EU ACHO …

OS LEGADOS DA QUARENTENA

Por que o momento que vivemos pode fortalecer nosso senso de coletivo e transformar o mundo em um lugar melhor no futuro

Como pesquisadora de cenários futuros, uma das perguntas que mais me fizeram durante esses últimos dias em que vivemos sob a crise da covid-19 foi sobre o legado da quarentena. Desafiador responder sobre isso, uma vez que cenários futuros são construídos por meio de sinais fortes e fracos do presente, e nosso presente está mais cheio de incertezas do que de indícios. Mas já podemos pontuar alguns sinais do senso comum:

  • Existirá um impacto sem precedentes na saúde física e emocional das pessoas
  • Existirá um impacto econômico gigantesco do qual ainda não temos real dimensão
  • Existirá um impacto tecnológico, principalmente no âmbito da adoção massiva de soluções digitais, em uma parcela da população do globo.

No entanto, há um legado sutil que acontece quase nas entrelinhas desta quarentena. É o despertar para o senso coletivo. Nunca havíamos vivido isso de maneira tão massiva quanto vivemos hoje. Essa grande herança surgirá como fruto do acesso tecnológico, da educação e do tempo para exercitar consciência social.

E, como cada consciência produz uma visão que se concretiza numa ação, teremos muitas formas de viver esse senso coletivo:

  •  Sair da caixa, das bolhas, dos ecossistemas e das organizações vendo o mundo como um território de infinitas possibilidades
  •  Apoderar-se do protagonismo, não se colocando mais em posições passivas ou de vítima
  •  Exercitar a sensibilidade e a capacidade de lidar bem com os próprios sentimentos, colaborando criativamente em vez de competir
  •  Desejar viver de acordo com suas verdades, e não apenas existir em um sistema de coisas que não faz mais sentido
  •  Lidar positiva mente com opiniões diferentes das suas, sabendo ouvir com presença, mas sem gerar conflito

Com todas essas questões, minha visão é que a principal herança desta quarentena estará mais conectada às novas formas de ser do que de fazer. Ou seja, vamos nos transformar pessoalmente, e não apenas realizar nossas tarefas de outra maneira. Acredito que, entre os excessos que serão removidos e o acessos que serão promovidos, a tendência natural será nos tornarmos versões melhores de nós mesmos.

E, como me disse esta semana minha querida amiga, a jornalista Ana Paula Padrão: “Ninguém sairá igual e muitos sairão melhores. Os radicais polarizadores, para ambos os lados, perderão força para um grande coletivo mais atento e solidário.”

LIGIA ZOTINI – é pensadora e pesquisadora de futuro, é fundadora do Voicers, tem uma carreira de 15 anos em tecnologia e de 20 anos em educação. ligia@voicers.com.br

OUTROS OLHARES

ASTROS ENGAJADOS

Do rapper Kanye West ao piloto de Fórmula 1 Lewis Hamilton, nomes importantes do esporte e do entretenimento levantam a voz contra o racismo em todo o mundo

Em todo o mundo, mais do que nunca, as vidas negras importam. O ano de 2020 já pode ser considerado um marco contra o racismo. O brutal assassinato do americano George Floyd, morto por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, em maio deste ano, foi o estopim para que o movimento ganhasse proporções mundiais como não acontecia desde o movimento pelos Direitos Civis liderado por Martin Luther King nos anos 1960.

O movimento chegou até a um universo que sempre pareceu alheio aos problemas externos, fora das pistas. No último domingo, 5, o GP da Áustria marcou o reinício da Fórmula 1 e foi palco de uma manifestação promovida pelo pentacampeão da competição e um dos únicos negros na história da categoria, o inglês Lewis Hamilton. Os 20 pilotos usaram camisas com mensagens anti-racismo — antes do início da corrida, 14 deles se ajoelharam, gesto que simbolizou o apoio à causa. Com mais de 28 milhões de fãs na internet, Hamilton usa sua influência para promover a campanha ‘We Race as One’ (Nós Corremos Como Um). Entre novembro de 2019 e janeiro de 2020, o jogador Mario Balotelli foi vítima de episódios de racismo no campeonato italiano, com torcedores da Lazio e do Hellas Verona imitando sons de macaco. As ofensas vieram até do próprio presidente do Brescia, clube do craque. “Ele é negro, o que devo dizer? Está trabalhando para se clarear, mas está com dificuldades”, ironizou Massimo Cellion em uma coletiva de imprensa.

Um grupo formado por jogadores italianos negros protestou e a liga emitiu uma nota, se desculpando. “Sem justiça, sem paz”, publicou Balotelli em uma rede social. O jogador de basquete LeBron James é um ídolo dentro e fora das quadras da NBA, a liga americana. Com cerca de 137 milhões de seguidores nas redes sociais, assumiu o papel de líder de uma geração de esportistas. O camisa 23 do Los Angeles Lakers é símbolo da luta contra o racismo dentro de um campeonato onde há mais de 70% de jogadores negros. Em 2018, foi atacado pela apresentadora de TV Laura Ingraham, da Fox News, após opinar sobre ações do presidente Donald Trump. “LeBron deveria calar a boca e apenas jogar basquete”, disse a âncora. Inspirado por Colin Kaepernick, ex-jogador de futebol americano da NFL que se ajoelhou durante o hino nacional para protestar contra a violência policial que atingia os negros no país, LeBron respondeu a ofensa criando a campanha “Eu sou mais que um atleta”. Hoje, o movimento conta com nomes como a tenista Serena Williams e o jogador Kylian Mbappé. A representatividade é apontada como fator fundamental para a mudança, segundo especialistas. “Quando estrelas do esporte ou artistas se posicionam politicamente, atingem grupos que não acompanham política, o que gera reflexões e pensamentos sobre esses temas”, afirma Rosane Borges, pesquisadora e pós-doutorada em Ciências da Comunicação. Para amplificar o poder de sua voz, Lebron James acaba de negociar o investimento de US$ 100 milhões para a criação de uma empresa de mídia com o objetivo de dar voz aos menos favorecidos e exaltar a comunidade negra. Além disso, através da ONG “Fundação da Família LeBron James”, criou a instituição de ensino “Eu prometo”, escola com suporte gratuito para mais de 200 crianças carentes em Akron, Ohio, seu estado natal.

FAMA E ATIVISMO

Surpreendendo até seus fãs, Kanye West, rapper e empresário norte-americano, afirmou que vai concorrer ao cargo de Presidente dos Estados Unidos em 2020. Depois de Barack Obama, o músico e produtor sonha em ser o segundo representante negro no mais alto cargo político no país. A data do anúncio de sua candidatura foi simbólica: 4 de julho, Dia da Independência dos EUA.

O apoio do cantor a Donald Trump chocou a comunidade negra americana. Acostumado a polêmicas, o artista garante agora que rompeu com o presidente e, embora guarde afinidades com o partido republicano, afirmou que será um candidato independente.

Mesmo sem a candidatura 100% confirmada, Kanye já possui apoio dos fãs e até de bilionários como o empresário Elon Musk. “Os influenciadores digitais negros iniciam micro-revoluções em seus canais de mídia ou lugares de fala, e esse movimento viraliza”, aponta Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta e empresária de sucesso no Brasil. “As pessoas querem ser como seus ídolos”, completa Rosane Borges. Conhecida mundialmente, a cantora Beyoncé é um símbolo de empoderamento para seus mais de 100 milhões de seguidores. Em 2016 durante a final do Super Bowl 50, assistido por mais de 112 milhões de telespectadores, ela apresentou a música “Formation”, cuja letra retrata as mazelas do racismo nos EUA. Vestida de preto e com uma coreografia em forma de “X” , referência ao ativista Malcolm X, foi a maneira que Beyoncé encontrou para espalhar uma mensagem cada vez mais universal: o mundo não aceita mais o racismo.

MUHAMMAD ALI, GIGANTE DA POLÍTICA

Considerado um dos maiores nomes da história do Boxe, Muhammad Ali não era um gigante apenas nos ringues. Batizado como Cassius Marcellus Clay Jr, o norte-americano tornou-se campeão olímpico com apenas 18 anos, em 1960. Mesmo sendo um atleta de elite e acumulando vitórias em seu cartel, Clay não conseguiu se esquivar do racismo. Aos 22 anos, converteu-se ao islamismo e mudou seu nome de batismo, defendendo que era “seu nome de escravo”, para Muhammad Ali. Em 1967, Ali se recusou a servir ao exército para lutar na Guerra do Vietnã, afirmando que combater o racismo nos EUA era mais importante. O gesto custou sua licença como lutador, mas o tornou um símbolo na luta racial. Três anos depois de seu afastamento, voltou aos ringues, ganhou títulos mundiais e cravou seu nome como ativista e um dos maiores atletas da história.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 19 DE JULHO

RIOS DE ÁGUA VIVA!

… Se alguém tem sede, venha a mim e beba (João 7.37b).

Jerusalém estava em festa. Era a Festa dos Tabernáculos. O povo vinha de todas as partes da nação e vivia em cabanas durante uma semana, relembrando a jornada dos quarenta anos pelo deserto e agradecendo pela providência de Deus. Ao mesmo tempo, o povo nutria a esperança da chegada do Messias, o Pão vivo que desceu do céu, a fonte da água da vida. Todos os dias havia uma cerimônia na qual o sacerdote tirava água do poço de Siloé e a derramava sobre o altar do templo. Com isso, eles aguardavam o cumprimento da promessa acerca do Messias, que lhes traria água da vida. Foi no clímax dessa festa que Jesus se levantou e disse: Se alguém tem sede venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água (João 7.37,38). Há aqui um convite e uma promessa. O convite é pessoal e universal. Um convite para uma experiência individual com Cristo. Um convite condicional, dirigido àqueles que têm sede. Quem atende ao convite recebe a promessa. A promessa é de uma vida pura e abundante. Jesus não fala sobre águas paradas e lodacentas, mas de água viva. Não fala sobre uma porção limitada, mas sobre rios de água viva. A vida que Cristo oferece é abundante, maiúscula e superlativa. Como se recebe essa vida? Crendo em Cristo, como diz a Escritura. Não é crer em Cristo como diz a igreja, mas como diz a Escritura!

GESTÃO E CARREIRA

A GUERRA DAS GÔNDOLAS

O crescimento das compras de supermercado feitas pela internet e por aplicativos atrai startups e gigantes do varejo que brigam pelo mercado

Um dos efeitos mais evidentes do avanço tecnológico é como as novas ferramentas digitais fazem as pessoas repensar a forma como consomem produtos e serviços no dia a dia. Hábitos comuns, como pedir um táxi na rua, praticamente desapareceram depois do surgimento dos aplicativos de transporte, por exemplo. Nos últimos anos, outro questionamento tem ganhado força nas grandes cidades: será que ainda faz sentido pegar o carro -— ou o transporte público, a bicicleta etc. —, passar até 1 hora ou mais num supermercado procurando e escolhendo produtos nas prateleiras e depois ainda enfrentar fila no caixa só para abastecer a casa com alimentos, bebidas, além de produtos de limpeza e higiene? Para muita gente, a resposta tem sido não. Melhor: tem sido resolver tudo por meio de um aplicativo e receber os produtos em casa, especialmente os itens que são comprados todos os meses.

Fundada em 2015, a startup colombiana Rappi não deu o pontapé inicial nas vendas de supermercados pela internet no Brasil, mas fez crescer um segmento que era quase inexistente. Com mais de 1,4 bilhão de dólares de investimentos de fundos como SoftBank, DST Global e Sequoia Capital, a startup dona de um aplicativo para a entrega de pedidos feitos a restaurantes, farmácias, petshops, entre outros estabelecimentos, ganhou terreno a partir de 2017 por intermédio de uma parceria com o GPA. O negócio permitia que a rede varejista terceirizasse a chamada “última milha”, a etapa final da entrega de um item ao consumidor. O aplicativo fica responsável pela exposição dos produtos, pelo pagamento e pela logística da operação. Em troca, recebe um percentual de cada compra. As empresas não revelam os números, mas analistas entrevistados estimam que a porcentagem fique entre 10% e 14% do valor.

Com presença em sete países (Brasil, México, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e Uruguai) e um volume de entregas que somou 70 milhões de pedidos entre junho de 2018 e junho de 2019, a companhia cresce em torno de 30% ao mês. Sem o GPA, que deixou a plataforma em 2019 após a compra do aplicativo concorrente James Delivery, a Rappi buscou no Carrefour sua grande parceria nos supermercados. “A venda de alimentos pela internet é a última barreira do e-commerce”, diz Paula Cardoso, presidente do Carrefour eBusiness, unidade dedicada ao varejo online do grupo.

Para manter a operação digital, o Carrefour conta com 12 side stores, lojas acopladas aos hipermercados que servem apenas para a retirada de itens comprados pela internet. As side stores foram responsáveis por 25% das vendas online do Carrefour no quarto trimestre do ano passado. O restante é abastecido por hipermercados e centros de distribuição. A varejista não revela dados específicos da parceria com a Rappi, mas informa em seu balanço financeiro um crescimento de 10% nas vendas da operação brasileira em 2019 e um faturamento bruto de 62,2 bilhões de reais. “Não é só um empurrãozinho. Em alguns casos, a venda por meio de aplicativos chega a representar 10% do faturamento de certas lojas”, diz Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo.

O negócio digital é interessante também por causa de outros aspectos. O primeiro é a conquista de um público que não era cliente da empresa. De acordo com o Carrefour, 63% dos consumidores do e-commerce não faziam compras na rede antes. O segundo ponto diz respeito à chamada “economia dos dados”. O acordo com a Rappi permite ao Carrefour saber que produtos cada cliente comprou pelo aplicativo. Em um mercado em que as experiências personalizadas contam muito, deter esse tipo de informação é quase obrigatório para poder competir.

Se o Carrefour aposta suas fichas na Rappi, o Grupo Pão de Açúcar preferiu ter um aplicativo próprio. Comprada em dezembro de 2018, a startup curitibana James Delivery permite a entrega de encomendas de farmácias, restaurantes, floriculturas, além, é claro, de supermercados. Desde a venda ao GPA, a operação foi multiplicada por 15. “Dobramos de tamanho a cada 70 dias”, diz Lucas Ceschin, cofundador do aplicativo. Em um ano, a área de atuação foi expandida de duas para 18 cidades e a previsão é terminar 2020 com presença em 25 municípios. “As empresas não têm tempo para fazer tudo. Elas não serão melhores em tudo e precisam de parceiros”, diz Rodrigo Pimentel, diretor da área de e-commerce alimentar do GPA.

Mais do que realizar entregas rápidas, a compra da startup curitibana teve como objetivo intensificar uma operação online iniciada ainda em 1995, nos primórdios da internet brasileira. O negócio virtual só foi impulsionado de fato nos últimos cinco anos, quando a companhia aumentou sua capacidade operacional para atender à demanda digital crescente. Em 2019, o comércio eletrônico do Pão de Açúcar teve alta de 40% e a estimativa é que haja um crescimento de 50% em 2020 graças à expansão da operação física para atender clientes virtuais. Está prevista a inauguração de quatro “minicentros de distribuição” e 70 shipment stores, lojas físicas que atendem entregadores. Hoje são 130 estabelecimentos desse tipo e dois centros de distribuição.

Na esteira da Rappi e do James Delivery está o iFood. O aplicativo fundado em 2011 e que pertence ao grupo de tecnologia Movile entrou nessa briga em junho de 2019, aproveitando sua grande base de consumidores. Com crescimento de 20% por semana, seu serviço de entrega de supermercados atende mais de 400 estabelecimentos em 80 cidades do país. Entre eles está a rede BIG (ex-Walmart), que passou a fazer parte da operação em janeiro. “A conta fecha porque o tíquete médio das compras é muito superior ao dos restaurantes”, diz Lucas Passos, diretor de desenvolvimento de negócios do iFood. A meta para 2020 é chegar a 200 cidades e a 1.000 supermercados cadastrados.

A competição será acirrada. Em janeiro, a B2W, empresa dona das lojas online Submarino, Americanas.com e Shoptime, adquiriu a startup SupermercadoNow, serviço de compras de supermercado pela internet, por um valor não revelado. Fundada em 2015, a empresa paulista tem mais de 200.000 usuários ativos e opera com mais de 30 redes, como Hirota e Lopes Supermercados. A B2W afirma que o negócio permitirá à empresa “expandir sua presença na categoria de supermercado, abrindo uma nova frente de crescimento”.

O movimento da B2W é semelhante ao da Uber, que comprou em 2019 uma participação majoritária na startup chilena Cornershop, que faz entregas de supermercado. O serviço já opera no Brasil, no México, no Peru e no Canadá e ajudará a Uber a incluir a nova categoria de alimentos e bebidas no serviço Uber Eats. “Seja para fazer uma viagem, seja para pedir comida no restaurante favorito ou, muito em breve, para receber compras em casa, queremos que a Uber seja o sistema operacional de seu dia a dia”, disse, na época, o presidente da empresa, Dara Khosrowshahi.

O mercado também conta com start-ups que ainda buscam um lugar ao sol com estratégias diferentes. A HomeRefill, por exemplo, opera desde 2016 e aposta em um nicho. Em vez oferecer entregas rápidas e com poucos itens, a startup paulista quer que os clientes usem a plataforma para fazer “a grande compra do mês”. Por não trabalhar com produtos perecíveis, a startup compra os alimentos no atacado por um preço mais baixo. Nesse caso, o frete pode sair de graça. Essa é a mesma estratégia da concorrente Shopper, também de São Paulo. “Como compramos dos fabricantes, é possível ter uma margem de lucro saudável e ainda ter preços, em média, 12% mais baixos”, diz Fábio Rodas, presidente e cofundador da Shopper. Atualmente, são 700 bairros em oito cidades atendidas na Grande São Paulo. Segundo Rodas, a empresa dobra de tamanho a cada quatro meses. 

O objetivo de todos os serviços de supermercado online é crescer num mercado que ainda engatinha no Brasil. Segundo dados da consultoria Ebit/Nielsen, as vendas de itens de supermercados representam menos de 1% do varejo online. Os números de 2019 ainda não foram calculados, mas houve uma alta de 12% nas vendas no primeiro semestre. O desafio para aumentar a participação não é apenas logístico ou tecnológico, mas também cultural. Dados de uma pesquisa da Associação Paulista de Supermercados com o Ibope mostram que apenas 15% dos brasileiros já realizaram compras de supermercado pela internet.

Nos Estados Unidos, onde a Amazon e o Walmart travam uma disputa acirrada no segmento, os números são maiores. A previsão é de um crescimento de 66% no número de consumidores de supermercados online até 2022, que deve chegar a 30 milhões. O faturamento deverá saltar de 24 bilhões para 49 bilhões de dólares, segundo dados consolidados pela empresa de pesquisas Statista. A Amazon, aliás, já vende alimentos em seu site no Brasil. É possível adquirir massas, grãos, arroz, óleo, café, bolachas, entre outros produtos não perecíveis. Mas a oferta ainda é limitada. Já nos Estados Unidos a Amazon tem intensificado sua operação de supermercado desde a compra da rede WholeFoods,- em 2017, por 13,7 bilhões de dólares, e a criação da subsidiária de entregas de alimentos Amazon Fresh. Enquanto a ameaça da Amazon não se concretiza por aqui, os aplicativos e as redes varejistas correm para encher os carrinhos virtuais de seus consumidores. 

CARRINHO VIRTUAL

Uma das últimas fronteiras do e-commerce , os supermercados estão de olho no varejo virtual

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

TERAPIAS DE CHOQUE

Receber descargas elétricas no corpo e no rosto para ficar em forma e mais jovem. Essa é a mais nova (e dolorida) promessa da indústria da beleza

Você estaria disposto a treinar com um colete que libera correntes elétricas nos músculos para entrar em forma ou a receber descargas elétricas no rosto para ficar mais jovem?

Acredite, cada vez mais brasileiros estão dizendo sim a esses procedimentos. As primeiras marcas de EMS, ou eletroestimulação muscular, a desembarcar no Brasil foram as alemãs Miha e XBody, há cerca de quatro anos, com uma promessa atraente: 300 músculos acionados — tanto os mais superficiais quanto os mais profundos — em apenas 20 minutos de atividade física com os eletrodos, o que seria equivalente a 3 horas de malhação convencional.

Além de curtos, os treinos devem ser realizados apenas de uma a ­duas vezes por semana. A contrapartida? Embora nenhuma das marcas utilize essa palavra, é preciso treinar recebendo pequenos choques. Talvez esse detalhe tenha feito com que o negócio demorasse a engrenar. Em 2016, a Les Cinq Gym, academia-butique nos Jardins, bairro paulistano, era a única a operar o XBody­ no Brasil.

“Desde o início tive certeza que agradaria aos alunos por ser um tipo de treino versátil. É ótimo para potencializar os resultados, para trabalhar áreas específicas do corpo que a pessoa tem dificuldade em exercitar ou tem limitação de movimento, para mudar o estímulo em quem treina há muito tempo e até para aqueles alunos com pouco tempo disponível”, explica Rodrigo Sangion, personal trainer e sócio da Les Cinq.

Caso você esteja se perguntando quão dolorosos são esses 20 minutos, nós testamos e respondemos: nem tanto. Para começo de conversa, você é equipado com uma roupa especial bem justa ao corpo (que auxilia a condução de energia), colete e cintas com eletrodos, tudo umidificado. O profissional responsável por operar o aparelho faz, então, testes de potência e de limite da dor para adaptar a carga elétrica ao condicionamento de cada um.

O aluno começa a receber as descargas enquanto realiza a série de exercícios funcionais adaptados a seu objetivo — existem protocolos metabólicos para queima de gordura e tonificação muscular. O estímulo é diferente de tudo que você já experimentou. Você vai suar, ficar exausto, terá algum desconforto, mas as sensações (algo mais próximo de uma quase cãibra do que de dor) são suportáveis e, com o tempo, é possível até se acostumar com os choques.

Tantos se convenceram de que o benefício é maior do que o custo físico e financeiro — cada sessão custa cerca de 160 reais — que hoje a XBody e a Miha, juntas, já estão em mais de 300 estabelecimentos, entre estúdios de EMS, academias e clínicas médicas. Em 2020, as duas marcas alemãs vão disputar espaço com uma terceira concorrente, a espanhola Wiemspro, primeira a ter sistema wireless, ou seja, o aluno não precisará ficar conectado a cabos para receber os choques.

O CEO da Wiemspro, Xavier Iglesias, explica que, para se diferenciar, a marca apostará num formato de negócio voltado, além do fitness, para atletas amadores e de alto desempenho. “Queremos conquistar o mercado de esporte com treinos que misturem técnicas de funcional, luta, força e estímulo metabólico”, explica Iglesias.

No esporte profissional, nomes como o tenista espanhol Rafael Nadal, o atleta americano Usain Bolt e o jogador Gabriel Barbosa, o Gabigol, já se renderam ao método, uma vez que é possível reproduzir o gesto motor de cada esporte com a potência extra do aparelho para prevenir lesões.

No fim de 2019, outra academia paulistana apostou na eletroestimulação para atrair clientes, mas, dessa vez, os interessados em tonificar o rosto em vez do corpo.  A Academia da Face, que abriu as portas no Shopping Villa Lobos, em São Paulo, no fim de 2019, utiliza a EMS para promover a contração seriada dos mais de 40 músculos do rosto.

“Quase ninguém lembra que os músculos faciais também envelhecem e precisam ser exercitados”, diz Alberto Cordeiro, dermatologista e proprietário da Academia da Face. Ele garante que protocolos como o Electric Face, que associa eletroestimulação dos músculos, manobras de drenagem linfática e aparelhos para hidratação, podem proporcionar resultados parecidos com o de um lifting sem agulhas, realizados uma vez por semana. Por 279 reais, você se submete a uma sessão de limpeza de pele, massagens e outros preparos, além dos choques, é claro.

Aqui, o treino é mais passivo do que na EMS para o corpo: a terapeuta utiliza uma ponteira com dois polos elétricos para que a musculação da face aconteça. A sensação de formigamento generalizado, as contrações involuntárias de boca e olhos e as dores em pontos específicos do rosto podem desanimar os vaidosos de plantão. Mas o resultado de rosto menos inchado e pele mais firme, de até cinco dias, compensa. Com as clínicas e academias reabrindo devido ao surto de coronavírus, os choques são promessa de dor e recompensa para o futuro.