EU ACHO …

TAMBÉM NA INTERNET A LUZ DO SOL É O MELHOR DESINFETANTE

Em breve estará em pauta a votação no Senado do PL 2630/20, que institui a Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet. Trocando em miúdos, trata-se de uma lei para lidar com a propagação de fake news nas redes sociais e aplicativos de mensagem.

O momento para lidar com o assunto não poderia ser mais quente. Além da ação do STF contra empresários e influenciadores digitais bolsonaristas, o presidente americano Donald Trump entrou em guerra com o Twitter, depois que a plataforma sinalizou dois de seus posts como tendo informações falsas sobre a votação pelo correio, uma prática adotada nos Estados Unidos.

Já escrevi neste espaço que as fake news representam um problema “diabolicamente difícil” para as democracias.  O objetivo legítimo de coibir a propagação de mentiras, calúnias e discursos de ódio tem de ser equacionado com o princípio da liberdade de expressão, sem o qual uma sociedade aberta não funciona.

Não há dúvida que informações falsas que prejudicam indivíduos (“Fulano é pedófilo”) ou coletividades (“É bom tomar cloroquina contra o coronavírus”) podem e devem ser punidos. Mas isso deve ser resultado de processos legais cuidadosos, que asseguram que a má fé está sendo castigada, e não a liberdade de expressão.

Acredito que o PL brasileiro vai na direção correta. Ele orienta as redes sociais a adotar mecanismos de checagem de informações e alertar sobre mensagens que considerem “fake”, sem no entanto derrubá-las.

As medidas mais robustas, porém, vão no sentido de combater as contas inautênticas, os robôs e as redes de difusão clandestinos, e os conteúdos patrocinados que não são identificados como tal. Em outras palavras, o propósito é ampliar a transparência e impedir pessoas ou grupos de manipular e falsificar informações a partir das sombras.

Como diz o bordão, a luz do sol é o melhor desinfetante. Saber quem está por trás de uma mensagem ajuda a interpretar o conteúdo. Está de acordo com o princípio constitucional que proíbe o anonimato no Brasil. E não transforma empresas, comitês gestores ou algum outro tipo de órgão em tribunal sumário daquilo que as pessoas devem ou não devem ver nas redes sociais.

Algumas leis sobre fake news já foram aprovadas no mundo, e nenhuma passou pelo crivo defensoras da liberdade de expressão. Leis de países com governos linha dura, como Rússia, Singapura e Venezuela são vistas como tentativas mal disfarçadas de calar opositores. Mas a precursora de todas as iniciativas para restringir a circulação de fake news, a lei alemã que entrou em vigor no início de 2018, também é vista como falha, apesar de ter sido aprovada em um país democrático.

A lei alemã obriga plataformas como Facebook e Twitter a eliminar postagens que se encaixem numa lista com 22 tipos conteúdo ilegal, sob pena de multa de até 50 milhões de euros. A lista cobre desde ameaças concretas de violência até insultos dirigidos contra ocupantes de cargos públicos.

O estatuto é criticado por transformar as empresas de tecnologia em árbitros do que seria conteúdo adequado, muito embora a fronteira entre o legal e o ilegal nem sempre seja fácil de estabelecer. Além disso, ele não oferecer um mecanismo rápido de contestação para quem achar que seu direito de livre expressão foi atingido.

O papel das plataformas sociais também está no centro da disputa entre Trump e Twitter. Ofendido com o carimbo de “falso” aplicado pelos Twitter a seus posts, o presidente americano passou a dizer que empresas de tecnologia estão querendo censurar o discurso dos usuários. Em retaliação, derrubou uma norma existente desde os anos 1990, que diz que as plataformas não podem ser responsabilizadas pelo conteúdo publicado nelas.

Até agora, se um sujeito caluniasse outro em um tuíte, o serviço de mensagens não pode ser considerado cúmplice nos Estados Unidos. Com a revogação da regra por Trump, as gigantes de tecnologia podem acabar arrastadas para um sem número de batalhas judiciais custosas. Na contramão do que deseja Trump, podem também baixar regras de uso draconianas, justamente para se eximir de co-responsabilidade por mensagens que venham a ser tidas como criminosas. Haveria uma transformação profunda no sistema das redes sociais como é conhecido hoje.

Alguns legisladores brasileiros também acham que as redes sociais devem ser responsabilizadas pela disseminação de fake news. Empresas de TI e entidades como a Coalizão Direitos na Rede, que reúne 38 organizações da sociedade civil, acreditam que essa responsabilização já está embutida no projeto de lei do Senado, e vão tentar alterá-lo. É um debate acirrado e por causa dele é bem provável que a votação acabe sendo adiada.

Mas a proposta brasileira é boa. Bem melhor que a alemã. Mantido o seu espírito, deve ser aprovada o quanto antes, pois vai dificultar a existência presente ou futura de gabinetes do ódio.

**CARLOS GRAIEB tem trinta anos de experiência como jornalista e executivo de mídia. Foi secretário de Comunicação do Governo do Estado de São Paulo (2017-2018)

OUTROS OLHARES

DEPOIS DAQUELE VÍRUS

Terminada a batalha contra a Covid-19, pacientes e médicos têm de lidar com as sequelas físicas, neurológicas e psicológicas que ainda persistem

No dia 16 de abril, o médico Márcio Ananias teve alta depois de passar dez dias internado com Covid-19 em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). O que, para os leigos, seria o fim de um calvário, era o início de um longo e difícil período de recuperação. Ao chegar em casa, sem poder subir um pequeno lance de escadas, sua mulher questionou se já estava mesmo curado ou se seria melhor voltar ao hospital. Era apenas uma das intercorrências com as quais ele vem lidando de lá para cá.

Além das sequelas provocadas pela nova doença, como uma intensa fraqueza muscular e a fibrose pulmonar, uma espécie de cicatriz que afeta a respiração e requer fisioterapia, uma parte dos pacientes acometidos pelo novo coronavírus tem deparado com a síndrome pós-UTI, um conjunto de alterações físicas , neurológicas e psicológicas que atinge aqueles que passam muitos dias sob cuidados intensivos. O quadro já é conhecido pelos médicos intensivistas e vem recebendo tratamento cada vez mais específico, mas a Covid-19 colocou o mal em maior evidência. Com mais pessoas internadas em situação grave, também cresceu o número de pacientes que requerem o tratamento para a síndrome. Especialistas estimam que, no Brasil, cerca de 25% dos pacientes que passaram por internação em UTI sofrem da síndrome.

“Eu me canso muito mais facilmente do que antes, falta disposição para atividades simples e tudo que faço vem acompanhado de frequência cardíaca muito alta. Ainda estou na fase de reabilitação, perdi 10% de meu peso. Outra sequela é a psicológica. Fiquei muito inseguro de que realmente estava curado, pensava que podia ter uma recaída, ficava neurótico vendo se estava com febre, medindo oximetria”, contou Ananias, que é intensivista e já voltou a trabalhar no hospital, por enquanto, por meio período.

O médico não precisou ser entubado e sabe que todo o processo poderia ter sido pior. A maior parte das pessoas que vai para o respirador fica muito tempo, de 12 a 14 dias, e recebe sedativos e bloqueadores musculares. Esses procedimentos causam sequelas como atrofia muscular, maior risco de feridas na pele, problemas nas cordas vocais e na traqueia. “A gente tem pacientes que ficam muito tempo, mas o problema é o surto: eram dois, três pacientes. Deuma hora para outra, todos ficam assim”, disse.

Atualmente, os médicos intensivistas tratam o paciente já pensando em como será sua vida depois da internação, tentando diminuir sequelas comuns naqueles que passam muito tempo sob sedação. “Existem curativos moderníssimos para evitar lesões de pele, evitar escaras, a mudança do decúbito (jargão médico para se referir à forma de repouso do corpo), que deve mudar a cada duas ou três horas para evitar que o mesmo lado fique apoiado. Estamos selecionando remédios sedativos, para evitar aqueles que causam delírio, e nos preocupamos mais precocemente com a necessidade de alimentação”, disse o médico. Roselaine Pinheiro de Oliveira, chefe do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, explicou que hoje, mais do que evitar a morte, é preciso pensar no dia seguinte. “Estamos estudando qual preço as pessoas pagam por uma internação prolongada”

Além do tempo passado na UTI, os fatores de risco para que as sequelas se convertam em síndrome são a idade do paciente, se teve delírios, se já sofreu alteração da função cerebral e se tem doenças prévias, como problemas cardíacos. As alterações físicas mais comuns em quem desenvolve a síndrome (com ou sem Covid-19) são perda muscular, fraqueza, dificuldade para desempenhar tarefas simples, como comer sozinho, escovar os dentes, ir ao banheiro, caminhar.  Há ainda possíveis problemas pulmonares, cardíacos e renais. Em geral, cerca de 40% das pessoas internadas em tratamento intensivo precisam de hemodiálise, que consiste em uma máquina realizar o trabalho de filtragem do sangue. Já as alterações psiquiátricas são depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. Há ainda casos de síndrome do pânico sendo notados em pessoas curadas da Covid-19. “O paciente se viu diante de uma doença com mortalidade alta, com enorme carga de informações sobre o risco. Tinha um paciente que não queria ver TV, não conseguia ouvir notícias. Há também o impacto de se saber doente e de estar sozinho, em isolamento. Todo mundo paramentado, vestido de azul ou branco, o paciente não vê um sorriso, um olhar fraterno, há o próprio medo da equipe, é um ambiente de medo e de solidão”, disse Antônio Eduardo Neto, intensivista do Hospital Badim, no Rio de Janeiro.

Os médicos também têm de lidar com as expectativas dos pacientes. Muitos acreditam que, pelo fato de terem alta, recuperarão imediatamente a saúde que tinham antes do vírus. Por isso, são aconselhados a entender que o processo de recuperação tem etapas e que podem vir a sofrer da síndrome pós-UTI. “O paciente sai da alta complexidade e vai para média complexidade. Ainda está doente. Mesmo depois da alta, está convalescente e tem de adotar uma série de medidas”, afirmou Neto. No caso específico da Covid-19, é difícil precisar o tempo de recuperação necessário. “É tudo novo, não conhecemos ninguém com seis meses pós-doença, não há estudos que mostrem o que pode acontecer e qual o tempo de recuperação, porque os pacientes respondem de forma diferente”, disse o intensivista. Em 23 de abril, Pedro Meirelles, de 31 anos, foi ao hospital com a mãe achando que estava com uma crise de asma. Foi direto para a UTI, com 50% dos pulmões comprometidos, e passou quase um mês hospitalizado. “Todo tempo perguntava por meus pais, estava muito preocupado com eles. Criei formas de conter a ansiedade devido aos anos de acompanhamento psicológico, mas, quando pensava em meu pai e minha mãe, muitas vezes chorava escondido”, contou.

Meirelles foi entubado. Mas a sedação e todo o processo de combate ao vírus deixaram sequelas neurológicas nas primeiras semanas de recuperação. “Tomei muitos remédios fortes. Quando fui para o quarto, não sabia o que era realidade e o que era fantasia. Na primeira vez que falei com meus pais pelo telefone, estava revoltado, dizia que não sabia o que tinham feito comigo, que não conseguiria voltar para casa. Mesmo depois que tive alta e cheguei em casa, ainda fiquei uma semana perguntando se tinha ouvido vozes. Achava que tinha visto meus pais pelo vidro. Foi difícil aceitar que tinha sido coisa de minha cabeça e que realmente estava atordoado”, relembrou.

Trata-se de um sintoma clássico da síndrome pós-UTI. Um mês depois da alta, ele ainda tem dificuldades para descer um pequeno lance de escadas. ” Nunca tinha estado em uma UTI. Foi uma barra. Perdi 15 quilos, senti muita fraqueza. A primeira vez que pisei no chão fiquei em êxtase. Agora só posso fazer dez minutos de bicicleta ergométrica e devagar. Sei que vai levar ainda um tempo para tudo voltar ao normal.”

No Reino Unido, onde o sistema de saúde é público e unificado e onde mais de 300 mil pessoas foram infectadas, as autoridades estimam que 45% dos pacientes que deixaram o tratamento intensivo precisarão de cuidados médicos, 4% terão de fazer reabilitação e 1% precisará receber cuidados permanentes por tempo indeterminado. Nos próximos 18 meses, pesquisadores do King’s College, de Londres, vão usar os dados disponíveis da pandemia para averiguar se é possível prever que tipo de paciente está mais propenso a desenvolver intercorrências pós­ Covid. Ainda não é possível aferir se essas sequelas têm características únicas, que as diferenciem de outras doenças pós-internação intensiva. Mas pesquisadores britânicos querem estabelecer o nome de “síndrome pós­ Covid” para facilitar seu reconhecimento e impedir que as complicações se agravem.

ALIMENTO DIÁRIO

GOTAS DE CONSOLO PARA A ALMA

DIA 16 DE JULHO

FERVOR ESPIRITUAL

Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Quem dera fosses frio ou quente! (Apocalipse 3.15).

De todas as igrejas da Ásia Menor, Laodiceia, a mais rica, foi a única que recebeu de Cristo apenas censuras, nenhum elogio. Aquela igreja não tinha problemas de heresia. Nenhuma falsa doutrina nela se infiltrara. O problema não era heresia, mas apatia. Aquela igreja não enfrentava nenhum tipo de perseguição. Havia ortodoxia interna e também paz nas fronteiras. Aquela igreja não lidava com nenhum pecado moral. Não havia escândalos entre seus membros. Aquela igreja não lidava com pobreza. Ao contrário, era rica e abastada. Jesus, porém, diagnosticou falta de fervor e falta de discernimento. Aquela igreja não era quente como as águas termais de Hierápolis nem fria como as águas terapêuticas de Colossos. Pelo contrário, era uma igreja morna, tépida, como as águas que chegavam à cidade pelos aquedutos. O que faltava à igreja de Laodiceia era fervor espiritual. Por isso, em vez de ser o deleite de Cristo, aquela igreja provocava náuseas no Filho de Deus. Jesus também nos sonda. Investiga nossa alma e conhece o que está em nosso coração. Ele não se satisfaz apenas com ortodoxia e moralidade. Não basta ter apenas prosperidade material. Jesus busca em nossa vida fervor. Uma vida morna provoca náuseas em Jesus. Apesar de nossa falta de fervor, Jesus não desiste de nós. Ele nos exorta e nos disciplina, porque nos ama. Ele bate à nossa porta porque quer ter comunhão conosco.

GESTÃO E CARREIRA

ACABOU A BATERIA

Após fiasco de vendas e problemas de segurança, a Segway aposenta seu patinete, um símbolo de modernidade. Na nova era tecnológica, fracassos são cada vez mais comuns

O engenheiro americano Dean Kamen tem 440 patentes registradas em seu nome, mas nenhuma delas provocou tanto alarido quanto o patinete elétrico Segway. Com duas rodas paralelas, o dispositivo “seria para o carro o que o carro foi para os cavalos e carruagens”, segundo disse o inventor ao lançar o produto, em 2001. De fato, muita gente acreditou que o novo veículo mudaria o transporte urbano para sempre. Era, afinal, ágil para a locomoção nas grandes cidades e poderia ser usado em diversas situações, como por agentes de segurança em shoppings, funcionários de redes de supermercados ou em atividades de lazer. Mas deu errado. O patinete esquisitão não apenas deixou de cumprir a proposta de melhorar a mobilidade urbana como apresentou falhas de funcionamento que comprometeram a sua adoção em larga escala. O resultado não poderia ter sido pior.

Com a crescente desconfiança dos consumidores, as vendas empacaram e as perdas financeiras se sucederam. Há alguns dias veio o tombo definitivo: a Segway Corporation anunciou que deixará de fabricar o patinete.

Os fracassos são parte indissociável do mundo corporativo. É raro, para não dizer impossível, encontrar uma grande corporação que não tenha tropeçado ao longo do caminho. “O que distingue as firmas verdadeiramente excelentes, em contraste até mesmo com aquelas meramente bem­ sucedidas, não é a ausência de dificuldades, mas a capacidade de sair das quedas”, escreveu o guru da administração Jim Collins no best-seller Como as Gigantes Caem. Símbolo máximo da era digital, o Google não se deixou abater por erros retumbantes. O maior deles talvez tenha sido o Google Glass, os desajeitados óculos de realidade aumentada que permitiriam aos usuários tirar fotos, enviar mensagens e realizar videoconferências. Lançado em 2013, o gadget não emplacou por uma razão que, analisada a distância, parece óbvia: o aparelho não oferecia quase nada que um smartphone já não fizesse. Mesmo assim, o Google insistiu no projeto. Estima-se que as vendas dos tais óculos tenham rendido 10 milhões de dólares, uma ninharia perto das centenas de milhões de dólares que a empresa desembolsou no seu desenvolvimento. A produção do Google Glass foi suspensa em 2015, mas retomada em 2017. Uma nova edição foi lançada no ano passado, ainda sem gerar entusiasmo entre o público.

Diversos motivos explicam um revés dessa natureza. Muitas vezes, as empresas falham por não identificar os anseios de quem realmente importa – o cliente. “Não se pode priorizar a tecnologia em si e esquecer o comportamento e as vontades do consumidor”, diz Helton Haddad Silva, professor de marketing da Fundação Getúlio Vargas. O Blu-Ray é um caso clássico da falta de sensibilidade dos fabricantes. Ele foi desenvolvido em conjunto por empresas como LG, Panasonic, Philips, Pioneer, Samsung e Sony, que imaginaram que seria suficiente criar um aparelho capaz de reproduzir vídeos com qualidade de imagem superior à dos tradicionais DVDs. O problema é que o Blu-Ray custava caro demais, em geral o dobro de seu concorrente mais modesto, e os consumidores se incomodaram com isso. Para piorar, logo surgiriam os serviços de streaming, que o enterraram de vez. “A velocidade do desenvolvimento tecnológico tornou os fracassos mais comuns”, diz Fabio Kon, cientista da computação e professor do Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo.

Ou seja: uma inovação que hoje é considerada extraordinária será substituída amanhã por outra ainda melhor.

O patinete da Segway reuniu todos os requisitos para um produto naufragar. Vendido por 5.000 dólares (cerca de 26.500 reais), custava o equivalente a um carro usado e mais do que uma bicicleta convencional. Esbarrou também na falta de regulamentação: sua estrutura era robusta para as calçadas apertadas dos grandes centros urbanos, ocupando um espaço que deveria ser dos pedestres. O grande entrave, porém, foi a questão da segurança. Em 2003, o então presidente americano George W. Bush caiu enquanto testava o veículo e o corredor jamaicano Usain Bolt foi atropelado por um cinegrafista após vencer uma prova no Mundial de Pequim, em 2015. O caso mais grave ocorreu em 2010. Um ano depois de o empresário James Heselden comprar a Segway Corporation, ele despencou de um penhasco ao perder o controle de seu patinete e morreu. Tragédias como essa mostram que o veículo demorou tempo demais para ser retirado definitivamente do mercado.

A PSIQUE E AS PSICOLOGIAS

COMO A ORDEM DO NASCIMENTO NOS MOLDA?

Mais velho, do meio ou caçula? Isso pode determinar por que você e seus irmãos são tão diferentes.

A ordem do nascimento e sua influência sobre como levamos a vida é tema de fascínio há mais de um século para pesquisadores, psicólogos, terapeutas e todos os interessados na dinâmica familiar. “As pessoas usam a ordem do nascimento como um modo poderoso de entender a vida”, diz Frank Sulloway, professor-adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia, campus de Berkeley. Sulloway é um dos principais pesquisadores do assunto. Ele diz que os irmãos têm em comum apenas cerca de metade dos genes, o que nos deixa uma combinação de genes não idênticos e influências ambientais para explicar as diferenças de personalidade. “E a ordem do nascimento ainda está entre as maiores diferenças que fomos capazes de documentar”; destaca ele. Na verdade, a diferença na ordem do nascimento tem papel quase tão importante quanto a diferença de gênero.

Supomos que os irmãos nascem exatamente na mesma família, mas não é bem assim. Os primogênitos chegam a um ambiente de adultos e, tipicamente, recebem muita atenção de pais inexperientes, fascinados com cada marco e apavorados com cada contratempo. Os filhos do meio nunca terão os pais só para si e são ofuscados pelos irmãos mais velhos, que correm, escalam e falam antes deles; depois, espera-se que deem o exemplo para os mais novos. O caçula da família chega a uma casa movimentada, com pais menos tensos, e logo aprende a trocar encanto por atenção. Em consequência, os primogênitos são condicionados a realizar bem as coisas, os do meio, a negociar e os caçulas, a agradar.

Embora explique que a ordem do nascimento não causa diretamente certos traços, Marion Balla, terapeuta e educadora de Ottawa, no Canadá, acredita que “esse é um dos fatores mais determinantes do desenvolvimento da personalidade”. Ela é presidente do Grupo Adleriano de Orientação e Assessoramento, que recebe o nome de Alfred Adler, psicoterapeuta austríaco que, no início dos anos 1900, foi o primeiro a ligar a ordem do nascimento à personalidade. Balla diz: “Durante quarenta anos, venho usando a ordem do nascimento para ajudar as pessoas a entenderem o modo como se veem e como isso pode influenciar seus relacionamentos”.

Então, o que isso de fato significa?

MAIS VELHOS: GRANDES REALIZADORES

Pesquisas do mundo inteiro indicam que os primogênitos costumam ter mais em comum entre si do que com os próprios irmãos. Os filhos mais velhos logo aprendem a agradar os pais e se tornam conscienciosos, organizados, confiáveis e minipais dos irmãos mais novos. São grandes realizadores e escolhem profissões sólidas e estabelecidas, como direito, medicina, educação ou contabilidade, chegando a cargos de liderança.

Isso não surpreende o psicólogo Kevin Leman, de Tucson, do estado americano do Arizona, autor de uma série de livros como Mais velho, do meio ou caçula: A ordem do nascimento revela quem você é. “Os primogênitos sempre mandarão”, revela ele. Vários estudos mostraram que sua probabilidade de se tornarem presidentes executivos de empresas é duas ou três vezes maior do que a dos caçulas. E um estudo norueguês clássico de 2007 constatou que os primogênitos têm um Q.I. cerca de três pontos mais alto do que o irmão seguinte. Pode ser que os pais ofereçam mais estímulos mentais ao primeiro filho.

“O tempo disponível para ler para o primeiro filho, para lhe explicar coisas, é maior”, afirma Meri Wallace, terapeuta de crianças e famílias de Nova York e autora do livro Birth Order Blues (A melancolia da ordem de nascimento). Por exemplo, diz ela, o pai pode perguntar ao filho numa caminhada: “Por que você acha que o céu é azul?” Assim, os filhos mais velhos desenvolvem mais habilidade analítica e pensamento conceituai. Talvez por isso 21 dos primeiros 23 astronautas da NASA foram primogênitos. Albert Einstein e Winston Churchill eram primogênitos também.

No entanto, eles sentem mais pressão para fazer tudo bem-feito e podem se tornar perfeccionistas. E, por acreditar que só há um jeito certo de fazer as coisas, os primogênitos criticam os outros jeitos. Leman diz que quem nasce depois – os filhos do meio e os mais novos – tende a observar isso nas reuniões familiares. “Você pode ter criado quatro filhos, mas agora sua irmã mais velha vem lhe dizer como cozinhar”.

FILHOS DO MEIO: NÃO CONVENCIONAIS

Enquanto os primogênitos querem fazer tudo certo, os do meio preferem fazer diferente. O segundo filho observa com atenção a posição que o mais velho ocupa e depois cria um nicho distinto. Se o primeiro brilha em matemática, tênis e violino, o segundo pode buscar desenho, violão e skate. No mundo dos prêmios Nobel, os primogênitos são super-representados na ciência; os filhos do meio, na literatura. Em termos históricos, os filhos do meio é que foram responsáveis por mudanças sociais, que lutaram por igualdade, liberdade de expressão, liberdade de culto e abolição da escravatura, diz Sulloway. Madre Teresa, Darwin, Nelson Mandela e Gandhi foram todos filhos do meio.

A chegada de um terceiro filho cria o filho do meio, e é difícil classificá-lo; para ele, tudo bem, pois evita ativamente as classificações. Em geral, os filhos do meio se tornam pacificadores dos irmãos e são ótimos árbitros e negociadores. Um estudo mostrou que os filhos do meio têm melhor desempenho em situações grupais do que os filhos mais velhos ou os caçulas. “Eles tendem a se relacionar bem com os outros e acalmar situações”, explica Wallace. “Conseguem ver as coisas de vários ângulos.”

Os filhos do meio, seja o segundo de três, o segundo e o terceiro de quatro ou os cinco intermediários de sete, costumam aparecer em menos fotos nos álbuns da família. Por terem menos tempo de exclusividade com os pais, os filhos do meio formam apegos com os colegas e, em geral, desenvolvem extensas redes de amizade. Em- hora possam amar profundamente a família, têm mais chance de se mudar para longe, menos probabilidade de se preocupar com genealogia e são mais preparados para as vicissitudes da vida.

Os filhos do meio são os mais monógamos e têm os relacionamentos mais felizes, de acordo com uma pesquisa israelense sobre felicidade. Katrin Schumann, coautora de The Secret Power of Middle Children (O poder secreto dos filhos do meio), diz que eles têm a mente mais aberta e são mais aventurosos no sexo, e sua probabilidade de trair nos relacionamentos é menor do que a dos irmãos. Também têm menos probabilidade de fazer terapia e, de acordo com um estudo espanhol de 2013, menos probabilidade de receber diagnóstico de transtornos emocionais. Isso pode se dever ao companheirismo constante dos irmãos.

CAÇULAS: CAÇADORES DE ATENÇÃO

O menorzinho da família tende a receber menos castigos, menos responsabilidades e mais público. Embora raramente sua opinião seja consultada ou respeitada, os caçulas logo aprendem que ser engraçado e adorável é muito útil para conquistar atenção e aprovação. Não admira que muitos comediantes sejam caçulas: Jim Carrey, Tina Fey, Robin Williams, Steve Carell e Billy Crystal, para citar alguns.

Também são mais empreendedores; um estudo de 2016 feito no Reino Unido constatou que os caçulas de famílias não empreendedoras têm probabilidade muito maior de abrir empresas próprias do que os outros irmãos. Essa característica afeita aos riscos tem seus pontos negativos: o caçula é o mais vulnerável a hábitos viciantes, de acordo com a Dra. Sue Varma, psiquiatra de Nova York. É mais provável que comecem a fazer sexo e a fumar cigarros mais jovens do que os irmãos. Um estudo feito com adultos suecos mostrou que os que nascem por último têm mais probabilidade de morrer de câncer do aparelho respiratório do que os irmãos mais velhos. Os pesquisadores desconfiam que é porque começam a fumar mais cedo, o que pode promover um hábito de longo prazo.

Mas há boas notícias no campo da saúde: num estudo japonês apresentado em 2011, com mais de 13 mil crianças entre 7 e 15 anos, os irmãos mais novos tinham menos chance de apresentar febre e alergia alimentar do que os mais velhos. Uma explicação possível: os filhos mais velhos são superprotegidos de micróbios em comparação com os demais, expostos aos germes que os irmãos maiores trazem da escola. Além disso, quando os mais novos nascem, os pais talvez tenham relaxado a limpeza impecável da casa, o que pode estimular o sistema imunológico dos menores.

O EFEITO DA DIFERENÇA DE IDADE

Não se identificar com a descrição de sua ordem de nascimento não é raro, como explica Jennifer Campbell, psicóloga e pesquisadora do assunto na Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos: “Só 60% das pessoas se identificam com sua ordem cronológica de nascimento”. Há muitas variáveis que podem alterar o efeito da ordem, inclusive o gênero. Quando um menino nasce depois de uma ou mais meninas (ou uma menina depois de um ou mais meninos), essa criança pode ser criada como “primogênito funcional” – o primeiro filho ou filha da família. Se o espaço entre os irmãos for de cinco anos ou mais, o efeito da ordem de nascimento se reduz. Divórcio, incapacidade física ou morte de qualquer membro da família também altera o efeito.

As famílias menores de hoje provocam um excesso de primogênitos e filhos únicos e déficit de filhos do meio. “Com famílias menores, corremos o risco de ter mais crianças decididas e perfeccionistas’; adverte Leman.

E as crianças sem irmãos? O filho único recebe toda a atenção dos pais pelo resto da vida, o que tem prós e contras. “Você é o primeiro e o caçula, por isso tem uma mistura de experiências”, diz Wallace. Embora possa ser um grande realizador, também é infantilizado. Ao mesmo tempo, “os filhos únicos são como miniadultos, porque vivem num mundo de adultos”, explica Campbell. Mas não é preciso ter pena dos filhos únicos: um estudo do Reino Unido constatou que são mais felizes porque não têm de enfrentar a rivalidade entre irmãos. Ao contrário do pensamento popular, a análise mostra que os filhos únicos não são solitários. Os recursos que os pais podem lhes dedicar costumam levá-los ao sucesso.

Uma última nota: Leman alerta que, seja qual for a ordem de seu nascimento, provavelmente você acha que seus irmãos tiveram um quinhão melhor. Se for o caçula, acha que o irmão mais velho recebeu primeiro o que havia de melhor da família; se for primogênito, inveja o filho do meio que tem a liberdade de escolher um caminho independente; e todos reclamam que o caçula sempre se dá bem em tudo. Basta lembrar que a ordem do nascimento é só uma influência, não um destino.

MAIS VELHOS: PERSONALIDADE PROVAVEL

  • Sua filosofia é: “Vou fazer isso direito, e você também deveria.” Você é consciencioso, confiável, sério, voltado para metas, organizado e analítico. Evita a imprevisibilidade.
  • As pessoas o veem como líder, solucionador de problemas e defensor da tradição, mas podem se incomodar com sua visão crítica, falta de perdão e mania de mandar.
  • As carreiras prováveis são engenharia, direito, medicina, educação, enfermagem, contabilidade ou administração.
  • Nos relacionamentos românticos, você espera tanto dos outros quanto de si, o que pode provocar decepções. O casamento entre dois primogênitos pode provocar atrito, diz Leman, porque ambos se esforçam para ser o líder. A melhor combinação é com um caçula ou filho do meio.

FILHOS DO MEIO:  PERSONALIDADE PROVÁVEL

  • Sua filosofia é: “Vamos olhar isso de um jeito diferente. “Você é sociável, flexível, tem a mente aberta, o espírito livre, é inventivo, agradável e, às vezes, rebelde. As pessoas o veem como construtor de consensos, pacificador, defensor dos fracos e oprimidos e rebelde contra injustiças.]
  • Você evita confrontos e classificações, e as pessoas podem se incomodar com seu sigilo, indecisão e indisposição de revelar seus sentimentos.
  • Entre as carreiras prováveis estão mediação, diplomacia, serviço social, ensino e atividades autônomas.
  • Nos relacionamentos românticos, você é fiel. Às vezes, você cede ao parceiro em nome da cooperação e ignora seus próprios sentimentos. Num casamento entre dois filhos do meio, ambos podem evitar abordar problemas e se comunicar mal, diz Balla. A melhor combinação é com um primogênito ou caçula.

CAÇULAS: PERSONALIDADE PROVÁVEL

  • Sua filosofia é:” Parece divertido. Vamos lá!” Você é encantador, impetuoso, divertido, afetuoso, convincente, sentimental, inseguro e aventuroso. Tem fome de atenção e respeito e evita responsabilidades.
  • As pessoas podem vê-lo como a alma da festa, amante de riscos e inovador, mas podem se incomodar com suas outras características: você pode ser desatento, autocentrado ou manipulador.
  • Entre as carreiras prováveis estão teatro, comédia, música, artes plásticas, esportes, vendas e marketing.
  • Nos relacionamentos românticos, você é adorável, mas tende a querer muita atenção. É impaciente com coisas como pagar contas ou marcar consultas e talvez deixe essas responsabilidades para o cônjuge. O casamento entre dois caçulas pode se concentrar na diversão à custa da responsabilidade. A melhor combinação é com um primogênito ou filho único. Leman diz que os caçulas precisam dos primogênitos para endireitá-los, e os primogênitos precisam dos caçulas para ficarem mais leves.