objeto, uma única preocupação – os amantes não sossegam enquanto o desejo não é saciado.

Interpretaremos aqui essa obsessão usando uma nova perspectiva, propiciada por estudos recentes: biólogos mediram a concentração de substâncias que refletem o funcionamento cerebral e concluíram que elas são alteradas da mesma forma nos amantes e nas pessoas que sofrem de transtornos obsessivos. Amar como um louco, portanto, não seria uma mera figura de linguagem.

A pesquisadora Donatella Marazziti e seus colegas da Universidade de Pisa, Itália, testaram a hipótese de que do amor à obsessão e ao delírio haveria apenas um passo medindo a concentração do chamado transportador de serotonina. Essa proteína está presente no sangue e também no cérebro, onde regula a concentração de serotonina, neurotransmissor que influi no humor e no comportamento. Três grupos de voluntários foram examinados: “normais”, apaixonados há pouco tempo e pessoas com transtornos compulsivos. A constatação: o transportador de serotonina variou de forma análoga nos apaixonados e nos pacientes obsessivo-compulsivos. Como interpretar essa constatação? A serotonina participa da regulação de funções instintivas, como apetite, sono, dor, temperatura corporal e sexualidade. A substância está ligada a transtornos, como dependência, impulsividade e ansiedade, e modula a atividade de conjuntos de neurônios no cérebro, agindo sobre o comportamento do indivíduo. Mediante uma modificação do sistema serotoninérgico a imagem do ser amado transforma-se em obsessão.

No transtorno obsessivo-compulsivo, há preocupação constante. Acreditando, por exemplo, que a porta está mal fechada, a pessoa verifica-a incessantemente. Em neurobiologia, a “crença na porta mal fechada” baseia-se na atividade de grupos de neurônios que são ativados de forma repetida e descontrolada. Suspeita-se que uma cadeia de retroação passando pelo córtex e tálamo reative permanentemente a atividade nervosa do mesmo grupo de neurônios. O papel da serotonina nessa atividade ainda não foi demonstrado, mas, se de fato existir, o caráter obsessivo da paixão seguiria a lógica do eterno retorno das imagens obsessivas.

Entretanto, os pensamentos lancinantes do apaixonado e os transtornos obsessivos se distinguem pelo “grau de certeza” experimentado e pela capa cidade da pessoa de aceder a seus próprios estados psíquicos. No transtorno obsessivo predominam a dúvida (o paciente não se convence de que a porta está fechada) e a introspecção (tem consciência do absurdo de suas ideias obsessivas e sabe que emanam de sua mente). Em certas formas de delírio prevalecem, ao contrário, a certeza (a pessoa está convencida de que alguém a quer mal) e a perturbação das capacidades de introspecção (prevalece a convicção de que tem razão e de que os outros estão errados).

A paixão evoluiria assim entre a obsessão e o delírio: o apaixonado está convencido do valor do ser amado e de seu sentimento, mas sabe que essa ideia é um produto de seu psiquismo. As ideias delirantes se distinguiriam das dos apaixonados pelo fato de que o amante tem consciência de seu tormento: escravo de seu desejo, está consciente disso. A biologia endossa a concepção de que o sentimento amoroso situa-se entre a obsessão livremente consentida e o delírio. 

A associação entre obsessão e paixão é confirmada por uma observação fisiológica: a atividade cerebral das pessoas que sofrem de transtornos obsessivo-compulsivos caracteriza-se pela hiperatividade de uma região chamada núcleo caudal, a mesma que é ativada quando os apaixonados pensam no ser amado. Trata-se, portanto, de um novo índice fornecido pelo imageamento cerebral em favor da semelhança entre os dois estados.

Sabemos que o amor também proporciona felicidade e intensa satisfação, ao passo que o transtorno obsessivo é um sofrimento. Onde situar a fronteira? Marazziti e seus colegas estudaram a fase precoce do amor, definida por Stendhal como uma paixão não consumada, restringindo a pesquisa a pessoas perdidamente apaixonadas, mas que ainda não tiveram relações sexuais com o ser amado.

ANTES DO SEXO

Nessa fase de expectativa, a concentração no transportador de serotonina sofre as modificações características dos pacientes obsessivos. Um ano depois (prazo considerado suficiente para a consumação do caso), a medição mostrou que as taxas de transportador de serotonina voltavam a seu nível inicial e a obsessão desaparecia. O amor insano seria uma “patologia” que curamos ao saciá-lo. O paciente obsessivo, ao contrário, jamais se tranquiliza quando a porta é fechada.

Do ponto de vista hormonal, na primeira fase do amor, a obsessiva, são acionados circuitos de neurônios que utilizam a serotonina. Estudos genéticos sugerem que estas redes têm papel inibidor do comportamento, suscitando nos apaixonados formas de amor duráveis e românticas, marcadas pela timidez e caracterizadas por preocupações quase obsessivas em relação ao parceiro, com um envolvimento e uma fidelidade mais acentuadas.

Quando o amado é conquistado, porém, a serotonina cede lugar à dopamina, o “hormônio do prazer”. Os grupos de neurônios que utilizam a dopamina intervêm nos componentes ligados ao prazer e até mesmo naqueles ligados à dependência. Pesquisas evidenciaram um sistema dopaminérgico particular em pessoas que buscam permanentemente aventuras sexuais. Elas têm frequentes variações cíclicas do humor, o que as torna versáteis. Assim um funcionamento que oscila entre esses dois sistemas cerebrais, o da serotonina e o da dopamina, teria o dom de tornar a pessoa intensamente apaixonada e, depois, calmamente satisfeita.