EU ACHO …

PENSANDO DENTRO E FORA DA CAIXA

Precisamos evitar o despertar lento e inconsistente da economia

Caso seja mantida a abordagem “meio barro, meio tijolo” no combate do problema econômico gerado pela Covid-19, o Brasil não sairá da pandemia de forma rápida nem intensa. É claro que alguns setores podem despertar fortes e dinâmicos na cena pós-pandemia. Uns serão seriamente atingidos e outros, devastados. Mas, no geral, o cenário aponta para um despertar lento e inconsistente se nada for feito.

O que limita a intensidade da nossa retomada? Dois fatos são claros. O primeiro se refere às escolhas que estamos fazendo, que revelam que o Brasil ainda não acordou para a gravidade do problema. As medidas adotadas podem, no máximo, reduzir a intensidade da queda, mas não propiciam uma retomada. Principalmente pelo tamanho dos problemas que já existiam antes da pandemia. O segundo fato refere-se à contaminação das expectativas pela crise política, aliada à ausência de uma comunicação estratégica com a sociedade por parte das autoridades.

O que fazer? As medidas adotadas, algumas louváveis, como o “coronavoucher”, devem ser gradualmente substituídas por programas de geração de emprego. Recursos devem ser alocados para garantir o crédito necessário aos investidores. Apesar de o governo não gostar da expressão Plano Marshall, vamos precisar de um plano, e algumas vertentes dele são cristalinas. Temos mais de 14.000 obras públicas paradas em todo o país. Temos um programa de saneamento de amplitude nacional a ser implantado e diversas concessões e privatizações a ser realizadas. Podemos, ainda, investir na urbanização de favelas e comunidades. Tudo gerando emprego, renda e impostos. São medidas que fazem a economia girar e voltar a funcionar, além de diminuir o desemprego. A prometida desburocratização do sistema tributário ainda não aconteceu. Com ela a economia poderia ganhar vitalidade.

A preocupação da maioria no mercado é com relação ao aumento da dívida pública e, consequentemente, à perenidade dos gastos públicos. Na verdade, o mercado deveria se preocupar com a intensidade da crise econômica, que pode destruir instituições e abalar a própria democracia.

A existência da nossa democracia também está ligada à qualidade das nossas expectativas. Esse é o outro fato que devemos considerar. Infelizmente, o noticiário está sendo poluído por notícias que refletem crises relevantes. E crises de narrativas alimentam novas crises. Está havendo uma perversa dinâmica “retroalimentadora” de crises a partir de problemas reais e de conflitos periféricos para o momento.

O noticiário reflete também uma guerra cultural declarada desde as eleições e que envolve conflitos institucionais — governo versus imprensa — e disputas entre poderes. Para alguns, dentro e fora do governo, a guerra cultural é mais importante que a guerra contra o novo coronavírus e contra os efeitos dramáticos da crise econômica que já estamos vivendo.

O Brasil, lamentavelmente e até agora, está cumprindo o que disse Roberto Campos: não desperdiçamos a oportunidade de perder oportunidades. A crise representa um desafio e uma oportunidade e exige que se pense dentro e fora da caixa. Até agora estamos pensando mal dentro das nossas caixinhas, o que não atende aos nossos interesses maiores.

**MURILLO DE ARAGÃO

OUTROS OLHARES

O BRASIL NA MISÉRIA

O ciclo de empobrecimento do País, que começou há cinco anos, se intensifica com a pandemia e torna as perspectivas de futuro cada vez mais sombrias. A tendência é de piora na distribuição de renda

A principal mazela brasileira, a desigualdade, vem se intensificando nos últimos cinco anos e tende a se tornar ainda mais cruel por causa da pandemia do coronavírus. Se a distribuição de renda no País já era sofrível, a expectativa é que piore daqui para frente. Os fatores imediatos que contribuem para a deterioração do quadro social são o aumento do desemprego e do número de desalentados, gente que desistiu de procurar uma nova ocupação, e a impossibilidade de atuação de milhões de trabalhadores informais, impedidos de exercer sua atividade. O isolamento social tornou impossível para muitas pessoas buscarem o pão de cada dia e criou um ambiente de incerteza que afeta principalmente a parte baixa da pirâmide e não deve se dissipar nos próximos meses. Os últimos dados do Banco Mundial, divulgados em abril, revelam que o número de brasileiros vivendo com menos de US$ 3,20 (R$ 17,00) por dia passou de 14,3 milhões para 19,2 milhões entre 2017 e 2018. Um estudo publicado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que, entre 2012 e 2019, a renda da metade mais pobre da população caiu 18%, enquanto o 1% mais rico teve um aumento de quase 10% no seu poder de compra.

AJUDA EMERGENCIAL

O cenário é nebuloso, com o aprofundamento da crise econômica, e aponta para um encolhimento do mercado de trabalho. O tempo para recolocação das pessoas que estão perdendo o emprego agora será dilatado porque a recuperação da atividade será lenta. A ajuda emergencial de R$ 600, concedida pelo governo federal para a população desassistida, deverá amenizar os efeitos econômicos da pandemia e impedir uma explosão da miséria, mas não será suficiente para reverter o ciclo de empobrecimento, já que seus benefícios são de curto prazo. Se o governo não prolongar a ajuda e não fizer mudanças estruturais, a tendência é que, passado o período de isolamento, a penúria se alastre. “A pandemia fez todo mundo ganhar menos ao mesmo tempo e mostrou que o custo da desigualdade é maior do que se imaginava”, diz o pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Pedro Ferreira de Souza, autor do livro “Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos, 1926-2013”. “Todo mundo já estava acostumado com a desigualdade no cotidiano, mas o coronavírus está mostrando seu lado mais trágico e perverso”.

“O governo parou no dever de casa número 1, que é o socorro emergencial”, diz o economista Paulo Rabello de Castro, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para quem a pandemia encolheu consideravelmente a base do mercado de trabalho. “Deveria haver também um segundo grande programa de apoio ao empreendedorismo e uma modificação radical do contrato de trabalho que alterasse seus fundamentos fiscais”. Segundo Castro, na sua falta de estratégia para enfrentar a crise, o governo de Jair Bolsonaro se esqueceu do setor produtivo e abandonou as micro e pequenas empresas ao seu próprio destino. Só no final de junho, depois de mais de cem dias de pandemia, foi colocado em prática o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe), que garantirá uma linha de crédito para financiamento da folha de salários das empresas por dois meses. Além disso, ele acredita que a ajuda emergencial de R$ 600 pode colocar muita gente na “armadilha do conforto provisório” e desmotivar a pessoa a procurar um trabalho ou iniciar um empreendimento. “Um garçom que perdeu o emprego, por exemplo, não vai encontrar outra porta aberta rapidamente”, afirma. “Hoje o que temos é o famoso governo ao deus-dará”.

Neste momento, muitos brasileiros pararam de procurar emprego e se tornaram indisponíveis para trabalhar por terem sido contaminados pelo coronavírus ou porque precisam cuidar de algum doente. De acordo com os últimos dados do IBGE, obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua), o desemprego atingiu 12,7 milhões de pessoas entre março e maio deste ano. No período, quando houve o agravamento da crise sanitária, 7,8 milhões de pessoas perderam o emprego. Só em maio, 1 milhão de brasileiros ficaram sem contrato de trabalho. A taxa de desocupação, que era de 11,6% no trimestre anterior, atingiu 12,9%. O maior problema, porém, é que a população que estava fora do mercado, sem trabalho ou procurando emprego, aumentou em 9 milhões de um trimestre para o outro e atingiu o recorde de 75 milhões de pessoas. Além disso, o número de desalentados, que desistiram de procurar trabalho porque não acreditam que conseguirão vaga, aumentou em 718 mil e atingiu 5,4 milhões de pessoas. Os analistas do mercado acreditam que a taxa de desemprego alcançará 15,5% em setembro.

Embora os efeitos definitivos da pandemia ainda não possam ser medidos, inclusive pelo impacto que a ajuda emergencial terá sobre a atividade econômica, neste momento tudo aponta para o crescimento da desigualdade. Além daqueles que recebem menos de US$ 3,20 por dia, há um contingente de 41,7 milhões de brasileiros vivendo no limite da pobreza, segundo estudo do Banco Mundial, que tem uma renda inferior a US$ 5,50 (R$ 30,00) por dia. Esse é um grupo que tem crescido consideravelmente nos últimos anos – 5,8 milhões de pessoas entraram nessa faixa –, em função da deterioração da economia e da concentração de renda nas mãos dos mais ricos. E que tende a aumentar ainda mais nos próximos tempos por causa da falta de estratégia do governo para rearticular o sistema produtivo.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 17 DE JULHO

O PODER TERAPÊUTICO DA AFETIVIDADE

Então, houve grande pranto entre todos, e, abraçando afetuosamente a Paulo, o beijavam (Atos 20.38).

O apóstolo Paulo se despedia dos presbíteros de Éfeso no porto de Mileto. Naquele encontro, o veterano apóstolo dá suas últimas instruções aos líderes da igreja. Relembra como fora seu procedimento entre eles e os exorta a cuidarem do rebanho de Deus com fidelidade. Depois, despede-se dos anciãos e viaja rumo a Jerusalém. Nessa despedida, houve abraços, beijos e lágrimas. Havia entre aqueles homens profunda amizade, cálida comunhão e sincera afetividade. Embora fossem homens maduros, não hesitaram em externar suas emoções. Não represaram na alma seus sentimentos nem reprimiram seus gestos de amor. O amor precisa ser demonstrado. A afetividade precisa transbordar em nossas atitudes. Gente precisa de Deus, mas gente também precisa de gente. A afetividade é essencial para vivermos de forma saudável. Certa feita, uma mulher me disse à porta da igreja: “Pastor, valorizo muito o seu abraço depois do culto, pois é o único que recebo na semana”. De outra feita, uma senhora me ligou para dizer que estava frequentando uma igreja mais próxima de sua casa, pois isso seria mais cômodo para ela. Eu lhe respondi ao telefone: “O problema é que você é uma pessoa tão amada e tão especial para nós que não podemos abrir mão da sua presença”. Essa mulher desatou a chorar do outro lado da linha e confessou: “Pastor, eu não queria sair da igreja; só precisava ouvir isso do senhor”. Demonstre amor! Diga para as pessoas que você as ama. Mostre quão importantes elas são para você. Isso tem um poder terapêutico!

GESTÃO E CARREIRA

DEVOLVENDO À SOCIEDADE

Embora não seja uma atividade comum no Brasil, a filantropia tem crescido por causa da pandemia do coronavírus. Mas ainda é preciso muito trabalho para que o país tenha uma mentalidade filantrópica – que nada tem a ver com caridade ou assistencialismo

Cerca de 2.000 pessoas são mais ricas do que 60% da população mundial. Esse dado, que mostra o tamanho do abismo entre os bilionários e o restante dos indivíduos, foi apurado em janeiro de 2020 pela Oxfam, ONG especializada em desigualdade social. A instituição ainda revelou outro número: o 1% dos mais abastados do planeta detém mais do que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas. Mas alguns deles procuram devolver parte de sua fortuna para a sociedade por meio da filantropia e assim podem apoiar a cultura, a educação, a ciência, a saúde e as questões sociais. Fazem parte desse grupo empresários e investidores abastados, como Warren Buffett, George Soros, Michael Bloomberg e Bill Gates – este último, aliás, doou em fevereiro deste ano 100 milhões de dólares para a pesquisa e o tratamento contra o coronavírus por meio da Fundação Bill e Melinda Gates, criada pelo fundador da Microsoft e por sua esposa. O valor dessa doação específica pode até parecer alto, mas é apenas uma gota do oceano da filantropia americana. Em 2018, pessoas físicas, fundações e empresas doaram cerca de 427 bilhões de dólares para instituições de caridade e projetos filantrópicos, de acordo com dados da organização Giving USA Foundation. O montante equivale a cerca de 2% do PIB dos Estados Unidos.

Por aqui, o cenário é bem diferente. Segundo o último índice Global de Solidariedade, de 2018, o Brasil teve seu pior desempenho de doações já registrado: ocupou o 1;222º lugar no ranking geral, que lista 146 países. Em 2017, o Brasil estava na 75ª posição. O levantamento é feito pela Charities Aid Foundation (CAF), instituição britânica que se de dica ao investimento social e privado, e leva em conta o número de pessoas que no ano anterior ao da pesquisa doaram dinheiro para uma organização da sociedade civil, ajudaram um estranho ou fizeram trabalho voluntário. O Brasil está logo atrás de Equador, Hungria e Bielorrússia e muito distante dos cinco primeiros colocados: Indonésia, Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos e Irlanda. Não é à toa que uma pesquisa feita em 2015 pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis), parceiro da CAF no Brasil, mostrou que a filantropia representa apenas 0,23% do PIB brasileiro – algo em torno de 13,7 bilhões de reais.

Quem segura as pontas da filantropia no Brasil são as empresas. O relatório Global Philanthropy Report de 2018, realizado pela Harvard Kennedy School, identificou que mais de 90% das instituições filantrópicas do planeta são fundações independentes ou familiares. Mas o Brasil vai contra a corrente. Por aqui, 64% das fundações são ligadas a corporações. As companhias estão investindo cada vez mais em seus setores de responsabilidade social, não apenas por incentivos fiscais, mas porque as novas gerações de consumidores estão de olho no posicionamento das organizações. Uma pesquisa de 2019 feita pela consultoria Deloitte indicou que 38% dos jovens da geração Z deixariam de comprar de marcas envolvidas em escândalos relacionados a questões sociais e de sustentabilidade.

“Esse papel das empresas está sendo discutido em todo o mundo. As organizações com maior sucesso não são mais aquelas que só pensam em dinheiro, mas as humanistas. Atuações fortes são bem-vistas pelo público, não só de consumidores e investidores, mas de profissionais. Há atração e retenção de talentos maiores, assim como uma alta taxa de engajamento”, diz Edgard Barki, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV Eaesp).

DE QUEM É A RESPONSABILIDADE?

As explicações para a falta de uma cultura filantrópica de pessoas físicas no Brasil passam pela formação histórica do país, de acordo com Fernando Schüler, cientista político e professor na escola de negócios lnsper. “Nós temos uma presença forte do Estado em áreas como saúde, educação e cultura. Com isso, a sociedade civil se retrai e delega ao governo o controle dessas áreas. Quando precisa de um hospital em um bairro, por exemplo, ninguém pensa em se organizar e buscar recursos; o que as pessoas fazem é se voltar para o governo. E, na verdade, a essência da filantropia é a autorregulação social”, explica. Por esse motivo, a ideia filantrópica no país está ligada ao conceito de assistencialismo. Só que isso é um equívoco: mais do que boas ações isoladas ou caridade, a filantropia busca realizar mudanças estratégicas, efetivas e de longo prazo que promovam desenvolvimento econômico e social. Outros fatores que interferem na criação dessa mentalidade são a alta carga tributária e a burocracia. A história de José Mindlin, bibliófilo e empresário fundador da fabricante de autopeças Metal Leve, ilustra bem essas questões. Mindlin começou a colecionar livros raros aos 13 anos e, durante sua vida, reuniu uma coleção de cerca de 32.000 títulos, correspondentes a 60.000 volumes – entre eles estão pérolas como a primeira edição de O Guarani, de José de Alencar (de 1807), o original de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e a revisão do manuscrito de Grande Sertão: Veredas, com anotações de Guimarães Rosa.

Em 2002, Mindlin se reuniu a István Jancsó, então diretor do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo, para construir uma biblioteca que abrigaria sua própria coleção, além do acervo do IEB, formado pelos arquivos e livros de Sérgio Buarque de Holanda. Mas algumas pedras apareceram no caminho até a inauguração da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em 2013. A primeira foi o fato de que, para doar seus livros à USP, o bibliófilo teria de pagar um imposto de 15% da diferença entre o valor declarado das obras e o de mercado. A alternativa para não haver essa cobrança seria criar uma fundação. Mesmo assim, Mindlin precisaria desembolsar 4% de imposto sobre o valor das obras para transferir seus livros para sua própria fundação. O imbróglio foi resolvido em 2006, quando a coleção foi, finalmente, doada. Mindlin faleceu três anos antes da abertura de sua biblioteca e não pôde ver sua tarefa finalizada. “Temos um sistema tributário que não promove a doação individual. As empresas ainda têm incentivo fiscal, mas para pessoas físicas é mais difícil”, diz Paula Fabiani, diretora presidente do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (Idis). Ela explica que o imposto sobre transmissão causa mortis e doação (ITCMD) varia de 2% a 8%, dependendo do estado brasileiro. “Isso é um absurdo. É óbvio que é um pouco de desculpa para não doar, mas, dependendo do valor, pode se tornar um empecilho. Antes de estimular a filantropia, a gente tem de repensar essa tributação.”

Além da burocracia, a filantropia pode ser prejudicada pela percepção de que o privado e o público não podem se misturar. Um caso que exemplifica isso também acontece u na USP. Em 2009, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco recebeu uma doação de 1 milhão de reais da família do banqueiro Pedro Conde para a reforma de um auditório. Em contrapartida, a sala seria batizada com o nome do empresário. No entanto, no ano seguinte, após a troca da reitoria e protestos de alunos e professores (que alegavam que a instituição não deveria homenagear pessoas de fora da academia), a placa foi retirada. Em 2012, a Justiça determinou que a universidade devolvesse o valor recebido por não ter cumprido o acordo com a família.

SEQUELAS DA NEGLIGÊNCIA

Um país sem a cultura filantrópica também sai perdendo em guerras comerciais. Afinal, as doações para pesquisas acadêmicas, ciência e tecnologia podem fazer muita diferença na economia. “É interessante quanto esse tipo de investimento pode ser estratégico para posicionar o Brasil quando o assunto é tecnologia, novos negócios e saúde, mas ao mesmo tempo os casos de doações para esses segmentos são baixos”, diz Paula, do Idis. Os dados da CAF mostram que causas voltadas para animais e crianças ganham destaque: 39% das doações são destinadas para esses dois grupos. E apenas 8% vão para a saúde. Investimento filantrópico em ciência se torna ainda mais importante porque o governo brasileiro tem falhado em colocar dinheiro na área. De acordo com o mais recente relatório Indicadores Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação, de 2018, os aportes em pesquisa e desenvolvimento vêm caindo desde 2016. No ano passado, 42% das despesas de investimento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações foram congeladas.

A crise do coronavírus está evidenciando a necessidade de apoiar as ciências de saúde e gerou uma explosão de doações. Até o dia 25 de maio, os brasileiros tinham doado mais de 5,3 bilhões de reais para o combate à covid-19 – seja para a compra de equipamentos médicos, seja para a pesquisa -, segundo a Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR), que criou um monitor de doações durante a pandemia. Grande parte desse montante é proveniente de companhias privadas, e uma delas se destaca: o Itaú Unibanco doou 1 bilhão de reais. “Esta tragédia vai produzir uma mudança da estrutura da filantropia brasileira. O terceiro setor é mais ágil, consegue correr riscos em uma velocidade que o governo e as empresas não conseguem ou não têm interesse”, afirma Katia Maia, diretora executiva da Oxfam Brasil.

Mas, antes de a covid-19 se espalhar pelo Brasil, havia uma instituição privada sem fins lucrativos pioneira em incentivar a ciência e a divulgação científica no país. Trata­ se do Instituto Serrapilheira, fundado em 2017 por João Moreira Salles, documentarista, idealizador da revista Piauí e filho de Walther Moreira Salles, fundador do Unibanco, e por sua esposa, Branca Vianna. Para criar o instituto, o casal doou 350 milhões de reais oriundos de um fundo patrimonial criado em 2016. João Moreira Salles e seus três irmãos têm a fortuna estimada em 3,1 bilhões de dólares e estão em sétimo lugar entre os brasileiros mais ricos, de acordo com ranking da revista Forbes de 2019.

Admirador das ciências exatas e biológicas, João teve a ideia de apoiar a área de maneira estruturada depois de conversas com o matemático Jacob Palis, pesquisador emérito do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) do Rio de Janeiro, e da aproximação com Artur Àvila, matemático ganhador da Medalha Fields, a maior honraria da disciplina, que foi entrevistado por João para um perfil na Piauí.

Desde sua criação, a organização já auxiliou mais de 90 cientistas investindo mais de 25 milhões de reais. A seleção dos pesquisadores é feita por meio de chamadas públicas voltadas para estudiosos de matemática, ciências físicas, ciências da vida e engenharia. Cada selecionado recebe um financiamento anual de 100.000 reais. Após esse período, os projetos são reavaliados para receber mais investimento. Até três deles podem receber até 1 milhão de reais – 700.000 reais são concedidos de forma incondicional e os outros 300.000 reais são para a integração e a formação de pesquisadores.

“A ciência é a solução para vários problemas brasileiros em diversas áreas, e ter uma ciência forte é uma questão de segurança nacional. Mas isso não está claro para os tomadores de decisão”, diz Hugo Aguilaniu, diretor presidente do Instituto Serrapilheira. Ele explica que a pesquisa e a produção científica têm custo alto e retornos pequenos. “Mas criam uma base da qual podem emergir tecnologias, produtos e cura de doenças.” Para Hugo, as empresas investem no assunto, só que não de forma desinteressada como na filantropia. “Até 70% dos recursos para pesquisa e desenvolvimento no Brasil vêm do setor privado, mas a iniciativa não é sustentável porque não dá lucro, e o investimento pode ser cortado a qualquer momento.”

Existe também a necessidade de haver divulgação dos projetos científicos. Sem isso, fica difícil criar uma rede de especialistas que sejam reconhecidos por seus feitos – o que estimularia o interesse da sociedade no assunto. “O brasileiro não dá valor para a ciência porque quase não temos cientistas famosos. Quanto mais as pessoas se interessam, é natural que o governo se sensibilize com a pauta.” Para mudar esse cenário, o Serrapilheira oferece workshops e recursos para cientistas que queiram comunicar sobre seus trabalhos.

NÃO É ASSISTENCIALISMO

Outra área que costuma ser deixada de lado nas doações é a de direitos humanos: somente 9% dos valores arrecadados são destinados a organizações voltadas para essa questão, de acordo com a CAF. “Os trabalhos sociais de direitos humanos ainda sofrem com uma imagem de assistencialismo e com a ideia de que ‘não se dá o peixe, ensina-se a pescar’. Mas as pessoas esquecem que há muita gente que não tem nem acesso ao rio para aprender a pescar”, afirma Paula, do ldis.

A falta de recursos das organizações não governamentais que atuam com direitos humanos foi o que chamou a atenção da família Lafer – cujo patriarca, Miguel Lafer, foi um dos fundadores da fabricante de papel e celulose Klabin, na qual os herdeiros têm hoje participação. Em 2011, os Lafer criaram o Instituto Betty & Jacob Lafer como uma forma de organizar os recursos da família para fazer um trabalho filantrópico mais estruturado. “Procuramos por uma área que tivesse a ver com o interesse e os valores da família. Percebemos que os direitos humanos contam com ONGs que fazem trabalhos importantes, mas são carentes de recursos”, diz Inês Mindlin Lafer, diretora do instituto. “Em vez de criar novas ações, optamos por financiar as já existentes.” Em seus quase dez anos de atuação, a instituição já destinou mais de 10 milhões de reais para 40 organizações diferentes. Além disso, ajuda a aprimorar os projetos, realizar pesquisas, veicular informações e desenhar estratégias para a implementação de políticas públicas. “A filantropia não substitui o poder público, mas é capaz de realizar ações que fazem diferença na sociedade”, diz Inês. Ela acredita que todos, independentemente da renda, podem se envolver com a filantropia de alguma maneira. Por isso, idealizou o Confluentes, um programa que conecta pessoas físicas a projetos filantrópicos pré-selecionados que atuam em temas como segurança pública, igualdade de gênero e meio ambiente, entre outros. As faixas de doação partem de 5.000 reais por ano. “Muitos acham que só porque não estão entre o 1% mais rico não podem doar. O programa é voltado para essa pessoa que quer fazer a diferença”, diz Inês. ”Muitas vezes a gente reclama do governo e se sente impotente, mas há coisas que estão ao nosso alcance e não sabemos.”

A FORÇA DA PROFISSIONALIZAÇÃO

Para garantir o sucesso filantrópico, um dos segredos está na profissionalização da área. De acordo com Custódio Pereira, presidente do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (Fonif), esse é um dos motivos pelos quais os Estados Unidos são referência no assunto. “Os americanos profissionalizaram a figura do captador de recursos e desenvolveram métodos de arrecadação. Quando você vai estruturar uma causa, precisa ter cientificidade: saber quanto de dinheiro é necessário, por quanto tempo, quais serão as ações, quantas pessoas serão beneficiadas. Tudo isso aumenta a credibilidade do projeto, que recebe cada vez mais doações”, explica Custódio. Um método muito utilizado no exterior e que está ganhando espaço no Brasil é o de fundos endowment – também conhecidos como fundos patrimoniais (os mesmos usados por João Moreira Salles no Instituto Serrapilheira). Eles são voltados para a arrecadação, gestão e destinação de doações para programas de interesse público. No início do ano passado, o governo brasileiro sancionou a Lei nº13.800, que autoriza a administração pública a firmar parcerias com gestoras de fundos patrimoniais.

Qualquer tipo de projeto filantrópico pode se beneficiar desse financiamento, mas ele é mais comum na administração de museus e organizações de apoio à cultura – a lei, inclusive, passou a ser discutida após o incêndio que destruiu, em 2018, o Museu Nacional do Rio de Janeiro. “Fora do país, a maioria dos museus tem fundos desse tipo. Isso é muito vantajoso, porque garante a perpetuidade das instituições e, ao mesmo tempo, a administração não fica dependente de doações de curto prazo ou de auxílio do governo”, afirma Fernando Schüler, do Insper. Um exemplo de museu brasileiro que seguiu os passos de instituições corno o Museu de Arte Moderna (MoMa), de Nova York, e o Instituto Smithsonian, de Washington, é o Masp. Em 2013, o museu símbolo da cidade de São Paulo se viu no meio de uma dívida de 12 milhões de reais, além de uma pendência de 10 milhões de reais com a Previdência Social. O jogo virou depois que Heitor Martins – que também é colecionador de arte e sócio da consultoria McKinsey – assumiu o cargo de diretor presidente do Masp em 2014. O executivo assumiu a cadeira do museu paulistano depois de uma experiência bem-sucedida como presidente da Fundação Bienal, de São Paulo, entre 2009 e 2012, período em que foi responsável por profissionalizar a instituição, que tinha um rombo de 2,8 milhões de reais quando ele assumiu e corria o risco de não realizar a exposição de 2010. No Masp, Heitor se uniu a um grupo de executivos liderado por Alfredo Setúbal, CEO do Itaúsa, para desenhar um plano de reestruturação do museu. No projeto, havia a criação de um fundo patrimonial. “A gente se espelhou nos museus americanos, que são privados, mas têm apoio da sociedade civil. O endowment é uma forma de arrecadação, mas também temos outros modelos de doações e parcerias”, explica Heitor.

Só no ano passado, o Masp contou com a contribuição de 47 empresas que ajudaram com 22 milhões de reais. Já as doações de pessoas físicas, companhias e organizações do setor privado   somaram 31 milhões de reais. O fundo patrimonial, que foi lançado em 2017 e ainda se encontra na fase de acumulação primitiva, conta está com 15,2 milhões de reais – a meta é atingir 40 milhões de reais em até cinco anos, que é o suficiente para bancar o funcionamento do museu durante um ano caso acabem todos os seus recursos. Como base de comparação, o Metropolitan Museum of Art, de Nova York, o mais importante dos Estados Unidos, tem, em 2020, um fundo de 3,6 bilhões de dólares.

O que tem feito a diferença no Masp é o fato de conselheiros e diretores do museu precisarem fazer urna contribuição anual mínima de 25.000 reais para o endowment. “Precisávamos de ações que fossem transparentes financeiramente e dialogassem com as pessoas. Por isso, nós criamos uma área de relações institucionais que controla o dinheiro arrecadado e comprova que ele está sendo gasto de uma maneira séria”, diz Heitor. A transparência, aliás, é o pilar da filantropia. Sem ela, os doadores se afastam por não saberem se os montantes estão mesmo sendo utilizados para o que foi acordado. E não importa se a doação é de 1 real ou de 1 milhão de reais. Uma cultura filantrópica nasce da confiança.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

AS BOLHAS DA QUARENTENA

Com a pandemia ainda em alta, grupos de amigos criam regras para socializar-se presencialmente, mas só entre eles. A saúde mental agradece

No princípio era o pânico. Asmática e por isso incluída no grupo de risco para o novo coronavírus, a relações-públicas Rubia Prado se autoimpôs um período de reclusão uma semana antes da quarentena decretada pelo governo de São Paulo. Na companhia do marido, o empresário Patrick Cartolano, isolou­ se no apartamento do casal na capital e passou a arredar pé de casa só para ir ao térreo exercitar-se. Com a rápida escalada de casos de covid-19 no país, riscou da lista até as atividades ao ar livre – compras, apenas pelo delivery. Voltou a pisar na rua só 70 dias depois. Fim do isolamento? Não exatamente. Ela trocou a quarentena a dois por outra na Praia de Itamambuca, em Ubatuba, na companhia de mais dois casais, um deles com um bebê de 8 meses.

A princípio, o plano é passar três meses na casa alugada, que dispõe de quatro suítes e distrações como piscina e churrasqueira. ”Estávamos todos em regime de home office, cumprindo à risca as determinações das autoridades de saúde e angustiados com a falta de convivência com outras pessoas. Por que não nos juntarmos?” Não se trata de férias na praia. O grupo acordou que ninguém pode se encontrar com pessoas de fora do círculo, caminhadas à beira-mar não são permitidas nos fins de semana, quando há muita gente, e quem se candidata a ir ao mercado precisa higienizar cada item depois e correr para o banho em seguida. Também estabeleceu que a TV não precisa ficar ligada o tempo todo, bombardeando com notícias angustiantes, e que as refeições devem ser feitas à mesa, em conjunto. ”A atenção aos riscos do novo coronavírus continua, mas os dias ficaram mais leves, sem a neurose nem a ansiedade de antes”, resume Prado.

O grupo está vivendo numa bolha. Uma bolha para a quarentena, melhor dizendo, que epidemiologistas e profissionais da saúde mental têm apontado como um caminho eficaz para preservar a sanidade sem comprometer a batalha contra o surto viral. Em geral, é formada por duas ou três famílias que concordam em socializar-se ao vivo e em cores – e com mais ninguém. Dentro da bolha, abre-se mão do uso de máscaras e do distanciamento de 1,8 metro recomendado pela OMS para diminuir os riscos de contágio. Fora dela, as orientações para conter a pandemia são obedecidas com rigor redobrado.

”Isso só funciona para famílias extremamente conscientes da responsabilidade que estão assumindo e que confiam umas nas outras”, alerta a psicanalista Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP. ”Quem descumprir o combinado, encontrando alguém de fora, por exemplo, estará colocando todo o grupo em risco.” Observadas as ressalvas, Iaconelli é favorável à ideia. E diz que é chegada a hora de encarar o fato de que a pandemia está longe do fim e é preciso adaptar-se à nova realidade – com prazo de validade, espera-se. ”É o que tem para hoje. O que nos resta é reduzir os danos com base no que aprendemos com a quarentena até aqui”, afirma. ”Tire o que é prejudicial, como happy hours diárias, e invista no que traz bem-estar. Com o isolamento, muita gente está sendo tragada pela ansiedade e pela depressão. A saúde mental, portanto, deve ser prioritária.”

Uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) serve de termômetro para o tamanho do problema. Aproximadamente 90% dos médicos associados notaram o agravamento do estado de pacientes em razão da pandemia e quase 68% viram a clientela aumentar com o isolamento. Os transtornos mais diagnosticados: depressão, ansiedade e síndrome do pânico. Na visão de especialistas da área, a escalada da covid-19 desencadeou duas outras ondas. A segunda envolve as doenças que não foram tratadas durante a pandemia, em geral porque não se buscou atendimento médico. E a terceira agrupa as moléstias crônicas, agravadas por ter sido deixadas de lado.

O governo da Bélgica encampou a ideia das bolhas sociais em maio. Autorizou cada família a receber até quatro pessoas, cujas casas pode frequentar – desde que mais ninguém faça parte do círculo. Recomenda também o uso de áreas externas para os encontros e deixar beijos e abraços para quando vier a vacina. ”A separação física daqueles que amamos se tornou, em alguns casos, insuportável”, justificou Sophie Wilmês, primeira-ministra do país. Inicialmente apelidada de ”quebra-cabeça de quatro pessoas”, a recomendação foi afrouxada e já ampliou o círculo para 15 pessoas. O primeiro país que implementou uma ideia similar foi a Nova Zelândia, mas é bom ressaltar que, com seus 4,8 milhões de habitantes, ali o isolamento já faz parte da paisagem. A do Reino Unido é chamada de bolha de apoio e prevê regras parecidas.

Quem você chamaria para sua bolha? Uma escolha óbvia entre casais com filhos é eleger amigos na mesma situação. Caso os participantes sejam substituídos, é prudente aguardar duas semanas entre cada configuração, o tempo máximo de incubação do novo coronavírus, pelo que se sabe – é fundamental que nenhum dos envolvidos apresente sintomas da doença que assola o mundo. ”É importante que todos tenham gostos parecidos”, diz a dermatologista Vera Rebelo. Moradora de um condomínio horizontal em Alphaville, na Grande São Paulo, ela formou sua bolha com as duas filhas, com quem divide a casa, e com dois casais de amigos de longa data que moram na vizinhança. ”Não sabemos quando tudo isso vai acabar, por isso nos reunimos toda semana para festejar, mas sem pôr ninguém em risco.”