EU ACHO …

JUÍZO DE VALOR

A economia é uma disciplina que nasceu da filosofia moral e ética. Em A teoria dos sentimentos morais, Adam Smith delineou os pilares éticos, comportamentais e metodológicos que influenciariam toda a sua obra, inclusive A riqueza das nações. Deste seu livro nasceu a economia política, que muito mais tarde passaria a ser apenas “economia”. Hoje uma ciência social aplicada, a economia tem, assim, um longo histórico intelectual que elabora sobre sua dimensão normativa e não sobrepõe a ela nem a dimensão positiva nem as práticas positivistas adotadas em seu ensino atual. Alunos de economia, há muito, não são estimulados a pensar sobre valores, nem a formular e pôr em debate seus próprios juízos quando confrontados com diferentes escolhas de política econômica. Por esse motivo, as gerações mais novas de economistas costumam se ater aos métodos estritamente quantitativos, às análises rígidas de custo-benefício quando discutem a política econômica. A crise humanitária decorrente da pandemia põe em evidência essa grave deficiência da economia moderna.

É comum ver economistas – não apenas no Brasil – dizerem que não cabe à profissão trazer questões normativas para a discussão. O que é correto, o que é justo, o que é desejável é negligenciado em prol de análises do tipo: “vale a pena ou não?”, “quanto custa?”, “qual o ganho?”, entendendo-se por “ganho” uma recompensa estritamente monetária. Essa maneira de tratar a disciplina a empobrece e a torna enfadonha. Não economistas – que compõem a maior parte da sociedade, um alívio – costumam perguntar se algo que leem nas páginas dos jornais é justo ou correto. “É justo que o valor de minha aposentaria seja reduzido?” “É correto que eu tenha de trabalhar mais tempo para poder me aposentar?” “É desejável que empregos sejam mantidos à custa de reduções de salários?” Economistas não só não costumam ter respostas para essas perguntas, como muitas vezes se mostram refratários a elas. Tal postura, naturalmente, afasta a economia da vida das pessoas, ainda que a economia esteja o tempo todo presente nela.

Dia desses, em uma discussão sobre a renda básica, economistas deram a entender que não cabia um julgamento sobre se esses programas são ou não justos, posto que sua natureza redistributiva encerra uma questão de justiça e deve ser, por isso, arbitrada pela política, pelo Congresso Nacional. É claro que muitas políticas públicas devem ser arbitradas pelo Poder Legislativo: é como funcionam nossos sistemas democráticos. Contudo, essa constatação não exime o economista de explicitar o juízo de valor que ele efetivamente faz sobre a renda básica. É perfeitamente razoável, diria até que esperado, que o ou a economista expliquem à sociedade, sobretudo no papel de intelectuais públicos, por que a renda básica é justa, correta, desejável. Ou, caso tenham a visão contrária, por que ela não é nada disso. Neste momento, em que as pessoas estão buscando respostas que vão além daquilo que é mensurável, recolocar valores não quantificáveis no debate econômico é importante não apenas para orientar quem busca orientação, mas para tornar a economia relevante do ponto de vista de quem é por ela afetado ou afetada.

Essa fragilidade no pensamento econômico moderno não é compartilhada por alguns economistas de outras gerações. Em sua extensa obra sobre desigualdade, pobreza e desenvolvimento econômico, o grande professor Amartya Sen, vencedor do Nobel de Economia em 1998, debruçou-se sobre seus aspectos normativos, entendendo que eles não eram separáveis desses objetos de estudo. Albert Hirschman, outro grande economista e cientista social, também escrevia seus ensaios com um olhar sobre a ética e os valores de políticas públicas desenhadas para promover o desenvolvimento dos países. Não à toa, a obra desses pensadores é instigante, provocadora e resistente a tentativas reducionistas.

A crise humanitária apresenta um enorme desafio para a economia como ciência e disciplina prática. Mas também lhe oferece a oportunidade de voltar a suas origens e aproximar-se novamente das pessoas – seu objeto de estudo, afinal. É um desperdício insistir em reduzi-la a uma linguagem inútil e de uso restrito apenas aos tecnocratas, em descrédito mundo afora.

MONICA DE BOLLE é pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da universidade Johns Hopkins.

Autor: Vocacionados

Sou evangélico, casado, presbítero, professor, palestrante, tenho 4 filhos sendo 02 homens (Rafael e Rodrigo) e 2 mulheres (Jéssica e Emanuelle), sou um profundo estudioso das escrituras e de tudo o que se relacione ao Criador.